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Para um artigo do jornal A Nação fui entrevistado pela jornalista Maguy Gonçalves a propósito do livro "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde". Aqui ficam, de forma integral, as perguntas e respostas que serviram de base ao referido artigo.


- Quanto é que resolveste escrever um livro sobre a história do teatro? O que o motivou a isso?

O teatro é uma arte que vive do momento vivido, ou seja, só existe, enquanto forma de expressão artística, nos instantes em que é colocada frente a frente com um público. Depois o que fica são os registos e as memórias. Se não cuidarmos de fixar essas provas testemunhais, o acontecimento cénico apaga-se com o passar do tempo. Daí a importância de arquivar e registar tudo. Ora, eu sempre tive essa preocupação, não só em relação ao meu trabalho enquanto encenador e professor de teatro no IC - Centro Cultural Português, mas também enquanto público. A dada altura comecei a constatar que já tinha material que justificava um arranque para uma investigação mais profunda referente à história do teatro em Cabo Verde. No início dos anos 2000, meti mãos à obra, organizando o material que tinha e recolhendo muito outro, nomeadamente com a realização de inúmeras entrevistas de pessoas que estiveram directamente envolvidas no movimento teatral cabo-verdiano, algumas delas já falecidas.

- Foi muito difícil reunir documentos e informações sobre esse aspecto? Porquê?

Foi e não foi. Por um lado foi porque a informação era, na época, muito escassa. Por exemplo, fiz uma pesquisa profunda em toda a imprensa escrita dos primeiros anos da independência e entrevistei muitos intervenientes e testemunhas do teatro de outras épocas. Li muitos documentos históricos procurando entender um pouco de como e onde se fazia teatro nos tempos antigos. Acabei fazendo algumas descobertas interessantes que estão no livro. Mas por outro lado, foi muito prazeiroso, porque o objecto de investigação, o teatro, é parte importante da minha vida e, como se sabe, quem corre por gosto não cansa.

- Quanto tempo levou a preparar este livro?

Cerca de dez anos de investigação e dois de escrita e revisão.

- Contou com a colaboração de quem?

De todos os que aceitaram partilhar informações, que foram preciosas. Destaco ainda o papel da Dra. Ana Cordeiro, na correcção final da obra, da Luisa Queirós que ilustrou a capa e da Dra. Zelinda Cohen, na altura responsável pelas edições da Biblioteca Nacional, que acreditou neste projecto. Aliás, o livro foi o primeiro de uma nova linha editorial e gráfica do IBNL e tenho algum orgulho nisso.

- Porquê o título "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde"?

Porque a primeira expressão é uma metáfora da segunda. Cabo Verde é, sempre foi, uma Nação profundamente apaixonada pela arte cénica, e eu quis que esse aspecto fundamental do povo cabo-verdiano estivesse patente no título da obra.

- De onde conseguiu reunir todas as informações reunidas neste livro?

Testemunhos, directos e indirectos, imprensa escrita, documentos oficiais e materiais referentes a peças de teatro como programas, bilhetes, cartazes e fotografias.

- Algumas personagens criticam este livro a dizer que não reúne ou não versa, da melhor forma, a história do teatro em Cabo Verde. Qual a tua posição?

Não sei quem são essas pessoas nem nunca li essas críticas, possivelmente porque as primeiras nunca deram a cara e as segundas nunca foram publicadas. Por alguma razão continuamos sem ter uma tradição de crítica artística em Cabo Verde. Mas é normal que um estudo desta natureza nunca esteja completo. A História vai-se construindo, nunca é um produto completo. Lembro-me bem do que disse o historiador António Correia e Silva na apresentação, ao referir estarmos "ante um estudo de inegável valor científico, dotado de rigor metodológico e epistemológico." Aquele que é por todos reconhecido pela sua competência na investigação histórica, afirmou também que "quanto ao compulsar de informações o livro em análise só tem paralelo no monumental Os Bastidores de José Vicente Lopes" o que me orgulhou especialmente porque sou um admirador confesso da obra do JVL. Entretanto foram-me chegando em mãos outras fontes e informações preciosas que poderão enriquecer, e muito, uma futura nova edição. 

- É necessário que se estude melhor o teatro em Cabo Verde, mesmo que por diversas vezes seja colocado em outros postos em relação às artes em Cabo Verde, ganhando expressão maior no Março, mês de Teatro ou no Mindelact?

Mais uma vez sublinho: sendo o teatro uma arte que só tem existência efectiva no acto da sua concretização enquanto espectáculo cénico, é fundamental a preservação da sua memória por todos os meios possíveis. Quanto maior e mais variada for a informação a respeito, melhor.

- Falando nestas duas datas marcantes para o teatro em Cabo Verde, este tornou-se mais expressivo no momento em que surgiram estas duas datas. Já é necessário que as autoridades e os cidadãos comuns tenham mais em conta, o teatro em Cabo Verde e a sua importância?

Eu penso que isso já acontece e esta entrevista é apenas mais uma prova disso. O teatro em Cabo Verde conquistou o seu espaço e duvido muito que alguém o venha tirar de onde ele está, ou seja, num patamar bem razoável do ponto de vista de adesão e criação. Sabendo isso, é natural que se defenda um maior investimento das autoridades e do Mecenato para esta forma de expressão artística. Garcia Lorca escreveu que "um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo.” Eu acredito cada vez mais nisto.

- Neste momento estás a pensar em mais alguma obra sobre o teatro, ou uma reescrição da história do teatro tendo em conta os 8 anos que passaram em cima da apresentação "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde"?

Gostaria de fazer uma re-edição aumentada do que já existe. Tenho já muito material acumulado que poderia ser uma mais valia de uma obra que por si já tem muita informação reunida nas suas mais de 550 páginas. Mas neste momento estou concentrado num outro estudo, de investigação artística e sociológica, que é tentar entender a identidade do teatro cabo-verdiano, nas suas diversas vertentes. 

Mindelo, 23 de Junho de 2012






“A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós.(....). E no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros, de insanos e, em suma de uma salada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.” 

 Nelson Rodrigues - dramaturgo












"Teorema do Silêncio", de Caplan Neves. Com Janaina Alves e Fonseca Soares.
Grupo de Teatro do CCP-IC

Fotografias de Kizó Oliveira 





De onde vem tanto dinheiro?


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A cada dia que passa tolero menos as campanhas eleitorais. Eu sei que deveria alertar o meu sentido de cidadania e ter em consideração que estes são os momentos em que aos dirigentes políticos é dada oportunidade de contactar o povo que o irá eleger e a este último a possibilidade de colocar aos primeiros questões que possam ser relevantes para os interesses pessoais e da sua comunidade. 

No entanto, nada disto acontece. Ao ouvir em altos berros um carro publicitário - que só por si revela uma falta de consideração completa pelo cidadão votante - anunciar que o partido do candidato que sempre se candidata e nunca fica a cumprir o mandato para o qual foi eleito "está farto desses políticos descarados que nunca cumprem as suas promessas", dei comigo a pensar que  o povo não pode ser assim tão estúpido e alienado.

O esbanjamento desta campanha é inaceitável. Camisolas, bonés, cartazes gigantes, comícios diários transformados em bailes populares, alguns em municípios conhecidos por não terem como pagar os seus compromissos mais urgentes, incluindo as suas obrigações sociais. Não precisamos disto para sermos convencidos de votar neste ou naquele. 

Debates públicos, sessões de esclarecimento e porta-a-porta seria o quanto baste. E acabava-se de uma vez por todas com esta insuportável e insultuosa poluição sonora e visual. O período que deveria ser de esclarecimento, apresentação de propostas e debate de diferenças transforma-se cada vez mais, no actual estado de coisas, num carnaval da arrogância, má-criação e descaramento. Não devia ser isto, a democracia.




        Apetece cantar, mas ninguém canta.
        Apetece chorar, mas ninguém chora.
        Um fantasma levanta
        A mão do medo sobre a nossa hora.

        Apetece gritar, mas ninguém grita.
        Apetece fugir, mas ninguém foge.
        Um fantasma limita
        Todo o futuro a este dia de hoje.

        Apetece morrer, mas ninguém morre.
        Apetece matar, mas ninguém mata.
        Um fantasma percorre
        Os motins onde a alma se arrebata.

        Oh! maldição do tempo em que vivemos,
        Sepultura de grades cinzeladas,
        Que deixam ver a vida que não temos
        E as angústias paradas!

        Miguel Torga




Após a escuta de alguns dos debates pré-eleitorais promovidos pela Rádio de Cabo Verde, facilmente se chega a uma espécie de cartilha eleitoral que encaixa na perfeição, seja qual for o município em questão. Não seria mau, perante os slogans que se perfilam, que alguma instituição ligada e/ou com o apoio do Instituto do Emprego e Formação Profissional, promovesse uma formação intensiva de criatividade e marketing eleitoral que isto vai ser, pela amostra, um vira o disco e toca o mesmo. 

Candidato do partido no poder que se recandidata a um novo mandato: "queremos continuar com a obra feita que, graças a uma acção concertada com o Governo no âmbito da agenda para o desenvolvimento, estamos certos conduzirá o município a um novo patamar."

Candidato do partido da oposição que se recandidata a um novo mandato: "queremos continuar com a obra feita que só não é maior porque o Governo não tem cumprido com as suas obrigações perante o nosso município."

Candidato do partido no poder que tenta conquistar a câmara ao candidato da oposição que se recandidata: "o município está parado devido à incompetência da actual equipa camarária e estamos certos que connosco, com uma acção concertada com o Governo no âmbito da agenda para o desenvolvimento, entraremos no caminho certo."

Candidato do partido da oposição que tenta conquistar a câmara ao candidato do partido no poder que se recandidata: "o município está parado devido à incompetência da actual equipa camarária e do Governo e estamos certos que connosco tudo será diferente."

E assim vamos navegando nas doces águas da democracia cabo-verdiana. 


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