Mostrar mensagens com a etiqueta Crioulo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crioulo. Mostrar todas as mensagens




O Parlamento cabo-verdiano acabou de chumbar a paridade entre as línguas cabo-verdiana e portuguesa no processo de Revisão Constitucional em curso, tendo o debate terminado neste preciso momento. Estranhamente, não me apercebi de nenhum deputado que tenha levantado a questão da (eventual) inconstitucionalidade da medida que aprovou o Alfabeto Cabo-verdiano (ex-Alupec), na senda do que foi defendido pelo Dr. Virgílio Brandão nos seus artigos no blogue Terra Longe. Dado importante: o Ministro da Cultura, o maior defensor deste processo de oficialização, não esteve presente por motivos de agenda, facto que foi, naturalmente, criticado pela oposição. De resto, os argumentos esgrimidos primaram pela superficialidade e pela rivalidade partidária.

A UCID votou contra porque considera que não foram criadas as condições para esta oficialização e que o povo de Cabo Verde não foi tido nem achado nesta matéria.

O MpD absteve-se porque considera que esta oficialização seria só uma operação de cosmética e que não existem condições, neste momento para que isso possa acontecer.

O PAICV votou a favor porque considera que este seria o único passo válido para uma dignificação da língua cabo-verdiana, e que passados 10 anos da última Revisão Constitucional, esta era a hora para dar este passo em frente.

E agora? Quo vadis, kriolus?





E Manuel Veiga, mais o linguista e cidadão do que propriamente o Ministro da Cultura reagiu (aqui) ao autêntico vendaval de discussões que segue na Internet, seja no Fórum de ASemana seja no Tertúlia Crioula (aqui), este último batendo autênticos recordes de participação, com mais de 500 comentários até à data (e com esta longa reacção de Veiga, promete continuar).

Sou daqueles que pensa este tipo de discussão pode ser não só útil como bastante elucidativo sobre a forma como cada um defende os seus pontos de vista, assim como nos mostra como a intolerância, o ódio e a maledicência entre cabo-verdianos está demasiado presente na discussão desta temática da língua. Uma discussão que, pela forma e conteúdo que a caracteriza, pode tanto ajudar a esclarecer quanto a confundir os mais incautos, até porque há argumentos válidos de "um e do outro lado". Além de que acontecem fenómenos curiosos, como o facto de haver alguns indivíduos que acabam dominando o debate, assumindo os mais diversos pseudónimos mas cujo estilo de escrita facilmente indicia se tratar de uma só pessoa; ou o caso curioso de eu próprio ter "aparecido" no debate do blogue Tertúlia Crioula sem ter feito nada para que tal acontecesse (alguém colocou, no meu nome, um dos textos que escrevi aqui sobre o tema.)

Mal ou bem, chama-se a isto socializar uma temática. Ou seja, dar à sociedade a oportunidade de dizer de sua justiça, de se informar melhor, de debater e propor. E o grande avanço que está a ser dado na actualidade, com décadas de atraso, é-nos permitido pelas novas tecnologias, onde centenas de pessoas situadas em locais diferentes do planeta, podem participar, praticamente em tempo real, numa discussão sobre qualquer assunto. Isso é algo que nunca foi feito de forma convincente, sendo que, volto a dizer, o maior erro que se cometeu em todo este processo foi a opção pela política do facto consumado.

Volto a chamar atenção para a postura equilibrada assumida pelo Corsino Tolentino sobre esta matéria (aqui), assim como para a frase final do texto de Manuel Veiga que originou a presente declaração: "Fico por aqui, na certeza de que o debate vai prosseguir de forma serena, assumida, fundamentada, respeitadora, e melhor ainda, se for com a morabéza que tem caracterizado a tradicional idiossincrasia do nosso povo." Sinceramente, pela forma desastrosa como este processo tem sido conduzido, e pelo que se tem lido e ouvido um pouco por todo o lado, parece-me que já vai um bocado tarde. Por aqui ficamos à espera dos próximos capítulos.


Adenda: aconselho a leitura atenta de mais um extenso e elucidativo texto sobre a matéria, desta vez dando ênfase ao aspecto legal e jurídico de todo este processo. A ler, este texto de Virgílio Rodrigues Brandão "A inconstitucionalidade da institucionalização do Alupec - o ius abutendi do cabo-verdiano", aqui.





Esclarecedora (ou talvez não), rica (muitos argumentos e participação) e com condimentos para todos os gostos, na discussão sobre a oficialização da língua cabo-verdiana que se desenrola no sítio Tertúlia Crioula, já com mais de 350 participações.


A conferir, aqui.





Passou-me ao lado, por me encontrar fora de Cabo Verde, a (excelente) entrevista que Corsino Tolentino deu ao Expresso das Ilhas e cujas opiniões sobre o crioulo se aproximam bastante do que tenho vindo a defender aqui no Café Margoso.

E porque nunca é demais conversar e debater sobre este tema tão apaixonante, aqui ficam as opiniões deste ilustre académico e quadro cabo-verdiano sobre a língua cabo-verdiana. Ao ler e ouvir Corsino Tolentino só tenho pena desta ser uma pessoa cuja capacidade é pouco aproveitada pela nação, sendo certo que não sei avaliar se este aparente afastamento é o resultado de uma vontade própria ou se tem outras razões que a própria razão desconhece.

Mas isso são contas de um outro rosário. Por agora, aqui ficam os destaques sobre o tema:

"Os partidos ganham eleições e formam governos como consequência de um jogo do tipo publicidade enganosa que a sociedade aceita. São promessas que, se tivessem sido analisadas com rigor ético e técnico nunca teriam sido feitas nem aceites. O PAICV terá prometido a oficialização da língua cabo-verdiana num prazo irrealista. "

"Não faz sentido andar por aí a perguntar às pessoas se são por ou contra a oficialização da língua cabo-verdiana. O crioulo cabo-verdiano fez-se antes de nós e continuará depois de nós, não valendo a pena dar ares de estar a inventá-lo. Novidade seria prepará-lo para ser utilizado nas escolas, nas igrejas, na universidade, na administração e na comunicação oficial. A língua cabo-verdiana não está preparada para todas estas funções e prepará-la é uma tarefa gigantesca para várias gerações."

"O processo parece viciado e é contra este modo de ver e agir que muita gente estará. Ninguém está contra a língua cabo-verdiana. A mão invisível ou a conspiração não existem, mas, coisa diferente, a sociedade exige rigor e verdade, porque qualquer das duas línguas nacionais é assunto demasiadamente sério para ser deixado exclusivamente aos linguistas profissionais ou amadores, os quais são merecedores do meu respeito e admiração"

"Somos analfabetos em cabo-verdiano e a meia dúzia de estudiosos e escritores nas variantes da língua materna são os pioneiros que constituem a excepção à regra geral"


Comentários?


Entrevista completa: aqui
Via: aqui





Psamético, um dos últimos faraós do Egipto (século VII a. C.) desejoso de saber qual seria a língua original dos homens, mandou que dois gémeos recém-nascidos fossem isolados de qualquer comunicação verbal até à idade de 2 anos, e a dada altura privados de alimentação, para se saber que língua usariam: contam os relatos que as crianças pediram pão em cíntio (uma língua falada na zona do que hoje é a Ucrânia) e o faraó decretou que o cíntio seria então a língua original da humanidade; 19 séculos mais tarde, o rei germânico Frederico II (1194-1250) resolveu repetir a experiência, mas desta vez os gémeos morreram.

A que propósito vem isto? De nada. Mas ao ouvir mais uma discussão oca e sem sentido sobre os crioulos, a valorização da língua portuguesa, a oficialização, o ALUPEC ou de que "um crioulo acabará, inevitavelmente, por prevalecer", lembrei-me desta história. Ainda não percebi porquê, mas pode ser que por aí haja quem saiba. Doutores em linguistica e em psicologia é o que não falta neste país. 

 


Uma entrevista esclarecedora

1. Nada me move, a título pessoal, contra Manuel Veiga, titular da pasta da Cultura do Governo de Cabo Verde desde 2004. Antes pelo contrário, sempre que nos temos encontrado em várias situações, sempre foi educado, simpático e nunca transpareceu da sua parte qualquer inimizade pela minha pessoa ou alguma atitude que me pudesse ter feito embirrar com o homem por alguma razão especial;

2. Já fui seu anfitrião duas vezes, na primeira das quais foi assinado um protocolo entre o Ministério da Cultura e a Associação Mindelact, a segunda no encerramento do festival Mindelact do ano passado, onde o ministro, tal como já aconteceu em várias outras situações, teceu rasgados elogios à obra que esta associação cultural vem desenvolvendo em prol das artes cénicas no país;

3. Por me interessar especificamente e de forma empenhada por assuntos relacionados com aplicação das políticas públicas para a área da cultura aceitei ainda o amável convite que me foi endereçado pelo seu ministério para participar no Fórum da Economia da Cultura em Outubro passado e nele participei de forma activa, empenhada e construtiva, como dei conta nesta crónica;

4. Finalmente, procuro em todas as críticas que faço, evitar uma postura destrutiva, azeda ou demasiado tempestuosa, procurando, pelo contrário, escrever de forma fundamentada as análises que neste espaço foram sendo feitas sobre política cultural, em geral, e sobre a actuação deste ministro, em particular;

5.  Dito isto devo dizer que achei a grande entrevista que o Ministro Manuel Veiga concedeu ao jornal A Nação bastante esclarecedora e a principal conclusão que podemos tirar não é novidade para ninguém: estamos perante um linguista de excepção, com o qual podemos não concordar, mas que está, sem qualquer sombra de dúvida, absolutamente preparado para defender as suas ideias nesta área;

6. O seu discurso em defesa da língua cabo-verdiana é claro, directo e não deixa margem para muitas dúvidas. Reflecte, como é óbvio, a obra extraordinária que possui na defesa da língua cabo-verdiana e tira as dúvidas que possa haver em relação a muitos dos equívocos que vem alimentando a sociedade cabo-verdiana nesta questão basilar da oficialização do crioulo;

7. Manuel Veiga mostra, nesta entrevista, e no que ao crioulo diz respeito, não só capacidade de argumentação. Mostra também humildade e jogo de cintura perante a onda de críticas. Fala num processo em construção, quando os críticos insistem na imposição; defende a pluralidade de opinião, quando os críticos falam em autismo propositado; está aberto a propostas e refere que no processo de padronização do alfabeto - que não da língua - todos são livres de usar e defender outros modelos, mas que seria bom que os sustentassem cientificamente, o que até agora não aconteceu;

8. Também concordo com o Manuel Veiga quando ele fala de equívocos referentes ao Alfabeto  cabo-verdiano, sendo certo que se alguns destes equívocos são provocados por pura ignorância ou vontade de provocar confusão deliberada à custa de bairrismos exacerbados, também é verdade que isso acontece porque a proposta agora aprovada não foi socializada, nem sujeita a amplo debate, o que poderia ter evitado o que está acontecer hoje na sociedade cabo-verdiana;

9. Não nos enganemos: os cabo-verdianos estão não só profundamente divididos, como completamente desinformados. Basta ir a qualquer fórum onde este assunto venha à baila para se verificar o nível do debate e a profunda ruptura que está a provocar entre cidadãos de uma mesma Nação, livre e independente já lá vão 35 anos, que pensa, sonha e ama em crioulo mas é incapaz de perceber que não faz sentido não dar um estatuto mais amplo, sistematizado e premente à sua própria língua materna;

10. E aqui chegamos à segunda conclusão da entrevista: Manuel Veiga tem falhado como Ministro da Cultura não apenas na aplicação das políticas da área, mas especificamente nesta que é a sua vertente de eleição: a oficialização da língua cabo-verdiana. Porque se há falta de informação, de debate, de esclarecimento, de procura de consensos mais amplos, de consultas, de conferências, de colóquios, ou seja, de socialização desta questão central, à inèrcia deste ministério o devermos e não fosse assim não estaríamos hoje com o mesmo nível de debate que existia há 15 anos atrás, quando se discutiam os excessos de chapéus e sinais do crioulo escrito e, curiosamente, com o mesmo protagonista;

11. Quando este ministro foi empossado, em 2004, nos discursos da praxe, e com o entusiasmo natural de quem vê um dos maiores linguistas da nossa historiografia assumir um cargo onde poderia, finalmente, colocar em prática tudo o que vinha defendendo nos circuitos académicos e intelectuais, foi dito, alto e bom som que "crioulo vai passar a ser língua oficial em Cabo Verde em 2005" (aqui). Passaram-se quatro anos e quase tudo está por fazer;

12. Sendo certo que esse amplo debate não pode estar confinado ou dependente apenas da vontade de um ministro e do seu gabinete, também não se pode assobiar para o lado e dizer que este não deve ser responsabilizado pela situação que vivemos hoje. Porque muito mais podia e devia ser feito a este nível, e num assunto onde, como se referiu atrás, o ministro domina a seu bel-prazer, com capacidade técnica, teórica e de argumentação acima da média, maiores são as suas responsabilidades políticas;

13. Além da forma pouco elegante como insinua que algumas das críticas feitas ao seu ministério surgem motivadas por ambições pessoais ou por falhadas expectativas de apoio instituicional, todos os outros assuntos abordados na entrevista confirmam a segunda conclusão: a política cultural, que ninguém sabe qual é, continua emersa num lodo estratégico que balança entre os acontecimentos casuísticos, as homenagens pontuais, a economia da cultura que continua por explicar e/ou definir, os planos estratégicos anunciados que nunca viram a luz do dia, a confiança (natural) nos seus mais directos colaboradores e a utilização de termos bombásticos, ontem o diamante do país, hoje o oxigénio da educação. 

Nota final: desejo, com toda a sinceridade, que no próximo dia 22 de Junho, a Cidade Velha de Ribeira Grande de Santiago possa vencer essa imensa batalha e transformar-se em Património da Humanidade para que possamos dar, por esse intermédio, uma importante vitória ao actual ministro da cultura. Porque acima de tudo, continuo acreditar que ele só quer o bem do país e está a fazer o melhor que sabe e pode. E digo isto sem qualquer ponta de sarcasmo ou de ironia.


Mindelo, 19 de Junho de 2009


Imagem: Ta sumara um aiam de Mito