Fotografia do nosso amigo Paolo, de uma das cenas da peça "O Jardim do Dr. Gordner Brickers", apresentada em 9 sessões consecutivas, na cidade do Mindelo, no passado mês de Junho.



Imagem: "time is dead" de MainLi


Este artigo nasce de um comentário desaforado do Paulino Dias a propósito da pontualidade. Como não tenho nada a acrescentar, deixo aqui para a vossa consideração. Proposta para uma Campanha pró-pontualidade?

Tipo: "Eu sou pontual. E tu?"

Sugestões de regras a serem rigosamente seguidas pelos aderentes:

1. Abandonar sempre o local do show cinco minutos depois da hora em que deveria começar e processar os organizadores para recuperar o dinheiro do bilhete (em tempos abandonei ostensivamente o show do Princesito na Assembleia Nacional depois de uma hora de atraso);

2. Cancelar propositadamente aquela reunião em que a pessoa chega 10 minutos atrasados e nem se digna telefonar para avisar e remarcar para dia seguinte às 08h00 em ponto. Se atrasar de novo, remarca outra vez, e assim por diante, até ele perceber;

3. Sair em peso dos actos públicos depois de dez minutos de atraso, dando sempre aquela arrastadinha na cadeira e olhando ostensivamente para o relógio, para todos perceberem que estás abandonando o lugar devido ao atraso;

4. Trancar a porta das salas de aula/seminários/fóruns e quejandos, cinco minutos depois da data indicada para começar, e não abrir nem para Papa quanto mais para o JMN;

5. Desclassificar automaticamente o candidato a emprego que chega atrasado no dia de prova/entrevista e informá-lo porquê;

6. Facturar as empresas de transporte e outras, pelo tempo de atraso (basta calcular o teu salário/rendimento por minuto e multiplicar pelo tempo de atraso) - processar também para cobrar a factura....

Mais sugestões?

"O que nos falta, João, é vergonha na cara, falta de assumpção do tempo como um recurso escasso e... colhões para penalizar os que não são pontuais! O nosso maior desafio como PDM, acredita, é mudarmos a nossa atitude em relação ao tempo..."

Nota: quando leio este e outros comentários do Paulino, só me apetece apelar para que se deixe de tretas e invente um novo blogue rapidamente para nos fazer companhia de forma mais assídua. Faz falta.



Já repararam que isto por aqui anda mais calmo? Pois é, Abraão Vicente não está em Cabo Verde! Para ser mais exacto, está em Lisboa, onde amanhã inaugura a sua exposição intitulada No Limiar, e que tem sido destaque na imprensa da especialidade.

Por exemplo, a agenda Arte Capital, que recomenda três exposições periodicamente, escolheu a mostra de Abraão Vicente como principal destaque no seu último número. Expondo no Espaço Fábulas, situada na Calçada Nova de São Francisco, a exposição faz parte do projecto Tráfico e leva até Portugal uma abordagem sobre questões
que envolvem identidade, fronteiras, viagens e território.
Usando técnica mista, Abraão Vicente faz referência a esses
conceitos lembrando-nos de um momento em que um viajante altera a sua
condição tornando-se um simples número num papel.

A mostra ficará patente até ao final de Agosto. Parabéns, pois.




A ópera Tristão e Isolda, de Wagner, é o maior monumento erótico musical de todos os tempos: no seu famoso dueto de amor, "especialistas" já contaram pelo menos 11 orgasmos.




O meu mundo por um sorriso


1. Há pequenos acontecimentos que ocorrem nas vidas de cada um que, não significando quase nada, podendo mesmo ser considerados factos residuais sem importância no dia-a-dia das pessoas ou sem qualquer influência no futuro a curto e médio prazo, podem ter, no entanto, sentidos que nos façam perceber alguns sinais do que se está a passar à nossa volta.

2. Vou dar um exemplo vivenciado há alguns dias. Estava eu no novo e agradável aeroporto de S. Vicente, pronto para viajar, e desloquei-me ao bar do mesmo, o único por sinal, num raio de vários quilómetros. A jovem que servia estava de costas nos seus múltiplos afazeres. Chamei a atenção que estava ali e queria ser atendido. Nada. Voltei a chamar. Voltou-se ligeiramente, mas não percebi se aquela subtil deslocação corporal seria um sinal de entendimento. Fiz o meu pedido. Um café e uma sandes de queijo, por favor.

3. A mesma jovem repetiu o pedido para uma outra funcionária. Tudo isto sem sequer se dignar a olhar para mim, o suposto cliente. Não me calei. “Olhe lá”, disse, “pelo menos digne-se a olhar para a minha cara, quanto mais não seja para eu entender se ouviu o meu pedido e se este já está encaminhado” (tradução crioulo – português da minha responsabilidade). A jovem grunhiu um qualquer som imperceptível, que suponho tenha sido uma confirmação que sim, que tinha entendido perfeitamente o meu pedido e que escusava de estar ali a pôr-me em bicos de pés, a querer ser mais importante do que realmente era.

4. Fui atendido sem uma palavra, sem um sorriso. Nada. A mesa onde me sentei tinha ainda alguns restos mortais de consumos anteriores, que foram retirados, mas quanto a passar um pano e limpar a mesa, qual quê. Isso já é pedir demais. Por sua vez, a gerente do bar do aeroporto, que é uma simpatia de senhora, e que me conhece desde há muito, essa sim, foi de uma amabilidade natural. Pelo menos na hora de pagar, o ambiente estava menos pesado!

5. A verdade é que em todos os locais naquele aeroporto, desde o chek-in, passando pelos seguranças, apenas a funcionária que estava no guichet dos TACV sorria com quantos dentes tinha na boca e mostrava uma boa disposição, que até pareceu estranha naquela circunstância. “Eles acham que eu sou maluca, por andar sempre assim a rir com toda a gente, mas nem quero saber. Adoro trabalhar aqui e não tenho que escondê-lo”, confessou a alegre funcionária que antes de voltar ao posto tinha estado a divertir os taxistas com as suas histórias e anedotas. De resto, o sisudíssimo ambiente era a regra geral.

6. Isto num aeroporto, onde muito provavelmente mais de metade das pessoas que ali estão, se encontram em estado de pavor quase absoluto, pelo medo generalizado de voar, muito comum no comum dos mortais. Ainda para mais com as recentes e medonhas notícias de quedas de aviões, que originaram tsunamis mediáticos, como o terrível acidente acontecido com o Boeing da Air France em pleno Oceano Atlântico.

7. Este seria, pois, o local ideal para todos os trabalhadores sorrirem, contribuindo para um ambiente mais tranquilo, calmo, sereno. Sem colocar em causa a competência deste ou daquele serviço, seria tão diferente se, por exemplo, chegássemos ao segurança que controla os passaportes e os bilhetes na entrada do chek-in e ouvíssemos um “bom dia, como estão? Posso ver a sua identificação, por favor?”; e este terminasse com um “muito obrigado e tenham uma boa viagem”, tudo acompanhado de um desinteressado sorriso.

8. O que se está a passar em Cabo Verde? Este exemplo é apenas uma pequena amostra. Nos últimos dias andei particularmente atento a este aspecto: em praticamente todos os serviços, no Estado ou em empresas privadas, nas Câmaras Municipais ou nos Hospitais, nos autocarros ou nos táxis, nos cafés ou nos supermercados, ninguém anda a sorrir. Muitos prestam o serviço como se estivessem a fazer um favor e outros nem se dignam a olhar para a cara dos clientes.

9. O primeiro mandamento, aquele mais básico do bê-a-bá do Marketing diz-nos que hoje, cada vez mais, se uma empresa quer singrar no mercado, tem que ter como principal objectivo e foco a satisfação dos clientes. Isto é básico. Clientes satisfeitos não só se mantêm enquanto tal, como trazem por arrasto outros clientes, aumentando a carteira da empresa e os seus mais que prováveis lucros anuais. Um cliente insatisfeito, pelo contrário, provavelmente nunca mais voltará a utilizar os serviços dessa empresa. Pelo menos, é o que está escrito nos manuais.

10. Isto teoricamente, claro. Em Cabo Verde fica difícil, porque quando os TACV nos pregam as partidas habituais, de anular voos ou fazer os clientes “desaparecer do sistema”, apesar de terem comprovativos de que compraram a sua passagem, restam poucas ou nenhumas alternativas. Se alguém está insatisfeita com a Electra, faz o quê? Se sou mal serviço no bar do aeroporto de S. Vicente vou tomar café à aldeia de S. Pedro? Felizmente, a concorrência nalguns serviços tem permitido que alguns destes melhorem, mas estamos longe, muito longe, de ter um ambiente e uma qualidade de atendimento sequer perto do razoável.

11. A crise de sorrisos é, pois, generalizada. Nos restaurantes, para além da demora faraónica e da enorme paciência que implica a espera entre o momento em que nos sentamos, aquele em que somos atendidos e começamos efectivamente a fazer o que nos levou àquele lugar – comer – vai uma distância directamente proporcional aos preços praticados nas ementas. Na generalidade dos hotéis e residenciais os serviços de atendimento são maus. E podemos ir para qualquer actividade económica geradora de rendimento que a realidade é a mesma.

12. É paradoxal, num pais que aposta no turismo como motor de desenvolvimento, que não se façam largas campanhas de bem atender. Façam-se acordos com marcas de pastas dentífricas e consultórios de dentistas e promova-se o sorriso do cabo-verdiano como marca a preservar e promover. Não tenhamos medo de ser simpáticos, mesmo que não gostemos do nosso trabalho. Lembremo-nos de que os clientes não tem culpa que a grande maioria prefira um emprego em que nada faz a um trabalho que dê (algum) trabalho.

13. Há uma crise de sorrisos em Cabo Verde que urge resolver. Não há motivos para sorrir? Não há razão para não haver motivos, isso sim. Porque o não sorrir é apenas e só um dos sintomas mais visíveis do estado lastimável em que se encontra a qualidade da prestação de serviços, sejam eles públicos ou privados. Para os que cá estão e para os que nos visitam, é urgente sorrir mais. Ou como diria o poeta Daniel Filipe, re-inventemos a nossa capacidade de sorrir, com carácter de urgência.

Mindelo, 23 de Julho de 2009






A falta de pontualidade do crioulo tem alguma razão antropológica mais profunda ou é apenas uma questão de (falta) de respeito pelo próximo?


À melhor resposta, ofereço um café





          O rigor do verão quase
          extinguiu os pequenos
          oásis do coração:
          nenhum
          de nós conseguiu dobrar
          o lume, acariciar
          o tigre, desviar a sombra
          dos lábios - arder era afinal a nossa vocação.

          Eugénio de Andrade in "rente ao dizer"






Há dois produtos que são claramente muito mais baratos nesse fantástico país chamado Brasil: a comida e os CD's. E não são apenas mais baratos. São fantásticos. A comida é fenomenal, na qualidade e variedade de sabores e cozinhados; a música popular brasileira, vulgo MPB, é por muitos considerada a melhor música do planeta. Portanto, o mais certo, depois de uma pequena temporada por terras de Vera Cruz, é o regresso ser feito, indubitavelmente, com uns quilos a mais, no corpo e na bagagem. 

Desta vez não foi diferente e dentro deste último lote destaca-se, pelo menos para já, o último trabalho de Marisa Monte "Universo ao meu redor" (2006), com um conjunto de 14 belíssimas canções que nos apaixonam à primeira audição. Todas as faixas são belas mas há composições que se destacam, como "O Bonde do Bom", "Vai Saber?", "A Alma e a Matéria" ou "Satisfeito". 

"Os anjos que me carregam / Os automóveis que me cercam / Os santos que me projetam / Nas asas do bem desse mundo / Carregam um quintal lá no fundo / A água do mar me bebe / A sede de ti prossegue." (O Bonde do Bom) 

Para ouvir, sem parar.






Galeria de imagens do universo fantástico e surrealista da fotografa Christine von Diepenbroek (sugestão do Jumento). Devo confessar que a grande dificuldade esteve mesmo na escolha das imagens para o Café Margoso. Seja como for, podem ver a galeria completa, aqui.

Vale a pena.




















O crítico Fausto Cunha considera-o "um dos poucos escritores universais que possuímos", referindo-se ao brasileiro Millôr Fernandes, cartunista, jornalista, cronista, dramaturgo, roteirista, intelectual, tradutor e poeta brasileiro, enfim, um autêntico homem dos sete instrumentos da intelectualidade brasileira. Faz argumentos para o cinema e programas de televisão, shows e musicais e é um dos mais solicitados tradutores de teatro do país. Irónico, polémico, com os seus textos (aforismos, epigramas, ironia, duplos sentidos e trocadilhos) e os seus desenhos constrói a crónica dos costumes brasileiros dos últimos sessenta anos.

E a que propósito vem tudo isto? Vem a propósito de, graças ao blogueiro Miguel Barbosa, do Ziquira, ter descoberto que este homem, hoje com quase 90 anos, estar a bombar no Twitter com o seu humor inteligente, à medida dos 140 caracteres da praxe.

Aqui ficam algumas das frases "twitadas" nos últimos dias:
  • Todo político sábio fala duas vezes antes de pensar.
  • Quando duas pessoas odeiam a mesma pessoa, têm a impressão de que se estimam.
  • Idiota mesmo é o sujeito que, ouvindo uma história de duplo sentido, não entende nenhum dos dois.
  • Monogamia é a capacidade de ser infiel à mesma pessoa durante a vida inteira.
  • Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade muitas vezes o idiota é oportunidade que os outros aproveitam.
  • O quartzo é um mineral que fica entre o tertzo e o quintzo. (nota: adorei esta!)
  • Comida é bom, bebida é ótimo, música é admirável, literatura é sublime, mas só o sexo provoca erecção.
  • Meu ideal político é um governo que não se meta em minha vida.
  • O maior erro de Noé foi não ter matado as duas baratas que entraram na arca.
  • Grande erro da natureza é a incompetência não doer.
  • Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.
  • Só as mulheres que variam muito de homens podem dizer que os homens são todos iguais.
  • Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome.

Genial, não acham? Podem seguir esta figura ímpar no Twitter, aqui






Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda ofereço um café





Há um tipo de arte gráfica em movimento, chamada Typography, que aprecio especialmente.  O conceito é simples: vê-se o que se ouve. Ouvem-se as palavras, vêm-se as palavras aparecendo no ecrã, uma espécie de karaoke artístico. Alguns dos mais populares destes vídeos são feitos utilizando famosos diálogos ou monólogos de conhecidos filmes, como "Clube de Combate", "Pulp Fiction" ou "V de Vendetta".

Os exemplos são muitos, mas o meu preferido - porque será? - é o que retrata um dos mais espantosos monólogos da história do cinema, aquele que Al Pacino desenvolve numa das últimas cenas do filme "Advogado do Diabo", em que ele comprova, com argumentos difíceis de refutar, todo o cinismo do Criador.

Vejam - e ouçam - que vale a pena: