Quando acabou de ver o filme "They Live" de John Carpenter, estava deveras impressionado. Aquele enredo, onde o protagonista descobre uns óculos especiais que uma vez colocados, para além de nos fazer ver o mundo a preto e branco, nos permite distinguir os humanos normais, dos extra-terrestres, seres ignóbeis com cara de caveira, que estão a invadir a Terra com o objectivo de dominar por completo o planeta, deixou-o a pensar no quanto podemos ou devemos confiar nas pessoas hoje em dia. Aquilo era uma conspiração à escala universal! E quem sabe se...

Por acaso, nesse mesmo dia, recebeu uma encomenda que após o visionamento do filme, foi buscar aos correios. Não queria acreditar: dentro de uma caixa, e sem qualquer outra explicação, encontravam-se uns óculos escuros, daqueles muito modernos, enormes e extravagantes, que nos fazem parecer moscas verjeiras em corpo de gente. Alguém estava a brincar com ele, só podia! Que coincidência! Bem, melhor mesmo é colocar os óculos e sair para a rua, decidiu.

Assim fez. Colocou os óculos e qual não foi o seu espanto, para não dizer profundo choque, quando verificou que tudo o que via através dos óculos misteriosos estava a preto e branco. E não só: tal como no filme que acabara de visionar, algumas pessoas, melhor, quase todas as pessoas, apareciam com cara metálicas horrendas e assustadoras! Ficou aterrado. Na Rua de Lisboa, em pleno centro da cidade do Mindelo, foi o cúmulo porque através dos óculos não havia um único mindelense que não se tivesse já transformado em extra-terrestre.

Correu para casa, desligou o telemóvel, o telefone, e qualquer contacto com o exterior. Pregou placas de madeira nas janelas e empurrou móveis contra a porta da entrada. Ficou paranóico. Sentou-se na porta de casa, em estado de choque, a cantar o Apocalipse, sem mais nenhuma reacção. À espera simplesmente, que o viessem buscar. Decidido, no entanto, que não iria sem dar alguma luta. Filhos da puta!




P.S. Qualquer semelhança com a realidade, não passa de pura coincidência. Naturalmente.
P.S. 2 To be continued
 


Espectacular campanha "Recycle your Countrie"








Fonte: Jumento





Passou mais ou menos despercebido, ou pelo menos foi muito pouco comentada, a mais recente conferência de imprensa do Ministro da Cultura, Manuel Veiga, que anunciou para 2009 o início de projectos "estruturantes" tais como:

1. Museu Nacional, a instalar na Cidade Velha;
2. Museu de Arte Contemporânea, a instalar na Praia;
3. Galeria de Arte / Grande Auditório, a instalar no Mindelo.

Acho fantástico que a ambição ministerial já tenha atingido estes píncaros, mas espero que ninguém me leve a mal se me colocar na posição - cómoda e segura - de S. Tomé, ou seja, ver para crer. Para já, ficam registadas estas medidas para memória futura.



Sr. Milhões
Vais morrer, e vais morrer porque com as tuas fórmulas, a tua papelada e o teu burlesco, és também abjecto e inútil. O cavador existe! O soldado existe! O herói existe! Tu não existes!

Governador Civil
Eu não existo?

Sr. Milhões
És uma sombra e bff... Faço-te desaparecer como uma sombra. Tenho de suprimir a ninharia da vida. Estas duas coisas não podem mais coabitar – esta estupidez e este sonho dorido e imenso, o grotesco de todos os dias, quando do outro lado galopa e passa uma coisa sôfrega e imensa. Tu não te podes chamar Baltasar Moscoso, e ao mesmo tempo existir o céu estrelado. Venham todos os fantasmas!

Governador Civil
Acudam! Acudam! Acudam!


Excerto de "O Doido e a Morte", de Raul Brandão (Podem ler a peça integral aqui)
Imagem: "O Doido e a Morte" (2006), pelo GTCCPM, fotografia de João Barbosa




        Afinal o que importa não é a literatura
        nem a crítica de arte nem a câmara escura


        Afinal o que importa não é bem o negócio
        nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

        Afinal o que importa não é ser novo e galante
        - ele há tanta maneira de compor uma estante

        Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
        e cair verticalmente no vício

        Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
        antes de haver cinema madame blanche e parola

        Que afinal o que importa não é haver gente com fome
        porque assim como assim ainda há muita gente que come

        Que afinal o que importa é não ter medo
        de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
        Gerente! Este leite está azedo!

        Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
        à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
        de tudo

        No riso admirável de quem sabe e gosta
        ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

        Mário Cesariny






Nome: Noami Campbell
Nacionalidade: Inglaterra






Todos os meses que começam num Domingo tem uma Sexta-Feira, 13


Fonte: aqui




Concluído o texto, Robinson, depois de acender um cigarro, leu-o, amarfanhou-o a seguir e atirou-o para o cesto de papeis. O seu semblante era o de um homem triste, convicto de que havia falhado.

E disse de si para consigo:

«Estou metido numa complicação dos diabos – não sei onde estou, nem tenho a certeza de ser gente ou animal ou coisa. Estranho ao mundo, indiferente à vida, perdido nalgum ponto do universo, prisioneiro por dentro e por fora, porventura louco, ou talvez nem isso. Sem substância, nem forma, nem atributos. Em suma: não existo, nem hipótese sou de coisa alguma.»

Entretanto, achando que estava a descambar para uma filosofia excêntrica, reminiscência talvez de algo que tivesse lido há muito tempo, suspendeu o monólogo e tornou à escrita.

Arménio Vieira in "No Inferno"



Siddhartha disse: O objetivo da existência é a iluminação. Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora.






Finalmente consegui vir ontem o filme "No Vale de Elah", realizado por Paul Haggis em 2007, com Tommy Lee Jones e Charlize Theron nos principais papeis. Um filme cru, duro, que fala da guerra do Iraque e da forma como esta está a dar cabo da cabeça e do equilíbrio mental de uma geração inteira de jovens americanos, que regressam daquele lugar com os nervos em franja, capazes de cometer as maiores atrocidades com um sorriso nos lábios.

Charlize Theron está irreconhecível e é o melhor elogio que se lhe pode fazer numa segura interpretação. Mas nesse aspecto destaca-se, sem dúvida, Tommy Lee Jones que domina todo o filme e define com o sua espantosa criação, toda a respiração da história.

Se tivesse que o definir, diria que é um filme sobre os Mantos de Silêncio. Do silêncio criado neste caso a propósito de uma guerra absurda e injustificável, mas que reflecte o peso insustentável do silêncio quando debaixo deste se escondem atrocidades, horrores, crimes, cumplicidades. O povo diz que depois da tempestade vem a bonança, mas sabe-se também que por debaixo de um manto de silêncio, se pode esconder e acumular um ruído insuportável. Que mais tarde ou mais cedo se irá manifestar. Nada pior do que varrer o lixo para debaixo do tapete, esconder esqueletos no armário ou enterrar cadáveres no quintal. O cheiro nauseabundo acabará sempre por se manifestar. E quando isso acontecer, o nojo vencerá mais uma batalha. 





Existe algum sinal preciso, algo como uma indicação cénica, que nos diga que mais vale estar calado, não dizer mais nada e simplesmente sair de cena?


À melhor resposta, ofereço um café



"Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, com que não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma senão da nossa; as dos outros são olhares, são gestos, são palavras, com a suposição de qualquer semelhança no fundo."

Fernando Pessoa