O Coração de Inês
1. Quando a minha filha Inês, de seis anos de idade, me perguntou o que é que iria fazer a Lisboa, disse-lhe a verdade: vou terminar o meu mestrado. Claro que ela logo a seguir perguntou, mas o que é um mestrado? Aí eu expliquei que é uma das muitas etapas na vida de uma pessoa que gosta e investe na sua própria formação. Tu não estás na escola? Estou. Em que ano estás? No primeiro ciclo. Pronto, depois desse primeiro ciclo virá outro, e depois outro. Vais chegar até ao 12º ano e provavelmente escolherás um curso e vais fazer uma licenciatura. Depois disso, se ainda quiseres, puderes ou estiveres interessada, podes sempre continuar a estudar, concorrendo a um Mestrado e depois, a um Doutoramento. E é preciso tudo isso para uma pessoa ser uma artista? Aí, calei-me, porque a resposta a esta pergunta é bem mais complexa do que parece!
2. A Inês não é uma criança qualquer. Com seis anos assiste a ensaios de teatro desde sempre. Nas apresentações, comporta-se sempre impecavelmente, manda a pessoa do lado desligar o seu telemóvel e tem a noção de como se devem comportar as pessoas perante o cerimonial cénico. Quando não gosta, simplesmente adormece, na maior tranquilidade. Acorda ao som dos aplausos, acrescentando os seus, vigorosos, aos da plateia. Hoje, sabe peças inteiras de cor e salteado, já dá deixas das cenas quando os actores se esquecem do texto, coloca adereços no lugar antes das cenas começarem e avisa-me, no ouvido, “papá, kel koza lá n’é assim”, quando capta com a sua poderosa antena que algo não está como havia sido marcado e estipulado previamente. Tem a arte no sangue, por razões óbvias e acredito que ali, não há como fugir. Até porque quando se pergunta o que quer ela ser quando for grande, a resposta é imediata e sem qualquer tipo de hesitação: quero ser artista. Artista de quê? Artista de tud koza!, é a resposta imediata.
3. Nunca pretendi, nem foi essa a minha intenção, obrigar as minhas duas filhas a “seguir as pisadas do pai”, como se costuma dizer. Sou defensor acérrimo da liberdade de opções de vida, mais a mais quando elas tem a ver com o que acreditamos ser a nossa vocação, mesmo que haja quem vislumbre claramente que essa é uma opção errada. Não interessa. Se for errada, que se descubra por (de)mérito próprio e que haja capacidade para se dar a volta ao texto e aprender com os nossos próprios erros. Quantos engenheiros, professores, médicos, advogados, gestores ou economistas incompetentes e frustrados não haverá por aí pela simples razão de terem sido obrigados a seguir os sonhos dos seus progenitores em vez dos seus próprios? No que concerne a quem tem vocação artística a conversa é quase sempre a mesma: deixa-te disso, filho. Vai tirar um curso a sério e depois, nos teus tempos livres, fazes essas macacadas. Continuo a ouvir da parte de alunos e ex-alunos meus relatos de conversas deste género. Que não é para seguir esta via, que isto “não dá nada”, “é pura perda de tempo”, além de outros lugares comuns ainda menos lisongeiros, como aqueles que ligam a classe artítica aos ambientes boémios que misturam alcool, drogas e putaria.
4. Claro que não é assim. Mas continuamos a ter que lidar com este preconceito em relação a quem se sente vocacionado para a criação artística, um mundo tão digno como qualquer outro. Portanto, quando a minha filha Inês me pergunta do mestrado ou me anuncia, com aquela certeza das verdades inquestionáveis que só as crianças conseguem traduzir, que vai ser artista de todas as coisas, eu só posso ficar orgulhoso. Da mesma forma que ficaria se ela me dissesse que queria ser electricista, advogada ou farmaceutica. Mas aqui a questão da educação em casa, do que se ouve e vê, das motivações para certas actividades, tudo isso conta no crescimento de uma criança. Devíamos pensar, por exemplo, qual a razão de ser de termos quase nenhuma criança interessada em aprender algum instrumento sinfónico além dos habituais na nossa música tradicional. Existem dois tocadores de violoncelo no país inteiro, um país musical por excelência. Quantos violinistas sabem tocar uma sonata de Bach ou de Mozart? Quantos pianistas sabem interpretar uma valsa de Chopin? O que se toca em adulto acaba por ser o resultado provável do que se ouve em criança e é pena que tão poucas vezes nos lembremos disso.
5. A minha filha Inês, quando tinha pouco menos de cinco anos mandou-me o desenho que ilustra a presente crónica. Um coração, explicou-me ela. Olhei com atenção e pensei que coração de gente deve ser exactamente assim. Que aquele pedaço de papel representa, de facto, a metáfora perfeita do que é um coração humano: vermelho, caótico, desarrumado, com provas de feridas mais ou menos saradas e sinais estranhos que ainda não conseguimos descortinar. Um coração com vida. Um coração que ama. Olho para este desenho e penso que a Inês tem toda a razão. Foi a mais perfeita representação gráfica de um coração humano que eu já vi na vida. Ainda bem que ela quer ser artista.
Mindelo, 12 de Março de 2012
Crónica publicada no jornal A Nação, de 15/03/2012