Declaração Cafeana

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Hoje, fui assistir a um encontro entre jovens alunos de escolas secundárias de vários liceus, promovido pela actriz e também professora Patrícia Silva, no sentido de preparar uma performance para a abertura da próxima edição do festival Mindelact 2011. Mas isso não é o mais interessante. Patrícia já tinha um projecto de teatro num dos liceus da ilha, mas ao que parece na peça apresentada ao público alguns dos jovens utilizaram linguagem considerada "pouco apropriada" e o grupo de teatro passou a ser visto com outros olhos por quem de direito. Não sei precisamente o quê e o como, mas pareceu-me excessivo que algo tão interessante pudesse ter terminado por uma situação tão banal, como se os nossos jovens, em tantas alturas do seu dia-a-dia, não utilizassem essa mesma linguagem considerada "pouco apropriada" e, mais ainda, como se não fosse também a missão da arte cénica colocar no palco alguns dos males sociais que nos invadem, para que, perante o espelho, a sociedade possa acordar para certas realidades. 

Mas o que mais me chamou atenção foi o elevado número de participantes no referido encontro, várias dezenas, e se não me engano, os quatro liceus existentes hoje no Mindelo estavam representados. Jovens que de livre e expontânea vontade, vão sacrificar parte das suas férias para entrar, de corpo e alma, nesta aventura. Sangue novo, ideias novas, grupos novos, espalhando teatro pelos quatro cantos da ilha. Aplausos, pois.

No mesmo dia, passando pela Praça D. Luís, num Sábado calorento, um grupo de jovens, numa instalação criada para o efeito e que cobriu toda a (grande) extensão desse espaço público, pintava, enquanto que em tendas montadas para o efeito, crianças se dedicavam igualmente à pintura e ao desenho, se não estou em erro num concurso de artes plásticas patrocinado por uma marca nacional de tintas,  cujo enquadramento preciso não conheço, mas que deu um colorido fantástico num lugar que, por regra, é cinzento e pouco frequentado.

Dias antes, fui à Escola Jorge Barbosa para assistir a um ensaio do coro daquele estabelecimento de ensino. Fomos muito bem recebidos pelo responsável do grupo, o professor Valério, e uma vez na sala nos deparamos igualmente com um número muito razoável de jovens, de várias faixas etárias, que ali estavam, perto das oito horas da noite para... cantar. E feito o primeiro e rápido aquecimento de voz, tive oportunidade de ouvir uma versão coral da música de Orlando Pantera, Regasu, que pura e simplesmente, deixou todo o meu corpo arrepiado. Arranjo vocal em três tons fantástico, afinação rigorosa, resultado final deslumbrante. Sai de alma nova.

Estes acontecimentos tem dois pontos coincidentes, no mínimo: acontecem na cidade do Mindelo e envolvem jovens adolescentes. Muitos outros grupos ligados a teatro, dança, artes plásticas ou música vão nascendo, ligados a Igrejas, instituições, escolas ou por iniciativa dos próprios, em vários bairros da cidade. A cidade pulsa e as novas gerações preparam-se para acordar a cidade. Ali, na Praça Nova, aquela ruína que foi um dia a mais antiga e emblemática sala de espectáculos do país, assiste a estes acontecimentos, impávida e serena.

Nem tudo é podre no reino da Dinamarca.



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8 comentários:

Anónimo disse...

mercy joao...bjos paty

Tchale Figueira disse...

João tudo que escreves aqui neste post é bom e positivo, mas creio que por crianças em concurso de pintura ou outras coisas pode baralhar as suas lindas cabecinhas... Penso eu de que!!! Depois há uns que pensam: O OUTRO E MELHOR ETC ETC ... a pedagogia é uma cois muito séria.

JB disse...

Eu entendo o teu ponto de vista. Mas ainda agora, bem no final da tarde, passei por lá e a praça nunca este tão linda, com muitos jovens pintando, outros assistindo, dando um colorido e uma vida que nunca teve. Gostei!

Anónimo disse...

mas porquê chamar o reino da Dinamarca? quero deixar aqui o meu vivo protesto, pois chamar a Dinamarca de podre é um isulto a esse país. lembro que existe no reino em questão um numero razoavel de emigrantes destas ilhas. falemos dos nosso problemas (e dos nossos sucessos) sem envolver nomes de paises terceiros!
deputado da nação

JB disse...

Senhor deputado da nação, a expressão é clássica e tem a sua origem na mais conhecida peça de Shakespeare, Hamlet.

Principe Hamlet, o personagem título, é filho do rei da Dinamarca, que também se chamava Hamlet. Ele é um estudante na escola de Wittenberg. Ele é encarregado pelo fantasma de seu pai para vingar seu assassinato. Hamlet finalmente o faz, mas somente após o resto da família real ter sido liquidada e ele mesmo ter sido mortalmente ferido com um florete envenenado por Laertes no fim da peça.

Ou seja, tem algo podre, significa as TRAIÇOES e assassinatos que ocorrem na Dinamarca, na concepçao de Shakespeare.

Dizer que "nem tudo está podre no Reino da Dinamarca", passou a ser um expressão utilizada para simbolizar alguma esperança, contrária à expressão utilizada por Hamlet na peça referida.

Cumprimentos

Anónimo disse...

;) agradeço o seu pronto e sério esclarecimento. aproveito para informar que algo similar aconteceu na nossa casa parlamentar, ainda na década de noventa, quando um afoito e jovem deputado da nação do partido, na altura no poder, pediu a palavra para protestar contra as declarações de um outro deputado que findou o seu breve discurso com a famosa frase “algo vai mal no reino da dinamarca”. é uma das muitas estórias do nosso ilustre parlamento.
deputado da nação.

Anónimo disse...

digo "algo está podre no reino da dinamarca".
deputado da nação.

JB disse...

Muito interessante! Obrigado pela partilha!