Grande espectáculo com o
Teatro do Bolhão & Joana Providência

"Mão na Boca"




Onde & Quando
Horário: Sábado, 04 de Abril, às 21:30 horas
Local: Auditório do Centro Cultural do Mindelo





O suor corre
em bica como se eu
cortasse troncos de árvore
e afinal eu só escrevo
um pequeno poema
muito frio


Hans-ulrich Treichel in "como se fosse a minha vida"

Fotografia de Thomas Doering (via Jumento)






Luís Afonso, via Público








Não poderia deixar passar em claro o que é um extraordinário e lúcido exercício de reflexão sobre a Arte e o papel da criação artística na sociedade de hoje, dado a conhecer por um cliente aqui do Margoso. Como é um texto muito extenso, não o vou publicar por inteiro, mas fica o link para quem estiver realmente interessado. O título deste texto é o seguinte: "A importância da Arte na construção de uma nova sociabilidade» e o seu autor João Garção, licenciado em História de Arte. Uma agradável surpresa.

Utilizem um pouco do vosso tempo para lê-lo, porque vale a pena.


1. Introdução

(...) Aparentemente limitada à consideração de uma pintura de grandiloquente e medalhado estilo académico, a capacidade analítica e estética de Leroy, se acaso existia, não conseguiu ganhar asas e, perante a novidade, o inesperado e o diferente, não procurou voar e tentar saber “o que está para além da montanha”, para utilizar a feliz expressão do escritor Rudyard Kipling. (...)

Longe de ser um fenómeno especifico da História da Arte, este enfoque contrário à inovação, à diferença, à singularidade e à liberdade expressiva é uma constante na história da Humanidade. A sua incidência no campo artístico, no entanto, tem sido frequente devido precisamente, ao facto de a Arte ser um veículo privilegiado de comunicação entre os indivíduos. (...)

Contudo, paralelamente às diferenças evidenciadas pelas diversas realizações artísticas, é também detectável a permanência do mesmo impulso criador, o que deverá ser salientado. Isto é, verificamos que nenhuma Civilização existiu sem produzir a sua própria Arte. Este parece ser um facto inerente à condição humana. Mas, sendo assim, que necessidade pretenderá, então, satisfazer? A meu ver, busca a satisfação de uma função mental e espiritual que assenta na necessidade de se terem respostas ao nível da comunicação qualificada. Já o pintor Delacroix o disse a respeito da pintura, referindo-se a esta como “uma ponte lançada entre as almas”. Beethoven, na música, e Rimbaud, na poesia, exprimiram-se em termos semelhantes. Cito um antigo ministro francês da Cultura, de seu nome André Malraux: “ A Arte e a Civilização uniram a Humanidade num laço apertado, se não eterno, e contribuíram para fazer do Homem algo mais do que um sobrecarregado habitante de um Universo absurdo”. Podemos dizer que, sob esta perspectiva e em certa medida, a Arte acaba por ser a respiração da mente. (...)

Assim, verifica-se que uma efectiva “obra de Arte” apresenta sempre as seguintes condições reais:

1º - qualidade formal - ou seja, grande qualidade na inter-relação dos elementos formais que constituem essa obra;
2º - originalidade conceptual - ou seja, essa obra tende a estar concebida de forma original;
3º - profundidade filosófica específica - por outras palavras, as mensagens que transmite estão longe de serem superficiais. Pelo contrário, expressam um sistema de ideias estruturado com uma certa robustez.

Estas três condições são alicerçadas nas seguintes características do autor:

1º - bom conhecimento dos meios que utiliza;
2º - espírito criativo inovador;
3º - persistência na expressão das suas propostas.


2. Arte é Construção

O Artista é pois, no seu âmbito de acção, um verdadeiro demiurgo, ou seja, um construtor de mundos até então ignorados - e isto tanto para a Pintura como para o Teatro, tanto para a Arquitectura como para a Música, ou para qualquer outra disciplina. A afirmação de si mesmo e da sua individualidade criadora, o seu desejo de permanência expressando a luta eterna entre a Vida e a Morte; a sua vontade de partilha (pois a Arte também combate a solidão); o seu espírito inovador em maior ou menor grau; e, finalmente, as suas próprias interrogações e reflexões, conferem à “obra de Arte” um cunho profundamente pessoal e imbuído de uma linguagem simbólica específica. Treinando-se para compreender mais de si mesmo e do quotidiano que o rodeia, por forma a poder expressar cada vez melhor e mais fielmente a sua ‘Verdade’, o Artista expande não apenas os seus horizontes próprios mas possibilita-nos também a nós - espectadores, observadores, leitores ou ouvintes - que expandamos também os nossos, o que levou o escritor Marcel Proust a dizer, com justeza, que “o prazer que o artista nos dá é fazer-nos conhecer um universo mais”.


3. Arte é Necessidade

(...) Não será um Artista verdadeiro aquele que constranger o seu talento para agradar a facções, a grupos ou a modas ou que forneça produções artificiosas tendo em vista conseguir vastos proventos à custa de ingénuos ou de novos-ricos ou que busque apenas o reconhecimento de largos sectores populacionais frequentemente alienados por manipulações sociais. Ou seja, o Artista autêntico deverá ser dotado de corajosa persistência de molde a poder resistir a ambientes habitualmente adversos. (...)

Em função daquilo que já disse, tornar-se-á evidente que aquilo que nela o Artista deseja explanar é, prioritariamente, a sua Ideia, isto é, elementos (ou mesmo a totalidade, aí sintetizada) das suas concepções existenciais. Os meios expressivos são uma consequência, evoluindo a partir dessa mundividência. A inexistência, no Artista, de uma profundidade filosófica específica a que já aludi, traduz-se inevitavelmente na pura reprodução mecânica de uma linguagem plástica adoptada de outrem, a qual foi aprendida e mesmo, eventualmente, compreendida, mas que lhe não é própria. Uma obra nestas condições não é uma obra “viva”, mas sim “morta”. (...)

Isto conduz-nos ao terceiro ponto que há que considerar: aquilo a que habitualmente se chama “o público”. Esta denominação, talvez cómoda, é, afirmemo-lo desde já, profundamente incorrecta pois, na verdade, não existe “o público”: existem “públicos”. “Isto é óbvio”, podereis dizer-me com razão. Contudo, tal perspectiva generalizadora e unitarista é inúmeras vezes afirmada para salientar um acentuado divórcio entre os Artistas, a Arte e os seus possíveis receptores, o que tem contribuído para, paulatinamente, se radicar nos espíritos a ideia de que a Arte é um produto de difícil acesso apenas destinado a uma elite, mais ou menos endinheirada, a qual, tendo satisfeitas as suas elementares necessidades materiais, dispõe então da oportunidade de se deleitar na ociosa contemplação de tais criações.

Urge que repudiemos este equívoco tão divulgado com intuitos que provêm de uma certa má-fé. Evidentemente que a satisfação das necessidades materiais pode assegurar a disponibilidade espiritual necessária ao estímulo da compreensão da obra de arte e ao crescente refinamento do gosto, da sensibilidade e da inteligência cultivada. No entanto, verdadeiramente fundamental na adesão ao prazer superior que a boa obra de arte proporciona é a disponibilidade interior de base que o eventual receptor pode cultivar, no sentido de aprofundar, com maior ou menor dificuldade da sua parte, as condições mentais que lhe permitam fruir as propostas artísticas. E estas coordenadas interiores têm menos a ver com condições sócio-económicas do que com uma adequada atitude perante a Arte. Aliás, diria mesmo que a boa situação económica dos indivíduos conta menos do que se pensa, na medida em que, muitos destes, quando se interessam pelo fenómeno artístico, são geralmente muito mais atraídos por modas e por outros ditames propiciados pela sociedade, ligados à superficialidade do culto das aparências e da publicidade, do que propriamente por um apelo interior derivado da sua condição humana de sujeitos detentores de capacidade estética ligada à sensibilidade e ao intelecto.

Quero com isto dizer que a incompreensão a que o artista inovador tem sido votado decorre inúmeras vezes do facto de as pessoas não terem ainda aprendido a ler os seus trabalhos, condenando imediatamente aquilo que, para elas, é invulgar, porque apenas diferente do que lhes é habitual. E esta rejeição tanto pode derivar do facto de o espectador se sentir inferiorizado ante aquilo que é diferente e que ainda não consegue decifrar, como pode ser consequência de um néscio sentimento de altaneira e vaidosa superioridade perante o inesperado, optando a pessoa, neste caso, por - de forma deliberada - não procurar compreender a novidade. Existe um tipo de público para quem a sua experiência no contacto com a Arte fossilizou a dada altura, impossibilitando a análise e a interpretação da obra que ainda não faz parte - e poderá nunca fazer - do seu espaço mental e das suas vivências, razão porque aquela criação é rejeitada ou, na melhor das hipóteses, olhada com desconfiança. (...)

A Arte necessita de ser lida, de maneira a não captarmos apenas a sua forma mas também a sua ideia, isto é, toda a estrutura ideativa subjacente à forma por nós imediatamente perceptível. Saber ver é muito diferente do apenas limitarmo-nos a olhar, exige mais esforço mas é, igualmente, bem mais gratificante. (...) O importante é aceitar ou rejeitar com conhecimento de causa e não por mero capricho ou provincianismo. E, de acordo com esta perspectiva, facilmente se compreenderá que o papel desempenhado pelos educadores poderá ser absolutamente decisivo na formação artística dos sujeitos e, logo, na construção de uma cidadania completa que, por isso mesmo, rejeite preconceitos e acredite na possibilidade do aperfeiçoamento dos indivíduos e das sociedades.


Leiam o artigo completo aqui

(Obrigado RB)
Imagem: pintura de Pollock



"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente"

Simone de Beauvoir - escritora






Há cafés que nos apetece mais do que outros...




"Coffee for Mister Klimt" de Floriandra








Este é daqueles assuntos que dão pano para mangas e está relacionado com a forma como algumas pessoas receberam a peça "No Inferno". O texto desta obra é complexo, a situação criada não é de todo linear, por vezes angustia, provoca, faz-nos sentir, como direi, ignorantes, porque há todo um universo que não conseguimos acompanhar, pelo menos na sua totalidade, ou como gostaríamos. Gostamos do que vemos, mas não o entendemos. Ou então, não gostamos do que vemos porque não o entendemos. São duas formas de sentir, a primeira mais válida do que a segunda, na minha opinião.

Qual é a função social da arte? Devemos buscar e preocupar-nos com o que vai ser entendido? Ou temos por missão ir mais além? Devemos ser sérios e empenhados no que fazemos ou procurar uma fórmula "que toda a gente entenda"? A História da Arte, nos vários domínios, sejam eles a literatura, a pintura, o cinema, a música ou o teatro dá uma resposta clara a estas perguntas. Picasso é, provavelmente, a mais importante lição neste domínio, mas há tantas outras. Tantas! Os maiores génios nunca foram os mais populares. Van Gogh morreu na mais absoluta miséria. Dostoievski escrevia para pagar dívidas e sobreviver. Porque são eles grandes, hoje? Pode o dinheiro e a aceitação popular ser medida da qualidade artística? Evidentemente que não. Mas isso também não quer dizer que uma criação que tenha grande aceitação popular tenha que ser medíocre. As coisas não são assim tão lineares.

Li já não sei onde que o acto de criar um novo mundo, quando este se materializa numa forma estética elevada, nova e autónoma, é revolucionário não apenas porque nega a realidade estabelecida, mas sobretudo porque a transcende. Concordo em absoluto com esta ideia e estou cada vez mais convencido que está é uma das funções do teatro: transcender a realidade. Ser espelho distorcido e multifacetado da(s) realidade(s), provocador de uma reflexão da nossa condição, sem ter que ser, necessariamente, existencialista. As alternativas são claras e estão à vista de todos: ver muita televisão, pensar muito no nosso próximo telemóvel, consumir muito zouklove, emociarmo-nos muito com os enredos das novelas brasileiras, fazer muitas compras e por aí afora.

Como disse no início, este é um debate que dura há séculos e nunca vai acabar. Tenho para mim claro isto: o artista faz-se com muito, muito trabalho. Se o resultado é "acessível", acompanha os gostos ou as modas, isso é outra história. O acto da criação é doloroso por definição e a minha luta, certa ou errada, é pela procura da excelência e da qualidade, e esta não é medida pelo grau de compreensão imediata que se possa ter do que se vê, ouve ou sente.

Imagem: peça "No Inferno" (fotografia Doca)





Pode-se falar verdade a mentir?

À melhor resposta, ofereço um café






Uma nova utilidade para Guantánamo

1. Gosto daquela famosa frase de Vinicius, que nos diz que a beleza é fundamental, mas há certas alturas que nos parecem querer convencer de que esta - a beleza - e a massa cinzenta são, à partida, incompatíveis. 

2. Certamente que não penso assim. Nem preciso ir muito longe: as minhas duas filhas são do mais lindo que há e tem inteligência para dar e vender, portanto não é por aí que vou. Vou por outro lado.

3. O certo é que quando se vêm ou lêem as declarações que as candidatas dos concursos de beleza feminina (mais conhecidos por misses - miss isto, miss aquilo), são obrigadas a dizer, sempre com muito custo, como se para falar fosse necessário fazer um esforço maior do que se estivessem cinco horas no ginásio, penso sempre que aquelas carinhas e aqueles corpinhos são um autêntico desperdício, porque a beleza da mulher é muito mais bela quando é inteligente e perspicaz. Às vezes parece que as escolhem a dedo, porra! 

4. Por essas e por outras detesto esses concursos de misses onde o físico das mulheres é sobrevalorizado na proporção inversa da inteligência das mesmas e lá somos obrigados a ouvir as mesmas banalidades de sempre, tipo tenho-muita-pena-dos-pobrezinhos-a-sida-e-tal-e-se-mandasse-queria-paz-no-mundo. 

5. Aqui no Mindelo há concursos desses a mais. E pior, para todas as idades. Choca-me, sinceramente, quando vejo as chamadas minimisses, com crianças de 4, 5 ou 6 anos já armadas em rainhas de passarelas, pousando em trajes menores, muitas das quais não tem a mínima vontade de ali estar, sendo pressionadas pelos pais para darem o seu show e levarem a taça para casa. 

6. Chamem-me pudico ou o que quiserem, mas esta é daquelas questões em que farei teimoso finca pé com as minhas filhas. Por enquanto que dependerem de mim não entram nessa da competição de corpos e vaidades. Pior do que isso, só mesmo se chegassem a casa a anunciar que eram adeptas do Benfica. Felizmente, esse é um mal que já está afastado, até porque, convenhamos, ninguém merece!

7. Vem isto a propósito da última das burrices publicitadas a uma miss, desta feita uma miss planetária, porque falamos de Dayana Mendoza, a actual Miss Universo de 2008, venezuelana, que foi a Guantánamo, Cuba, numa visita organizada a 27 de Março para levantar o moral das tropas americanas. “Foi muuuito divertido”, escreveu a miss num post do seu blogue. 

8. “Nem queria vir embora, é um local tão relaxante, tão calmo e tão lindo”.  Reparem na descrição: relaxante, calmo e lindo. Acompanhada de Crystle Stewar (Miss EUA), Dayana visitou as instalações da prisão mais polémica do mundo, onde os Estados Unidos detêm, de forma ilegal, mais de 240 prisioneiros.

9. Quando aquele lugar deixar de ser uma prisão onde os Estados Unidos prendem gente sem critérios e sem julgamentos, não se podia aproveitar aquelas instalações para lá colocar estas mulheres a quem por vezes parece que foi aplicada uma lobotomia? Está bem, radical demais, mas perguntar não ofende.


Mindelo, 01 de Abril de 2009






Que barulho é esse?

RRRrrrr!!!!
Que barulho é esse?

Trem onomatopaico a caminho do Inferno?
Vento nos fios e de súbito ninguém telegrafa?
Voz humana anterior ao dilúvio?
Estertor com que César se despediu do Senado?
Os elefantes de Anibal atravessando a Via Apia?
Urro de macaco que não acerta no galho?
Exorcismo com que se afugenta o Diabo?

Nada disso!
Marca de shampoo, meu caro!


Arménio Vieira





Nome: Carmen Souza
Nacionalidade: Cabo Verde


E Deus criou a mulher...



Notícia da A Semana online:

O actor Jorge Martins lamentou a ausência do Ministério da Cultura nas comemorações dos 25 anos de existência do Juventude em Marcha, o primeiro grupo teatral a comemorar bodas de prata em Cabo Verde desde a independência. Jorge Martins afirma que esperava mais atenção da parte do Ministério para com o grupo, tendo em conta que a ideia da adaptação da obra de Manuel Lopes partiu do próprio ministro Manuel Veiga.

“A adaptação da obra ‘Chuva Braba’, de Manuel Lopes, foi um desafio que o Ministro da Cultura lançou ao grupo, no ano passado, aquando da sua visita ao concelho do Porto Novo e que nós, prontamente, aceitamos. Mas no dia da estreia da peça o Ministro não esteve presente e nem sequer se fez representar”, realça Martins.


Comentário Cafeano: Oh Jorge, não te amofines. Deve andar tudo nos gabinetes do MC muito atarefado com a preparação do famoso Plano Estratégico da Cultura, stressados com o contador do Bianda, que não pára de descer, aconteça o que acontecer. Faz lá as contas: quando vocês começaram esta aventura, ainda era no tempo do partido único. Entretanto, tivemos ene MC's e vocês continuam, de pedra e cal. Portanto, tudo na mesma, como a lesma. E já agora, venham mais 25 (anos, não MC's). Aquele abraço!

Fotografia de João Barbosa, peça "Preto no Branco"