Recebi esta carta que, naturalmente, merece ser publicada e comentada.

"Caro João Branco:

Durante o Congresso dos Quadros Caboverdianos que teve lugar em São Vicente em 1998 no Éden-Park, fiz uma pequena intervenção sobre a importância do Éden-Park na formação e na consciencialização do homem caboverdiano. Depois tive um encontro com o Professor Francisco Lopes da Silva e a Dona Maria Luiza Marques da Silva em que se fez um inventario sobre o cinema e a sua gestão em Cabo Verde. Ela lutava sozinha, apoiada por antigos empregados e amigos, para a sobrevivência daquilo que foi a obra cultural e social mais importante da família Marques da Silva em São Vicente. Queixava-se da falta de apoios, tanto do Municipio como do Ministério da Cultura. Convidou-me a assistir a um grande filme, mas a sala estava meia vazia e sem o ambiente de outrora. Logo à entrada faltava aquele ambiente festivo, a distribuição do programa dos filmes seguintes, a simpatia do Lulu, do Djosa e do Tony Marques, com sorrisos e abraços, as discussões sobre os filmes anunciados entre amigos, as criticas , etc. Nunca esquecerei o filme Cochise onde pela primeira vez o indio tinha razão no cinema americano.

Nos anos cinquenta/sessenta, o cinema fazia parte da vida quotidiana do Mindelo: discutia-se na rua de Lisboa e na Praça Estrela como na Praça Nova (onde se punham os cartazes) quem era o maior actor, o melhor filme, a actriz mais bela, qual era o melhor cinema, o do Tuta (Park Mira-Mar) ou o Éden-Park. Havia boa publicidade (distribuição de folhetos), tanto o Rádio Club como a Rádio Barlavento fazia anúncios e programas de cinema, etc. Era através do cinema que se furava a censura colonial e se aprendia a dignidade e a sonhar com as liberdades.

Com a Independência esperava-se uma política cultural do cinema: quando muito ter-se-ia realizado ao menos dois filmes sobre a luta de libertaçao na Guiné-Bissau. Tivemos, ao contrario que afirmava Amilcar Cabral de que “a luta de libertação é um acto cultural”, ministros políticos a dirigir a cultura, nomeados por filiação política e não por provas dadas na vida cultural de Cabo Verde. E as consequências foram graves tanto em Cabo Verde como na emigração que bem merece também uma política cultural. Creio que o Arménio Vieira, conhecido cinéfilo na sua juventude, chegou a ter uma página de cinema no Vozdipovo, que infelizmente não durou muito tempo. Foi a única iniciativa de criar escola e fazer pensar o cinema na nossa sociedade do pós-independência.

A responsabilidade do encerramento do cinema não se situa ao nível da nossa população. Foram os politicos que mataram o cinema em Cabo Verde. A ausência duma verdadeira politica cultural teve na péssima e horrível televisão que possuímos o encargo de executar com folhetins brasileiros o cinema em Cabo Verde. Nem a crise económica afastaria o caboverdiano do seu cinema. Como pode uma televisão do Estado, paga pelos contribuintes, passar o tempo a transmitir folhetins brasileiros e portugueses e todos os jogos de futebol, embrutecendo as pessoas e em especial as crianças, que não conhecem o próprio país e a sua história?

Um país de desenvolvimento médio deve ter também uma política cultural que corresponda à sua economia. Perdemos cinco anos a bater na tecla do crioulo que, aliás, mais nos dividiu quando precisamos de unidade. Para se manter os cinemas Éden-Park e Park Miramar seria necessário uma política cultural de cinema, integrando-a no currículo escolar, dos liceus às universidades e transformando as rádios e a televisão num utensílio cultural de formação do homem e da mulher caboverdianos.

A crise do cinema esconde a verdadeira crise cultural que Cabo Verde atravessa. No dia em que tivermos um projecto cultural coerente para Cabo Verde e sua diáspora, estamos convencidos de que haverá muitas salas de cinema em Cabo Verde. O exemplo não vem da Europa, mas sim de um pequeno país chamado Burkina Faso, economicamente sub-desenvolvido mas muito mais desenvolvido do que Cabo Verde no plano cultural, que hoje possui uma boa equipa de cineastas e um festival de cinema muito concorrido. Este pais seria o modelo para o nosso país e os nossos municipios em matéria de cinema.

O povo mindelense está de luto do seu cinema morto pela falta de cuidados de quem devia ter-lhe dado o tratamento devido: o Ministério da Cultura.

Luiz Silva - Paris 2/2/2010"




O filme é bom, mas o cartaz é ainda melhor.






Até que ponto a nossa vida depende da sorte?


À melhor resposta, ofereço um café








O Espírito do Vinho

"Néctar dos deuses, consolação dos mortais, o vinho é uma maravilhosa bebida que tem o poder de afastar as preocupações e dar-nos, ainda que seja apenas por uns instantes, a visão do Paraíso. Não se pode negar o poder afrodisíaco do vinho: em quantidade moderada dilata os vasos sanguíneos, levando mais sangue aos órgãos genitais e prolongando a erecção, desinibe, relaxa e alegra, três requisitos fundamentais para uma boa execução, não só na cama, como também no piano."

Isabel Allende in Afrodite






Tchalé, não te preocupes demasiado com os "fazedores de opinião" - incluindo eu próprio, para o caso de estar incluído no pacote - porque não vale a pena. Dá valor ao que merece ser valorizado. O peso e a importância dos opinion makers, aqui ou em qualquer outro lugar, é directamente proporcional ao tempo que perdemos a lê-los ou a comentá-los. Sempre foi assim, sempre assim será.

Abraço Cafeano






Mais uma exposição na I. Gallery, o espaço que a livraria Nho Eugênio decidiu, em boa hora, criar, para gaúdio de todos quantos apreciam convívios marcados pelo bom gosto, conversa e companhia. Desta vez, cabe a Abraão Vicente apresentar-se com uma exposição de pintura intitulada “A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes” que, segundo o próprio "mais não é que um exercício de leitura de algumas obras de Pieter Bruegel, pintor flamengo que viveu entre 1525 e 1569."

As obras apresentadas por Abraão Vicente nesta colecção de oito quadros, são justaposições, novas composições, rearranjos de temas, figuras e imagens pertencentes não só a obras bem especificas de pintor flamengo, mas também ao imaginário da época. Ao extremo exercício de composição, tradução, volume, contemporização de Bruegel, Abraão Vicente contrapõe traços livres e rápidos, figuras propositadamente descontextualizadas e um guião que bem poderia ser a de hoje, nas ilhas. Das ilhas. Sendo por isso “A Idade de Bruegel” um tempo simultaneamente longínquo e recente. Diria, que se repete no hoje. Algures.

A abertura desta exposição acontece na próxima quinta-feira, dia 4 de fevereiro. Não percam e aproveitem o excelente ambiente, o bom vinho e a boa companhia. Tud isto rodeado de livros. O que se pode pedir mais?






Esta já é mais ou menos conhecida, mas agora que me foi enviada por mail, voltei a achar piada e aqui fica, para quem não conhece.

Upgrade de um Namorado 5.0 para Marido 1.0

Caro Apoio Técnico,

No ano passado fiz um upgrade do NAMORADO 5.0 para o MARIDO 1.0 , (ou seja: casei!!!) e notei uma redução significativa de performance, principalmente nas aplicações FLORES e JÓIAS, que operavam sem falhas no NAMORADO 5.0 .

Além disso, o MARIDO 1.0 desinstalou outros programas importantes como ROMANCE 9.5 e ATENÇÃO AO QUE EU DIGO 6.5 e instalou aplicações indesejáveis como JOGO DE FUTEBOL 5.0.

Também não tenho conseguido rodar o programa CONVERSAÇÃO 8.0 e o AJUDAR EM CASA 2.5: o sistema simplesmente bloqueia. Tentei fazer correr o RECLAMAÇÕES 5.3 para corrigir esses problemas mas não consegui nada. O que faço?

Ass.: Utilizadora desesperada.

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Cara Utilizadora desesperada,

Primeiro, tenha em mente que o NAMORADO 5.0 é um pacote gratuito e de entretenimento, enquanto MARIDO 1.0 é um sistema operativo.

Comece por fazer o download de LÁGRIMAS 6.2 e depois digite o comando C:/EU PENSEI QUE ME AMAVAS para instalar o SENTIMENTO DE CULPA 3.0. Essa operação actualiza automaticamente as aplicações FLORES 3.5 e JÓIAS 2.0.

Mas lembre-se que o uso em excesso dessas aplicações no MARIDO 1.0 pode activar alguns programas indesejáveis como SILÊNCIO TOTAL 6.1 , IR VER O FUTEBOL COM OS AMIGOS 7.0, que invariavelmente instala o CERVEJA 6.1.

Este último é terrível, pois cria arquivos do tipo WAV da versão RESSONANDO ALTO 2.5.

De qualquer forma, não instale SOGRA 1.0 ou reinstale qualquer versão de NAMORADO. Estas aplicações são incompatíveis e vão bloquear o MARIDO 1.0.

Em resumo, MARIDO 1.0 é um óptimo sistema, mas ele tem limitações de memória e demora a correr certas aplicações. Para o perfeito funcionamento do sistema, sugerimos que a senhora adquira alguns programas adicionais.

Recomendamos:

JANTAR ROMÂNTICO3.0, LINGERIE 6.9 e KAMASUTRA 3.1

Muito cuidado: Algumas clientes instalam o FILHO 1.0 para tentar dar estabilidade ao sistema e muitas vezes isso causa alguns efeitos contrários, sendo necessário, antes, uma verificação total no sistema para garantir espaço no disco e, principalmente, ter um SWAP adequado no MONEY 3.0.

Boa Sorte.
Atenciosamente.
Apoio Técnico


(Pequeno) Comentário final: tivesse a mulher casado com um Apple, e nada disto aconteceria...





Nunca é demais repetir: a luta pelo Éden-Park pode até estar relacionada com o facto de não termos neste momento um único cinema em S. Vicente, mas não só, nem me parece que este seja o aspecto mais importante. Até porque, todos estamos lembrandos, e seria preciso sermos muito hipócritas para enterrarmos a cabeça na areia e dizermos "não é nada comigo, não é nada comigo!", que uma das razões pela qual o edifício deixou de funcionar como cinema foi porque os mindelenses pura e simplesmente deixaram de ir ao cinema. Culpem-se os clubes de vídeo (quase sempre piratas e ilegais), culpem-se as antenas parabólicas (quase sempre piratas e ilegais), culpem-se as outras formas de entretenimento, mas a verdade é que os últimos filmes que passaram na mítica sala de cinema do Mindelo eram actuais e tinham uma qualidade que não desculpa o abandono a que foi votada pela maioria dos cidadãos da cidade.

Vem isto a propósito de um comentário que recebi da Praia sobre este assunto. Escreve Denis Rodrigues que "enquanto os mindelenses, estão com esta luta pela salvaguarda do nosso Eden Park, no sábado aconteceu algo que me deixou triste e até então a matutar. Como fanático do Cinema fui ao Cinema da Praia no Plateau, ver o filme Lua Nova da saga Twilight e com medo de não encontrar bilhete fui bem cedo . Para o meu espanto quando o filme começou vejo cerca de 20 pessoas na sala que tem lotação para mais de 100. E volto-me para minha companheira e digo Cinema é Cultura e para este povo aqui está uma amostra de até quanto valorizam esta cultura. E veio a minha afirmação de que se calhar é por isso que quem de direito se está a marinbar para o Eden Park! Posso estar errado. Mas digo que desde que vou aquele cinema da Praia nunca vi mais de 20 pessoas na sala! E os filmes são bem recentes."

A luta pela salvaguarda do Éden Park é para a manutenção da valência e do espírito do edifício, sendo que desde sempre defendi a sua aquisição pelo Estado e a sua profunda transformação e remodelação num Teatro Municipal com variadas valências (incluindo uma pequena sala de cinema) ou um centro cultural (se lhe quiserem chamar palácio, por mim, tudo bem!). A questão do cinema é lateral. Claro que é uma vergonha não haver nenhum cinema numa cidade como esta. Mas quem são os principais culpados? Os mindelenses. Não é o Governo, nem a Câmara Municipal, nem a família Marques, nem o magnata que tenha eventualmente comprado aquele espaço e queira ali fazer um hotel de 25 andares. Os culpados são os mindelenses que abandonaram os filmes porque encontraram alternativas mais baratas, quase sempre ilegais, mas que muito pouco tem a ver com aquilo que é a magia de se estar sentado no escuro de uma sala de cinema, magia essa que nesta cidade era ainda maior nos primeiros minutos por causa do som das mancarras a serem furiosamente descascadas por homens, mulheres e crianças ansiosos e deslumbrados.




Dirceu Veiga pode ter este apelido, mas criatividade não lhe falta. Ainda por cima toca, e em simultâneo, em dois pontos particularmente sensíveis a este estabelecimento: a arte e o café. Este artista plástico brasileiro de Curitiba avança e põe em prática o conceito de Coffee Art, fazendo todos os seus trabalhos utilizando como única matéria prima o próprio café. Isso mesmo: em vez de tinta, o café é que dá cor e corpo ao talento do artista. Aqui ficam algumas imagens.











O sítio oficial, com muitas informações, biografia e eventos ligados ao Coffee Art, pode ser encontrado aqui.






        Diálogo

        - Então?
        - Cá estamos...
        - E como estão as coisas por aí?

        (pequena pausa)

        - Vamos andando, eu e o meu alter ego.







      Provisoriamente não cantaremos o amor,
      que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
      Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
      não cantaremos o ódio porque esse não existe,
      existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
      o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
      o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
      cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
      cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
      depois morreremos de medo
      e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

      Carlos Drummond de Andrade






Grande destaque no Diário I, uma reportagem surpreendente. "Quatro magnatas da música descobriram Ilo Ferreira num bar do Mindelo. Querem fazer dele uma estrela nos EUA", reza o jornal luso. A figura em causa chama-se Ilo Ferreira, é filho do conhecido Vlú, e já está nos States a ganhar visibilidade artística. O título maior da notícia: "O milagre de S. Vicente. De Cabo Verde para a NBC ."

Afinal, ainda há milagres acontecendo na ilha do Porto Grande. Leiam tudo e mais alguma coisa, aqui.