Mudjer sém Homi
          é sima barku sem lemi
          Mudjer sém homi
          é sima vela sem lumi
          Homi sem mudjer
          é sima peskador sem luar
          Homi sem Mudjer
          é sima um katraio sem lar
          Mudjer é sopru divino
          Mudjer é vã di poizia
          Mudjer é vida labado
          Mudjer é purifikaçom
          Mudjer é existéncia di nha kuraçom
          Mudjer é amiga
          Mudjer é kumpanhera
          Mudjer é vizinha
          Mudjer é Mámá
          mudjer é irmã
          mudjer é Tía
          Mudjer é justiça
          mudjer é vida
          Mudjer é alma talhada
          Mudjer é beléza
          Mudjer é nós morabeza

          Manu Moreno


[Tradução: mulher sem homem é como barco sem leme; mulher sem homem é como vela sem lume; homem sem mulher é como pescador sem luar; homem sem mulher é como criança sem lar; mulher é sopro divino; mulher é pedaço de poesia; mulher é vida lavada; mulher é purificação; mulher é existência do meu coração; mulher é amiga; mulher é companheira; mulher é vizinha; mulher é mãe; mulher é irmã; mulher é tia; mulher é justiça; mulher é vida; mulher é alma talhada; mulher é beleza; mulher é a nossa morabeza.]

Fotografia: Cassandra Ventura




Num artigo da jornalista americana Sue Pleming, da agência Reuters, intitulado "Why is Clinton going to Africa, what are the issues", chegados à parte do porquê da passagem da Secretária de Estado dos Estados Unidos da América Hillary Clinton pelas ilhas, pode-se ler: "Cabo Verde é um popular posto de reabastecimento. Um grupo de ilhas ao largo da costa do Senegal, os Estados Unidos vêm Cabo Verde como uma história de sucesso africano." (Fonte: aqui; Via: aqui)

Fiquei um pouco preocupado e um pouco descansado. Sentimentos paradoxais, portanto. Preocupado, porque comparar um país a um posto de gasolina ou algo do género, onde um indivíduo vai apenas atestar o depósito, verificar o ar dos pneus ou limpar os vidros dos carros, não me parece que seja lá muito abonatório. Mais a mais sendo nós um país em que "a cultura é a alma do povo", como diz, entusiasmado, o nosso Ministro da Cultura. Pode ser que não seja exactamente esse o sentido das palavras da senhora jornalista mas falar em "posto de reabastecimento" ou referir a tal plataforma espectacular e global de prestação de serviços financeiros, tecnológicos e de entretenimento, sonhada a espaços pelo nosso Primeiro, não me parece que seja bem a mesma coisa.

Mas ela que venha conhecer, que certamente mudará de ideias. Nada como uma operação de charme à cabo-verdiana para fazer mudar de ideias alguém que fala sem conhecimento de causa. Falo à vontade porque fazemos isso no Festival Mindelact recorrentemente e garanto-vos, dá sempre certo, porque todos os nossos visitantes vão para o aeroporto para regressar para os seus respectivos países chorando baba e ranho, não querendo sair de Cabo Verde e prometendo voltar o mais rapidamente possível, completamente apaixonados pelo lugar e pelas pessoas (ou por alguma pessoa em particular, o que acontece muitas vezes).

Por outro lado, e por aqui fico mais descansado, a senhora Clinton e os seus assessores poderão verificar também que por muito que os jornais, de tempos em tempos, se saiam com esta possibilidade remota de haver petróleo em Cabo Verde, em relação a isso penso podemos ficar descansados, que não há-de ser pela sua sede imensa de controlar tudo quanto é petróleo no planeta Terra, que os Estados Unidos verão o país como "uma história de sucesso africano."

E o actual Governo não tem do que se queixar, caramba. Em apenas um ano, e logo num ano de crise global, quiçá a pior desde a Grande Depressão dos anos 20 do século passado, Cabo Verde vem somando retumbantes vitórias, sempre referenciadas como justificativas mais do que absolutas para a nossa enorme alta estima, como foram o Património da Humanidade para a Cidade Velha, o Prémio Camões para Arménio Vieira e agora esta: a maior potência económica mundial - e também a mais endividada - considera-nos uma história de sucesso. Não se pode pedir mais.




          Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
          nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
          são eternos como é a natureza.

          Pablo Neruda


          Pintura: "The Lovers" de Magritte




Via: aqui




1,7 milhões de euros
é quanto Jean-Pierre Bemba tinha depositados num banco em Cabo Verde


Comentário Cafeano: este indivíduo é líder do Movimento para a Libertação do Congo (MLC) e encontra-se detido pelo Tribunal Penal Internacional, acusado de ter cometido crimes contra a humanidade e cinco crimes de guerra. Podia estar aqui e agora a lamentar, de forma sincera e preocupada, o caminho que pode estar a transformar o nosso arquipélago num paraíso fiscal para criminosos e bandidos desta estirpe. No entanto, e neste caso particular, tenho uma opinião porventura diferente da maioria: fico muito satisfeito que se tenha detectado esta pequena fortuna, ou seja, que ao dinheiro depositado em instituições financeiras cabo-verdianas não se lhe perca o rasto. A lei, recentemente aprovada, sobre o branqueamento de capitais irá certamente ajudar a combater este tipo de ilícito.

(Ver notícia aqui)




A ciência política

Um jovem rei exercia o poder com o mais total rigor. Detinha as rédeas da justiça, ordenava as detenções e velava pela execução rápida e impiedosa das sentenças. A situação, porém, não se resolvia. O rei sentia a sua autoridade cada vez mais enfraquecida.

Um dia mandou chamar o seu primeiro ministro e disse-lhe:

- Mandei executar um grande número de pessoas e no entanto ninguém me tema. Como explicas isso?

- É simples - diz o ministro - Tens que aprender o segredo da autoridade. Todos os que mandaste executar eram criminosos, culpados. Portanto, os outros não têm razão alguma para te temerem. Se queres ser realmente temido tens que mandar executar também inocentes.

O rei concordou com um gesto. Tinha compreendido. Dois dias mais tarde mandou executar o primeiro ministro.

Jean-Claude Carrière in "Tertúlia dos Mentirosos"






Ao cliente que assina RB Anónimo por obrigação e ao Manu Moreno, os dois que quase sempre comentam os artigos do Café utilizando poesia - a sua própria ou a dos outros - dedico esta imagem, dizendo ao primeiro que a proibição de comentários anónimos não se aplica a ele (até porque eu sei quem é e é pessoa que prezo) e ao segundo que me fazem falta os seus finasons frequentes. Não virem as costas a este café! Abraço aos dois.




"A capacidade de certos políticos, com ambições próprias e legítimas, de dar tiros no próprio pé, roça o quase heróico."

A propósito disto.




O número 100 de qualquer coisa é quase sempre comemorado. Os 100 dias de uma Governação servem para um balanço inicial da nova legislatura; os centenários de nascimentos de grandes figuras ligadas à História, Arte ou Ciência são mote para conferências e fóruns de reflexão e sentidas viagens ao passado; aos clubes de futebol exige-se que o ano de centenário seja ano de títulos, homenagens e publicações que reflictam todos os brilhantes feitos conseguidos até à data; quando algum cabo-verdiano consegue atingir essa bela meta dos cem anos, logo tem a TCV à perna para a notícia da praxe, no meio de bisnetos, netos e filhos que nunca mais acabam; se os 25 anos são as bodas de prata, os 50 as bodas de ouro e os 75 as bodas de platina, imagine-se um casamento que chegue aos 100 anos!, não há pedra preciosa que o possa classificar; eu mesmo comemorei aqui no Café Margoso a centésima Declaração Cafeana com um texto chato e pretensioso! Enfim, não vou dar 100 exemplos mas é certo que estes são mais do que muitos.

Ora, o semanário A Nação publica hoje o seu centésimo número, o que não deixa de ser notável numa realidade como a cabo-verdiana onde praticamente ninguém lê coisa nenhuma a não ser, em casos de extrema necessidade, a lista telefónica e oxalá. E como está na moda dizer que os jornais são todos uns vendidos aos respectivos interesses partidários, vou defender este jornal que hoje dá, com o devido respeito e lamentando desde já esta metáfora de pouquíssima classe literária, o seu centésimo bufo. Isto no mesmo sentido a que se dá à frase crioula "jal dá un buf ke tita txerê", ou seja, para classificar alguma acção válida, está bem de se ver! Quero dizer que falo pela positiva. Até porque, confesso, e escrevi-o na crónica que hoje sai com o jornal, no início A Nação não me atraia lá grande coisa, achava a publicação uma grande confusão gráfica, temática e jornalística, que não merecia os cem escudos que pediam por ele.

Hoje, e sem querer dar lições de jornalismo a ninguém, porque como simples e ávido consumidor de jornais falo, não me parecem muito justas as criticas severas que por vezes leio em relação ao trabalho deste semanário. Tem melhorado a olhos vistos, principalmente em relação aos primeiros meses de vida e tem hoje quase sempre matérias interessantes e bem trabalhadas, tendo sido o primeiro, e até agora único, a dedicar uma página semanal à blogosfera cabo-verdiana. Além de que se nota um esforço para melhorar o aspecto gráfico, as manchetes e a arrumação dos temas. E – esta a parte que me interessa particularmente – tem melhorado nas páginas que dedica à cultura. Parabéns, pois, ao jornal A Nação. Que continuem a melhorar, é o meu maior desejo para o bem de todos nós.

P.S. Ao ver a primeira página do centésimo número, não deixei de achar uma certa piada à citação de primeira página do Primeiro-Ministro José Maria Neves que diz, vejam na imagem, "A Nação vai bem". Supus logo que se referia ao jornal, que comemora tão importante momento. Mas não. Afinal, a Nação que vai bem é a outra. Pois, pois.






Que legenda para esta imagem?



À melhor legenda ofereço um café





E se, derrepente, não houvesse mais fronteiras?


À melhor resposta, ofereço um café





O que se passou ontem já não deve espantar ninguém no seu perfeito juizo. Agora, o título desta notícia não deixa de ser uma forma original de retratar esta mais do que absoluta normalidade, embora me pergunte o que raio tem a polpa a ver com as calças...