Moeda Cafeana

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Cara: "A sociedade cabo-verdiana é uma sociedade muito violenta" (declarações do PM, José Maria Neves)

Coroa: "O povo cabo-verdiano sempre foi um povo normal e de brandos costumes." (declarações de Carlos Veiga, líder da oposição)


Comentário Cafeano: neste delicado assunto, como são todos os que pretendem lidar com os nossos próprios defeitos, aplica-se aquele ditado que nos diz que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. No fundo, tudo isto depende do contexto e do prisma de análise. O que acontece por cá com o discurso político é que tudo o que é dito e feito por uns é tornado negativo pelos outros e elogiado por quem afina pelo mesmo diapasão. Porque se uns podem dizer que a afirmação do Primeiro-Ministro é, no mínimo, irresponsável e um sacudir a água do capote, outros poderão realçar a coragem política de assumir publicamente a existência de um problema, primeiro e essencial passo para o tentar resolver.

Se na minha experiência pessoal não tenho nada a apontar em relação ao carácter supostamente agressivo do cabo-verdiano já que em duas décadas de vivência a minha integridade física nunca foi ameaçada, por outro lado, não posso enfiar a cabeça na areia e negar a evidência que me bate à porta todos os dias, com violência não só física mas também, e muito acentuada, psicológica. Tenho procurado reflectir sobre esse carácter dual e ambíguo da sociedade, principalmente aqui no Mindelo, e também neste caso os sentimentos são contraditórios: por um lado, quando confrontados com as notícias que nos chegam do mundo, podemos respirar de alívio por estarmos a viver num lugar que cultiva a paz, mas por outro vem-me à memória demasiadas vezes um ditado argentino que nos diz que a um lugar pequeno corresponde invariavelmente um inferno grande.

Parece-me haver aqui, como vem sendo hábito, uma manifestação de claro oportunismo político, de parte a parte. As responsabilidades devem ser assumidas por todos os agentes políticos actuantes, caso contrário correm o risco de ninguém os levar a sério (para muitos já será tarde demais).

Registo aqui, finalmente, um comentário publicado por um leitor do Notícias do Norte (assina como José Pedro) que me parece ser uma interessante leitura da problemática da violência no arquipélago, tema que, como se vê, merece da parte dos nossos historiadores, sociólogos e psicólogos, uma aposta séria numa investigação académica que nos traga alguma luz, cientificamente sustentada, e não apenas regida por interesses político-partidários.

"JMN é um político da primeira linha, é primeiro-ministro deste país, e sabe mais que ninguém que na política há verdades que nunca devem ser ditas, sobretudo quando são de âmbito sociológicas. Foi uma fuga para frente que, vindo de quem vem, é imperdoável. Se foi para justificar a onda de violência que se regista neste momento por todo o país, então é muito pior. Isso não pode se tolerado por parte do principal governante. Dele se espera a promessa e actos de combate energético deste mal social. É que a violência não pode ser um bem cultural preservável, mas sim algo que deve ser combatido, se necessário com violência.

Posto isto e para nós que nada temos em termos de responsabilidades políticas, eleitores, votos, etc., temos que ser sérios e dizer, já agora que o tema veio a baila, que não há sociedades de formação escravocrata, sobretudo recente como a nossa, que não seja de carácter violenta. Talvez por milénios não perderá os seus traços de violência. Em todas as ilhas, mormente as de economia predominantemente agrícola, sempre predominou a violência, com nuances na sua forma dependendo de região para região ou mesmo de local para local. Os detentores de posse de terra sempre foram muitos violentos em relação aos deserdados, cometendo sobre eles constantes e cruéis crimes de sangue. Nos anos das carestias, como foi ainda na década de quarenta, a violência sobre os indigentes deixaram marcas indeléveis nas gentes pobres de Santo Antão, Santiago, S.Nicolau etc, em que pessoas foram enforcadas, carbonizadas, etc., por apenas se supor que roubaram um pé de mandioca ou umas bananas verdes. 

Falei até aqui de violência de sangue, pois a violência psicológica continua sendo Pão Nosso de cada Dia. Falar-nos de “brandos costumes” do povo cabo-verdiano impõe-nos perguntar o que é isso de brando costume. Sejamos sérios nas análises, ainda que doam a nós próprios. Ou então, melhor, calemos."

Está aberto o debate.




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4 comentários:

Anónimo disse...

Pelo amor de deus João. Vir aqui por peso no outro lado da balança para disfaçar o ridiculo é ainda mais ridiculo. Pareces daqueles que ainda continuam a dar credito ao JMN. Pelo amor de Deus!!!! Diga de uma vez por todas que defendes o gajo e pronto, fica-te melhor! Devias era usar o teu espaço para desmascarar esse politiquinho de merda que é JMN, ao inves de contrapor pesos, como quem diz errou ele errou tambem a oposição... Ridiculo!!!!

JB disse...

Tapar o Sol com a peneira dizendo que a violência não existe, ou a que existe é (apenas e só) culpa da incompetência do Governo na matéria, é também uma forma de mostrar incompetência na oposição.

Mas que foi uma forma um pouco baixa de começar um debate que se precisa sereno, lá isso foi. Mas cada um mede-se pelas palavras que consegue usar.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Acho que este é um debate bastante oportuno. Chamou-me particularmente a atenção a seguinte passagem do seu texto: "(...) não há sociedades de formação escravocrata, sobretudo recente como a nossa, que não seja de carácter violento (...)".

Há alguns anos atrás, um inglês comentou comigo que tinha vivido temporariamente em Moçambique, mas que não tinha gostado de lá estar, porque "THEY have bad leaders!"

Na altura saiu-me de imediato a seguinte reação: "THEY had a bad history!" E fiquei a pensar durante algum tempo naquilo. Pensei que, se maus líderes é o que não falta por aí, porque é que Moçambique haveria de ser exceção?

Claro, há todo uma história e uma conjuntura que amplificam o que possa existir de negativo em certas sociedades, como a cabo-verdiana. E que é visível em questões tão simples como, por exemplo, o tom de voz predominante com que, de um modo geral, as populações se exprimem no quotidiano.

Acho que Cabo Verde precisa de tempo e tem direito a esse tempo, para atenuar no seu seio o impacto da violência de ontem e de hoje.

No entanto, no meio da instabilidade mundial que é crescente a vários níveis, parece-me que Cabo Verde também sai a perder, tal como outros países, com as agravantes próprias da sua posição no mundo e da credibilidade que recorrentemente lhe é concebida quanto ao seu grau de maturidade como nação.

Obrigada por ter aberto o debate! Merece comentários mais construtivos do que o anterior. Outro reflexo da violência...

Carla disse...

"Os detentores de posse de terra sempre foram muitos violentos em relação aos deserdados!" acrescentaria que eles sempre foram cruéis com os mais pobres!
Lembro-me de uma (das muitas) história que a minha avó costumava contar de um proprietário de terras de Santo Antão que tentou assassinar um recem-nascido, pisoteando-o com um cavalo, porque a mãe insitia que o filho era dele.
Acho que a violência sempre existiu em cabo Verde, principalmente contra as mulheres. se recuarmos um pouquniho, por exemplo, não é dificil lembrar que até pouco tempo as pessoas achavam que o marido "tinha" o direito de bater na mulher quando ela se "comportava" mal. os mais desvalidos dessa sociedade foram e continuam a ser as vitimas da violência em Cabo Verde. Além disso, a violência (ou virulência) do discurso politico aumentou muito após a abertura politica e reflexo disso é que cada vez mais os cabo-verdianos agridem-se por nada, principalmente com palavras.