Eis a razão, segundo António Lobo Antunes, porque as mulheres passarão por esta pandemia viral global na maior descontra, ao contrário dos homens (com agá pequeno), esses hipocondríacos mimados!


Sátira aos homens quando estão com gripe

          Pachos na testa, terço na mão,
          Uma botija, chá de limão,

          Zaragatoas, vinho com mel,
          Três aspirinas, creme na pele
          Grito de medo, chamo a mulher.
          Ai Lurdes que vou morrer.

          Mede-me a febre, olha-me a goela,
          Cala os miúdos, fecha a janela,
          Não quero canja, nem a salada,
          Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

          Se tu sonhasses como me sinto,
          Já vejo a morte nunca te minto,
          Já vejo o inferno, chamas, diabos,
          anjos estranhos, cornos e rabos,
          Vejo demónios nas suas danças
          Tigres sem listras, bodes sem tranças
          Choros de coruja, risos de grilo
          Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
          Não é o pingo de uma torneira,
          Põe-me a Santinha à cabeceira,
          Compõe-me a colcha, Fala ao prior,
          Pousa o Jesus no cobertor.

          Chama o Doutor, passa a chamada,
          Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
          Faz-me tisana e pão de ló,
          Não te levantes que fico só,
          Aqui sózinho a apodrecer,
          Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.





"O neurótico constrói um castelo no ar.
O psicótico mora nele.
O psiquiatra cobra o aluguer."

Jerome Lawrence Schwartz - dramaturgo norte-americano

Via: aqui





Está o país pachorrento, meio adormecido, preparando-se para o tédio absoluto do debate do Estado da Nação - um acontecimento que já sabemos como começa, como se desenrolará e como vai terminar -, neste calor pesado que nos faz suspirar por um banho de mar a toda a hora, e eis que somos surpreendidos por duas notícias espectaculares que não só vão abanar toda a estrutura mole do Verão, do horário único, do faz que não faz, do amanhã logo se vê, deste dolce fare niente, como vão despertar o país desta letargia em que parece cair cada vez que chega o Solstício de Verão.

Primeiro, é o partido socialista português a anunciar, sem muito pompa nem circunstância, que uma das suas bandeiras políticas para as eleições legislativas de Outubro é a proposta de criação efectiva do estatuto de cidadão lusófono. Dito por outras palavras, está a ser proposta a livre circulação de cidadãos provenientes dos e entre os países de língua oficial portuguesa (um acordo que já existe, curiosamente, entre Portugal e Brasil). Dizem as más línguas que isto acontece só agora por causa das filas de portugueses à porta da Embaixada de Angola em Lisboa a concorrer por um visto de entrada na nova meca africana, imagem que é preciso a todo custo evitar, afinal a ordem estabelecida não pode ser quebrada assim do pé para a mão.

Certo é que com esta medida, com a qual concordo em absoluto, milhares de cabo-verdianos poderão evitar a chatice, o transtorno e por vezes a humilhação que implica muitas vezes ter que solicitar um visto para entrar em território luso, processo onde a vida de cada qual é esmiuçada ao mais intimo pormenor em troca de uma autorização controlada a cada passo, e mesmo assim, sem se conseguir evitar que nas fronteiras propriamente ditas, e apesar de devidamente documentados, os cidadãos crioulos sejam quase sempre tratados pelos zelosos funcionários do SEF como potenciais emigrantes ilegais, para não dizer bandidos ou mesmo terroristas.

E por falar em terroristas, agora é que eles vão passar a saber da existência deste pequeno país, a poucas léguas da costa ocidental africana e que não só tem um povo bonito que adora festas e música, como tem um território com altas vantagens geoestratégicas, o que pode vir a ser um grave problema para a segurança nacional. É que a anunciada visita de Hilary Clinton a Cabo Verde não poderia acontecer em pior altura, pois vai apontar todas as baterias mediáticas para a nossa forma vagarosa e pacífica de estar - principalmente no Verão - e ainda se lembram de fazer bases aqui (uns e outros), porque a partir desta altura, já deixamos de fazer parte dos locais onde a probabilidade de acontecer um atentado terrorista estaria muito próxima do zero absoluto. Hilary, no ta kurtib, ma fka na kaza, please!

(Era mais fixe se fosse o Obama!)









Merce Cunningham
coreógrafo
(1919 - 2009)






Até hoje, muito gente se pergunta: quem é Bansky? Uns sugerem que é um artista misterioso, outros defendem ser um colectivo que se dedica à street-art. Depois de pesquisas, buscas, estudos e afins ainda não se conseguiu a identidade dele, mas claramente o resultado é mais importante que o artista que o gerou, pois todo este trabalho deu uma das mais surpreendentes e criativas obras da modernidade, uma mistura de mistério, protesto, grafite e manifesto.

Conhecer o trabalho de Banksy é fazer uma viagem de aversão e desafio ao poder e à sociedade, uma viagem apaixonante ao chamado universo de Banksy, que hoje, mais do que identificar um autor, identifica um modo de expressão, onde a poética e a ironia são marca registrada.

O que é certo também é que, hoje, a criatividade e o traço de Bansky são inconfundíveis, assim como os locais improváveis que escolhe e a sua maneira de desafiar tudo e todos. Desta vez algures no Mali, alguém identificou diversos graffitis que parecem corresponder ao estilo a que já nos habituou. Para quem se habituou a conhecer estes trabalhos na cosmopolita Londres, ver esta arte neste cenário é algo de absolutamente mágico.

Fantástico.












Eis uma excelente forma de combater o desemprego! Tornar as tarefas mais pesadas um pouco mais leves, com uma distribuição equitativa dos esforços laborais.






Um homem só, numa sala fechada com paredes metálicas à prova de som. Uma mesa e uma cadeira. O homem está sentado na cadeira. À sua frente, na mesa, uma folha de papel, uma caneta. Silêncio. O som de uma chave. A única porta existente abre-se. Entra um segundo homem.

- Então, já está?
- Já está o quê?
- O texto que tens que escrever, onde está? Essa folha continua em branco.
- Pois...
- Pois, uma porra! Tens que escrever!
- Mas...
- Nem mas nem meio mas. É um processo muito simples. Pegas nessa caneta e nessa folha e escreves.
- Mas escrevo o quê?
- Ainda não entendeste?
- Não.
- Escreves qualquer coisa.
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa.
- Qualquer coisa, como?
- Porra! Qualquer coisa, homem. Um romance, um poema, uma crónica, um blogue, uma crítica, um desaforo, qualquer coisa.
- Mas...
- Olha, estou a perder a paciência. Não tenho mais nada a sugerir-te a não ser isto: - [coloca uma pistola sobre a mesa] - se daqui a 15 minutos continuares sem produzir nada, dá um tiro nos cornos. Vai ser melhor para ti.
- Um tiro...
- Sim, um tiro. Bem no meio da testa. Não te preocupes com a sujeira. Depois limpamos tudo. Já estamos mais do que habituados, limpar a merda que os outros fazem. [Dirigindo-se para a porta]. Então já sabes...
- Estou sem nenhuma ideia. Vazio. Completamente vazio.
- [Por enquanto que sai] Olha, queres uma sugestão? Escreve sobre o estado da Nação. Está por este dias a ser discutido na Assembleia Nacional. Dará, certamente, uma excelente crónica.

O homem sai e fecha a porta. Ouve-se a chave que roda. Silêncio. Naquela sala fechada, de paredes metálicas à prova de som, apenas uma mesa e uma cadeira. Na mesa, um papel, uma caneta e uma pistola carregada.

- Escrever sobre o estado da Nação...

Pega na pistola e dá um tiro bem no meio da testa. Silêncio.




          Às vezes, pequenos grandes terremotos
          ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

          Fora, não se dão conta os desatentos.

          Entre a aorta e a omoplata rolam
          alquebrados sentimentos.

          Entre as vértebras e as costelas
          há vários esmagamentos.

          Os mais íntimos
          já me viram remexendo escombros.
          Em mim há algo imóvel e soterrado
          em permanente assombro.

          Affonso Romano de Sant'Anna in "Lado Esquerdo do Meu Peito"


Imagem: a actriz Darren Keith












Nova secção do Café Margoso, com a publicação semanal, sempre aos Domingos, de um mural relacionado com algum filme, vídeo, livro, poema, fotógrafo ou o que mais for aparecendo e se enquadrar neste formato. Para iniciar, um dos melhores vídeos dos últimos tempos na música de Cabo Verde, com Dodu de Mário Lúcio Sousa. Um vídeo que além de estar muito bem realizado e no espírito da música que ilustra, é original, criativo, bem-humorado e visualmente, uma delicia. Para ver e rever, aqui.




Hoje, Sábado, vou entregar os certificados aos alunos que conseguiram chegar ao final de mais um Curso de Iniciação Teatral. O décimo terceiro curso deste género promovido aqui no Mindelo, sob a tutela do Centro Cultural Português - Instituto Camões.

Não vale a pena estar sempre a bater na mesma tecla e referir, de novo, o quanto estes cursos, aparentemente informais, alteraram a face do teatro que se faz nesta ilha e, porque não dizê-lo, no país. Bem podem aqueles que não conhecem este árduo trabalho por dentro, minimizar ou assobiar para o lado, como se nada estivesse acontecendo; ou bem podem outros, apesar de terem vivenciado esta experiência, assobiar para um outro lado, como se não tivesse sido esta uma aventura teatral nuclear, básica porque foi a que substanciou o parto teatral. É certo, no entanto, que a grande maioria das centenas de pessoas que já passaram por estes cursos (e muitas continuam fazendo e/ou vendo teatro) não escondem o orgulho que foi, que é, participar neste movimento artístico, na consolidação desta escola de artes cénicas do Mindelo.

Todos os anos, por esta altura, me pergunto: o que vou dizer a estas pessoas? Como vai ser o nosso relacionamento no futuro? Ninguém saberá dizer, o futuro a Deus pertence, afirma a sabedoria popular. Costumo falar de improviso nestas ocasiões, mas esta é uma reflexão recorrente. O que dizer quando se vê cortado o cordão umbilical?

Fundamentalmente, vou dar dois conselhos: em primeiro lugar, que não tenham pressa. O teatro é a arte da tranquilidade, do tempo aproveitado e vivido, da valorização do instante. Que não tenham pressa na montagem das suas peças, que as preparem bem. Que trabalhem muito. Que não tenham pressa, porque esta é a maior inimiga do aperfeiçoamento individual e colectivo. Que não tenham pressa em querer ser melhores que os outros, nem pressa em criticar tudo o que não esteja ao seu gosto pessoal. Em segundo lugar, que sejam generosos. Com os outros e consigo mesmos. Não se faz teatro sem partilha, sem colectivo, sem paixão. Que entrem numa sala de ensaio prontos para dar e receber, assim como numa plateia, quando confrontados com o trabalho do outro, quem sabe algum colega de curso, agora numa outra companhia. Que sejam generosos na crítica e no elogio, no silêncio e no aplauso, na verdade e no crescimento. Finalmente, e juntando os dois conselhos, que sejam generosos com o tempo, o seu e o dos outros. Vivendo bem, trabalhando melhor e construindo, com todos, o edifício teatral que acabou de os receber.


Imagem: da companhia Antro Exposto, do meu amigo Ruy Filho, de S. Paulo



Andaram a perseguir-me durante todo o ano.

Um belo conjunto de imagens criadas pelo designer gráfico Derya Öztürk, a partir da figura do coração humano.









Podem ver este e outros trabalhos, na galeria do artista, aqui.







"O adultério é o mercado negro do orgasmo."
Millor Fernandes - Humorista brasileiro