Voltou à hora do almoço. Cruzou a porta da cozinha e foi direto ao fogão vasculhar as panelas.

Constatou desapontado que a comida estava fria. Pudera, já eram quase duas da tarde... Que esquentasse, então. Do armário apanhou o fósforo (como sempre escondido prudentemente atrás da lata de açúcar). “Isto na mão de criança é um perigo.”

A requentar o almoço, sentou-se na velha cadeira e, depois de acender um cigarro, pegou a garrafa térmica, com a qual encheu um copo de café.

Levou-o à boca. Nem bem sorveu, cuspiu o café frio.
– Quantas vezes falei pra fechar bem esta garrafa?!

Imóvel no limiar da cozinha, a esposa não sabia o que responder. Estava tão perplexa quanto o filho de doze anos que a agarrava pela cintura, olhando aquele homem com um misto de temor e curiosidade.

Natural, porém, que o garoto não se lembrasse do próprio pai. Afinal, não o viam há quase dez anos. Desde a manhã em que ele saiu por aquela mesma cozinha, com o pretexto de ir à padaria comprar um maço de cigarros.

Wilson Gorj (link)







«Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.»


Vinicius de Moraes







Há dias assim em que nem mesmo o horóscopo nos facilita as coisas. A vida também tem o seu lado de dentro, aquele mundo infinito em que somos ilha e abismo, em que procuramos milagres que justifiquem a nossa existência, aqueles momentos em que nos fragmentamos e, dito assim num lugar como este, dias em que ficamos mais pequenos, ridículos, quiçá humanos.

Hoje é o dia em que, ao que parece, a acreditar no que vem no Facebook, a Lua em Conjunção com Mercúrio traz tendência para a má disposição, o que pode vir a tornar confusos os meus pensamentos racionais e práticos que, pela natureza poética e inconformista, já de si tem pouco de racionais e práticos.

Os pensamentos levam-me para outros caminhos e aproveitando a folga do meio da semana, sem semanários a jorrar o seu veneno - verde ou amarelo, pouco importa - em doses cavalares, já que estamos a entrar na época alta de injúria e maledicência, só apetece ler Clarice que nasceu num navio no meio do mar e, ao que se sabe, escreveu muito mais sobre o dentro do que sobre o fora.

A minha ilha é a minha alma, o meu percurso a poesia que faço questão de visitar como quem toma o café da manhã. A solidão é mais assustadora quando em pleno calor de Verão só vemos gente à nossa volta. E estamos sós porque há dias assim, em que temos que olhar para dentro, nos rasgar um pouco, como um pedaço de espelho que brilha e se encontra connosco, lembrando o quanto pode ser bom atravessar milagres e tentar, ao menos isso, ser feliz. 

Se não entenderam nada, a culpa é do horóscopo do dia...








«O discurso legitimador comummente veiculado a propósito da representação social do cabo-verdiano redunda, quase invariavelmente, em devaneios narcisistas que prestam tributo à singularidade do “povo das ilhas”, à sua morabeza, à sua excepcionalidade na relação com o “outro” e a particularidades várias na “arte do bem receber”. Escusado será dizer que à esmagadora maioria das considerações que suportam tais conjecturas essencializantes, subjaz um substrato puramente retórico, panfletário e de auto-elogio umbiguista que fez escola, com relativo e atamancado êxito, em outras paragens.»

Suzano Costa - Politólogo


Nota: já agora, vale a pena ler o artigo completo, aqui.






«Sobre todos aqueles que ainda continuam tentando, Deus, derrama teu sol mais luminoso.»

Caio Fernando Abreu - escritor






Hernâni Almeida, compositor, instrumentista e director musical de múltiplos projectos da nova geração. Tem já um novo disco aí à venda e não se considera um homem do Jazz. Quanto ao resto, Hernâni  fala como toca: de forma directa e desconcertante.

Consideras que a tua música está dentro do que poderíamos chamar as fronteiras do Jazz - já de si muito largas - ou preferes não colocar qualquer etiqueta ao que fazes?

Hernâni Almeida: prefiro não colocar etiqueta, se bem que há na minha música o uso de improvisação e para isso é preciso ter o vocabulário jazzístico, para haver um discurso musical coerente.

Está bem, mas em que prateleira a gente poderia encontrar os teus discos numa Fnac, por exemplo?

Provavelmente encontrarão na secção do jazz, mas eu preferia que fosse em world music, é mais livre para mim. O jazz já pressupõe um pouco de swing, e eu detesto swing jazzístico no meu projecto, gosto nos outros, mas não enquadra no meu projecto.

Mas o que é isso, do swing jazzístico, explica melhor…

Tecnicamente falando, é o uso de colcheia pontuada com semicolcheia, uma frase rítmica que ao ser tocada, ainda por cima no contrabaixo ou na bateria, dá ao pessoal aquela vontade de estalar os dedos e seguir o ritmo!

Mas para quem não entende de música, como se pode definir essa sonoridade?

Não sei se explico bem, é complicado falar de música sem o demonstrar com o instrumento, é uma forma mais directa de tocar, as pessoas sentem logo.

Pois, mas é estranho, porque se há uma ideia que as pessoas tem do jazz é que faz muito uso de dissonantes e por vezes nem é muito fácil para o ouvido, nomeadamente no jazz contemporâneo. Não achas que a tua música se enquadra neste contexto sonoro?

Não, graças a deus que não. Pelo menos no meu próximo disco que já vai sair no mercado, fiz questão de não usar os acordes dissonantes, acho que estudei o jazz exactamente para evitar tocá-lo, não quero estar numa prateleira em que a maior parte das pessoas vão achar a minha música um tanto ou quanto chata de ouvir

O bom jazz nunca é chato...

Eu sei, mas a maior parte das pessoas não o sabem. Como te disse, não digo que não gosto, gosto muito de jazz. Tocado por outros, mas não por mim

Continuo completamente convencido que é o que mais fazes. Basta ouvir-te ou ver como tocas em palco. Se aquilo ali não é jazz tenho que ir rever todos os meus conceitos musicais...

Olha, às vezes estou em casa e dou por mim a tocar acordes dissonantes, mesmo fortes, mas passo por aí apenas como exercício. Quando volto para o meu projecto, prefiro resoluções mais naturais, pelo menos para já. Daqui a uns anos posso experimentar outras coisas. Seja como for, percebo perfeitamente o que dizes, e acredito que seja jazz se assim o consideras. Mas prefiro não pensar na minha música como jazz!

O que são resoluções naturais, falando de música?

Evitar acordes dissonantes que podem ferir a sensibilidade dos que não os conhecem! Se bem que há uma arte na composição que serve exactamente para pegar duma progressão harmónica forte e conseguir encontrar notas que ligam um acorde a outro para que possa soar natural…

Ok, vamos sair deste beco porque esta conversa está a ficar um pouco dissonante! Dizendo o que dizes sobre o jazz, achas que existe, hoje, um jazz cabo-verdiano?

Há uma banda de São Vicente que eu conheço e que fazem uma música que está mais dentro do jazz. A banda "OLINÔS", que tem como líder o saxofonista Swagato, e outros grandes músicos, como o Humberto Ramos. Eles sim, estão no jazz. De resto, penso que não!

Como definirias o trabalho do Princezito, por exemplo? Ou de um Vasco Martins no piano?

O Princesito, já o disse antes noutra entrevista, é um grande poeta, que usa a música como meio de transporte das suas belas palavras. Em relação ao Vasco, não acho que seja um jazzmen, sinto que é mais livre do que isso, até porque um músico da craveira dele dispensa completamente o tal swing de que falava à pouco, ele tem uma linguagem muito própria e muito poética. Eu vejo o jazz como um estado de espírito também, e penso que nem um nem outro evocam o espírito jazzístico.

Tu trabalhaste com muitos músicos da nova geração. Alguns inclusive tragicamente desaparecidos. Como vês a música que se produz actualmente em Cabo Verde?

Hum, por vezes acho que Cabo Verde está parado musicalmente, há muitos festivais, de jazz até, mas sinto que não se está a criar nada mas sim apenas a repetir o que já foi criado há anos na música, em termos melódicos ou de poesia! Os nossos artistas copiam os espectáculos dos outros, é muito difícil, por exemplo, vermos algo novo num espectáculo hoje em dia, estão todos tão concentrados em ser originais que não se dão conta que estão a ser iguais!

Qual é a tua opinião sobre o novo festival de jazz da Praia, por exemplo?

Penso que a ideia é excelente, já fazia falta algo assim no nosso país. É um festival diferente em comparação ao que se passa com os outros, dá-nos a oportunidade de ouvir um repertório diferente. Está ainda em crescimento, ainda não é um grande festival, mas está a crescer, estive lá a assistir em 2009, tive pena de não poder ver o último dia, mas fora um ou outro artista, achei engraçado!

Faltou lá o Hernâni Almeida, digo eu…

Não sei, às vezes dá-me a sensação de aquilo ser tipo uma feira em que os artistas vão se expor. Prefiro para já fazer os meus espectáculos, organizados pela minha equipa, pois assim tenho por certo que só vai lá estar a ouvir quem sabe o que vai ouvir. Participar nestes festivais também pode constituir um risco, o pessoal pode não estar à espera e ainda podem pensar "tirem lá este Hernâni do palco, queremos música como deve ser!”

O teu disco de estreia nasceu a partir de um investimento pessoal. Não tiveste produtora, pagaste tudo do teu bolso. Já dá lucro ou ainda estás a pagá-lo?

Já consegui pagar quase tudo, o disco está praticamente pago. Consegui vender em Cabo Verde mil discos em seis meses, agora tenho mais para vender mas não tem vendido muito, ainda estou à procura de uma forma de distribuição lá fora. Mas com esta crise mundial, as pessoas tem receio de investir em algo novo. Seja como for, continuo a procura até encontrar. Prefiro andar devagar, mas seguro e com os meus pés!

Continuas sem produtor próprio...

Já trabalho com Lutz Meyer Scheel que é o meu produtor executivo, mas falta ainda encontrar um tour manager e uma distribuição no exterior. Mas o Lutz é mais um amigo que um produtor.

Quantas horas praticas por dia?

Pratico sempre que estou acordado. Não apenas na guitarra, pratico mentalmente, ando na rua, por exemplo, a pensar "hum, se eu juntar este acorde com aquela melodia, vai soar assim, hum, muito bom, se eu fizer assim vai ficar assim, boa!", e vou ouvindo as ideias que me passam pela cabeça enquanto ando neste mundo. Por vezes, tenho uma ideia bonita, e para não me esquecer, corro para casa para toca-la na guitarra.

Qual foi o último disco que compraste?

“The sixteen men of tain" de Allan Holdsworth.





A vitória fica-vos tão bem...







Dentro de toda a trapalhada que envolve a avaliação da classe médica e a posterior anulação do concurso pelo Ministério da Saúde, exigida pelos próprios médicos desde 1995 para um progressão mais justa na carreira (o  concurso, bem entendido), a mais espantosa constatação é-nos dada pelo próprio titular da pasta que conclui, lá bem do alto da sua imensa sabedoria: «não tenho necessidade de avançar com os resultados do concurso se os beneficiários não ficaram satisfeitos», justificando desta forma directa e algo ortodoxa o facto de não ter homologado o que tanto tempo demorou a preparar.

É realmente um fantástico argumento e só tenho pena que não seja espalhado por todos os outros quadrantes da governação no sentido de que o Estado só passaria a aceitar concursos e exames às carreiras profissionais se e quando estes forem «satisfatórios» para quem está a ser avaliado! Assim, só a título de exemplo, não me parece justo, fazendo a respectiva analogia, que os estabelecimentos de ensino publiquem as classificações das diversas disciplinas se nelas constarem notas negativas. Quem é que vai ficar satisfeito com tal afronta? Mais vale passar todo o pessoal como quem não quer a coisa, como parece que se quer fazer agora por terras lusas. Festa por festa, vamos lá satisfazer a malta, que é o que faz falta em tempos de crise.

Bem que o senhor ministro avisou que a não homologação do concurso não implica a colocação em causa o trabalho do júri que o controlou e aprovou (muito menos uma desautorização!) e menos ainda um sinal de receio em relação aos médicos. É o que nos vale! Ter malta desta no Governo, cheia de coragem, com os ditos cujos no sítio, para aplicar as medidas que, efectivamente, interessam a todos. O maior problema deste imbróglio é que normalmente neste tipo de questões existem sempre gregos e troianos e como estamos cansados de saber, agradar a ambos é algo que nem um ministro bem intencionado como este será capaz de levar a bom porto. Haja saúde!








«Os partidos trancaram a sociedade num quarto escuro e obrigam-nos a conviver com os seus gritos.»

Abraão Vicente - artista plástico







Um orgasmo é um princípio do fim ou um fim de um princípio?

À melhor resposta, ofereço um café









Espero não ser mal interpretado, mas cá vai: ao que parece o meu nome consta mesmo no Boletim Oficial onde se referem as personalidades da área da cultura que foram condecoradas recentemente pela Presidência da República de Cabo Verde. No domínio das artes cénicas fui condecorado com a medalha de 1ª Classe da Ordem do Vulcão juntamente com o encenador Francisco Fragoso e Manú Preto, coreógrafo e director artístico do Raiz di Pólon.

Devo dizer, em primeiro lugar, que me sinto duplamente honrado: por se terem lembrado de mim como merecedor de tais honrarias, e pelos dois nomes referidos, em cuja companhia me sinto muito bem por serem ambas pessoas que conheço e que admiro.

Peço desculpa por não ter ido à cerimónia de entrega das condecorações que, pelos vistos, decorreu aqui na cidade do Mindelo na última segunda-feira, porque para falar a verdade ainda ninguém me informou oficiosa, formal ou sequer informalmente que havia sido condecorado com uma das mais altas distinções da Nação Cabo-verdiana. Portanto, oficiosa, formal e informalmente não posso dizer que tenha tomado conhecimento da honra que me coube em direito e muito menos faria sentido aparecer no Palácio do Povo na Rua de Lisboa sem ter sido convidado (ou convocado) nem que me fosse permitido levar os dois acompanhantes da praxe nestas ocasiões.

Isto tudo para vos dizer, mais do que para me por em bicos de pés, que agradeço e me sinto honrado e que a minha não comparência em tão solene acto se deveu, única e exclusivamente, ao facto de não ter sido convidado e/ou informado por ninguém da Presidência, apesar de me encontrar a poucos metros do local de onde decorreu a cerimónia. Para que não haja nenhuma pessoa mal informada, a começar pelo próprio Presidente da República, cujo punho assina o decreto que me concede tamanha distinção, a pensar que eu sou algum ingrato ou um grande mal educado. Porque isso é coisa que eu não sou.







«No meio da aflição subjectiva de sobreviver nesta cidade, neste país, neste planeta, neste tempo - ando também bastante sereno. Acho.»


Caio Fernando Abreu - escritor

Fotografia de Gregory Colbert







«Não há um Palácio para a Cultura, mas temos o actual museu do artesanato a cair aos pedaços, uma fantástica sala de cinema abandonada à sorte, dois ou três pequenos auditórios sem manutenção. Mas como somos ricos, aliás muito ricos, abandonamos tudo isso e fazemos um Palácio. É claro que quando este também já não servir por má gestão e falta de conservação, faremos outro ainda maior e mais caro, e depois outro e outro, até termos entre nós o Reino da Cultura, semeado de Palácios e Criadores.»

Paulo - comentário publicado no Café de Memória Futura






"Estamos a preparar o projecto para a construção de um grande palácio da cultura em S. Vicente, com auditórios e espaços para valorizar toda a dinâmica cultural da ilha."

José Maria Neves - entrevista ao A Nação de 29 de Julho de 2010



Nota Cafeana: em tempos de pré-campanha eleitoral, inauguramos esta nova secção do Café Margoso, porque certamente iremos ouvir muitas coisas em forma de promessa. Esta pareceu-me uma boa forma de começar...







A compra de um carro


Contribuinte - Gostava de comprar um carro.
Estado - Muito bem. Faça o favor de escolher.
Contribuinte - Já escolhi. Tenho que pagar alguma coisa?
Estado - Sim. De acordo com o valor do carro (IVA).
Contribuinte - Ah. Só isso.
Estado – Sim. E mais o imposto automóvel (IA).
Contribuinte – Dois impostos sobre a mesma coisa?
Estado – Quer comprar um automóvel, não é? Então paga Imposto Automóvel. Qual é a dúvida?
Contribuinte – Ah!
Estado - E uma "coisinha" para o pôr a circular (selo).
Contribuinte - Ah!
Estado - E mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule (ISP).
Contribuinte - Mas sem gasolina eu não circulo.
Estado - Eu sei.
Contribuinte - Mas eu já pago para circular.
Estado - Claro.
Contribuinte - E vai cobrar-me pelo valor da gasolina?
Estado - Também. Mas isso é o IVA. O ISP é outra coisa diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Muito. O ISP é porque a gasolina existe.
Contribuinte - Porque existe?
Estado - Há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petróleo. E você paga.
Contribuinte - Só isso?
Estado - Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.
Contribuinte - Então?
Estado - Tem que pagar para o estacionar.
Contribuinte - Para o estacionar?
Estado - Exacto.
Contribuinte - Portanto pago para andar e pago para estar parado?
Estado - Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.
Contribuinte - Então pago para circular, pago para conseguir circular e pago por estar parado.
Estado - Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte - Novo?
Estado - É que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.
Contribuinte - Pago para você ver se pode cobrar?
Estado - Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...
Contribuinte - Mais uma coisinha?
Estado - Para circular em auto-estradas.
Contribuinte - Mas eu já pago imposto de circulação.
Estado - Mas esta é uma circulação diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.
Contribuinte - Só mais isso?
Estado - Sim. Só mais isso. Paga 25 euros.
Contribuinte - E acabou?
Estado - Sim. Depois de pagar os 25 euros acabou.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros que custa pagar para ter uma coisa para andar nas auto-estradas.
Contribuinte - Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?
Estado - Sim. Mas todos pagam os 25 euros.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros é quanto custa essa coisa.
Contribuinte - Custa o quê?
Estado - Pagar.
Contribuinte - Custa pagar?
Estado - Sim. Pagar custa 25 euros.
Contribuinte - Pagar custa 25 euros?
Estado - Sim. Paga 25 euros para pagar.
Contribuinte - Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado – Isso é o que você pensa. Imagine que um dia quer... tem que pagar.
Contribuinte - Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?
Estado - Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.
Contribuinte - E se eu não quiser?
Estado - Paga multa.


Recebido por e-mail






Identidade
 
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



Não sei porquê, mas este poema combina com este filme...






Em Agosto o país entra em férias, mas a igallery continua aberta para acolher mais uma exposição. Desta vez uma série de esboços/ experiências do que virá a ser uma exposição em grandes dimensões: sketches for “freedom fighters collection” são um conjunto de 15 peças feitas à base de serigrafia e acrílico da autoria de Abraão Vicente. Apenas uma parte dos freedom fighters estão presentes nesse lote de experimentações. A expo estará aberta ao público a partir de segunda feira, 2 de Agosto. Venham pois degustar livros e imagens.









Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 






No momento em que assistimos a essa coisa sinistra a que se resolveu dar o nome de debate sobre o estado da nação, não se tem a nítida sensação de que estão a gozar com a nossa cara (uns e outros)?

À melhor resposta, ofereço um café









"No dia seguinte ninguém morreu."

José Saramago - As Intermitências da Morte (grande, grande livro!)