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A pior forma de encarar determinadas realidades é pensar que certos males só vão acontecer aos outros. Isso continua patente, por exemplo, na forma como encaramos a prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis, como não nos preocupamos em poupar energia, ou como continuamos a apontar o dedo aos problemas do vizinho. Estamos perante o conhecido - e quase tradicional - meter a cabeça na areia ou tapar o sol com uma peneira, expressões que combinam com as características naturais e geográficas do arquipélago cabo-verdiano, já que. como sabemos, areia e Sol são elementos que nunca faltaram por estas paragens.

E tem dias em que tudo isto mete medo. Continuamos a olhar para S. Vicente duma forma superficial, redutora, escolhendo o ângulo que melhor serve os nossos interesses ou a empatia que temos pelo lugar. Costuma-se dizer que o amor é cego, mas neste caso não é apenas cego, é perigoso. Amar a cidade e a ilha requer abrir o olho para a realidade que nos cerca e não sair cantando alegremente que Soncent é sab pa cagá, mesmo que essa "melodia popular" já tenha sido utilizada como exemplo na rádio por um convidado ilustre, como uma música característica da ilha do Porto Grande (ao que isto chegou!).

Na passada semana, uma senhora e uma jovem, mãe e filha, foram brutalmente baleadas, à porta da residência e dentro da própria viatura, para onde se dirigiram, numa fuga desesperada. Foram disparados quatro tiros, com uma arma de guerra. Todos eles acertaram nas vítimas, que só escaparam por milagre, embora ainda estejam no hospital em estado considerado grave. Foi uma execução. Falhada, mas foi, porque quem disparou, atirou para matar. Tudo isto aconteceu em Alto de S. Nicolau, onde vivi recentemente durante alguns anos. Numa zona movimentada. Por onde eu passava todos os dias, com as minhas filhas. Se isto não é suficiente para reflectirmos sobre o estado a que isto chegou, abrir os olhos e não cruzar os ombros, à boa maneira mindelense, e dizer que estas coisas "só acontecem na Praia", não sei o que mais será preciso.

Não dar atenção aos sintomas é o primeiro e definitivo passo para definhar de uma doença terminal. Falar que S. Vicente está falido e ver a fila monumental de gente à porta do Ponta d'Agua todos os Sábados, pronta para pagar por mais uma valente paródia de fim-de-semana, não combina. Há muita coisa que não bate certo nesta história. Mais: afirmar, nos discursos políticos, que "S. Vicente tem tudo para dar certo", tem o mesmo peso e a mesma redundância, que os cânticos do povo no já célebre Sab pa Cagá. 

Um dia, acordaremos para esta triste realidade e por amor à minha ilha e à minha cidade, só espero que esse despertar não chegue tarde demais.



Sempre abominei mini-misses. Essas pseudo-actividades socio-culturais que promovem o culto do corpo em meninas de 5 a 10 anos de idade, com desfiles que já são de gosto duvidoso com mulheres adultas, sempre me causaram algum asco. Mais ainda tendo em conta, por um lado, a indumentária que as crianças são obrigadas a usar, com mais corpo à mostra do que protegido e o fundo musical que acompanha a coisa, com qualidade directamente proporcional ao triste espectáculo que se depara em frente dos nossos olhos. 

Sentia-me ainda mais horrorizado e revoltado ao verificar que muitas dessas actividades eram promovidas por educadores (?) e encarregados de educação (??) das crianças envolvida nas famosas "festas de zona" da cidade do Mindelo. O que raio é que passa na cabeça dessas pessoas, num país onde os casos de pedofilia crescem a olhos vistos e onde a maioria destes casos acontecem no lar onde as crianças vivem e dormem ou nas escolas onde estudam?

Com este vídeo, batemos no fundo do poço. O início do vídeo é apenas asqueroso pelo mau gosto pornográfico que o caracteriza, mas o final é mais do que isso, é criminoso. O local é identificável, as crianças também, os adultos que assistem passivamente e aplaudem esta pouca-vergonha também. Isto para mim só tem um nome: é um caso de polícia.

É hora de dizer basta.




No texto da peça Os Saltimbancos, o personagem Jumento diz, logo no início com alguma piada, que quando alguém não sabe o que pode fazer da sua vida, a melhor solução mesmo é virar um artista, já que hoje, diz ele, todo o mundo canta! Claro que todos sabemos que não é bem assim e devemos desconfiar, cada vez mais, de artistas que nasçam de geração espontânea, sem trabalho, sem aprofundamento, sem formação, sem questionamento, sem auto-exigência, sem humildade. Mas não é para falar dessas fraudes que aqui estou. Antes pelo contrário, quero dar um exemplo que me parece emblemático sobre o que representa ser um artista e o grau de entrega e generosidade que tal actividade deve representar para quem escolhe seguir por esta via, mesmo que para o fazer tenha que trabalhar noutras actividades, pois como sabemos, em Cabo Verde, a criação artística não permite na maioria dos casos que se encha uma dispensa ou se pague uma renda de casa.

O artista de quem quero falar é o palhaço Enano. A cidade do Mindelo já o conhece bem, pois pelo quinto ano consecutivo visita a urbe do Porto Grande deixando sempre grande animação em todos os cantos da cidade. Este ano, Enano, tinha três espectáculos marcados no âmbito do festival de teatro Mindelact. Pois bem, em nove dias, fez mais de dez representações. Enano esteve na Rua de Lisboa, invadiu o mercado municipal, atacou o mercado de peixe e mergulhou no mar da praia de catchorr. Fez de vagabundo e de polícia de trânsito. Promoveu uma divertida lição de culinária para as crianças, visitou o centro de nutricionismo do Mindelo e actuou num lar de idosos. Esteve no centro de pediatria do hospital, com o nariz verde característicos da associação dos Médicos do Riso, que por todo o mundo animam pacientes e crianças que, por infortúnios da vida, foram parar num hospital. Animou a entrada do Centro Cultural do Mindelo com um mimo que entregava beijos e corações, e um mestre de cerimónias que convidava os espectadores a passar por um tapete vermelho para, dizia ele de forma divertida, se sentirem importantes pelo menos por alguns segundos nas suas vidas. 

Na cerimónia de encerramento, o palhaço Enano foi homenageado. Mas não foi apenas o festival que se levantava para o aplaudir. Foi toda uma comunidade artística, toda uma cidade, todo um país. O discurso de Enano, que foi noticiado pela televisão de Cabo Verde, foi emocionante e deixou muitos assistentes de lágrimas nos olhos. Enano falou-nos do que é preciso: acima de tudo, não esconder as emoções, não ter vergonha de chorar, de ser ridículo, de arriscar, de se dar, de partillhar. Contou-nos como sofreu nos tempos de criança e na sua juventude, pelo facto de ser um gago crónico que mal conseguia dizer uma frase do princípio ao fim. Foi com a sua arte de palhaço de rua, de artista de rua, que ele se venceu a si próprio, ao mesmo tempo que se dava a todos os outros. 

Por mim, digo-vos sem problemas, por enquanto que ele quiser as portas do mindelact estarão sempre abertas para um artista fantástico e um ser-humano único como ele, porque ele representa, melhor do que qualquer outro que já encontrei ao longo do meu percurso de programador e encenador, o que deve ser o verdadeiro espírito e alma de um homem ou mulher que decide entregar parte substancial da sua vida à arte e à partilha humana. Que saibamos aprender com ele, é o que se pede e exige. Houvesse mais gente assim e o mundo seria, certamente, um lugar muito melhor para se viver.




Terminou esta semana mais um festival de teatro Mindelact. Claro que sou suspeito em falar, mas também tenho o direito à palavra. E aproveito este espaço para fazer o meu pequeno balanço pessoal sobre o que de mais importante se passou nestes dias mágicos de Setembro.

Em primeiro lugar, a cidade do Mindelo está de parabéns. Mais uma vez acolheu o festival internacional de teatro do mindelo de braços abertos e há muitos anos que não tinhamos tanta gente a encher todos os espaços da programação que foram colocados à disposição dos amantes das artes cénicas. Salas cheias, alguns deias a rebentar pelas costuras, vieram mais uma vez lembrar do que se poderia fazer havendo uma sala de espectáculos com mais condições e, principalmente, mais lugares disponíveis para um público crescente e apaixonado. Mais um ano em que o festival mindelact se fez obrigando muita gente a ficar de fora das salas de apresentação por falta de espaço com o cadável do cine-teatro Éden Park a assistir, impávido e sereno, do alto da principal praça da cidade, ao acontecimento e ao constrangimento. O certo é que o festival mindelact 2011 foi um grande sucesso de público. No Palco Principal, no festival off onde muitas pessoas não se importavam de esperar por altas horas para assistir a mais uma apresentação, mesmo ocorrendo estas em dias de trabalho. No espaço dedicado às crianças, com o grande sucesso do Ciclo Internacional de Contadores de Histórias que encheu, diria mesmo, abarrotou, o pátio do Centro Cultural do Mindelo, de crianças e pais, para assistir, maravilhados às fantásticas histórias oriundas de lugares tão diversos como a Colômbia, Espanha, Mali, Cabo Verde e Brasil.

Outro aspecto que merece grande destaque foi a diversidade da programação por um lado, e a qualidade da organização por outro. Comecemos pela primeira: durante nove dias passaram pela cidade do Mindelo, imaginem, cerca de 30 espectáculos de teatro, uma média superior a três apresentações por dia. 20 companhias oriundas de 12 países fizeram-se representar no evento. E todas as peças nos ensinaram alguma coisa: o teatro clássico, o teatro de actor, o teatro surrialista, o teatro-vídeo mesclado com dança, o teatro de rua, o teatro com manipulação de objectos, o teatro sem palavras mas com a magia de um grupo espanhol que apenas utilizou papel nos cenários e nos adereços, o teatro mágico, o teatro músical, o teatro pedagógico, o teatro cómico. Tudo isso tivemos nós nestes dias e a festa foi grande. Claro que só foi possível atingir tal nível com uma organização de grande nível, constituída maioritariamente por voluntários amantes e membros de grupos de teatro locais. As oficinas foram um sucesso com elevada procura e uma percentagem superior a noventa por cento de acompanhamento, o que foi um grande feito tendo em conta o que acontecia nos anos anteriores.

A cidade está, pois, de parabéns. Acredito, cada vez mais, e tenho tido várias confirmações e testemunhos de quem conhece a realidade africana, que o festival mindelact é hoje o maior evento das artes cénicas africanas e Cabo Verde pode e deve orgulhar-se do tremendo respeito e admiração que vem granjeando um pouco por todo o lado. Para o ano há mais mindelact, porque este é um festival que Cabo Verde se orgulha de ter e não dispensa de forma nenhuma. Bem haja, Dionisio, o Deus do Teatro!

Na imagem: "Futuro Obscuro", Grupo de Teatro Cem-mente, www.fluxu.cv





Desde que me lembro de produzir o festival mindelact, no já longínquo ano de 1996, a chuva vem nos visitar neste período. Ainda recordo da primeira apresentação de As Virgens Loucas, do nosso António Aurélio Gonçalves, cujas primeiras cenas eram apresentadas no pátio interior de um Centro Cultural do Mindelo ainda por inaugurar, onde numa das falas, uma das meninas dizia: “a gente não pode sair agora à procura de petróleo para as nossas lanternas, ainda mais com esta chuva”! E caiu bem esse comentário, porque como se fosse um efeito especial cinematográfico, lá fora caía uma daquelas tempestades de chuva incansável que deixava as ruas do Mindelo transformadas em rios. Nessa noite também se realizava a tradicional procissão da Nossa Senhora da Luz, conhecida por ser um poderoso chamariz das chuvas que quase sempre caem impiedosamente na terra seca da ilha de S. Vicente, nesta ocasião tão especial para os devotos da cidade do Mindelo.

Todos os anos, as chuvas acabaram por criar problemas à organização do festival de teatro, mas nunca como nos últimos anos, até porque já sabemos que quando chove a cidade pára. As lojas fecham, a luz falta, os restaurantes esvaziam, falta rede nos telemóveis, as crianças não vão à escola, e até os táxis desaparecem das ruas, porque não tem condições de circulação para nelas andarem. Lembro-me bem de há três anos, em pleno mindelact, quase ter sido arrastado, dentro do carro onde circulava, pelas correntes provocadas pelas águas das chuvas bem na frente do centro cultural do Mindelo. Foi, digo-vos, um grande susto.

Num município que nunca se preparou condignamente para estas torrentes foi com alguma desconfiança que os cidadãos olharam as intermináveis obras que a Câmara municipal promoveu para, de uma vez por todas, tentar resolver o problema do escoamento das águas das chuvas. As obras foram duras e prolongadas e como bons mandadores de boca que somos, logo muitos torceram o nariz para tanta azáfama obreira. Mas não é que resultou?

Vem isto a propósito destas chuvas que nestes dias nos vieram fazer uma prolongada visita, esperando, digo eu, que caia agora muito para que nos dias do Mindelact nos poupem um bocadinho e nos permitam receber os nossos visitantes com a mesma tranquilamente climatérica característica de grande parte do ano. Ora, nestes dias a chuva caiu e caiu a sério. E funcionou como o primeiro grande teste às obras de que falava ainda agora. Um teste com um sinal mais do que positivo. Mesmo para aqueles que tem memória curta, facilmente nos lembramos de que bastava uma chuvinha para que as nossas ruas ficassem intransitáveis, a Praça de Estrela ou a rotunda de Ribeira Bote, transformadas em imensos lagos. Pois bem, hoje a cidade acordou alegre e lavada. O alcatrão bem à vista, os pontos mais críticos sem qualquer problema de circulação. Um bem haja, pois, para a Câmara Municipal de S. Vicente, e quem saiba agora, não tenha que haver toda uma cidade que pare, só porque S. Pedro resolveu lhe dedicar uma atenção especial.





Praticamente desde a sua fundação, há mais de 18 anos, o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, de que faço parte, ensaia numa biblioteca. Na verdade, a mesma biblioteca que muitos conhecem quando lá vão para consultar um livro, fazer pesquisas, trabalhos de grupo ou estudar alguma matéria. E portanto, o que é para quase todos um espaço de silêncio, meditação ou estudo, transforma-se num local de criação artística direccionado para as artes cénicas. Para isso, todos os dias, mas todos os dias mesmo, na hora marcada do ensaio, quase sempre a partir das 19 horas, o elenco chega e a primeira actividade é o arrastar de mesas e cadeiras e a transformação da biblioteca num espaço de ensaio. Todos os dias, no início dos ensaios: tira mesas, tira cadeiras. Todos os dias, no final dos ensaios: coloca mesas, coloca cadeiras e lá estamos nós a transformar de novo o que foi, durante algumas horas, um espaço de ensaio numa biblioteca normal, igual a tantas outras.

Confesso que sempre me agradou esta sensação de criar uma obra de arte, como é uma peça de teatro, rodeado de livros por todos os lados. É que cada um dos livros que está na biblioteca foi, certamente, resultado de um grande esforço, dedicação, de uma forte energia criativa. Agora, imagine-se tudo isso multiplicado por centenas, por milhares de livros. O que temos como resultado é um espaço pleno de boas energias, pronto para receber aquelas pessoas generosas que, depois de um cansado dia de trabalho, ali estão para mais um ensaio de teatro!

Ora, acontece que esta biblioteca do Centro Cultural Português está situada mesmo no centro da cidade do Mindelo e, como tal, rodeada de casas onde vivem outras pessoas. E como podem imaginar, o som dos ensaios acaba por extravasar para o exterior e entrar pelas casas adentro. É como se tivéssemos no nosso lar doce lar uma espécie de aparelho radiofónico onde, todos os dias à mesma hora, ouvíssemos repetições de uma mesma peça de teatro. E no nosso caso particular temos tido nos últimos anos uma espectadora atenta que, montagem após montagem, peça após peça, faz questão de abrir a janela da sua casa para generosamente deixar entrar no seu ambiente pessoal, as falas das nossas personagens. Durante dias e dias a fio. E sendo assim, quando a peça está pronta para ser estreada, já conhece a peça como a palma da sua mão! E agora, é hora de ir ao teatro e verificar o resultado visual de tudo o que ouviu durante tantos dias seguidos.

Num dos últimos ensaios lá estava ela, na sua janela, a cantar uma das músicas da produção Bodas de Sangue, que vai estrear na abertura do festival Mindelact, no próximo dia 09 de Setembro. Pois claro, já a sabia todo de cor, de tanto a ouvir, pela boca dos actores do elenco! Esperamos poder contar com a presença dela nesse dia de estreia para lhe retribuir a sua fidelidade e paciência, que são duas fantásticas qualidades para se poder ser um bom espectador de teatro, desde que, claro, nunca se perca o lado crítico daquilo que se está a ver.




Geralmente o mês de Agosto é conhecido, para além de ser o tradicional mês das férias, da curtição nas ondas do mar e areias das nossas praias, das parodias nocturnas em ritmo non-stpo, como o mês da música, não fosse nesta altura que tem lugar na nossa querida ilha de S. Vicente, o festival de música da Baia das Gatas, o maior e mais antigo evento musical do arquipélago. Não vou agora, neste âmbito, discutir ou colocar em causa quer a programação e os artistas escolhidos para a edição de 2011, nem muito menos falar dos valores anunciados como o investimento que a Câmara Municipal de S. Vicente, promotora do festival, faz este ano, dito, vejam lá, como um ano de contenção. Seja como for, apetece dizer que já se faz tarde uma profunda reflexão sobre que tipo de investimento e gastos os municípios fazem nestes festivais de música, onde são hipotecados quase sempre as maiores fatias orçamentais que estes tem para dedicar às actividades culturais dos seus programas de acção. Que tipo de retorno os festivais de música nos dão? Justificam os gastos avultados que neles se aplicam? Quem paga esta factura? 

Apesar disso, Mindelo tem se mostrado uma cidade extraordinariamente activa no que às artes cénicas diz respeito. Não me lembro, em muitos anos, de ver tantas peças em cartaz. Desde Julho, com o grupo de teatro Juventude em Marcha, e até ao final de Agosto, tivemos e teremos as mais diversas apresentações teatrais, naquele que será uma espécie de aquecimento para a grande festa do teatro, o festival mindelact, que abrirá portas no próximo dia 09 de Setembro. Das peças apresentadas até agora, permitam-me destacar a obra do Grupo de Teatro do Centro Cultural do Mindelo, A Casa dos Bonecos, da autoria de Caplan Neves, que assina ainda a direcção artística e a música original da peça. Grande trabalho corporal do elenco, belo e pertinente texto sobre violência contra as crianças, um espectáculo pertinente, criativo e inteligente. Assim sim, dá gosto ver teatro crioulo nas nossas ilhas!




Nestes dias, em que mais um Verão está a ligar os motores e a entrar definitivamente em velocidade de cruzeiro, tenho dado por mim a olhar para as pessoas que invadem a cidade do Mindelo e verifico o quanto S. Vicente muda e se altera nestes quentes e agitados dias de Agosto. Não haja dúvidas que a proximidade de mais um festival de música da Baía das Gatas faz com que seja este o mês de eleição para que muitos emigrantes escolham ser esta a altura ideal para a marcação das suas férias e retornem à terra mãe para um merecido descanso.

Bem, merecido descanso é, naturalmente, uma força de expressão porque se há alguma coisa que caracteriza este mês na ilha do Porto Grande é a quantidade inacreditável de festas e comemorações, públicas e privadas que acontecem praticamente todos os dias nos hotéis, nas residenciais, nas empresas, nas ruas, nos bairros, nas casas, nos terraços dos prédios, nos quintais, nos becos, por todo o lado, o Mindelo transforma-se num imenso arraial, onde à tristeza é vedada a entrada. Talvez por isso esta seja uma campanha eleitoral que quase passa despercebida, tendo em conta que muitos dos comícios continuam a socorrer-se de grupos e bandas musicais, os mais variados, como chamativo para juntar as multidões indispensáveis aos discursos políticos e às imagens de televisão em tempo de antena. Então, esta sensação de festa permanente acaba por ser potenciada neste tempo de caça ao voto e não fossem os carros com anúncios sonoros em altos berros que nos furam os tímpanos anunciando as visitas dos candidatos presidenciais e os próximos comícios nos diversos bairros da cidade, e seriamos tentados a concluir que esta proliferação de concertos musicais seria apenas mais uma consequência do gosto particular pela folia e paródia que sempre caracterizou o habitante da cidade do Mindelo.

Mas não são apenas os imigrantes que animam as ruas e praças da urbe mindelense. Uma crescente presença de turistas, estudantes em férias, muitas pessoas que se viram obrigadas a ir trabalhar para outras ilhas, principalmente para a cidade da Praia, escolhem esta época para um regresso a casa e entram na onda festiva com a mesma naturalidade de quem bebe um copo de água fresca em tempo de calor. Os restaurantes e as esplanadas estão quase sempre cheios e o negócio recupera algum do fulgor perdido noutras alturas do ano. 

Pena que todo este ambiente de aparente alegria e leveza nos faça esquecer todos os problemas que assolam esta ilha, com uma taxa de desemprego absurda, uma inércia absoluta para a reivindicação e o exercício pleno de uma cidadania activa, um voltar para o próprio umbigo que faz com que cada um veja simplesmente a parte ignorando o todo. Que esta efervescência, que todas as noites sinto quando subo ao terraço do prédio onde vivo, e que me faz ouvir os ecos de múltiplas festas das mais variadas origens não nos faça esquecer de que um dia fomos uma ilha conhecida pelo seu poder criativo e reivindicativo e hoje nos limitamos a ser uma espécie de pátio onde todos atiram foguetes, esquecendo-se depois de que alguém tem que ficar para apanhar as canas e, mais importante do que isso, pagar a factura por tanta paródia.




Na sequência dos sucessivos cortes de luz e falta de água, que desde há meses tem fustigado a capital do País, cidade da Praia, foi anunciada uma manifestação de repúdio e protesto tendo a Electra como principal alvo. Tendo em conta o número reduzido de participantes, se comparado com a quantidade tremenda de pessoas que são, e tem sido, prejudicadas por essa situação de penúria de água e luz, confesso que fiquei algo desapontado. 

Alguns órgãos de comunicação social deram conta da participação de cerca de três centenas de pessoas na manifestação, o que me parece manifestamente pouco, dada a gravidade da situação. Hoje, em que todos os candidatos à Presidência da Republica clamam pela patente da cidadania, talvez não fosse mau reflectirmos um pouco sobre essa falta de capacidade de mobilização dos cabo-verdianos, quando o assunto é também do seu interesse. No dia em que foi marcada a tolerância de ponto pelo Governo, para a campanha nacional de limpeza, também foi um pouco isso que se assistiu: metade limpava, a outra metade assistia com uma Strela fresquinha nas mãos e um sorriso cínico no rosto, como quem diz, “mim, n ka tem nada a ver kess koza!”

Parabenizar quem participa nessas acções cívicas não impede que possamos questionar também porque é que ainda estamos tão aquém do que seria desejável para podermos dizer que temos em Cabo Verde uma sociedade civil activa, consciente, participativa e interessada. A verdade é que não temos. Ainda são poucos os que tem consciência de que a união faz a força, e que se a manifestação de protesto pelo mau funcionamento da Electra tivesse tido, por exemplo, o mesmo número de participantes que tem, por exemplo, o festival de música da Gamboa, cerca de 40 mil pessoas, a pressão para que este problema fosse resolvido, a consciência de que o Governo tem que encontrar uma solução nova para uma questão que já tem barbas de tão antigo, seriam infinitamente maiores.




Este fim de semana, que a cidade do Mindelo está em festa com celebrações de finalistas de praticamente todos os graus de ensino, desde os infantários até às Universidades, lembrei-me que talvez não fosse má ideia comentar uma notícia que saiu esta semana na Nação, que dá conta, em letras garrafais que a "Uni-Cv abre caça às bruxas". Fiquei curioso e fui ler em que consistia essa terrível represália, certamente pouco recomendável num país democrático. E fiquei informado do que seria essa tal "caça às bruxas": a Reitoria colocou em prática uma avaliação dos professores cujo contrato caduca no presente ano lectivo. Segundo ainda vem escrito, a medida está a ser recebida pelos professores "com um misto de espanto, apreensão e revolta."

Não sei se percebi muito bem a razão para tanto alarido. Em primeiro lugar, se os professores fizeram o seu trabalho bem feito, e todos queremos crer que o fizeram, não tem nada a temer. Em segundo lugar, se estão em fim de contrato e há a possibilidade deste ser renovado, há que ter algum critério para se decidir se o professor a, b ou c merece a confiança do Estado para continuar a dar aulas na Universidade Pública. Não vejo onde possa estar a polémica. 

Talvez o maior problema aqui seja a falta de conhecimento sobre como será feita a referida avaliação e saber se, tendo esta como pretexto, a ocasião será aproveitada para afastar vozes críticas. Mas isso são contas de outro rosário. Uma vez sabidos os resultados e os métodos, poderemos então tirar conclusões. Se um professor com reconhecida e comprovada competência técnica, científica e pedagógica não vir o seu contrato renovado por alguma razão menos clara, terá, então sim, todas as razões para protestar, com os instrumentos legais que certamente tem ao seu dispor. 

Quem não deve não teme. Se os professores fizeram o seu trabalho bem feito, não tem nada a temer, antes pelo contrário. Agora, não podemos estar sempre a mandar bocas sobre a falta de qualidade do nosso ensino superior, privado e público, e depois bradar aos céus, e gritar que há uma "caça às bruxas", só porque os principais responsáveis pela transmissão dos conhecimentos ministrados nas Universidades estão ser avaliados para que se decida se um contrato de trabalho é ou não renovado.




89 são os anos que separam 2011 do ano em que foi inaugurado o Cine-Teatro Éden Park. Com efeito, conta-nos a história que a ideia da sua fundação partiu do empresário César Marques da Silva, funcionário do telégrafo inglês, homem empreendedor de raras qualidades que, em 1922 avançou para este projecto, que viria a marcar gerações sucessivas de cabo-verdianos. 

E no actual estado de coisas, este é um assunto que já foi chão que deu uvas, como se costuma dizer. O Éden-Park já era. Esfumou-se e é apenas memória. Uma bruma seca que se vai desfazendo à medida que uma geração é substituída por outra. É também o resultado e a imagem de uma sociedade demasiado apática, permissiva e acomodada. Tivéssemos nós uma classe artística com os ditos cujos no seu devido lugar, passo o exagero do termo, e este seria um espaço e uma situação ideal para se transformar num cenário de uma invasão pacífica, pela arte e pelo direito à criação artística, uma tomada de posse sem selo oficial, em plena desobediência civil, com riscos elevados é certo, com actores amarrados às grades com cadeados, artistas plásticos a promover ateliers e a pintar paredes, grupos de dança a ensaiar, músicos em sessões de improvisação, dentro de um espaço que sendo privado, está abandonado e largado à implacável deterioração provocada pelo tempo e pela inércia absoluta. 

Se há quem lá entre todos os dias, impunemente, para roubar madeiras, materiais, espólio, nas barbas das autoridades, o que mais falta? Quem iria impedir? O proprietário está sumido na fumaça, não há projecto que se conheça, apenas desconfianças que muitos falam à boca pequena e ninguém tem coragem de gritar à boca grande.Alguém nos sabe dizer o que está projectado para aquele espaço mais do que nobre da cidade do Mindelo? Ou a imagem de um novo MindelHotel de vinte andares naquele enquadramento urbanístico só a mim provoca urticária, receio e pele de galinha? 

Contra mim falo, eu sei. Mas o Éden-Park, que neste momento já nem o "A" do seu nome tem como testemunha, foi abandonado e não é de hoje. O Éden-Park foi abandonado por nós todos. Sacudir a água do capote para cima do poder municipal ou central é muito fácil. Olhando para o que já não tem remédio nem remediado está, cabe-nos perguntar: e nós, o que fizemos para o evitar? A resposta é implacável: não fizemos nada e somos também coveiros deste triste desfile fúnebre que se revela perante os nossos olhos, oitenta e nove anos depois.

Prólogo: ver uma pessoa com o estatuto humano da Luísa Queirós a chorar, emocionada, depois do visionamento do documentário Éden, ontem aqui na cidade do Mindelo, doeu-me fundo na alma. "Como foi que deixaram isto ter chegado a este ponto? Como foi possível?", era o que perguntava incessantemente. Quem souber, que responda.




Hoje, fui assistir a um encontro entre jovens alunos de escolas secundárias de vários liceus, promovido pela actriz e também professora Patrícia Silva, no sentido de preparar uma performance para a abertura da próxima edição do festival Mindelact 2011. Mas isso não é o mais interessante. Patrícia já tinha um projecto de teatro num dos liceus da ilha, mas ao que parece na peça apresentada ao público alguns dos jovens utilizaram linguagem considerada "pouco apropriada" e o grupo de teatro passou a ser visto com outros olhos por quem de direito. Não sei precisamente o quê e o como, mas pareceu-me excessivo que algo tão interessante pudesse ter terminado por uma situação tão banal, como se os nossos jovens, em tantas alturas do seu dia-a-dia, não utilizassem essa mesma linguagem considerada "pouco apropriada" e, mais ainda, como se não fosse também a missão da arte cénica colocar no palco alguns dos males sociais que nos invadem, para que, perante o espelho, a sociedade possa acordar para certas realidades. 

Mas o que mais me chamou atenção foi o elevado número de participantes no referido encontro, várias dezenas, e se não me engano, os quatro liceus existentes hoje no Mindelo estavam representados. Jovens que de livre e expontânea vontade, vão sacrificar parte das suas férias para entrar, de corpo e alma, nesta aventura. Sangue novo, ideias novas, grupos novos, espalhando teatro pelos quatro cantos da ilha. Aplausos, pois.

No mesmo dia, passando pela Praça D. Luís, num Sábado calorento, um grupo de jovens, numa instalação criada para o efeito e que cobriu toda a (grande) extensão desse espaço público, pintava, enquanto que em tendas montadas para o efeito, crianças se dedicavam igualmente à pintura e ao desenho, se não estou em erro num concurso de artes plásticas patrocinado por uma marca nacional de tintas,  cujo enquadramento preciso não conheço, mas que deu um colorido fantástico num lugar que, por regra, é cinzento e pouco frequentado.

Dias antes, fui à Escola Jorge Barbosa para assistir a um ensaio do coro daquele estabelecimento de ensino. Fomos muito bem recebidos pelo responsável do grupo, o professor Valério, e uma vez na sala nos deparamos igualmente com um número muito razoável de jovens, de várias faixas etárias, que ali estavam, perto das oito horas da noite para... cantar. E feito o primeiro e rápido aquecimento de voz, tive oportunidade de ouvir uma versão coral da música de Orlando Pantera, Regasu, que pura e simplesmente, deixou todo o meu corpo arrepiado. Arranjo vocal em três tons fantástico, afinação rigorosa, resultado final deslumbrante. Sai de alma nova.

Estes acontecimentos tem dois pontos coincidentes, no mínimo: acontecem na cidade do Mindelo e envolvem jovens adolescentes. Muitos outros grupos ligados a teatro, dança, artes plásticas ou música vão nascendo, ligados a Igrejas, instituições, escolas ou por iniciativa dos próprios, em vários bairros da cidade. A cidade pulsa e as novas gerações preparam-se para acordar a cidade. Ali, na Praça Nova, aquela ruína que foi um dia a mais antiga e emblemática sala de espectáculos do país, assiste a estes acontecimentos, impávida e serena.

Nem tudo é podre no reino da Dinamarca.




Iniciou-se hoje o julgamento de Carlos Pulu, a propósito do célebre caso da TVP, auto-intitulada TV do Povo. Como primeiro ponto de ordem, devo dizer que apenas conheço a pessoa em causa de o cumprimentar em acontecimentos sociais ou na rua e que, portanto, não tenho com ele o que se pode chamar uma relação de amizade.

Para quem não sabe o caso conta-se em poucas linhas: por iniciativa própria, Carlos Pulu começou a emitir para todo o Mindelo um canal de televisão, mais do que privado, doméstico. Escolhia os programas e os canais que emitia, durante parte importante do dia, promovendo, lá onde se justificasse o interesse local, reportagens que ele próprio fazia. A "programação" era organizada para agradar a todos: nas manhãs emitia canais infantis, na hora do almoço a SIC notícias, de tarde as novelas da Globo, no inicio da noite algum dos canais generalistas portugueses, e pela madrugada dentro, canais de cinema. Quando em 2006, chegou o Campeonato do Mundo de futebol, interesses mais elevados se elevaram e a Direcção Geral da Comunicação social obrigou que a emissão fosse interrompida, o que não foi logo acatado. Resultado: tribunal com ele e a maior manifestação popular de que há memória no Mindelo nos últimos tempos.

Até aqui tudo bem. O problema é que este julgamento é uma tremenda demonstração de hipocrisia judicial, porque até hoje qualquer um pode ver canais portugueses, incluindo um dos canais pré-pagos de desporto, que são pirateados pelas Câmaras Municipais e emitidos nos seus concelhos. Estas também, ou pelo menos aqui de S. Vicente, estão a emitir ilegalmente. Até hoje. Onde estão os processos judiciais?

Os próprios canais de televisão com licença legal, emitem séries famosas e filmes da grande produção cinematográfica mundial, sem que se saiba muito bem se estes direitos de emissão foram, efectivamente, comprados nas grandes feiras internacionais onde as principais distribuidoras mundiais negoceiam estas coisas. Ainda me lembro do tempo em que se via um filme na televisão nacional e no final aparecia a comprometedora frase "não se esqueça de rebobinar a cassete". Outros tempos...

Neste, como em muitos outros casos, a moralidade só serve para alguns. E ao querer fazer-se justiça, coloca-se a nu uma das suas maiores debilidades: a de que a justiça tem dois pesos e duas medidas conforme o poder político e financeiro de cada qual.




Sobre tudo isso falarei mais tarde. Ou não. Sobre os candidatos a candidatos à Presidência da República de Cabo Verde - que ainda não o são oficialmente - e sobre essa estranha questão de ser ou não ser "um candidato da cidadania", quando isso dá jeito pelas circunstâncias ditadas pelos aparelhos partidários. Ou sobre a eterna questão da falta de água e luz que segundo os responsáveis da Electra é um problema que já têm data marcada: "Pode ser daqui a algumas horas, ou então amanhã ou depois", colocando em causa toda essa universal questão do tempo que é e do tempo que passa. Ficamos agora a saber que ter data marcada é assim, como quem não quer a coisa, algo de etéreo e indefinido. Nunca mais ouviremos noivos falar que "estão de casamento marcado" porque isso, a acreditar no novo Teorema Temporal da Electra, quererá dizer, seja no fundo da questão ou vista a coisa superficialmente, que pode ser daqui a algumas horas, ou então amanhã ou depois.

Sobre isso falarei mais tarde. Ou não. Sobre como a imoral taxa de desemprego espanhola tem sido o motor que fez funcionar uma mistura de desespero, com esperança e vontade de não calar, provocando um imenso acampamento na principal praça da cidade de Madrid, um acampamento sem data marcada, nem para entrar nem para sair, porque foi o sistema montado que se encarregou de colocar milhares e milhares de pessoas, jovens e menos jovens, fora de si mesmas, sem mais o que fazer a não ser aguardar por algum sinal de esperança. Por isso também algumas fotos que coloquei aqui no Café Margoso, que como as boas imagens, valem por muitas palavras.

Mas mesmo naqueles que não acreditam nos candidatos presidenciais que se perfilam, nem entendem como algo pode ter data marcada sem o ter, nem aceitam o facto da crise económica generalizada, provocada por gente endinheirada sem qualquer tipo de escrúpulos, possa provocar uma paralisia e uma inércia que nos transforme de homens e mulheres em avestruzes, para esses, dizia, há sempre a esperança que do nosso lado esteja alguém que amamos disponível para receber um beijo apaixonado. Mesmo que seja de cabeça para baixo, o que até condiz melhor com o estado do mundo actual.




Muita coisa tem acontecido nestes últimos tempos, dentro e fora de portas. A aprovação do novo programa do Governo, a morte de Bin Landen, os pré-candidatos (publicamente assumidos) às eleições presidenciais que se posicionam em cerimónias públicas procurando dar-se a conhecer melhor ao eleitorado, os casos do futebol com as vitórias de uns e as derrotas de outros, a subida do custo de vida, água, electricidade, pão, as visitas dos deputados aos seus círculos eleitorais para "sentir o pulso", mais congressos e encontros e mesas redondas e diagnósticos e workshops e ateliers de capacitação, violência que mata mais de uma dezena de crianças no Rio de Janeiro, terramotos e desastres nucleares, crise, crise, crise, crise, o mundo em movimento.

Já o disse e reafirmo: este é um espaço pessoal tornado público. Não são coisas incompatíveis. Partilho poesia, actividades culturais, muito mais meus amores que dos meus ódios. Ódios que, felizmente e por natureza própria, os tenho poucos e quanto os tenho, duram quase nada. Se gosto de um filme, como por exemplo, o inatacável Fala com Ela, de Pedro Almodovar (na imagem), é muito provável que escreva sobre isso. Sem querer dizer com isso que não haja quem deteste o mesmo filme. Normal. Ou sobre os artistas de Cabo Verde, que merecem o maior respeito e admiração, tendo em conta que a criação artística é, ainda hoje, uma espécie de desporto radical que muito raramente trás riqueza material ou sossego espiritual. 

Como encenador e homem do teatro reafirmo que é, sobretudo, através da minha arte, a arte cénica, que dou conta do que me inquieta e é através do teatro que procuro o meu lugar na sociedade. Não tenho, nem quero ter vocação para ser um "fazedor de opinião", muito menos um intelectual, sem desprimor para quem o seja ou tenha ambição de o ser. Por outro lado, nem penso que a minha opinião valha seja o que for, porque é apenas isso, uma opinião. Que neste âmbito da blogosfera, das crónicas no jornal ou na rádio valem o que valem e eu penso, sinceramente, que valem pouco. Nem todos podem ter a pretensão de se acharem dignos de serem ouvidos "pela sociedade". Ou que esta esteja, suspensa, esperando que  se abra a boca ou liberte a pena para dizer ou escrever a sua sentença sobre os assuntos correntes relatados no último telejornal. Já dei para esse peditório. 

Dizem que a audiência trás responsabilidade, mas desde há muito deixei de me preocupar com isso. Que as pessoas esperem de mim um bom trabalho na próxima peça ou que me exijam uma programação de qualidade no próximo festival mindelact, é perfeitamente legítimo. Essa sim, é a minha função, enquanto artista, encenador ou produtor da área do teatro. De resto, tento olhar com o máximo de atenção o que se passa à minha volta, aprender com os outros, procurar sinais, cada vez mais raros, que nos dêem alguma esperança no futuro próximo, e seguir em frente. Sendo o teatro uma arte do colectivo por excelência, e não tendo eu tendência para fazer monólogos encenados por mim próprio, sou "obrigado" a aprender o oficio da partilha e do trabalho com os outros, seja com o actor que está a contracenar do meu lado, o elenco que dirijo, o cenógrafo que faz o cenário, o iluminador que ajuda a dar vida à cena, a figurinista que veste os personagens, o designer responsável pela imagem do nosso trabalho colectivo no exterior. E todas estas pessoas, trabalham para tantos outros. Aqueles que nos vêem. O público. Os públicos. 

E é quanto baste. 




Um dos episódios mais interessantes do dia da minha primeira experiência na cidade do Mindelo, onde cheguei por mão e conselho do músico Vasco Martins - a quem sou, também por isso, eternamente grato - foi ter sido levado, no próprio dia de chegada à ilha, até casa de uns amigos do Vasco, para entre muita euforia assistir a um clássico do futebol português entre o Sporting e o Benfica. Fiquei espantado com a forma entusiástica e conhecedora com que se acompanhava o campeonato luso, algo que se mantém até hoje, até com mais visibilidade.

Nunca mais me esqueço de assistir a alguns jogos na rua, à porta da casa do fotógrafo Djibla, que apanhava a emissão com a sua antena e, de forma generosa, colocava uma televisão num parapeito da sua casa para que os amantes da bola pudessem seguir as incidências das principais partidas do campeonato português. Nessa época não havia Internet, nem Sport TV, nem transmissão de jogos pela televisão nacional de Cabo Verde. O futebol era seguido pela rádio, com o mesmo entusiasmo com que é seguido hoje pela televisão.

Aqui também "aprendi" a passear orgulhosamente pela cidade a camisola do meu clube que, como não podia deixar de ser, é o FC Porto. E desde que conheci, também nesses primeiros tempos, um taxista entusiástico adepto dos dragões que coleccionava camisolas do clube, passei a fazer o mesmo, mais ainda nos dias de hoje, onde por questões de marketing, estas mudam de formato e cores quase todas as épocas. E felizmente que nestes últimos vinte anos tenho tido todos os motivos e mais algum para passear esta indumentária pelas ruas do Mindelo: o FC Porto é um clube diferente que, graças às muitas vitórias nacionais e internacionais, ao seu poderio e competência, continua a fazer crescer a olhos vistos os adeptos que vai conquistando um pouco por todo o mundo. Não é por acaso também que as minhas duas filhas são hoje acérrimas adeptas do clube azul e branco e que para a mais nova Inês, a música preferida seja a dos Filhos do Dragão.

Na cidade do Mindelo, assim que festejamos o último campeonato com um cheirinho à-la-Electra - com um delicioso apagão em pleno Estádio da Luz - ouviam-se da janela da minha casa, em Monte Sossego, inúmeras buzinas e gritos de vitória. Adeptos gritando o nome do seu clube das janelas e varandas das suas casas. Somos cada vez mais. E é natural que assim seja. Neste mundo triste e perigoso, as vitórias do nosso clube do coração são um bálsamo para a alma. Por isso também, foi delicioso estar ontem num bar do Columbim a abarrotar de adeptos do FC Porto para testemunhar mais um momento extraordinário do clube que, ao golear por 5-1 o adversário numa meia final de uma competição europeia, deu mais uma prova do seu poder de fogo dentro de campo. Neste local, havia dois bares, cada um com a sua televisão, cada um passando o seu jogo. E devo dizer, sem que isso queira dizer nada, que no lado onde se festejou cinco vezes, o número de clientes era substancialmente. Coincidências...






A menina a que todos chamam de gorda, passa dias sem comer para perder peso. O menino apelidado de burro, quem sabe tenha problemas de aprendizagem. A menina dita feia passa horas arrumando-se para que colegas a aceitem. O menino que é provocado e gozado na escola, pode receber maus tratos em casa e esse comportamento só estará a contribuir para destruir sua auto-estima. A isto chama-se bullying e é uma realidade em muitas escolas de Cabo Verde.

A minha filha Laura, de 13 anos, que frequenta o Liceu Ludgero Lima, em S. Vicente, contou-me vários episódios de arrepiar, de violência física e psicológica de alunos contra alunos. Alguns destes acontecimentos tem lugar à vista de todos e ninguém faz nada. Outras vezes, os alunos queixam-se em casa mas não são levados a sério. Se for rapaz, é apelidado de ter sido pouco macho por "não ter respondido à altura"; se for menina, é apelidada de devassa, porque o mais certo é ter acontecido aquilo por causa "do seu comportamento atrevido."Raramente casos destes chegam às directorias das nossas escolas. Porquê?

Na semana que passou, num liceu do Rio de Janeiro, Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, ex-aluno, invadiu a instituição de ensino e disparou contra alunos. Principalmente meninas. Todas com idades compreendidas entre os 12 e os 14 anos. Deixou uma carta onde, entre outras informações, afirma ser virgem. Não custa nada imaginar o que aconteceu na cabeça deste psicopata. Matou 12 crianças, 10 meninas e 2 rapazes. Outros encontram-se no hospital em estado muito grave. Atirou para matar. Na cabeça ou no tórax. O Brasil chora. Eu tremo e temo.

Continuemos a ignorar o que se passa nas nossas escolas e um dia a desgraça bate-nos à porta. Não pensemos na forma como andamos a educar e a acompanhar as nossas crianças e um dia seremos confrontados com casos desta envergadura. Algo semelhante já tinha acontecido, por exemplo, nos Estados Unidos (lembrem-se do filme Elephant, referenciado aqui e da reflexão que motivou, aqui). No Brasil foi a primeira vez que um caso destes aconteceu.

E nós, estamos à espera do quê para abrir os olhos?



Circula na rede social Facebook uma pequena história que hoje gostaria de partilhar com vocês: um homem chama um chefe de um grupo de seis músicos para tocar no seu casamento. "Quanto é que vocês vão cobrar, mais ou menos?", pergunta o dono da festa. O músico diz que cobrará cerca de "dois mil euros." Reacção imediata: "tanto! Para tocar cobram isso tudo!". Ao que o músico respondeu, "olhe, chame seis canalizadores para trabalhar em sua casa no Sábado, das 18:00 horas até depois da meia-noite. Pode ter a certeza de que nós vamos tocar pela metade do que eles lhe iriam cobrar."

Isto para dizer o quê? Bem, para dizer que se querem que se acabe com o choradinho do apoio que tantos dizem ser a única coisa que os artistas desta terra sabem fazer, não seria mau, em primeiro lugar, começarmos por respeitar o trabalho deles, não torcendo o nariz de cada vez que se cobra alguma coisa por um livro, uma peça, um CD, um concerto. Disse-me uma vez um artista meu amigo que não lhe pedissem que ele desse de graça a única coisa que podia fazer profissionalmente e com a qual ele ganhava o pão-nosso de cada dia. Mas também não é apenas uma questão de sobrevivência, é uma questão de valorização e uma questão de respeito pelo trabalho dos outros. Na arte não é diferente. Não devia ser diferente.

A grande maioria dos artistas de Cabo Verde não vive da sua arte. Aqueles que conseguem viver da sua arte são logo apelidados de preguiçosos ou levianos porque "não arranjam nada melhor que fazer". Eis um lado da questão que é preciso alterar radicalmente o quanto antes: essa mentalidade de que a arte é algo sem valor. Não é. O seu valor está no alimento que dá ao espírito e à alma dos homens e mulheres deste mundo. Sem ela seriamos ainda mais obtusos, o planeta ainda mais perigoso, a vida ainda mais assustadora. E isso não tem preço.




O anúncio do novo Governo de Cabo Verde trouxe, independentemente dos nomes escolhidos, uma boa notícia: o Ministério da Cultura volta a ser autónomo e a ocupar o lugar que merece na orgânica do elenco governamental. A junção da pasta do Ensino Superior com a da Cultura foi um lapso que, felizmente, não perdurou durante muito tempo. 

Resta-me agora dizer algo sobre a escolha do novo ministro, Mário Lúcio Sousa, de quem sou amigo e admirador, e portanto, suspeito para emitir qualquer opinião que possa ser considerada imparcial. Mas tudo bem. O que me apetece dizer é que prefiro um artista experiente na pasta do que um tecnocrata que não conhece o meio, nem os agentes culturais, nem as suas preocupações, muito menos as difíceis condições em que os artistas desenvolvem os seus percursos criativos em Cabo Verde.

Ora, Mário Lúcio, com o currículo que tem como músico, compositor, dramaturgo, escritor e artista plástico (área que explorou pouco e abandonou cedo) pode ser um triunfo poderoso. Além do mais é jurista, mesmo que não exerça e portanto domina os meandros de um dos sectores que mais falhas apresenta em toda a estrutura das políticas culturais no país: a legislação. 

É um homem que tem material produzido de reflexão na área e cabe-lhe agora criar as condições para que o que tem defendido possa ser aplicado na prática. Não sendo gestor - não se pode ter tudo - é também alguém com capacidade de ouvir os outros, assimilar, julgar e agir segundo aquilo que julga ser o melhor para a área. 

Já lhe chamam a versão Gilberto Gil cabo-verdiana. Se o percurso e o trabalho desenvolvido vier a confirmar esta doce ironia, só lhe fica bem, até porque estamos a falar de um ministro, também ele artista e músico, que revolucionou todo o panorama da aplicação de políticas públicas nesse imenso país que é o Brasil. 

Tudo o que aqui vai escrito não é o garante que venha a ser um bom Ministro da Cultura. Eu acredito que possa vir a ser. Agora é dar tempo ao tempo e esperar que aconteça o que certamente todos desejamos: que as políticas públicas na área da Cultura durante a próxima legislatura representem uma profunda viragem naquilo que foi a inércia, a incapacidade e a falta de criatividade que a caracterizou durante os últimos anos. 



O programador António Pinto Ribeiro deu uma conferência no Mindelo, onde falou de um exemplo de aplicação de políticas públicas para a cultura que talvez poucos conheçam: a antiga presidente do Chile, Michelle Bachelet, que liderou o país entre 2006 e 2010, durante o seu mandato fazia-se acompanhar em todas as suas viagens, por um grupo de teatro. A apresentação pública desse grupo no país visitado era quase sempre um dos pontos altos da agenda da visita e foi esta a forma que ela encontrou para promover o seu país e contribuir para o desenvolvimento teatral do Chile que também por causa desta medida conheceu nos últimos anos avanços extraordinários.

Ora cá está algo que nunca entendi porque não é aplicado a Cabo Verde: a diplomacia cultural. Não se entende porque é que não existem Adidos Culturais nas Embaixadas de Cabo Verde, responsáveis por uma programação dedicada à promoção da cultura do país, convidando artistas residentes no arquipélago ou no país da própria embaixada e promover um programa vasto de promoção cultural. Não se entende porque é que os artistas, músicos, bailarinos, actores, artistas plásticos, poetas, são tão poucas vezes convidados a fazer parte das comitivas, sejam elas Presidenciais ou o Chefe do Governo. 

Intitulamos Cesária Évora de "nossa embaixadora" mas nem paramos para pensar no que isso realmente significa. Cabo Verde deve ser dos países do mundo que mais teria a ganhar com a implementação séria, sustentada, programada, de uma vasta diplomacia cultural. Com ganhos, inclusive, de teor económico, até porque dar o país a conhecer ao mundo tendo a cultura como principal motor de promoção, é a melhor forma de contribuir para o seu pleno desenvolvimento. O que se tem visto nesta área? Muito pouco. Quase nada. Achar-se que a distribuição de alguns passaportes diplomáticos a artistas resolve esta lacuna é demasiada ingenuidade, para não lhe chamar outra coisa. 

Imagem. «petalaflor desta varanda», de Manuel Figueira