O ITI – International Theatre Institute UNESCO, honrou-me ao convidar-me para redigir a mensagem comemorativa do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro. Vou dirigir estas breves palavras aos meus companheiros do teatro, colegas e amigos.

Que o vosso trabalho seja convincente e genuíno. Que seja profundo, tocante, comunicativo e incomparável. Que nos ajude a refletir sobre a questão do que significa ser humano e que essa reflexão seja conduzida pelo coração, pela sinceridade e pela bondade. Que superem a adversidade, a censura e a escassez algo que, na verdade, muitos de vocês são forçados a confrontar. Que sejam abençoados com talento e rigor necessários para ensinarem, em toda a sua complexidade, as causas pelas quais deve bater o coração Humano, tendo em conta a humildade e a curiosidade para fazer dessa tarefa a obra da vossa vida. E que seja o vosso melhor – porque o melhor que derem, mesmo assim, só acontecerá nos momentos únicos e efémeros – Em consonância com a pergunta mais elementar de todas:

“Porque vivemos?”

Merda!!!

John Malkovich












Actor Manuel Estevão, Prémio de Mérito Teatral 2012, em "No Inferno", adaptação do romance de Arménio Vieira levada a cabo pelo GTCCP-IC.






creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.

Natália Correia


Em homenagem a todos os poetas do mundo, esses cantadores da alma das coisas e dos homens.




O Coração de Inês

1. Quando a minha filha Inês, de seis anos de idade, me perguntou o que é que iria fazer a Lisboa, disse-lhe a verdade: vou terminar o meu mestrado. Claro que ela logo a seguir perguntou, mas o que é um mestrado? Aí eu expliquei que é uma das muitas etapas na vida de uma pessoa que gosta e investe na sua própria formação. Tu não estás na escola? Estou. Em que ano estás? No primeiro ciclo. Pronto, depois desse primeiro ciclo virá outro, e depois outro. Vais chegar até ao 12º ano e provavelmente escolherás um curso e vais fazer uma licenciatura. Depois disso, se ainda quiseres, puderes ou estiveres interessada, podes sempre continuar a estudar, concorrendo a um Mestrado e depois, a um Doutoramento. E é preciso tudo isso para uma pessoa ser uma artista? Aí, calei-me, porque a resposta a esta pergunta é bem mais complexa do que parece!

2. A Inês não é uma criança qualquer. Com seis anos assiste a ensaios de teatro desde sempre. Nas apresentações, comporta-se sempre impecavelmente, manda a pessoa do lado desligar o seu telemóvel e tem a noção de como se devem comportar as pessoas perante o cerimonial cénico. Quando não gosta, simplesmente adormece, na maior tranquilidade. Acorda ao som dos aplausos, acrescentando os seus, vigorosos, aos da plateia. Hoje, sabe peças inteiras de cor e salteado, já dá deixas das cenas quando os actores se esquecem do texto, coloca adereços no lugar antes das cenas começarem e avisa-me, no ouvido, “papá, kel koza lá n’é assim”, quando capta com a sua poderosa antena que algo não está como havia sido marcado e estipulado previamente. Tem a arte no sangue, por razões óbvias e acredito que ali, não há como fugir. Até porque quando se pergunta o que quer ela ser quando for grande, a resposta é imediata e sem qualquer tipo de hesitação: quero ser artista. Artista de quê? Artista de tud koza!, é a resposta imediata.

3. Nunca pretendi, nem foi essa a minha intenção, obrigar as minhas duas filhas a “seguir as pisadas do pai”, como se costuma dizer. Sou defensor acérrimo da liberdade de opções de vida, mais a mais quando elas tem a ver com o que acreditamos ser a nossa vocação, mesmo que haja quem vislumbre claramente que essa é uma opção errada. Não interessa. Se for errada, que se descubra por (de)mérito próprio e que haja capacidade para se dar a volta ao texto e aprender com os nossos próprios erros. Quantos engenheiros, professores, médicos, advogados, gestores ou economistas incompetentes e frustrados não haverá por aí pela simples razão de terem sido obrigados a seguir os sonhos dos seus progenitores em vez dos seus próprios? No que concerne a quem tem vocação artística a conversa é quase sempre a mesma: deixa-te disso, filho. Vai tirar um curso a sério e depois, nos teus tempos livres, fazes essas macacadas. Continuo a ouvir da parte de alunos e ex-alunos meus relatos de conversas deste género. Que não é para seguir esta via, que isto “não dá nada”, “é pura perda de tempo”, além de outros lugares comuns ainda menos lisongeiros, como aqueles que ligam a classe artítica aos ambientes boémios que misturam alcool, drogas e putaria.

4. Claro que não é assim. Mas continuamos a ter que lidar com este preconceito em relação a quem se sente vocacionado para a criação artística, um mundo tão digno como qualquer outro. Portanto, quando a minha filha Inês me pergunta do mestrado ou me anuncia, com aquela certeza das verdades inquestionáveis que só as crianças conseguem traduzir, que vai ser artista de todas as coisas, eu só posso ficar orgulhoso. Da mesma forma que ficaria se ela me dissesse que queria ser electricista, advogada ou farmaceutica. Mas aqui a questão da educação em casa, do que se ouve e vê, das motivações para certas actividades, tudo isso conta no crescimento de uma criança. Devíamos pensar, por exemplo, qual a razão de ser de termos quase nenhuma criança interessada em aprender algum instrumento sinfónico além dos habituais na nossa música tradicional. Existem dois tocadores de violoncelo no país inteiro, um país musical por excelência. Quantos violinistas sabem tocar uma sonata de Bach ou de Mozart? Quantos pianistas sabem interpretar uma valsa de Chopin? O que se toca em adulto acaba por ser o resultado provável do que se ouve em criança e é pena que tão poucas vezes nos lembremos disso.

5. A minha filha Inês, quando tinha pouco menos de cinco anos mandou-me o desenho que ilustra a presente crónica. Um coração, explicou-me ela. Olhei com atenção e pensei que coração de gente deve ser exactamente assim. Que aquele pedaço de papel representa, de facto, a metáfora perfeita do que é um coração humano: vermelho, caótico, desarrumado, com provas de feridas mais ou menos saradas e sinais estranhos que ainda não conseguimos descortinar. Um coração com vida. Um coração que ama. Olho para este desenho e penso que a Inês tem toda a razão. Foi a mais perfeita representação gráfica de um coração humano que eu já vi na vida. Ainda bem que ela quer ser artista.

Mindelo, 12 de Março de 2012

Crónica publicada no jornal A Nação, de 15/03/2012




No dia 15 de Março de 1751, fazem hoje precisamente duzentos e sessenta e um anos, foi publicada uma lei em Portugal que estabelecia ser "proibido colocar cornos nas portas das casas dos maridos enganados."

Não sei que repercussões é que essa lei teve, ou se foi como tantas vezes acontece apenas letra, mas a verdade é que já não se fazem leis assim!



Bem visto!






Nem todos temos que ser cordeiros (Obrigado, João Paradela).

Fotografia tirada em Hamburgo em 1936 durante as celebrações do lançamento de um navio. No meio da multidão, uma pessoa recusa-se a levantar o braço e não faz a saudação nazi. O nome dele é August Landmesser. Alguém que já tinha tido problemas com as autoridades tendo sido condenado a dois anos de trabalhos forçados por ter casado com uma judia. De resto, pouco mais se sabe sobre este homem, excepto que teve dois filhos. Por sorte, um dos seus filhos reconheceu o pai nesta fotografia quando ela foi publicada num jornal alemão em 1991.

Escusado será dizer do orgulho que deve ter sentido do pai, naquele momento...




Aplausos. Pela decisão, rápida. Pela escolha da data. Por todas as mulheres.





Um amigo meu, autor de um dos blogues mais criativos que conheço (Não Compreendo as Mulheres) esteve uns dias de férias em Cabo Verde, tendo passado pelo Mindelo e por Santo Antão. Qual não é o meu espanto, quando ele publica esta fotografia referente a um novo complexo habitacional ou turístico ou lá o que é, tirada há poucos dias na ilhas das montanhas. 

Será que só eu é que acha estranho, bizarro (para não dizer outra coisa) que num país como Cabo Verde se aceite que uma obra destas tenha um nome como este? Ou estou confuso e Moussulini não foi um dos mais sanguinários e fascistas dirigentes da Europa do Século XX? Como é que as autoridades cabo-verdianas aceitam uma coisa destas, alguém me explica? Ah!, está escrito de forma diferente, claro! Só pode ser por isso. Porque só quem está de muita má fé é que não vê que Mussolini e Mousulini não tem nada a ver uma coisa com a outra.

Ele há cada uma...




É bonito, ver a dinâmica da coisa!




Os clientes queixam-se e com razão. O Margoso anda meio hibernado. Mas a verdade é que não tenho tido muita cabeça para escrever, para achismos, para debates, para provocações, para respostas, para golpes e contra golpes, para declarações, para desaforos e até, falha minha, para partilhas.

Primeiro o relatório final do Mestrado, agora a defesa do mesmo que acontecerá no muito curto prazo. Dobrada esta esquina, fundamental no meu percurso profissional, tudo farei para recuperar a dinâmica perdida. E recuperar também a minha clientela, que já deve estar chateada demais com tanta inércia.

Mas é como diz o outro, mea culpa, mea culpa. Dias melhores virão.

Aquele abraço!


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