Psamético, um dos últimos faraós do Egipto (século VII a. C.) desejoso de saber qual seria a língua original dos homens, mandou que dois gémeos recém-nascidos fossem isolados de qualquer comunicação verbal até à idade de 2 anos, e a dada altura privados de alimentação, para se saber que língua usariam: contam os relatos que as crianças pediram pão em cíntio (uma língua falada na zona do que hoje é a Ucrânia) e o faraó decretou que o cíntio seria então a língua original da humanidade; 19 séculos mais tarde, o rei germânico Frederico II (1194-1250) resolveu repetir a experiência, mas desta vez os gémeos morreram.

A que propósito vem isto? De nada. Mas ao ouvir mais uma discussão oca e sem sentido sobre os crioulos, a valorização da língua portuguesa, a oficialização, o ALUPEC ou de que "um crioulo acabará, inevitavelmente, por prevalecer", lembrei-me desta história. Ainda não percebi porquê, mas pode ser que por aí haja quem saiba. Doutores em linguistica e em psicologia é o que não falta neste país. 

 


Dois dias antes do tempo, eis o Café Margoso em toda a sua pujança. Como adoro as segundas-feiras, nada como o início de uma semana para marcar o regresso ao convívio com a clientela, que espero não tenha sido espantada com este período sabático, que me fez muitíssimo bem, diga-se de passagem. Com uma decoração mais leve e mais cafeana, acredito que a sua apreciação pelos clientes será apenas uma questão de hábito, como muitas outras coisas da vida.

De resto, estes dias serviram para constatar a quantidade incrível de factos e acontecimentos que podem acontecer em menos de um mês. De pequenos episódios locais sem importância a terramotos mediáticos provocados por ocorrências extraordinárias, houve de tudo um pouco, e se é verdade que tudo ficou aparentemente na mesma, fiquei muito mais consciente de que o mundo avança à velocidade da luz e que este universo que me rodeia já não é o mesmo que existia um mês atrás. O hábito de escrever sobre o que nos rodeia, uma vez interrompido, acaba por nos mostrar como tudo é tão intenso e, ao mesmo tempo, efémero e relativo.

Não me posso lembrar de tudo, mas o mundo mudou nestes 25 dias. Michael Jackson morreu de forma inesperada; um terrível acidente aéreo em pleno Atlântico aumentou ainda mais a fobia de parte considerável da população mundial em andar de avião, como se não nos bastasse uma estranha pandemia mundial ligada primeiro aos porcos e depois a um nome parecido com um vírus informático, que veio para ficar e alterar hábitos à escala planetária; a Cidade Velha foi proclamada Património da Humanidade, dando uma retumbante e tardia vitória  Ã  equipa do Ministério da Cultura; a dança mundial fica mais pobre com o desaparecimento físico da maior coreógrafa do século XX, Pina Baush; o Bianda entretém-se a cozinhar-me em lume brando e a peça de teatro No Inferno é apresentada com muitos aplausos, elogios e grande surpresa na cidade do Rio de Janeiro; a Revisão Constitucional parece ter caído em saco roto porque os deputados da Nação não se entendem o que faz da oficialização do crioulo a primeira vítima desta incapacidade irresponsável; anunciam-se mortes de poetas vivos e fundem-se clubes de poetas mortos; a selecção de futebol de Cabo Verde brilha nos jogos da Lusofonia, na mesma altura em que um Ronaldo, o gordo, farta-se de marcar golos no Brasil e um outro Ronaldo, o narcísico, é apresentado perante 80 mil pessoas.

De tudo isto, o mais importante mesmo, do ponto de vista estritamente pessoal, foi ter descoberto a poesia de Manoel de Barros, um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos e me terem oferecido o maravilhoso e inesquecível CD de Marisa Monte que, coincidência!, se intitula "Universo ao meu redor". É bom estar de volta.





        Havia um muro alto entre nossas casas.
        Difícil de mandar recado para ela.
        Não havia e-mail.
        O pai era uma onça.
        A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
        um cordão
        E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
        Se a namorada respondesse pela mesma pedra
        Era uma glória!
        Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
        E então era agonia.
        No tempo do onça era assim.

        Manoel de Barros in "Tratado geral das grandezas do ínfimo"





Entre uma boazinha e uma boazona 
há apenas uma diferença de grau?


À melhor resposta, ofereço um café

Pergunta inspirada aqui




Book Autopsies ("autópsias de livros") por Brian Dettmer






Vejam a (espantosa) série completa, aqui




O filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick é considerado o filme mais polémico de sempre pelo jornal inglês Telegraph, que escolheu os 10 filmes mais controversos da história do cinema. A lista é encabeçada pelo filme que Stanley Kubrick realizou em 1971. (fonte: aqui)

Mais do que controverso, Laranja Mecânica é um filme genial. Como escreve o blogue Cine Rosebud, "Laranja Mecânica é um filme de antecipação cultural. Todos os seus assuntos dizem respeito ao actual modelo de sociedade pós-revolução midiática dos anos 80. O centro do filme se constrói na degradação e desconstrução dos valores sociais contemporâneos à realização da película. Veríamos mais tarde que de facto várias das propostas do filme se concretizariam, como a associação de bebida e violência, a divisão da juventude em grupossociais dentro de um grande grupo, a hipocrisia a respeito da punição da violência quando todos estão fascinados por ela. A música como canal de identificação cultural dos jovens e o mundo destroçado como a Londres do futuro antecipada por Kubrick. Em poucos filmes cabe o adjectivo de revolucionar a arte cinematográfica e tornar-se ainda melhor do que a obra em que se baseou, esse é o caso de Laranja Mecânica, um livro de Antonhy Burgess, que viria a se tornar um filme-sinfonia de luz e cor com uma beleza incomparável."

Nota: este é um artigo dedicado a Mário Almeida, autor do (excelente) blogue Tempo de Lobos, que tive o prazer de conhecer pessoalmente na passada sexta-feira na cidade da Praia e que sonha fazer filmes em Cabo Verde. Vais fazer os teus filmes, camarada, porque a vontade de fazer é o motor dos sonhos irrealizáveis. Abraço cafeano.




"Somos a metáfora do mito de Osíris, espalhados pelo mundo e à espera de alguém capaz de reconstituir o nosso todo a partir de nossas partes."

Jack St. - Blogueiro Brasileiro




Selecção Nacional de Cabo Verde Sub-21


Poucos apostariam na possibilidade de a selecção de Cabo Verde poder vir a ganhar uma competição de futebol onde disputasse o título com grandes potências mundiais como o Brasil e Portugal, ou com Angola, que ainda recentemente esteve presente na Copa do Mundo. Pois bem, aconteceu ontem, nos Jogos da Lusofonia. Brilhante vitória da nossa selecção. Sem espinhas, até porque praticou um futebol digno de registo. Está aqui a próxima geração de futebolistas que vai trazer alegrias ao país? Quem sabe.






A cidade da Praia está quente, quente, quente. Um calor pesado, quase insuportável. Cinco minutos na rua transformam as roupas numa papa de tecido e suor. Esse um dos aspectos menos agradáveis da apresentação da peça "No Inferno" (outros estão relacionados com o estado e a forma de trabalhar no Auditório - dito - Nacional, mas isso são contas de outro rosário), pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC, no âmbito da Semana Cultural da CPLP que está a decorrer (está? onde?) na capital de Cabo Verde.

Auditório cheio, plateia atenta, entre os quais o próprio Arménio Vieira, autor do texto original e do outro grande poeta Mário Fonseca. Algumas figuras públicas, muitos amigos, gente da arte e do teatro fizeram questão de dizer presente. No final a reacção foi efusiva e generosa. Forte aplauso, elogios à peça e ao trabalho dos actores. 

Sabem que mais? Tirando as enormes dificuldades técnicas e de falta de pessoal para a montagem de peças de teatro mais exigentes, a verdade é que gosto muito de fazer teatro na Praia. Procuramos levar um trabalho de qualidade e o público tem estado presente de forma considerável e tem-nos feito sentir em casa. Essa é, afinal, também a nossa casa.

A propósito, Djinho Barbosa, um dos muitos amigos presentes, escreveu:  

"Enfim, tudo isto são alucinações? Então, palmas e muitas palmas. Que espectáculo! É o teatro.cv on air. Mais palmas!

Acordo do sonho, vejo os poetas, sim dois afinal, a assobiarem um táxi clandestino e partirem. A grande pergunta.

Para onde?"

Nós estamos de volta, cansados mas satisfeitos. Gratos pela forma calorosa como fomos recebidos. Na cidade que pesa pelo muito calor. Muito, muito, muito quente... Como no Inferno. Terá sido propositado?

Fotografia de Kizó Oliveira




Do que estamos à espera para sermos felizes?


À melhor resposta, ofereço um café

Pergunta inspirada aqui



A peça No Inferno vai estar na cidade da Praia. A não perder...










Depois de algumas semanas de ausência para umas merecidas férias, vamos preparando paulatinamente o nosso regresso à blogosfera crioula. Marcado para o dia 22 de Julho, aproximadamente daqui a uma semana, esta pré-abertura serve para revelar a imagem renovada do Café Margoso e ouvir as contribuições da sua clientela.

Simplificou-se a coluna lateral - que passa da esquerda para a direita - mantendo menos elementos. Ficam apenas aqueles considerados essenciais. Muda o painel superior e deixamos o Salvador Dali ir descansar, depois de lhe termos coberto os olhos. O que fica mesmo é o café e uma frase retirada de um poema de Osvaldo Alcântara.

Outros pormenores, como o formato da data e dos títulos dos artigos, o ligeiro aumento das fontes, a alteração gráfica do menu na barra horizontal ou a mudança do fundo, que apenas será visível para quem tiver um ecrã maior, são algumas das alterações promovidas nesta renovação gráfica.

Entretanto, fica o aviso que os comentadores anónimos não serão publicados. Não é que mude muito, pois permite-se que cada um arranje os pseudónimos que muito bem entender.

O espírito do Café Margoso manter-se-á inalterável, sendo que cada vez mais este será um espaço para se celebrar as coisas boas da vida. A poesia, o cinema, os livros, a música, o teatro, a pintura, a fotografia, a Arte, enfim, terão o seu espaço reforçado. A discussão de temas actuais, as Declarações e Perguntas Cafeanas assim como as Crónicas Desaforadas também se manterão como rubricas mais ou menos permanentes.

A próxima semana servirá para ouvir sugestões e fazer algumas alterações, se for caso disso. Um forte abraço.