"E enquanto tratava da minha vida

Andei-lhe a dar voltas à coisa. As mulheres não fizemos muitas revoluções, pois não, andávamos demasiado ocupadas. A coser-lhes as roupas e as feridas, a parir os filhos, a cuidar dos velhos, a enterrar os mortos, a tirar o véu, a encurtar a saia, a usar a pílula, a levar porrada do macho, a entrar sozinhas nos bares, a ser apontadas pelo pai, pelo irmão e pelo padre, a ser presas por abortar ou por abandonar o marido, a segurar os telhados, a caiar as paredes, a trabalhar no campo, a perder os pulmões e as forças nas fábricas, a ser a mula de carga, a companheira fiel, a amante fogosa, a mãe primorosa e incansável, a mulher-a-dias, a cem em um, a não faz mal que eu trato, eu faço, eu resolvo. Pois não, as mulheres não fizemos muitas revoluções, pelos menos para estes homens, colunistas, comentadores, taxistas e talhantes para quem as mulheres, com as suas lutas, as suas importantíssimas revoluções (domésticas, algumas, outras com cadáveres, muitas com demasiados silêncios) foram e continuam a ser invisíveis e pouco dignas. Ainda bem que andavam cá eles, a matarem-se uns aos outros. Isso é que eram grandes revoluções."


Rita Barata Silvério, aqui

Fotografia de Angie Chiara 




"Ronaldo podia alimentar 6,8 milhões de etíopes... 
...mas parece que se ficou pela Paris Hilton."

Jumento, reagindo à reacção do PAM à contratação de Ronaldo pelo Real Madrid





A propósito da última declaração cafeana sobre o aventureiro inglês. levantou-se um coro indignado, não com o texto propriamente dito, mas dando conta de uma nova perspectiva do problema. O inglês é um arrogante do caraças, pensa que isto aqui é a casa da joana, ou o quintal da casa dele, e teve o correctivo que mereceu! Mai nada! Qual direitos humanos qual quê?! Ele e os coitados dos senegaleses que caíram na conversa desse ridículo Indiana Jones, foram enfiados numa cela 10 por 10, onze gajos enfiados num espaço daqueles, sem direito a qualquer contacto com o exterior, durante seis dias! Ora toma que é para aprenderes!

Volto ao mesmo, justificar o nosso mal com o mal dos outros é fácil. O Abraão escreve que está tudo normal, já que "os polícias limitaram-se a proceder aos procedimentos de rotina", é assim mesmo, de rotina! Sinceramente, nunca pensei que as nossas forças de segurança já estivessem tão evoluídas. Então é assim: trata-se mal toda a gente, não são só os pretos que vem do continente! Se os cabo-verdianos tem o mesmo tratamento, estão à espera que estes gajos, uns bandidos, tenham tratamento de luxo? Fuck off! O Edson Medina declara alto e bom som para que "não nos tentem condicionar com o facto de sermos um país de emigrantes. Aplicou-se a lei, como em qualquer país." É assim mesmo! Qual Convenção de Genebra qual quê? Está tudo maluco?

Então, é assim mesmo: olho por olho, dente por dente. Os crioulos não são maltratados lá fora? Não são colocados em celas pouco condicionadas, humilhados, expulsos, como se fossem um bando de indigentes? Então, porra, somos ou não somos PDM? Não podemos tratar os aventureiros que aqui entram de forma ilegal de outra maneira! Estamos aprender muito bem a lição, não haja dúvidas!






Não se sabe se é apenas mais um golpe de marketing, mas anuncia-se aqui, para amanhã, Sábado, dia 13 de Junho, algures entre as 10h41 e as 12h23 (horas de Cabo Verde), o colapso definitivo da mais popular e fulgurante rede social do século XXI, que entre muitas outras coisas originais e insólitas, provocou o aparecimento de um novo verbo - o verbo Twittar - e novos hábitos, que obrigam a raciocínios inteligentes (ou nem tanto) de apenas 140 caracteres.

É o Twipocalipse: segundo os resposáveis, quando as mensagens no Twitter atingirem a aparentemente aleatória quantia de 2.147.483.647, o sítio pura e simplesmente sai da web. Sendo gratuito e não suportando qualquer tipo de publicidade, os analistas descrevem a situação do "micro-blogging", de que o Twitter é pioneiro, como pouco sustentável. Daí haver já quem veja o “Twitpocalypse” como golpe de marketing. Por via das dúvidas, como alerta o sítio da profecia, o fim avança a 198 tweets por segundo, "não marque férias para a data".

Estará a viver o mais famoso passarinho gráfico do planeta os seus últimos momentos de vida? Pelo sim, pelo não, nunca se sabe. Por isso, siga para a Pergunta Cafeana, mesmo aqui em baixo!



Deliciosa colecção de fotografias de Renne Maltete, cheias de humor e ironia:




"A Maioria"




"Santidade"




"Trabalho"


Ver galeria completa, aqui





Pandemia







Um filho da mãe acabado

- Sartre dizia que o Inferno são os outros...

- Isso é balela. Sabes o que é o Inferno, de facto? O Inferno é um lugar bom, o único Paraíso que existe é o momento imediato à saída do Inferno quando o Diabo permite ao danado ir tomar fresco lá fora. Só neste hiato ele está no Paraíso. É o momento do orgasmo, depois a mulher cheira mal, é puta e é feia. É claro que me refiro à mulher venal, as outras que me desculpem esta imagem. De facto, as mulheres, a literatura, o xadrez e o cinema são a minha sina.

- Com a atribuição do Prémio, temos agora o Arménio Camões ou o Conde continua ainda vivo?

- Não, o Conde não morreu. Agora o conde é reconhecido como Conde, agora até já tem corte! Ah, mas os reis é que costumam ter corte. Agora temos um Conde-Rei. 

- Como é que dirige a um Conde?

- O Conde é alteza, não é majestade. Agora se calhar é majestade ou o conde de todos os condes. Mas realmente eu sou conde, isso realmente é que foi o diabo: quando o meu primo foi vasculhar aqueles anais antigos, descobriu que a minha família é nobre, pelo lado materno. Portanto, não há dúvida nenhuma, sou garantidamente filho da minha mãe. Sou um filho da mãe acabado!

Excerto da entrevista de António Monteiro a Arménio Vieira, publicada no último Expresso das Ilhas.


Estão todos convidados, vamos lá conversar sobre isto.




Onde: Auditório da Universidade Lusófona
Quando: dia 12 de Junho / Sexta-feira / 21:00 horas







Este foi um caso estranho, mas grave. Estranho também que tenha sido tão pouco comentado na blogosfera, geralmente alerta para estes desmandos. Ao que parece, dez senegaleses e um aventureiro cineasta britânico, que quer dar a volta ao mundo da forma menos ortodoxa possível, foram caçados pelas autoridades a entrar ilegalmente em Cabo Verde, enfiados de imediato na esquadra de Eugénio Lima sem mais explicações, durante seis longos dias. Assim, sem piar. Aqui não se brinca. Afinal de contas queremos ou não queremos uma aproximação estratégica com a Europa? Agora que a guinada política à direita do rico continente comprovada nas eleições europeias do passado fim-de-semana é tão inquestionável quanto arrasadora, nada como ir experimentando algumas das metodologias anti-osmose tão ao gosto de certas ideologias defendidas por tipos como o senhor Berlusconi ou o senhor Sarkozi. 

Sinceramente não dá para entender que um país de emigrantes trate assim quem cá chega, mesmo (ou principalmente) quando se trata de pessoas sem os papeis em ordem. Além de que estamos a falar de senegaleses, cidadãos de um país vizinho, membro da CEDEAO e com quem, ao que parece, Cabo Verde tem um acordo de livre circulação. Claro que também ficou claro que se o destrambelhado do britânico que chegou com os restantes dez africanos não tivesse esperneado tanto, o caso seria mais ou menos abafado e poucos dariam pela situação, o que também é um péssimo sinal. 

Mas este é um caso para reflectir. E reflectir a sério. Cabo Verde não pode, por todas as razões e mais alguma (históricas, sociais, legais, geográficas, económicas e, claro, culturais) tratar a imigração ilegal desta forma absurda, além de que neste caso parece que foram violados os mais elementares direitos humanos e a própria Convenção de Genebra, quando se isolam indivíduos que não cometeram nenhum crime em território nacional, não mataram, não roubaram, não violaram e ficaram retidos durante vários dias sem sequer poder telefonar para nenhum familiar que nem sabiam se os seus estariam vivos ou mortos.  

Num momento em que o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros se congratula com a decisão do Conselho Europeu de iniciar negociações para facilitar vistos aos cabo-verdianos (ler aqui), é chegado o momento de pensar se vamos agir para ser um exemplo no diálogo Norte - Sul ou se simplesmente vamos contribuir para a construção do muro que se quer construir para proteger a Europa dos "indigentes" africanos, voltando definitivamente as costas a uma das maiores heranças culturais e históricas do arquipélago. 



Mais um Passo Seguro








Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café.




O filme colombiano "Maria Cheia de Graça" do realizador Joshua Marston, retrata de uma forma crua e realista, o terrível martírio a que estão sujeitas mulheres que arriscam a vida no transporte de droga, da Colômbia para os EUA, utilizando cápsulas no estômago.

Nunca como agora, Cabo Verde esteve tão próximo dessa realidade. Nesta segunda-feira, a Polícia Judiciária prendeu quatro mulheres, de idade compreendida entre os 19 e os 31 anos, no Aeroporto Internacional da Praia, com cerca de 14 quilos de cocaína. 14 quilos! As mulheres, todas residentes em Santiago, acabavam de desembarcar de um voo proveniente de Fortaleza (Brasil). Segundo a PJ, a droga, com o peso exacto de 13.771 gramas, estava camuflada em cintas, caixas de cartão para embalar artigos comerciais, canecas térmicas e frascos de spray de barbear. O produto, proveniente do Brasil, tinha como destino a Europa. No mesmo voo, a PJ prendeu também um nigeriano com várias cápsulas de drogas no estômago. (Notícia aqui)

O mais triste nisto tudo é que só a raia miúda se arrisca e é presa. Quem manda nisto tudo continua impunemente, a passear-se nos seus últimos modelos automóveis importados e a viver nos seus castelos extravagantes. Seja como for, a nossa PJ está de parabéns, já que este tipo de apreensões se tem tornado cada vez mais frequente nas fronteiras cabo-verdianas e é digno de registo.