Dôs com Vasco Martins

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Dôs com Vasco Martins


Conversa com Vasco Martins, instrumentista versátil de raros recursos, e o único compositor de música sinfónica em actividade em Cabo Verde, com uma vastíssima obra, reconhecida de há muito internacionalmente. Muito discreto, raramente dá entrevistas e desta vez, em pleno Monte Verde, não hesitou em abrir a alma e mostrar um pouco mais do seu lado de homem e artista. Um precioso testemunho para se entender como é possível que num país como o nosso, um génio orquestrador se possa revelar, numa inspiração rara que mistura ritmos, pedras, mar, natureza e uma forma muito peculiar de estar na vida e no mundo da criação artística.

O PAPEL DO ESTADO

Que perspectivas é que tens em relação ao novo Ministério da Cultura, tendo em conta que quem está à frente da tutela é um teu colega de profissão e amigo pessoal? Achas que pode deixar a sua marca?

Vasco Martins: Eu e o Mário Lúcio somos amigos. E a partir daí, tudo o que eu possa dizer vem também do coração. Mas por aquilo que eu sei, até porque já falamos muito sobre estes assuntos, ele quer fazer muita coisa, está a avançar em muitos projectos. O Mário Lúcio viveu na pele a problemática do que é ser artista em Cabo Verde e agora que está na posição de ministro sabe perfeitamente o que é preciso fazer. É disso que estamos todos à espera.

E o que te parece que é mais urgente que seja feito no domínio da politica cultural? Qual deve ser, afinal, o papel do Estado no desenvolvimento cultural de um pais como Cabo Verde?

É a velha questão que se coloca praticamente desde a nossa independência. Acredito que a intervenção do Estado deva ser feita em três domínios principais: primeiro na educação, nomeadamente na educação artística. Depois, numa intervenção nos meios de promoção e divulgação das pessoas que já tem obra, que precisa de ser divulgada e, sobretudo, muito mais promovida. Finalmente, a questão dos direitos de autor, que é bastante delicada porque somos um pais com parcos recursos. Aí, como noutros domínios, penso que o Estado deve intervir. Deve ter sempre um papel motor fornecendo energia de ordem económica mas também moral. Uma outra questão é a dos concertos, isto no domínio da música. Cabo Verde é tão pequeno que não faz sentido não extrapolar para fora todas as energias criativas dos bons projectos que tem sido feitos e desenvolvidos cá dentro. Por exemplo, lembro-me do caso da Finlândia, até porque sou um grande admirador do compositor Sibélius, que logo depois da sua independência, investiu fortemente durante muitos anos na promoção e divulgação da sua música no estrangeiro, não só sinfónica mas também popular, em países da Europa e também nos Estados Unidos da América.

ORÇAMENTO PARA A CULTURA MAGRO

Que é o que faz o Brasil hoje...

Exactamente, o Brasil aposta fortemente na divulgação da sua música no exterior, com os resultados que estão à vista de todos.

Costumamos dizer que Cabo Verde é muito conhecido lá fora, sobretudo por causa da sua música, mas esse é um esforço que tem sido feito pelos próprios produtores e músicos. Aí, o Estado tem tido uma intervenção reduzida e a dificuldade no aparecimento de novos valores e na sua divulgação acaba por ser muito maior...

Para já penso que tem que haver um maior orçamento para a Cultura. Ouvi dizer que neste momento está em 1% do bolo orçamental e eu considero que isso é muito pouco. Tem que haver mais meios económicos, mais meios humanos, para extrapolar tudo isto, não só dentro do pais, como também no estrangeiro.

Podemos pensar no teu próprio percurso, não é? Estamos num país que, apesar de relativamente jovem, apenas tem um único compositor de música erudita ou sinfónica. Isso não é um comprovativo do acto falhado que tem sido a educação artística de base no arquipélago, o facto de tantos anos depois ainda seres uma espécie de pregador no deserto no que diz respeito a essa vertente musical?

Eu faço música sinfónica porque razão? Se Cabo Verde tivesse uma orquestra sinfónica, se houvesse um público, uma rádio que transmitisse música clássica sem ser nos enterros, poderíamos compreender o meu trajecto. O meu trajecto, na verdade, é muito individual, muito meu. E também por isso não me considero um exemplo. Tendo um pais como este, até parece surrealista e algo louco que haja aqui um compositor sinfónico. O certo é que há, mas foi um caminho solitário.

ARISTIDES PEREIRA, O MECENAS

Não és um exemplo, mas o teu caso deve ser visto com atenção. Foste criado por ti próprio, não pelas condições onde estás inserido.

A história vem de trás. Quando tinha vinte e poucos anos lancei uma cassete artesanal no Daniel Vitória. Ele tinha por hábito na época fazer esse género de gravações com música de baile, como com os Kinkgs, por exemplo, música revolucionária, música acústica. Ele também gostava muito de música clássica e um dia ouviu-me tocar. Disse-me, “Vasco, vamos fazer uma cassete!”. E gravamos num piano vertical, que depois o Chico Serra acabaria por adquirir para o seu piano bar. A venda dessa cassete rendeu oito contos e tal, o que era bastante dinheiro em 1976. O Daniel Vitória não quis saber de ficar com o dinheiro e eu pude comprar um piano alemão para mim, graças a ele. Essa primeira cassete, que tinha o nome pomposo “De Quando Nasce o Homem”, foi parar não sei como às mãos do Presidente Aristides Pereira. Um dia o Daniel Vitória chamou-me e disse-me que o Aristides Pereira gostaria de conhecer-me porque levava sempre essa cassete para ouvir nas viagens dele. É importante que se diga que o Presidente Aristides Pereira na época foi aquilo que nós designamos hoje um mecenas, e não foi só para mim. Foi um mecenas para muitos artistas cabo-verdianos. Organizamos então um sarau em casa do Djosa Marques, onde estava o Aristides Pereira, a esposa, o Abílio Duarte. Ele ficou encantado quando me ouviu tocar e disse-me “eu quero ajudar-te. Como é que posso fazê-lo?”. E eu disse-lhe, “preciso de papel de música”. E todos os meses, durante algum tempo, recebi através do banco dois contos que me permitia não só comprar papel de música, mas também mandar buscar livros de piano em Portugal e outros materiais. Portanto, foi alguém com um pensamento de Estado, porque o Aristides Pereira era um homem de Estado, um mecenas, um melómano, que me resolveu apoiar quando estava a começar. Não só a mim, mas muitos outros artistas. Isso deu-me uma grande força moral.

E houve mais contactos com o Presidente Aristides Pereira?

Sim, houve sim. Quando o Presidente recebeu um piano novo convidou-me, tinha eu vinte e dois anos, juntamente com a Tututa, para darmos um concerto íntimo em homenagem ao Presidente Senghor, que estava de visita a Cabo Verde. Entretanto, o jantar demorou mais que o previsto e o concerto acabou por ser cancelado. No dia seguinte, eu e a Tututa, como não demos concerto, quisemos tocar para nós, para pelo menos poder estrear aquele belo piano (risos). Eu toquei, ela tocou. Tocávamos a quatro mãos, divertidos, ela sempre do lado esquerdo porque tinha uma mão esquerda incrível, eu do lado direito a improvisar. O Presidente Aristides, ouviu, foi à sala e imediatamente organizou um concerto íntimo para aquela mesma noite com alguns convidados, onde com a Tututa estreamos o tal piano, agora oficialmente. Isto é bonito, sabes?

É uma bela história.

Esta é a minha história, compreendes? Quando eu saí do grupo Colá, fiz questão de escrever na acta: “saio porque quero ser sinfonista.” E assinei o meu nome. E aí começou a minha viagem.

FALTA DE SEGUIDORES

Vasco, porque é que não há seguidores? Mais compositores que se interessem por música sinfónica? Porque é que não há sequer uma pequena orquestra de câmara em Cabo Verde, que se auto-intitula tantas vezes um país musical? O que falta para construirmos canais de ligação entre os jovens e a chamada música clássica?

Tendo Cabo Verde como referência, conhecendo a nossa realidade, é difícil aparecer mais gente na área. Mas por vezes, pergunto a mim próprio se não serei um pouco culpado, por nesses vinte e cinco anos que estou por cá não ter também incidido mais a minha acção na educação e nas energias da acção. Por exemplo, organizar uma orquestra, uma escola, isso são acções. Não havia professores, temos que ir buscá-los, numa primeira fase. O que se passa é que, por temperamento, nunca estive muito voltado para esse género de acção. Por outro lado, também podemos compreender que se eu gastasse as minhas energias a fazer isso, não teria conseguido fazer o que fiz. Não teria tido tempo para fazer as nove sinfonias, a música de câmara, as Danças de Câncer, os concertos para piano, os concertos para violino. Olha, em França, o meu professor de composição avisou-me, “ninguém dá trabalho a um compositor, mas se tu estudares etno-musicologia certamente terás emprego.” Ouvi o conselho dele. Ao mesmo tempo que estudava composição, também estudei etno-musicologia e foi nessa última condição que regressei a Cabo Verde. Pouca gente sabe disso, até porque ninguém mo perguntou, mas eu desde 1986 que sou funcionário do Estado de Cabo Verde. Faço o trabalho de investigação sobre a música de Cabo Verde, publiquei o livro sobre a morna e isso também deu-me tempo para compor. Foi graças ao Estado, a essa minha condição de funcionário público, que consegui fazer o que fiz. Dai a minha gratidão a este país.

Não sentes a necessidade de, além da tua arte, dar algo mais em troca? Partilhar o teu conhecimento, conseguir criar algum discípulo nessa vertente da composição?

Na verdade, a única pessoa que encontrei durante todo este tempo realmente interessada em aprender composição e orquestração foi o Voginha. Nomeadamente, para aplicar esses conhecimentos na vertente do jazz ou da música mais tradicional. E concluímos que eu não seria a pessoa ideal para o ensinar, porque a minha via é mesmo a da música sinfónica.

E isso não te trás algum desconforto, alguma mágoa pessoal?

Não, porque eu acho que a música sinfónica é um chamamento. Aliás, como tudo na vida e, mais ainda, no mundo da arte. Quando não há apelo, é porque não há interesse. Mas olha, neste momento, tenho três alunas que estão a aprender piano comigo na Ribeira do Calhau. Uma tem nove anos e as outras duas, doze anos. Estão na idade ideal para este tipo de aprendizagem. Daqui a algum tempo, quem sabe? Agora, eu gostaria de transmitir aquilo que sei e aquilo que fui adquirindo ao longo dos anos em termos de poética musical, mas também não há apelos. Nem da parte das universidades. Já tentei alguns contactos informais, mas não houve qualquer feedback.




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3 comentários:

Zepra disse...

Vasco Martins. Inspiro-me nas suas sinfonias para escrever a minha vida e nos momentos mais difíceis ouço as suas palavras, sua sabedoria em notas e acalmo-me.

Amilcar Aristides - TIDI disse...

Adorei a entrevista. Obrigado pela partilha João. Aprendi mto e já partilhei lá na Pagina do Faceboook: Turismo Sustentável em Cabo Verde.

Kriolbox disse...

A pois é caro JB, está aqui o retrado do real instrumentista Cabo-verdiano, numa tortulha com amigos podemos falar e comparar arios artistas cabo-verdianos, mas quanto se fala desse grande homem há um silencio, o expoente máximo da nossa musica, sabemos que ele é bom mas não conseguimos explicar porque, simplesmente o é...