Crónica Desaforada

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O nosso maior pecado

1. O académico português José Luís Costa lembrou num texto que circulou nos últimos dias pelo Facebook, citando um argumento defendido por Arquimedes, que a primeira aprendizagem deve ser artística. Escreve que, entre outras necessidades primárias tantas vezes negligenciadas, a Cultura é sempre relegada para um segundo plano. Estamos cansados de saber isso. E com a recente vitória da direita alcançada nas últimas eleições legislativas portuguesas, já foi anunciado o fim do Ministério da Cultura, o que só vem demonstrar que, nos tempos que correm, cai sempre bem deitar em plenos ombros da classe artística alguma da responsabilidade pela situação de miséria que se vive hoje no chamado mundo civilizado.

2. Em vão temos lembrado que a cultura não é um luxo, mas sim um bem essencial. Mas ninguém quer saber disso para nada. Temo, sinceramente, que quando a crise bater a sério no mítico portão das nossas ilhas, as boas intenções do novel Ministro da Cultura cabo-verdiano sejam as primeiras a esfumar-se, de forma rápida e impiedosa. E se quisermos pegar no assunto pela vertente dominadora, a económica, facilmente poderemos lembrar que inúmeros estudos já foram feitos, que está mais do que provado, sobre as mais valias que as actividades ligadas à criação e produção cultural trazem ao bolo que mede a riqueza global de uma Nação. Mas compreende-se que assim seja, na medida em que ninguém terá vontade de ouvir uma música, ir a um concerto, ter um quadro em casa, ver uma peça de teatro, ler um bom livro, participar de alguma tertúlia, se depois, uma vez regressado a casa, se abrir a torneira e de lá não sair nenhuma gota de água que nos possa ajudar. Lavar a alma é bom. É essencial. Mas se estivermos a cheirar mal por falta de banho, não há poesia que aguente.

3. Continuo a defender que é em tempos de crise que se justifica ainda mais uma investimento sério, sustentado e seriamente programado na área cultural. A produtividade colectiva depende do bem-estar individual, não há como fugir desta evidência. O combate à exclusão social, à pobreza, ao preconceito, à xenofobia, à violência urbana, tem no campo artístico um poderoso aliado. Há infindáveis histórias de programas sociais ligados ao teatro, à música, às artes plásticas, que foram alavancas de combate contra todos os males sociais que alastram a grande maioria das grandes cidades neste planeta. Mesmo perante estes exemplos, a sensação que fica é que continuamos a assobiar para o lado, a olhar de soslaio esses seres extravagantes e parasitas chamados artistas, que o são porque, muito provavelmente, não tem mais nada em que ocupar o seu precioso tempo.

4. Nas favelas do Rio de Janeiro, o Grupo Cultural AfroReggae, fundado em 1993, foi criado para transformar a realidade de jovens moradores de favelas, utilizando a educação, a arte e a cultura como instrumentos de inserção social. Hoje, são uma organização gigantesca, conhecida em todo o mundo, que se dedica, entre muitos outros projectos, a exportar aquilo que auto-intitularam de tecnologia social. Tem mostrado, ao longo destes anos, o quanto é possível, através da educação e da criação artística, mudar pequenos mundos para desta forma contribuir para um planeta mais saudável. Quando a 29 de Agosto de 1993 ocorreu uma chacina na favela de Vigário Geral, na qual 21 moradores inocentes foram assassinados, os produtores desta ONG chegaram à favela oferecendo oficinas de percussão, capoeira, reciclagem de lixo e dança afro para os moradores da comunidade. Desde então, não tem parado e os resultados falam por si: um investimento brutal no potencial de jovens favelados, levando a educação, cultura e arte a territórios marcados pela violência policial e pelo narcotráfico.

5. Quando ouço, quase diariamente, notícias locais sobre violência em bairros da Praia ou do Mindelo, entre jovens e policias, entre gangs rivais, ou de violência gratuita de jovens alcoolizados que deambulam pela cidade provocando danos morais e materiais em cidadãos incautos, imediatamente me recordo da visita que fiz às comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, vizinhas, rivais, com historiais de guerras tão tremendas que são separadas por uma ampla rua dividida por um muro cravado de balas, testemunhos de batalhas passadas, a que deram o simbólico nome de Faixa de Gaza. Nessa visita, fomos aos centros promovidos pelo AfroReggae, conhecemos estúdios de gravação, assistimos a demonstrações de dança e de bateria carnavalesca, visitamos centros de informática, participamos de aulas de capoeira e ateliers de teatro, tudo isto com a violência extrema como vizinha. Muito desta trabalho está documentado. Em filmes, em depoimentos, em relatórios, em estudos académicos. Continuamos a ver e a encarar a violência urbana dominados pelo célebre ditame olho por olho dente por dente. Hoje em dia à violência o Estado apenas tem a repressão como moeda de troca.

6. Podemos achar muita piada aos agora célebres Ninjas da Policia Nacional, que andam desvairados pela cidade à procura de apanhar delinquentes com a boca na botija como quem anda caçando gambozinos. Podemos ficar horrorizados, como foi o meu caso, quando soube de um ataque à catanada de um gang do Mindelo contra um outro rapaz, supostamente aderente de um gang rival, acontecido em pleno centro da cidade, num complexo tido como uns dos locais mais luxuosos do Mindelo, na mesma hora em que nesse mesmo sítio decorria uma festa de crianças e adolescentes, alusivo ao Dia Mundial da Criança, e onde, entre muitas outras pessoas, se encontrava a minha filha de 13 anos. Podemos continuar a chorar a morte de crianças inocentes vitimas de balas perdidas resultantes de confrontos entre gangs e policias locais, ou entre gangs rivais. Podemos continuar a pensar que a repressão, pura e simples, é a solução final e única para um problema social que é muito mais vasto, muito mais complexo, muito mais abrangente, do que tantas vezes parece à primeira vista, se tivermos apenas em conta os ecos da comunicação social ou as declarações dos nossos responsáveis políticos.

7. Esse é, o nosso maior erro, o nosso maior pecado. Por enquanto que não alterarmos esta mentalidade mesquinha, esta forma leviana como encaramos a educação e a criação artística, não iremos a lado nenhum, continuaremos a aplaudir a prisão de cada um desses delinquentes juvenis, sem perceber que quando um vai para o xadrez, mais dois ou três surgem criados desse tremendo caldo social em que estamos atolados. O mal é genérico e está alastrado a todas as classes, incluindo a classe que de forma mais imediata é responsável pela educação das nossas crianças e jovens. São raros os professores, educadores, responsáveis de liceus ou de institutos universitários que promovam a educação artística, mais ainda quando ela é sugerida como actividade extra-curricular. Não se promovem concursos artísticos nas escolas, não se incentivam idas ao teatro ou a concertos de música, não se investe no desenvolvimento de capacidades cognitivas resultantes de um visionamento de uma qualquer obra de arte. Por enquanto que a cultura, a criação e a educação artística continuarem a ser vistas por todos como uma actividade marginal, estaremos a contribuir, de forma decisiva e cumulativa, para a sociedade violenta que nos bate à porta quase todos os dias.




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3 comentários:

artur disse...

POIS É, ACHO MESMO QUE É AI QUE ENTRA A EDUCAÇÃO E A CULTURA, EXACTAMENTE ONDE ENTRAM AS COISAS QUE DÃO LUGAR À REVOLTA DESMEDIDA QUE POR SUA VEZ, GERALMENTE, ORIGINA A CRIMINALIDADE E A VIOLÊNCIA E, QUEM SENTE A DESUMANIDADE DA HABITAÇÃO E VIDA PRECÁRIA QUE SE VIVE NOS BAIRROS ONDE MAIS NASCEM OS MAIS VIOLENTOS, OS MAIS CRIMINOSOS ETC E TAMBÉM OS MAIS OPRIMIDOS SOCIALMENTE É BOM QUE SE DIGA TAMBÉM, COM UMA PITADA A MAIS DE EDUCAÇÃO, DE ARTE, DE MUSICA OU DESPORTO PODE OCUPAR O LUGAR DA SUA REVOLTA EXAGERADA COM O BEM ESTAR QUE A COMPREENSÃO PELA EDUCAÇÃO NOS DÁ, O SABOR QUE SENTIMOS PELA ARTE, PELO TEATRO, PELA MUSICA, PELO DESPORTO ETC, ACREDITO SIM, SEM ESQUECER A REVOLTA ANTE O QUE É REVOLTANTE MAS OPTAR POR OUTRAS FORMAS DE LUTA, QUE O FACTO DE ESTAR NUM GRUPO, SEJA DE TEATRO, MUSICA, DESPORTO OU MESMO O GRUPO DA ESCOLA JÁ É UM ENORME PASSO, POIS O QUE NOS FALTA MAIS NA HORA DE LUTA É O SENTIMENTO DE TERMOS UM GRUPO DE LUTA, ENFIM, UNIDADE E LUTA, CABRAL DISSE... POR HORA ESTOU SEM TEMPO PRA DIZER MAIS...ARTUR SANCHES

Caboverdiano disse...

Olá JB!

Quero agradecer-te por estas linhas. Venho defendendo os mesmos ideais quanto a integração da nossa juventude em actividades culturais (e desportivas) como forma de combater certos males que neste momento pesam sobre CV. Tu, com a tua experiência na área da cultura, estás bem posicionado para escrever um artigo do tipo e felicito-te por tal bravura. Sim bravura porque como disseste, muitos assobiam para o lado, quando deveriam e poderiam ajudar e muito. E se calhar continuam a assobiar quando alguém como tu escreve um artigo destes. Gostei também do comentário do Artur, porque vejo que existe ainda gente nesta terra capaz de pensar com o coração. Mais uma vez, muito obrigado por escreveres esta crónica. Eles hão de escutar, um dia. Por hora façamos que nem agua mole. É continuar a bater nesta pedra dura.

Ariane Morais-Abreu disse...

Concordo plenamente...