Crónica Desaforada

10 Comments



O Grande Mecenas

1. Um dos maiores prazeres das conversas que tenho tido com artistas e criadores, na sua grande maioria nacionais, para a rúbrica Dôs publicada no jonal A Nação, tem sido conhecer pessoalmente histórias de vida e episódios incríveis, que demonstram, se preciso fosse, o quanto tantos e tantos artistas são verdadeiros heróis por continuarem a batalhar, a acreditar, a criar, a contribuir para que Cabo Verde pudesse ainda hoje, e apesar de tantas e tantas promessas nunca cumpridas, ser considerado um país que vive e se revela, sobretudo, através da sua cultura e da arte dos seus criadores.

2. Por outro lado, a montagem de uma peça de teatro, por ser uma arte que envolve múltiplas facetas, implica que tenha a sorte de contactar e trabalhar com criadores de outras áreas, como músicos, artistas plásticos, coreógrafos, escritores e fotógrafos. A arte cénica tem nela todas as outras, costuma-se dizer. Quanto produzimos uma peça temos que dominar linguagens tão diversas como a expresão corporal e vocal, a arquitectura, as artes plásticas, a escrita, a música. E como não podemos trabalhar sózinhos, mais ainda se compreende como o teatro é ainda a arte do colectivo, que vive da força do grupo, ao contrário da pintura ou da literatura, que vive da capacidade de isolamento e de solidão dos criadores destas áreas.

3. Foi assim que ao longo do meu percurso enquanto encenador do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português – IC, que já produziu 46 peças de teatro em 18 anos de história, tive a sorte de me cruzar com grandes figuras que contribuíram, com a sua arte e generosidade, para o sucesso de cada um desses trabalhos, que vem marcando a história do teatro em Cabo Verde. Desde muito cedo entendi o quanto importante era esse envolvimento de artistas de outras áreas criativas, no só para potenciar o talento dessas pessoas, como também para mostrar que em arte não só é possível, como me parece indispensável, trabalharmos juntos para um bem que pode ser comum e património de todos nós.

4. Manuel Figueira, porventura o maior pintor da nossa ainda curta história, definiu e pintou, com as suas próprias mãos, os painés que constituíram o cenário da peça “As Virgens Loucas”, adapação teatral do célebre conto de Aurélio Gonçalves, levado à cena no ano de 1996 (e reposto em 1997), que contou ainda com a participação directa do mestre Luís Morais, tocando ao vivo nas apresentações. Orlando Pantera, outro genial músico, que nos deixou de forma mais do que prematura, compõs e gravou nos estúdios da Rádio de Cabo Verde, ali na marginal do Mindelo, perante meus olhares de admiração e espanto, temas inéditos e versões de outras músicas suas, para a peça “Os Dois Irmãos”, outra adaptação para o teatro, desta feita de um dos romances mais emblemáticos de Germano Almeida.

5. Pude trabalhar e me cruzar com pessoas incríveis e generosas, como Vamar Martins, Mário Lúcio Sousa, Luísa Queirós, Bento Oliveira, Manu Preto e, mais recentemente, na produção “Bodas de Sangue”, com os criativos Fernando Morais, que confeccionou os adereços, Manu Cabral, que desenhou e coordenou a componente dos figurinos, Di Fortes, que dirigiu a componente musical e tocou o seu violoncelo eacompanhado de Dani Monteiro, no clarinete e Janaina Alves, que se responsabilizou pela maquilhagem. Isto, referindo apenas aqueles que fizeram o seu trabalho criativo fora do palco, ou seja, excluindo esses outros essenciais e indispensáveis à vida de qualquer peça de teatro, os actores e actrizes, que em palco, se dão e se despem, perante um público voraz.

6. Pelo respeito profundo que tenho por todas essas pessoas, e muitas outras com quem tive a sorte e o prazer de trabalhar ou, mais recentemente, de interpelar em agradáveis conversas, nunca me apanharão a utilizar este ou outros espaços de opinião, para maldizer, destratar, minimizar ou desrespeitar o trabalho dessa generosa gente. Também por isso, venho aqui recordar um episódio que foi relatado por Vasco Martins, precisamente na rública Dôs, sobre a importância do Presidente Aristides Pereira como pessoa que sempre apoiou os artistas da sua terra, por vezes de forma tão concreta, que o sinfonista não exitou em o apelidar de “o primeiro verdadeiro mecenas de Cabo Verde”.

7. Também por isso, embora compreendendo, respeitando e acatando a decisão, não entendi a anulação de várias actividades culturais que já estavam marcadas há muito, por motivos do luto nacional decretado pelo Governo de Cabo Verde. Penso que não haveria melhor forma de homenagear o homem e o Mecenas que foi Aristides Pereira, do que presentear por todos os cantos das ilhas, concertos de música, peças de teatro, espectáculos de dança, happenings envolvendo artistas plásticos, recitais de poesia, para nos lembrarmos dessa figura ímpar da nossa história. Porque há muitas formas de encararmos a morte, e a melhor de todas é, certamente, celebrarmos a vida. E nada melhor que a arte e a criação artística para o fazer.

Crónica publicada no jornal A Nação



You may also like

10 comentários:

Tchale Figueira disse...

Sempre a parlar quando devias estar calado. Depois de morto são todos bonzinhos. Eu fui no tempo do Aristides Pereira, perseguido, eu e outros artistas também, na Galeria Nhô Djunga ainda não andavas por cá, meu pai, para vingarem de mim, do meu mano Manuel e do Luiz Silva meu primo que eramos criticos a Ditadura do PAICV, que reinava aqui nestas ilhas, meteram o meu velho na prisão com 80 anos,e quando fomos falar com o Silvino da Luz pessoa chegado a nossa familia, ele foi um crápula, não libertou o homem. Aristides Pereira sabia da situação, ele e todos os grandes do partido não mexeram uma palha. Se foi um um grande mesenas para alguns, foi um déspota para outros. Meu pai saiu da cadeira completamente perdido o juizo, para o hospital, onde durante meses, foi vigiado por um policia na porta do quarto, onde ele estava internado no Hospital Baptista de Sousa. Foi solto depois de muita chicana, quando o saudoso Sr Nena, foi ler no tribunal, uma Carta que o Amilcar Cabral escreveu ao meu pai, quando ele Amilcar, era estudante em São Vicente. elogiando a forma como meu pai se conportava como, Gentel Man e Fayr play, no desporto e na vida. Grande mesenas? Também um grande pequeno ditador. Depois de morto somos todos bons rapazes. Devias investigar antes de escrever estas tonterias.

JB disse...

Mais uma vez, Tchalé, vez para aqui com uma agressividade que me custa a entender. A história do mecenas, que usei aqui, foi contada pelo amigo comum Vasco Martins e é a isso que faço referência nesta crónica.

Com essa vontade de atirar pedras em todas as direcções acabas por atingir quem menos querias.

É pena.

Mais uma vez, lamento a tua postura demasiado agressiva e radical. Mas tu lá sabes.

JB

Anónimo disse...

Caro João Branco não creio que o Tchale Figueira foi violento.

Eu também tive o meu pai preso e torturado por ser crítico à ditadura e à forma como o regime perseguia a Igreja Católica de que ele é devoto.

Tive um tio meu que foi assassinado em Santa Catarina. Este até era do PAIGC, mas era crítico com as políticas de inspiração Marxista.

Foi convidado a uma "reunião" do partido: entrou vivo e saiu morto, com um tiro no peito.

Colocaram as culpas num débil metal que fazia pequenos trabalhos de limpeza em troca de comida: este, convenientemente, morto pouco tempo depois.

Faz-me muita confusão (...) esta propensão egoísta e insensível dos ocidentais para com os ditadores africanos. Duvido que o João Branco ficasse indiferente a viva a Salazar: creio alias que o incomodou aquele insulto do "melhor português de todos".

Tu és um artista, mas às vezes escreves como um político, dado à tua referência ao poder.

Ninguém que passou pelo 31 de Agosto ou por mazelas porque passou a minha família teria reacção diversa do Tchale. Nem Aristides, nem PP foram boas pessoa ou bom governates: torturam, destruíram famílias e assassinaram.

E, mais importante, nunca pediram desculpas ... um pouco mais de respeito pelas vítimas da ditadura, é o mínimo.

Espero que publiques.


Também vítima da ditadura...

Anónimo disse...

Ó João, conheces o frustrado que é o Tchalé, tanto na literatura, como na pintura, como no pessoal. só em Cabo Verde um regime não pode ter erros e graves como os houve no partido único. A pergunta que tenho feito a todas as vítimas: porque não foram aos tribunais depois de 1991 e meteram os gajos um processo? mas tenho uma pergunta a esses generalistas: vão prender oBill Clinton porque a CIA faz o que faz ou será que o Bill Clinton não é um presidente democrata???? Será a anarquia do Tchalémelhor que a democracia americana?????

Tony Aguiar (aguiartony@live.pt

JB disse...

A entrevista com o Vasco vai publicada mais acima. Agora, cada um que tire as suas conclusões.

JB

Tchale Figueira disse...

Senor Tony Aguiar escreva-me pessoalmente. Armado em phsicanalista? Quem é TonY Aguiar?

Com toda a frustação que você me cataloga, eu tenho obra reconhecida e você? Quem é TonY Aguiar????? É O SEU NOME OU É MAIS UM FILHO DA... QUE ESCREVE EM ANONIMATO?

Tchale Figueira disse...

ESQUECI-ME DE UMA PERGUNTA: QUANDO O PAI DO PEDRO PIRES, BALEOU E MATOU UMA PESSOA, O HOMEM FOI JULGADO E POSTO NA PRISÃO?????????????? NÃO!!!!

SE TENS COJONES, PUBLICA JOÃO!

JB disse...

Cá está, Tchalé, publicado. Fico a saber que tenho cojones! Saravá!

Anónimo disse...

Tchalé, esse é o meu nome e vivo em Lisboa. Tens aí o meu email, envio o telefone também, porque também tenho, como o João, cojones. Porque não processas essas gajos? Estão vivos, Pedro Pires, Silvino da Luz, João Pereira da Silva, Germano Almeida, Rui Araújo...Porque não os processas e deixas dessas tretas de quem perdeu a máma, ou então isso serve para ganhar umas exposiçõezinhas junto dos amigos do MpD? Só se for por isso. Deixa de choro e faz o que um homem com cojones deve fazer: justiça. Quem sabe a tua alma se limpa depois disso e em vez de fel, que é o que sai da tua boa sempre que falas, sairá um pouco de arte.

Tony Aguiar (aguiartony@live.pt)

Meu telefone: (+351) 217 981 043

Anónimo disse...

Porra.
Não sei porque alguém dá "trelas" ao tchalê.
Devem ser aqueles que ele pinta e que ninguém entende