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Dentro, perto & baixo

1. Andaram todos estes dias a tentar dar-nos lições de cidadania. Não deixei de olhar para algumas dessas tentativas de evangelização cívica com um sorriso nos lábios, uma vezes de tristeza outras de escárnio, não só por ver tanta gente ir na cantiga dos novos retóricos da politica crioula como por estes acharem que somos todos feitos da mesma massa cefálica, perfeitamente programável por doses maciças de mensagens inócuas sem qualquer significado concreto, sem conteúdo que obrigue a reflexão ou questionamento, emitidas por carros sonoros que não respeitam nada nem ninguém, por nos quererem entupir de lugares comuns que não querem dizer rigorosamente nada e que parecem esquecer – quando convém – que o percurso de um homem ou de uma mulher não pode nem deve ser apagado, que as estradas e as opções de vida de cada um são reveladores do carácter de quem por elas se move e de quem por elas opta. O discurso da cidadania que ouvimos a rodos durante esta campanha eleitoral foi apenas um trampolim palavroso que tantas vezes soou a falso e devo dizer que não estou a referir-me especificamente à candidatura que tentou, com algum sucesso diga-se de passagem, chamar a si a patente e o direito exclusivo à utilização do termo.

2. Dizem os manuais que cidadania constitui-se do conjunto de direitos e deveres ao qual um individuo está sujeito em relação à sociedade em que vive. Um conceito nascido na Grécia Clássica, e lá utilizado para designar os direitos relativos ao cidadão, ou seja, aquele individuo que vive na cidade e participa activamente dos negócios e das decisões politicas. Então como agora, com as devidas distâncias, nos esquecemos que nem todos somos cidadãos de pleno direito. Na Grécia Clássica, sempre tida como berço e modelo da democracia, os proclamados cidadãos correspondiam a uma pequena minoria privilegiada, e nas cidades dominavam actividades como a escravatura, a violência gratuita, o desprezo pelas mulheres, os maus-tratos ao estrangeiros. Estes últimos eram carne para canhão, pois eram obrigados a fazer serviços militares numa época em que os grandes senhores faziam das guerras carnificinas o seu principal passatempo, às quais assistiam sentados confortavelmente nos palanques dos seus sumptuosos palácios. Da população total de Atenas no período áureo das reformas constitucionais que viriam a dar origem ao sistema democrático, apenas 10 a 15% era considerado cidadão de plenos direitos. Do lugar das mulheres nestas Polis, é melhor nem falar. Vá lá, que pelo menos era-lhes autorizada a ida aos grandes festivais de teatro dedicados a Dionísio, regalia que era concedida apenas às tragédias, e nunca às comédias, que poderiam ser catalisadoras de ideias pouco consentâneas com a sua condição de meras procriadoras de novos cidadãos ou de novos escravos, conforme o caso.

3. Como é evidente, e a História foi disso testemunha, houve neste período, principalmente em Atenas, grandes estadistas que tentaram, de forma empenhada e por vezes entusiástica, minimizar as tremendas desigualdades sociais oriundas de uma estratificação extremamente rígida encarada como algo tão natural como a extensão do mar ou a dureza das rochas. Inovações admiráveis foram aprovadas e algumas boas lições foram aproveitadas por aquele que é conhecido como o sistema democrático actual, vigente em grande parte dos países do planeta. Mas então como agora, as virtudes do sistema deixam a coberto muitos lados podres, incongruências, lixo escondido debaixo do tapete colorido nas virtudes democráticas e da liberdade de expressão. Se na Grécia isso era assumido de forma descarada, hoje a cada vez maior estratificação social é disfarçada por todos os meios através da propaganda, da estatística e da aritmética. Porque continua claro como funcionam certos corredores que dão acesso aos cadeirões dos gabinetes, assim como é claro que uns podem mais que outros. Nos tempos de crise que correm, os pobres estão cada vez mais pobres, os ricos cada vez mais ricos. Esse limbo social chamado classe média, que é como todos sabemos o saco de pancada das crises económicas, vai sobrevivendo como pode, sendo certo que são incomparavelmente mais os que passam a pobres e remediados do que aqueles que conseguem, por iniciativa própria e sem recurso a truques ligados a tráficos de influências ou outros, passar para o restrito clube dos mais abastados cuja entrada dará, mais tarde ou mais cedo, directa ou indirectamente, um livre passe aos principais foros de decisão negocial, financeira e politica.

4. Procurando reflectir sobre a actual campanha eleitoral e sobre os últimos acontecimentos, tenho escrito alguns textos que um amigo meu, com alguma piada, designou de “góticos”, ou seja, escuros, dramáticos, pessimistas. Alguns casos de mortes violentas depois, o passado recente parece querer confirmar esta visão. Cabo Verde não está imune, muito pelo contrário, ao que se passa na Europa ou nos Estados Unidos da América e essa terrível pressão exercida pela instalação a titulo definitivo de uma crise económica que veio para ficar e que foi provocada, não nos esqueçamos disso, pelos grandes barões do sistema financeiro global vigente, tem provocado um stress social que origina o actual quadro que acaba por marcar os noticiários da televisão nacional: violência, mortes, demagogias, incompetência e descaramento, em quantidades doseadas por controlo remoto. Comentando isso com meu pai, um dos seres humanos mais lúcidos, coerentes e brilhantes que conheço, este deu-me, numa curta mensagem, uma daquelas lições de vida que não queria deixar de partilhar com todos vocês. E então, foi assim:

5. “Esta é uma crise de fundo que - a meu ver - resulta de termos percebido que a esquerda não conseguiu construir uma alternativa para isto. Há pouco tempo escrevi - e disse-o às pessoas num recital - que a única solução é recomeçar tudo, começando pelo que está dentro, pelo que está perto e pelo que está em baixo. "O que está dentro": fazer a revolução por dentro, reorientando a nossa vida concreta drasticamente segundo os valores em que acreditamos (é mais fácil para os criadores, porque sem essa atitude não há verdadeira criação, apenas exibição). "O que está perto": começar pelas pequenas comunidades a que pertencemos, a família, os amigos, o bairro, a escola, o emprego/a empresa. Falhada a aplicação prática dos grandes sistemas ideológicos dos sécs. XIX e XX, só na nossa esfera de vida individual podemos propor, discutir, aceitar ou rejeitar as famosas "soluções de futuro". "O que está em baixo": colocar sempre a questão do poder, em nós e nos que estão à nossa volta. Porque falharam os belos sistemas propostos pela esquerda? Porque nunca conseguiram detectar (e evitar) a constituição de novas elites opressoras da maioria. Porque a democracia autogestionária de base não é um cliché, é uma forma de actuar na prática quotidiana. Dito (tudo) isto, só tens um belo caminho à tua frente, mas tenta vivê-lo com entusiasmo porque o entusiasmo dá-nos alegria. Pensa que fazes parte de uma ínfima parcela da humanidade que se pode dar ao luxo de comer todos os dias, de ter um tecto e (sobretudo) de trabalhar naquilo de que gosta.” Lendo isto, a única coisa que me resta, é preparar-me para o próximo ensaio e continuar a acreditar que é possível, ainda, dar um novo rumo ao actual estado de coisas.

Mindelo, 11 de Agosto de 2011





Dias de Sangue

1. Uma jovem cabo-verdiana, com todo o futuro pela frente, talentosa, amante da poesia, que marcou indelevelmente quem a conheceu pela luz que dela imanava, que recitava poesia em crioulo como poucos, pôs termo à própria vida, no Tarrafal, ilha de Santiago, deixando tudo e todos num estado de consternação generalizado. Conhecia-a apenas de vista, das sessões da Tertúlia Crioula, mas esta foi uma notícia que me deixou, no mínimo, abalado. Alguns dias depois, um casal é encontrado morto dentro da própria casa, no bairro da Bela Vista, no Mindelo, deixando sinais de grande brutalidade, ainda estando por apurar as causas da morte mas, ao que tudo indica, a tragédia aconteceu depois de uma violenta discussão entre os dois. Pelos comentários publicados por quem conhece a situação, terá sido o ciúme a provocar o que viria a culminar nesta terrível fatalidade. Assassinato, seguido de suicídio. E mais dois caixões para encomendar ao sempre lucrativo negócio da morte.

2. Praticamente todos os dias somos confrontados com notícias de violência extrema perpetuada nestas ilhas. Facadas, tiros, garrafadas, pedradas e agressões físicas de todo o género e grau variável de brutalidade. Entre familiares, entre amigos, entre amantes, entre membros de diferentes gangs, entre policias e ladrões, entre adultos e crianças, entre homens e mulheres, entre professores e alunos. De há muito que ultrapassamos essa barreira mítica da morabeza cabo-verdiana e de país dos bons costumes, onde gente de todas as idades se sentava à soleira das suas portas para colocar a conversa em dia. De há muito que ultrapassamos o tempo em que sair de casa não representava um perigo eminente mesmo quando a falta de luz acontecia mais por motivos de penúria nas infra-estruturas do que por incompetência de administradores. De há muito que a realidade real que vivemos todos os dias e com a qual somos confrontados ultrapassou os panoramas cor-de-rosa dos discursos dos nossos responsáveis políticos.

3. A vida tem menos valor no chão das ilhas, essa é que é essa. Já não se morre de fome ou de sede, mas também já não temos quem nos abra a porta de sua casa se estamos a ser perseguidos por algum bandido. Desconfiamos do colega do lado, passamos o tempo todo à espreita por detrás dos nossos ombros, lado esquerdo ou lado direito, pouco importa, com receio da facada que há-de, inevitavelmente ser desferida da esquina menos esperada. A hipocrisia, a maledicência, a falsidade e a cobardia transformaram-se em especialidades da casa. E por isso, já não observamos, apenas vemos; já não escutamos, apenas ouvimos; já não cheiramos, apenas localizamos o odor da carne podre e do mijo que tresanda pelos becos das grandes cidades; já não tocamos e acariciamos o outro, apenas usamos o contacto corpo a corpo como medida de defesa ou de ataque; já não nos damos o prazer de reconhecer e saborear ervas aromáticas de criativos cozinhados, apenas estamos treinados a desfazer na boca comida à velocidade que o stress diário permite. Daí, resta-nos o espelho, o nosso e o olhar que pensamos que os outros devem ter em nós.

4. Talvez por isso nos preocupemos tanto em manter a nossa forma física, com dezenas e dezenas de jovens, adultos e idosos correndo marginal para cima e para baixo, a todas as horas do dia, mesmo as menos prováveis, seja de madrugada, no quente do meio do dia, no final da tarde ou mesmo de noitinha, para ficarmos mais saudáveis, mais belos, mais esculturais, mais atractivos, mais bem connosco próprios e de tanto exercitar o corpo acabamos por nos esquecer de exercitar a mente. Gastássemos nós metade do tempo que cuidamos a correr, caminhar, nadar, fazer flexões, abdominais, desenvolvendo bíceps, triceps, dorsais, adutores, peitorais e todos os outros músculos que cabem no corpo humano, a exercitar a mente, lendo, reflectindo, analisando, criticando ou aprendendo, e quem sabe se nos sobrasse algum tempo para ver, ouvir, tocar, cheirar e saborear o outro, aquele ou aquela que está ali mesmo do nosso lado com um pedido de socorro encravado na garganta.

5. Desculpem-me os mais optimistas, aqueles que sincera e legitimamente acreditam que todo este progresso, com as estradas, as energias renováveis, as comunicações, as praças digitais, as empresas paridas num dia, as casas do cidadão, os novos centros de saúde, as Universidades públicas ou privadas, os índices de desenvolvimento humano das Nações Unidas, Unicef, Organização Mundial do Trabalho, Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e das outras mais variadas organizações mundiais que gostam de transformar os países em rankings dominados pela aritmética, consideram que isso faz de Cabo Verde um país saudável, pronto para todos os tremendos desafios que nos novos tempos não param de surgir, um depois do outro e outro e mais outro. Se somos hoje um país musculado, melhor preparado para os choques externos que possam surgir, tal como o desportista que treina todos os dias na Lajinha ou no ginásio do Djô Borja, somos também um país que não nos prepara para amar, ajudar, acariciar, tocar e muito menos, retribuir, criticar, crescer, reivindicar conscientemente, sem ter que o fazer como apenas mais uma ovelha num rebanho comandado à distância por chefias partidárias.

6. O pior doente é aquele que não sabe reconhecer os seus sintomas. Talvez pior ainda que o hipocondríaco que, por excesso de zelo, se arrisca a sofrer pela cura aquilo que não poderia sofrer por mazelas imaginárias. Não se trata. Disfarça as manchas com produtos de maquilhagem importados numa última viagem de serviço ao estrangeiro. Esconde as feridas. Coloca a cabeça na areia. Desde aqui peço desculpa por esta espécie de desesperança, mas esta triste campanha eleitoral que hoje vivemos é apenas mais um sintoma de como estamos cada vez mais a nos especializar nesse oficio de insultar o próximo, maldizer quem não afina pelo mesmo diapasão, ou pura e simplesmente, passar por cima de quem não pensa como nós, confundindo de forma reiterada e irresponsável adversários com inimigos. Se à riola de tempos não muito distantes éramos capazes de responder com fina ironia, hoje partimos para a violência em defesa da nossa honra supostamente maltratada, curamos as nossas chagas com ódio sem perceber que esse sentimento nunca curará nada, apenas tornará mais funda uma ferida que parece querer chegar aos ossos depois de nos ter perfurado a carne sem que disso déssemos conta.

7. A peça de teatro Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, em cujo processo de montagem me encontro neste preciso momento é uma tragédia. Quando decidi avançar para mais esta aventura questionei-me sobre a pertinência de mostrar em palco uma história em que um casamento se transforma num banho de sangue quase que anunciado, pela disputa de uma noiva indecisa. Há, tal como nas tragédias clássicas gregas, personagens que anunciam a desgraça, que prevêem a fatalidade, que vaticinam o destino cruel de dois homens na flor da idade, feitos para a vida e não preparados para a morte. Mas ninguém os ouve. Era só isso que era preciso. Como na poesia de Nelly, cujo sorriso flutuava no olhar, como a areia com as ondas do mar, com carinho, com cuidado. A serenidade de um amor que ninguém quis saber. Um amor que para muitos envergonha, ridiculariza, diminui, fragiliza. Mas esses que assim pensam, esses que perderam essa capacidade de usar os cinco sentidos em prol do outro, são esses que perdem. Só o amor salva. Só o amor cura. Escutem. Escutem mesmo. E mudem a face triste que invade as ilhas mágicas do Atlântico.

Mindelo, 28 de Julho de 2011




Limpemos as nossas cabeças

1. A maior angústia de qualquer criador, principalmente na área cénica, é que uma peça de teatro quando é apresentada morre ao som das palmas do público que a ela assiste e que, dessa forma, transforma o aplauso, mais ou menos contido, numa espécie de marcha fúnebre que provoca mais vazio do que satisfação. Melhor, uma satisfação sim, de dever comprido, como quem olha para trás e pensa: valeu a pena, ou podia, quem sabe, ter feito um pouco melhor. Mas depois as pessoas vão para as suas casas, e nós ficamos ali perante uma sala vazia, oca, ainda com resquícios e ecos de sons e energias resultantes do cerimonial cénico e não temos outro remédio senão apagar com uma borracha o que vivemos e nos prepararmos para começar tudo de novo. Nada é mais amargo, digo-o por experiência própria, do que um encenador sentado num auditório desabitado, olhando para um cenário que já lá não está, para um espaço que momentos antes estava cheio de vida, de cor, de magia e que agora já não tem mais nada, é apenas um espaço vazio.

2. Pode até parecer um pouco dramático esta ideia da morte ligada à arte cénica, mas podemos também pensar em limpeza. Nestes dias em que tanto se falou nisso, em que o Governo de Cabo Verde decretou um Dia Nacional da Limpeza como prevenção contra o mosquito da dengue, talvez seja o momento ideal para uma reflexão destas. Há que limpar a nossa mente das ideias, ritmos, cores, sensações e principalmente, apagar as nossas indubitáveis e indestrutíveis certezas, também como medida de prevenção, não contra alguma doença mas contra os nossos fantasmas, aqueles que nos transformam em seres pedantes, convencidos, arrogantes, merecedores do mundo e arredores, melhores certamente que o nosso vizinho do lado. Façamos essa limpeza e tornemo-nos amadores de novo, principiantes e aventureiros. Neste momento em que inicio a montagem de uma nova produção teatral o meu grilo falante não se cansa de me avisar: é hora de apagar todas as tuas ideias pré-concebidas, não sem reflectir sobre tudo o que já passaste, mas com a crença profunda de que o conjunto de experiências e emoções que daí resultaram não passam disso mesmo, algo que já passou. Para iniciar um novo processo criativo só temos dois caminhos: ou vamos pela utilização fácil de fórmulas já gastas e usadas, com alguma confiança de que não tem como não resultar de novo, ou adoptamos o desafio de que o vazio, seja ele cénico, intelectual ou vivencial, é a nossa única referência, o nosso inevitável ponto de partida.

3. Claro que sempre podemos questionar: e não se leva nada do que já se viveu? Não se aprende com os erros nem com os sucessos? Não devemos nós ter em conta de que só com uma cuidada análise do passado poderemos crescer enquanto seres humanos e criadores? Com certeza que sim. Mas uma peça de teatro, uma vez apresentada, como que fica congelada nas memórias de quem nela participou, de um ou do outro lado. O que se leva dela é muitas vezes um conjunto de impressões que nos fazem sentir mais vivos e seguir em frente. Na arte cénica a ardósia está sempre limpa. Talvez esteja aqui o segredo da nossa capacidade de perdoar quem nos magoa e virar a página. Entender quem olha para nós e para o nosso trabalho e tem dele uma imagem que nos parece injusta, imparcial, maldosa, preconceituosa. Não nos deixarmos afogar por ressentimentos que nada trazem além da provável possibilidade de nos encher apenas com sentimentos que corroem por dentro, nos transformam em meras máquinas de parada resposta, como se a forma como os outros olham para nós não fosse também o resultado directo da nossa acção, na vida e na arte.

4. Limpemos, pois, as nossas mentes. Agradeçamos a quem perde tanto tempo a analisar o que somos e o que fazemos, mesmo que em alguns casos o possa estar a fazer por desígnios dúbios. Tenhamos consciência de que certamente haverá nessa observação factos, circunstâncias ou julgamentos de carácter que fazem todo o sentido e que são o resultado de uma observação atenta e interessada, mesmo que pelos piores motivos. Há, como todos estamos cansados de saber, um grave problema de mentalidade neste país. Todos se queixam da falta de uma cultura critica que permita que se escreva, se fale, se comente ou se reflicta sobre o trabalho do outro sem que com isso sejamos inevitavelmente queimados em praça pública como nos tristes e obscuros tempos da Inquisição. Já estamos cansados de saber que quem não está comigo, não tem que estar necessariamente contra mim. Que quem reflecte sobre o outro e desse pensamento conceba um conjunto de elogios à obra ou à pessoa, não tem que o fazer porque tem interesses escusos ou segundas intenções, ou por ser alguém que espera dessa análise tirar algum beneficio imediato. Por outro lado, na mesma ordem de ideias, não é assim tão claro que quem se posiciona de um ponto de vista menos favorável, tenha que ser alguém a quem tenhamos que desafiar para um duelo de morte em defesa da nossa honra. Devo dizer aqui e agora que tenho aprendido mais com quem me critica do que com quem me elogia, e pouco me importa se essas criticas tenham nascido de um desejo de atacar ou destruir, com motivações pessoais ou outras.

5. Esqueçamos, pois, tudo o que já pensávamos que sabíamos e coloquemo-nos perante o espaço vazio. Não iniciemos esta caminhada com ideias pré-concebidas. Procuremos dentro de cada um de nós o impulso da criação. Reflictamos sobre o que pretendemos dizer e não façamos da nossa arte ou da nossa vida um mero depositário de frustrações, mensagens ou moralidades que pretendemos por esse intermédio impor a todos os outros. Olhemos para nós como o resultado de um espelho que não reflectirá necessariamente a imagem que temos de nós próprios, mas como o produto de milhares de imagens diferentes, distorcidas, caleidoscópicas, de tonalidades diversas, consoante aquele que se colocar perante nós ou em contacto directo com a obra que lhe ofertamos. Limpemos as nossas mentes e avancemos. É uma medida de prevenção indispensável ao criador, para que este não se transforme num robot ou numa máquina de impressão de fórmulas gastas. Aqueles que pensamos que não nos entendem ou fazem de nós um julgamento diferente daquele a que nos achamos no direito de ter, apenas estão a honrar-nos com o tempo que gastam a cogitar sobre a nossa pessoa e a nossa criação. Honra lhes seja feita, porque sem eles não seríamos ninguém. A vida não é feita de monólogos. E mesmo estes, quando tem lugar em determinados períodos das nossas vidas, não o são porque sempre falamos para – e com – alguém, mesmo que seja connosco próprios, com os nossos alter egos, com as nossas partes boas ou más, com os nosso diabos ou os nossos anjos, que tão naturalmente lutam para conquistar o seu espaço no processo de decisão individual e diário com que somos confrontados.

6. Lembremos isto: o autismo, o egocentrismo, a arrogância são doenças sociais tão ou mais perigosas que qualquer outra que possa ser provocada por um mosquito tropical. As medidas de precaução contra estas moléstias passam também por uma limpeza, não do cutelo, da rua, do bairro, da escola ou do trabalho, mas pelos insondáveis e misteriosos caminhos da nossa mente e da nossa alma, aquilo que a que alguns chamarão de mentalidade e outros, mais filosoficamente, a razão que nos distingue das máquinas e dos computadores, o cerne de sermos gente que sofre, ama, chora, ri e procura fazer da sua passagem pelo mundo dos vivos algo que faça merecer o aplauso final de todos os outros, aquele mesmo que é dado em momento fúnebre, no desfecho de uma peça de teatro.

Mindelo, 15 de Julho de 2011





O nosso maior pecado

1. O académico português José Luís Costa lembrou num texto que circulou nos últimos dias pelo Facebook, citando um argumento defendido por Arquimedes, que a primeira aprendizagem deve ser artística. Escreve que, entre outras necessidades primárias tantas vezes negligenciadas, a Cultura é sempre relegada para um segundo plano. Estamos cansados de saber isso. E com a recente vitória da direita alcançada nas últimas eleições legislativas portuguesas, já foi anunciado o fim do Ministério da Cultura, o que só vem demonstrar que, nos tempos que correm, cai sempre bem deitar em plenos ombros da classe artística alguma da responsabilidade pela situação de miséria que se vive hoje no chamado mundo civilizado.

2. Em vão temos lembrado que a cultura não é um luxo, mas sim um bem essencial. Mas ninguém quer saber disso para nada. Temo, sinceramente, que quando a crise bater a sério no mítico portão das nossas ilhas, as boas intenções do novel Ministro da Cultura cabo-verdiano sejam as primeiras a esfumar-se, de forma rápida e impiedosa. E se quisermos pegar no assunto pela vertente dominadora, a económica, facilmente poderemos lembrar que inúmeros estudos já foram feitos, que está mais do que provado, sobre as mais valias que as actividades ligadas à criação e produção cultural trazem ao bolo que mede a riqueza global de uma Nação. Mas compreende-se que assim seja, na medida em que ninguém terá vontade de ouvir uma música, ir a um concerto, ter um quadro em casa, ver uma peça de teatro, ler um bom livro, participar de alguma tertúlia, se depois, uma vez regressado a casa, se abrir a torneira e de lá não sair nenhuma gota de água que nos possa ajudar. Lavar a alma é bom. É essencial. Mas se estivermos a cheirar mal por falta de banho, não há poesia que aguente.

3. Continuo a defender que é em tempos de crise que se justifica ainda mais uma investimento sério, sustentado e seriamente programado na área cultural. A produtividade colectiva depende do bem-estar individual, não há como fugir desta evidência. O combate à exclusão social, à pobreza, ao preconceito, à xenofobia, à violência urbana, tem no campo artístico um poderoso aliado. Há infindáveis histórias de programas sociais ligados ao teatro, à música, às artes plásticas, que foram alavancas de combate contra todos os males sociais que alastram a grande maioria das grandes cidades neste planeta. Mesmo perante estes exemplos, a sensação que fica é que continuamos a assobiar para o lado, a olhar de soslaio esses seres extravagantes e parasitas chamados artistas, que o são porque, muito provavelmente, não tem mais nada em que ocupar o seu precioso tempo.

4. Nas favelas do Rio de Janeiro, o Grupo Cultural AfroReggae, fundado em 1993, foi criado para transformar a realidade de jovens moradores de favelas, utilizando a educação, a arte e a cultura como instrumentos de inserção social. Hoje, são uma organização gigantesca, conhecida em todo o mundo, que se dedica, entre muitos outros projectos, a exportar aquilo que auto-intitularam de tecnologia social. Tem mostrado, ao longo destes anos, o quanto é possível, através da educação e da criação artística, mudar pequenos mundos para desta forma contribuir para um planeta mais saudável. Quando a 29 de Agosto de 1993 ocorreu uma chacina na favela de Vigário Geral, na qual 21 moradores inocentes foram assassinados, os produtores desta ONG chegaram à favela oferecendo oficinas de percussão, capoeira, reciclagem de lixo e dança afro para os moradores da comunidade. Desde então, não tem parado e os resultados falam por si: um investimento brutal no potencial de jovens favelados, levando a educação, cultura e arte a territórios marcados pela violência policial e pelo narcotráfico.

5. Quando ouço, quase diariamente, notícias locais sobre violência em bairros da Praia ou do Mindelo, entre jovens e policias, entre gangs rivais, ou de violência gratuita de jovens alcoolizados que deambulam pela cidade provocando danos morais e materiais em cidadãos incautos, imediatamente me recordo da visita que fiz às comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, vizinhas, rivais, com historiais de guerras tão tremendas que são separadas por uma ampla rua dividida por um muro cravado de balas, testemunhos de batalhas passadas, a que deram o simbólico nome de Faixa de Gaza. Nessa visita, fomos aos centros promovidos pelo AfroReggae, conhecemos estúdios de gravação, assistimos a demonstrações de dança e de bateria carnavalesca, visitamos centros de informática, participamos de aulas de capoeira e ateliers de teatro, tudo isto com a violência extrema como vizinha. Muito desta trabalho está documentado. Em filmes, em depoimentos, em relatórios, em estudos académicos. Continuamos a ver e a encarar a violência urbana dominados pelo célebre ditame olho por olho dente por dente. Hoje em dia à violência o Estado apenas tem a repressão como moeda de troca.

6. Podemos achar muita piada aos agora célebres Ninjas da Policia Nacional, que andam desvairados pela cidade à procura de apanhar delinquentes com a boca na botija como quem anda caçando gambozinos. Podemos ficar horrorizados, como foi o meu caso, quando soube de um ataque à catanada de um gang do Mindelo contra um outro rapaz, supostamente aderente de um gang rival, acontecido em pleno centro da cidade, num complexo tido como uns dos locais mais luxuosos do Mindelo, na mesma hora em que nesse mesmo sítio decorria uma festa de crianças e adolescentes, alusivo ao Dia Mundial da Criança, e onde, entre muitas outras pessoas, se encontrava a minha filha de 13 anos. Podemos continuar a chorar a morte de crianças inocentes vitimas de balas perdidas resultantes de confrontos entre gangs e policias locais, ou entre gangs rivais. Podemos continuar a pensar que a repressão, pura e simples, é a solução final e única para um problema social que é muito mais vasto, muito mais complexo, muito mais abrangente, do que tantas vezes parece à primeira vista, se tivermos apenas em conta os ecos da comunicação social ou as declarações dos nossos responsáveis políticos.

7. Esse é, o nosso maior erro, o nosso maior pecado. Por enquanto que não alterarmos esta mentalidade mesquinha, esta forma leviana como encaramos a educação e a criação artística, não iremos a lado nenhum, continuaremos a aplaudir a prisão de cada um desses delinquentes juvenis, sem perceber que quando um vai para o xadrez, mais dois ou três surgem criados desse tremendo caldo social em que estamos atolados. O mal é genérico e está alastrado a todas as classes, incluindo a classe que de forma mais imediata é responsável pela educação das nossas crianças e jovens. São raros os professores, educadores, responsáveis de liceus ou de institutos universitários que promovam a educação artística, mais ainda quando ela é sugerida como actividade extra-curricular. Não se promovem concursos artísticos nas escolas, não se incentivam idas ao teatro ou a concertos de música, não se investe no desenvolvimento de capacidades cognitivas resultantes de um visionamento de uma qualquer obra de arte. Por enquanto que a cultura, a criação e a educação artística continuarem a ser vistas por todos como uma actividade marginal, estaremos a contribuir, de forma decisiva e cumulativa, para a sociedade violenta que nos bate à porta quase todos os dias.






Rios e Solano

1.
 – Onde estamos?
- Num teatro.
- Tens a certeza?
- Ou alguma coisa parecida.
- Isto é o palco?
- É.
- Aquilo é o público?
- É.
- Aquilo?
- Achas estranho?
- Diferente.
- Diferente?
- Outra vez.

2. Estas são as primeiras falas de uma peça emblemática do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra. Intitulada “Ñaque, sobre piolhos e actores” estamos perante aquele que é, muito provavelmente, um dos textos dramáticos dos últimos cem anos que melhor consegue captar a essência e a verdadeira natureza da arte cénica. Com muito humor, a peça fala do papel do actor na sociedade através dos tempos e do sentido de fazer-se teatro nos dias de hoje. Encenada um pouco por todo o mundo, compreende-se bem porque é que este é um texto que atrai tanto os amantes do teatro. Sendo o teatro a arte onde o confronto entre o objecto artístico e o público só faz sentido ao vivo, é difícil explicar a importância que esta peça tem e a forma como marca quem participa, numa crónica de jornal. A boa nova é que agora chegou a vez de Cabo Verde.

3. A primeira vez que vi a peça foi em S. Paulo, no final dos anos noventa. Encenada e interpretada por Miguel Seabra, juntamente com o espantoso actor Álvaro Lavin, para o Teatro Meridional, companhia que já foi homenageada no festival Mindelact, esta versão marcou-me para toda a vida e durante os cinco dias consecutivos de apresentação no maior centro cultural da metrópole brasileira, que vi sofregamente como quem aprecia um manjar dos deuses, jurei a mim próprio que um dia haveria de pegar neste texto e montá-lo para o teatro das ilhas. A grande dificuldade, para não dizer mesmo o grande atrevimento, era saber o que fazer depois de assistir a tão magna lição de bem fazer teatro, sem correr o risco de cair num precipício, porque aquele foi um daqueles espectáculos que me fez questionar o que raio andava eu a fazer no mundo do teatro, havendo por ai quem o fizesse tão bem. Como bem disse Miguel Seabra numa entrevista, esta montagem representa, antes de tudo, o triunfo da simplicidade cénica, a mais difícil meta de se alcançar no teatro.

4. Hoje, passados quinze anos sobre esse primeiro choque, resolvi arriscar. Sinto que o percurso e a experiência que tenho, se bem que não chegue para atingir a perfeição cénica de que fui testemunha, me dá margem de manobra para um eventual perdão, dos meus colegas e do público, se acontecer o caso provável da minha habilidade como encenador não conseguir dar a resposta adequada que o texto original demanda. Uma segunda razão que me incentivou para esta aventura tem a ver com uma homenagem que senti dever prestar a um actor cabo-verdiano, uma homenagem pessoal e intransmissível, que não só é dos actores mais experientes da sua geração, como também foi dos poucos que continuou a fazer teatro depois do novo ciclo que se iniciou com o projecto teatral do Centro Cultural Português, na cidade do Mindelo. Falo, evidentemente, de Manuel Estêvão, a quem dedico, de corpo e alma a montagem desta peça, e a quem fiz questão de acompanhar em palco, para mal dos meus e dos vossos pecados. Se pensarmos na interpretação que Manuel Estêvão soube dar ao protagonista da adaptação teatral que fizemos do romance “No Inferno”, de Arménio Vieira, e que deixou muita gente espantada, teremos uma noção mais certeira da responsabilidade que cai sobre os meus ombros com a actual empreitada.

5. Num dos livros fundamentais da história do teatro, O Espaço Vazio, de Peter Brook, o encenador inglês defende que o teatro faz-se e constrói-se todos os dias a partir de uma relação tripartida. A do actor com o texto, a do personagem com o público e a do actor com aquele com quem contracena em palco. Daí que esta peça seja ideal para um tributo desta natureza. Porque é uma montagem focada na relação dos actores com o público. E centrada na relação dum actor com o outro em cena. Solano e Rios são os dois personagens de Ñaque e portanto, ao vestir esta pele, somos, ao mesmo tempo, actores e personagens. Somos actores e amigos. Companheiros de uma vida toda, cheia de peripécias. Eles próprios, carismáticos e felizes, trabalhadores e talentosos, românticos e pobres, são actores que representam e mostram em palco o processo de mudança de pele que constitui o dia-a-dia de um actor, e só eles sabem o quanto isso dói e custa. Experimentem pegar na vossa pele, arrancá-la, colar outra no seu lugar. Imaginem a dor. Entendam agora quão nobre pode ser a arte de representar.

6. Não me considero um actor de teatro. Sou um encenador que, de quando em vez, gosta de estar em palco, pelo desafio que representam a interpretação de determinados textos e a pesquisa que alguns personagens exigem de nós. Mas sendo esta uma homenagem a um actor, não poderia deixar de estar ao lado dele, num palco, onde mais? Ainda por cima, com um texto desta natureza que exige da encenação uma relação aberta, que pede um teatro que se faz diante dos olhos de todos, revelando os seus truques e segredos. Tendo um palco vazio como ponto de partida, palco esse que voltará a ficar vazio no final de todas as contas. Neste vazio, tão difícil de ser preenchido com vida, os dois actores focam-se na relação com o público. Um público que está sempre lá. Se não estiver, não há teatro. Sempre igual? Mais ou menos. Cansativo? Sim, por vezes. Mas Agostino Solano, faranduleiro de notável engenho, e Nicolau dos Rios, famoso representador, andam nestas andanças há mais de quatrocentos anos e sabendo isso, não há como não continuar, com força redobrada, a cada morte anunciada pelo final de cada apresentação. As palmas finais, sinceras ou não, são uma espécie de marcha fúnebre que oficializa o enterro da obra de arte. Ter consciência disso e seguir em frente é o mesmo que render o tributo a essa figura suprema, que neste caso será Dionísio, o deus do teatro, da vegetação e do vinho. Do teatro, porque foi a partir dos rituais em sua homenagem que o teatro ganhou estatuto próprio, da vegetação porque tal como a arte cénica se renova a cada estação, e do vinho, pois a sua degustação nos permite ser outro(s), que na verdade, faz(em) parte do que temos de mais sincero e profundo.

7. Solano e Rios são, pois, dois actores medievais paupérrimos e de nomes pomposos, que caminham, perdidos no tempo, há quatrocentos anos e acabam por aportar em Cabo Verde. Andaram em S. Nicolau, Cidade Velha, Ribeira da Barca, vila Leopoldina, hoje cidade do Mindelo. E ao falarem das suas questões e dos problemas concretos da sua arte tentam, quem sabe se de forma vã, por a nu as questões e as lutas do artistas e do público, de quem faz e de quem vê. São uma metáfora do teatro e da vida e refazem o sentido de continuar a construir esse edifício cada vez mais rico chamado teatro cabo-verdiano. Será estranho? Diferente. Outra vez? Outra vez. Venham vê-los, porque só assim a sua (nossa) arte fará sentido.

Mindelo, 25 de Maio de 2011







Óbito? Não, obrigado!

1. Tem-se falado muito e escrito ainda mais sobre a pouca dinâmica da cidade do Mindelo, sobre o seu aparente adormecimento, a sua apatia criativa, a sua megalomania reivindicativa. Eu próprio aqui no Café Margoso, e por diversas vezes, tenho reflectido sobre a urbe e a sua maior ou menor dinâmica, tendo por vezes manifestado algum desagrado pelo seu estado de letargia. 

2. Entretanto, estive quase um ano fora de S. Vicente, com um interregno no Verão passado, e esse distanciamento permitiu-me, entre outras coisas, uma análise mais nítida sobre a realidade agora que passou cerca de um mês relativamente ao meu regresso. Quando não estamos emersos no objecto observado, isto é claro para quem estudou ciências sociais, a clareza das nossas observações fica, desde logo, potenciada. 

3. Mindelo está a acordar e, espantem-se, parece não querer dormir na forma. Podemos sempre nos queixar do abandono dos políticos, da inércia dos empresários ou da falta de criatividade dos artistas e criadores da ilha, mas a sensação que eu tenho é que a cidade pulsa, indiferente a leituras mais ou menos exageradas, mais ou menos alarmantes, mais ou menos oportunistas. 

4. No programa do "Março - Mês do Teatro" participaram treze grupos de teatro. Sim, treze. Activos, vivos, fazendo teatro. Sim, no Mindelo. Nas escolas, nos bairros, nas casas particulares. Há dificuldades, faltas de apoio? Vamos fazer. Mostrar o trabalho. E depois reivindicar. Não temos lugar para ensaiar? Não faz mal, ensaiamos no nosso quintal, no terraço, na rua. A maioria das peças demonstraram uma falta de maturidade gritante, alguma falta de cuidado no preparo? Talvez, mas a vontade de mostrar trabalho, de participar, de dizer presente foi maior, o que não se pode criticar. 

5. Neste momento é rara a semana em que não há um lançamento de algum livro, um concerto para a apresentação de algum novo trabalho discográfico, uma palestra. Assiste-se ao nascimento de um novo cine-clube, a uma nova dinâmica da Academia Jotamont, entra-se num Centro Cultural do Mindelo de cara lavada, passeia-se pelos diversos bairros durante o final de semana e ouve-se música em bares, hotéis, restaurantes, existem dois locais bem no centro que promovem bailes populares à moda antiga, com música ao vivo, pelo menos uma vez por semana, grupos de capoeira invadem a Praça Nova, a Praça D. Luís, a Ponta d'Água. 

6. Certamente, continuamos com muito por fazer. O apodrecimento trágico do Éden Park, a indefinição gritante de critérios, projectos e mesmo falta rumo para a utilização de espaços públicos como o antigo Centro Nacional de Artesanato, a réplica da Torre de Belém ou o próprio Centro Cultural do Mindelo, a má-língua e desentendimentos entre os próprios artistas, algum desânimo e a falta de autio-exigência de novos valores, são tudo sintomas de uma cidade que reclama atenção.

7. Estes dias loucos, com o Congresso dos Quadros na Diáspora ou a comemoração dos vinte anos do jornal Artiletra, contribuiu para uma movida acima do habitual, mas não se pense que é apenas foguetório temporário. Cada vez mais, espaços comerciais, bares, cafés e outros espaços alternativos apostam na música ao vivo, na projecção de filmes, na actuação e na performance, na promoção de exposições de fotografia ou pintura, para atrair clientela. 

8. S. Vicente tem o mais antigo e maior festival de música do país, um festival internacional de teatro que é orgulho de toda uma Nação, o carnaval mais criativo com participação popular em larga escala, tem a única escola superior de artes do arquipélago e, espantem-se, tirando o caso do festival de música, tudo isto é produto da iniciativa privada, a tal cidadania que se diz adormecida na ilha do Porto Grande.

9. Andamos na rua e cruzamo-nos com artistas plásticos, músicos, instrumentistas, actores, encenadores, criativos, estudantes de arte e design, intelectuais, escritores, poetas, e claro, loucos, pés descalços, vendedores de jornais, polidores de calçada, velhos proxenetas, negociadoras de café e toda a casta de gente com toda a espécie de profissões, mais ou menos liberais. A cidade pulsa. 

10. Além de que também me parece ser esta uma cidade capaz de olhar para dentro e de discutir os seus problemas. Fê-lo durante estes meses com o ciclo de debates, "Mindelo - Temos Cultura?", organizado pelo Centro Cultural Português - IC. Com certeza que há muitos problemas, estamos carecas de saber quais são. A resolução de muitos deles passam pela implementação de políticas públicas, por um lado, e por uma mudança de mentalidades dos próprios criadores, por outro. Mas que ninguém se atreva a passar ao Mindelo uma certidão de óbito criativa, cultural ou artística. Porque a cidade está viva, orgulhosa do que é e continua a dar (e a ser) exemplo. 

Mindelo, 21 de Abril de 2011

(foto, aqui)







Somos todos amigos

1. Cabo Verde, como qualquer lugar do mundo, tem aspectos formidáveis e outros com os quais é muito complicado lidar. Esta redundância que inicia a presente crónica serve apenas para lembrar o quanto estamos perante um lugar, uma cidade, uma ilha, um pais, uma Nação, que tantas vezes se confronta a si própria, que chora e ri, por vezes de forma leviana, como num zouk love, vezes outras com profundidade sentida, como numa morna. Há alturas em nos deixamos levar pelo ritmo frenético de um funaná e nos esquecemos do parceiro que carregamos na passada e no gingar desvairado das cinturas, com mais ou menos cola, mais ou menos suor, mais ou menos sensualidade latente.

2. Assim, aqui encontramos os defeitos dos lugares pequenos e as vantagens de um naipe paisagístico inacreditável que faz com que cada fotografia tirada de uma qualquer máquina se transforme de imediato num cartão postal de beleza inolvidável. Mas aqui como noutros locais, só a natureza conserva a verdade que tantas vezes o coração dos homens conspurca. Só nas montanhas podemos sentir a poesia que não se resume a palavras ocas de quem se alimenta do sofrimento dos outros. Só um banho de imersão neste mar azul deste arquipélago pode lavar a alma de um ser vivente num mundo como aquele em que vivemos hoje.

3. Daqui que um dos temas de conversa mais comum que tenho tido com amigos e conhecidos, em cafés reais ou virtuais, seja o tema da amizade, melhor, daquelas amizades que parecendo que o são, mostram não o ser, onde palmadinhas nas costas e anúncios de admiração mútua subitamente se vêem transformados em injúrias, calúnias, maldades, má-língua, conversas de corredor não assumidas, facadas ao virar de cada esquina. A amizade está em declínio e a solidão em ascensão, escreveu o psicanalista brasileiro Raymundo de Lima num brilhante artigo sobre o tema, referindo-se ao conceito de “modernidade líquida”, da autoria do sociólogo polaco Zygmund Bauman, que propõem, por sua vez, uma nova visão sobre a modernidade, voltada para a fluidez das relações inter-pessoais.

4. A hipocrisia entre os homens não é símbolo dos tempos modernos, sempre existiu, sempre existirá. Isso parece claro. Em todas as épocas há histórias terríveis de mentiras, traições, golpes palacianos entre aqueles que um dia eram amigos sinceros, no dia seguinte inimigos declarados. Mas há alturas em que a hipocrisia sobressai como a mais possante e tenebrosa característica humana que, tal como os vírus, se entranham sem que os possamos identificar, provocam sintomas estranhos, alguns mesmos provocando a morte e quando damos por ele, já é tarde demais, o mal está feito, os estragos por contabilizar indiciam uma invasão nos corpos, nos genes, na carne, no sangue praticamente irreversível.

5. Ninguém é amigo de ninguém, já me disseram várias vezes, geralmente depois de alguma desilusão do género. Eu, teimoso, continuo a acreditar. Que há gente em quem se possa confiar, que há companheiros para uma vida inteira, que há irmãos por afinidade por quem fazemos tudo ou, no mínimo, por quem estamos dispostos a, em qualquer circunstância, dar dois minutos de atenção quando para isso formos solicitados. Como optimista militante, preciso de acreditar que os valores que a amizade precisa e dos quais se alimenta e se justifica não só fazem algum sentido como são possíveis de existir e de acarinhar.

6. Devíamos aproveitar mais o tempo e o espaço que as ilhas nos dão. Quando leio as declarações de amor de um homem como Paulino Dias pela sua ilha Santo Antão, fico com alguma esperança de que nem tudo está perdido. Devíamos transformar a dificuldade de viver numa pequena aldeia – todos os habitantes de Cabo Verde juntos não chegam para compor uma cidade de tamanho médio num qualquer pais Sul Americano – em vantagens nossas. Aqui não há lugar para o anonimato, todos se conhecem, todos já tivemos algum tipo de relacionamento com praticamente todas as pessoas com quem nos cruzamos durante um dia normal.

7. Andamos na rua e somos cumprimentados de forma afável pelo condutor do camião que faz a recolha do lixo, pelo funcionário da CV Telecom que vem verificar uma avaria da Internet, pela senhora da mercearia Mendes & Mendes, pelo homem que vende os jornais numa cadeira de rodas na rua de Lisboa, pelo gerente do Café Portugal, pelo policia de trânsito que está ali na esquina da Praça Nova, pelo engraxador da Pracinha da Igreja, pelo amigo que temos como salva vidas na praia da Lajinha, que também toca violão e é actor nos tempos livres, por algum anónimo que nos pára na rua e nos pergunta se no próximo fim-de-semana há alguma peça de teatro na cidade.

8. Geralmente diz-se que é entre as pessoas da mesma área que os piores sentimentos se acabam por revelar. Não sei se é de facto assim. Procurei sempre, e assim permanecerei, entender as dores e as mágoas dos artistas da nossa terra e nunca me viram, nem virão, maldizer sobre quem quer que seja que dedique a sua vida a essa tão nobre tarefa que é a da criação artística. Muitas das pessoas que mais admiro neste pais são artistas das mais diferentes áreas, na música, na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na fotografia, na dança. Mesmo sabendo que muito do meio é dominado pelo disse que não disse, certamente haverá sempre alguma justificação para certas atitudes estranhas que se desviam da importância, da qualidade e do significado das obras dos autores que as produzem.

9. As campanhas eleitorais são boas provas para se medir o valor de uma amizade, tal é a radicalização dos discursos. Tive amigos – espero ainda os conservar! – dos dois lados da barricada, e lamento utilizar aqui este termo, porque não devíamos falar de barricada, mas sim de um campo aberto de discussão de projectos, convicções e ideias. Um posicionamento politico é sempre considerado uma tentativa de aproveitamento de alguma mais valia pessoal e talvez por isso mesmo estejamos tão cheios de pessoas que pensam muito sobre tudo e falam rigorosamente nada sobre aquilo que pensam. O campo da opinião pessoal está minado e é compreensível que haja tão pouca gente com coragem para nele entrar sem medo de sair moralmente despedaçado por tal atrevimento.

10. Tenho tido a sorte, e a opção, de utilizar diversas plataformas de comunicação para pensar pela minha própria cabeça e é normal que tenha que fazer algum exercício para aguentar a cabeça, o coração e o estômago quando confrontado com certas atitudes que são, acima de tudo, resultados de uma mentalidade que infelizmente ainda perdura e se alimenta. Continuo convencido que não precisamos disso, que devemos utilizar a nossa capacidade de comunicar, olhos nos olhos, e construir amizades sólidas, sustentáculos e barcos de salvação neste mundo à deriva.

11. “O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos”, escreveu Bauman no seu ensaio. Pegando na deixa, direi que vazio ficará o nosso pequeno mundo individual se nele não deixarmos entrar aqueles que acreditamos serem os nossos maiores amigos, aqueles que não te viram as costas, que tem a coragem de te criticar olhando na cara. Para que a palavra alma, que é tão cara à poesia e aos artistas, não se transforme subitamente em lama, como acontece por vezes quando, precipitadamente, redigimos textos sentados diante um computador.


Mindelo, 08 de Abril de 2011

[ilustração de Bento Oliveira]







Impressões Eleitorais


1. Não gostei da campanha eleitoral. Já escrevi aqui porquê. Temi mesmo que o pior pudesse acontecer e o pior seria a concretização de distúrbios, materialização de ameaças, revelação de maus perdedores, alimentação de discursos de fraude e outras encenações que já conhecemos de outros carnavais. Mas para minha grande alegria, nada disso aconteceu. 

2. O líder do partido perdedor falou primeiro, aceitando a derrota. O líder do partido vencedor fez um discurso de vitória sem qualquer arrogância até aceitável tendo em conta as circunstâncias. Fiquei orgulhoso de Cabo Verde e dos cabo-verdianos. Limpo, tranquilo, transparente. Uma lição, aqui sim, de maturidade democrática.

3. Outro motivo de orgulho de todos foi, certamente, a organização de todo o processo eleitoral. Com excepção de alguns percalços, com eleitores que não conseguiram saber a tempo e horas onde votar, nada de especial, embora seja sempre de lamentar que um cidadão que queira exercer o seu direito (e dever cívico, já agora) de votar não o tenha conseguido fazer por razões burocráticas. 

4. Apesar disto, se pensarmos que a abstenção foi de pouco mais de 20%, num pais com a mobilidade social de Cabo Verde, só podemos concluir que a participação foi massiva e exemplar. O povo de Cabo Verde interessou-se pelos destinos do seu pais e foi votar em massa. Mais um sinal de maturidade democrática.

5. A organização do processo eleitoral também deve ser elogiada pela rapidez e transparência com que os resultados foram sendo anunciados. E só não foram mais rápidos os mágicos da NOSI porque o clima de desconfiança instalado por uma campanha eleitoral pouco esclarecedora acabou por falar mais alto e os planos de se conseguir saber os resultados finais na própria noite das eleições acabou por se gorar.

6. Mas se tivermos na memória – que tantas vezes é curta – eleições anteriores, só podemos ficar orgulhosos pelo que já avançamos neste domínio. Cabo Verde provou, mais uma vez, que pode ser sim um exemplo para o mundo! Também aqui, quem nos vê e não conhece da história a sua metade, diria que andamos nisto de eleições há séculos. Maturidade, também neste caso? Com certeza, mas sobretudo muita competência

7. De há muito que não me lembrava de uma cobertura mediática tão imparcial e empenhada por parte de quem de direito. Tirando um ou outro caso de radicalismo crónico sem remédio, o balanço aqui é positivo e a maturidade democrática falou alto no que diz respeito ao excelente trabalho de todos os jornalistas e profissionais envolvidos nesta cobertura.

8. Mas a campanha eleitoral em curso fazia prever o pior. Aliás, devo dizer que no início tive a percepção de que o MPD poderia mesmo ganhar estas eleições. Começou com uma dinâmica interessante, parecia conseguir mobilizar mais gente nos seus comícios e actividades, o slogan fica no ouvido o que acabou mesmo por originar um slogan inverso do outro lado da barricada. 

9. Mas depois foi o descalabro. E deste descalabro, o principal partido da oposição saiu mais chamuscado. Deixou-se de falar de projectos ou de pais, e passamos a ver imagens manipuladas, vídeos comprometedores, desculpas esfarrapadas, ataques e contra-ataques, mails forjados, teorias da conspiração, insultos violentos, de parte a parte, contra cidadãos só porque estes defendiam uma determinada cor politica. Inaceitável.

10. Também penso que o discurso do bota-abaixo da oposição não resultou de todo porque nem tudo está assim tão mau. O pais não caminha “para o precipício”, não está perto do “descalabro total”, não corre o perigo de se instalar uma espécie de “ditadura camuflada”. Estas e outras tontices foram lançadas para o ar com alguma leviandade. 

11. Por outro lado, o carácter hiper-optimista e o pintar o país de cor-de-rosa, com aquele optimismo militante característico de José Maria Neves, acabou por fazer com que na última semana da campanha eleitoral, o PAICV recuperasse o terreno suficiente que lhe permitiu renovar uma maioria absoluta histórica.

12. Os próprios resultados, com algumas surpresas, demonstram notável maturidade democrática. S. Vicente deu a vitória ao PAICV, o que não acontecia desde 2001, incluindo autárquicas. Foi uma surpresa enorme. Santo Antão deixou de ser um bastião ventoinha, assim como a diáspora já não tem o domínio absoluto dos tambarinas. A vitória do PAICV em Santiago Norte foi outra das maiores surpresas destas eleições, tendo em conta que a maioria dos municípios está nas mãos do MPD. 

13. Uma palavra final para Carlos Veiga que teve uma postura notável na noite de Domingo, assim como que para José Maria Neves, que não se deixou cair numa arrogância vitoriosa. Haja esperança que o actual governo aprenda com os erros cometidos no passado, e não foram poucos. Energia, transportes, segurança, cultura, quatro áreas fundamentais a rever. 

14. Haja esperança que o parlamento renovado com caras novas e com muito para dar, cujo esforço e abnegação durante a campanha são certamente resultado de um grande amor pelo seu pais, possa subir a fasquia da qualidade no serviço que presta a quem o elegeu. Haja esperança que a oposição se renova no discurso e na postura. Haja esperança que o Governo melhore substancialmente a sua performance e, sobretudo, que se abra mais à sociedade civil e às pessoas comuns. Porque mais do que à máquina partidária, é ao povo que se deve prestar contas.








Perseguição & Liberdade

1. De repente, somos todos vítimas de cabalas, perseguições, censuras. Anda a ser espalhado pelas redes sociais que até os blogues portugueses "denunciam" a "pouca-vergonha" e a "perseguição do regime" à imprensa livre, por causa das multas ao semanário Já e ao Liberal. Nunca li o tal semanário, mas quanto ao Liberal, é assumidamente um espaço que toma opção política-partidária, com o seu já tradicional "faltam não sei quantos dias para a mudança." Acho bem que tomem posição. Acho mal que os multem se o posicionamento é assumido. 

2. Nos EUA a imprensa toma partido directamente por candidatos sem pestanejar. Há jornais de direita e de esquerda (enquadrados estes direita e esquerda na realidade norte-americana). Há canais de televisão a tomar posição e a fazer campanha. É a coisa mais normal do mundo. Aqui algo está mal, porque há lobos disfarçados de cordeiros e lobos que querem ser cordeiros mas nem sequer lhes vestem a pele. E há uma lei absurda que diz que todos os lobos, mesmo não o sendo, tem que ser cordeiros senão pimba! são multados. 

3. Essa obrigação de "isenção" só deveria ser obrigatória para os órgãos de informação públicos. Aqui sim, a isenção, o profissionalismo, o tratamento igualitário de candidaturas, de tempos de antena, de destaque nos noticiários deveria ser a pedra de toque porque, mal ou bem, aquelas estruturas são pagas e existem graças ao dinheiro dos contribuintes. Aqui sim, deveria quem de direito estar atento e punir lá onde se desse o caso de haver punição.

4. Mas esta vitimização dos ditos órgãos de comunicação social "perseguidos" é igualmente ridícula. Primeiro, porque não são isentos nem nunca o quiserem ser, por opção própria e direito que lhes assiste (ou devia assistir) de assumir posições políticas. Depois, porque segundo li e é público, os jornais A Nação e A Semana, foram igualmente multados pela CNE. Mais casos de perseguição política? Acham mesmo que sim?

5. Este tipo de filtros, onde se deixa propositadamente de fora a informação que convém deixar e se tenta, deliberadamente, enganar quem lê, é que me irrita um bocado. Somos todos tratados como atrasados mentais sem qualquer hesitação. Coloca-se a discussão política ao nível da mais rasteira discussão futebolística, onde o defesa esquerdo da minha equipa pode ser perneta, não dar um pontapé na bola de jeito, um tipo que devia ter escolhido outra profissão, mas que será sempre melhor do que o defesa esquerdo dessa tua outra equipa. Porquê? Porque uma é minha e outra é tua. E não se discute mais nada!

6. O que está mal não são as multas, é a Lei Eleitoral. Mas essa, se bem me lembro, foi votada por maioria de dois terços na Assembleia Nacional. E este caso só vem mostrar mais uma vez que toda - repito - toda a informação e contra-informação que nos chega a casa pelos diferentes meios de comunicação social, blogues e redes sociais, principalmente neste período eleitoral, deve passar por um outro filtro, esse pessoal e intransmissível, chamado análise crítica e atenta. A esta possibilidade chama-se, isso sim, liberdade. 

E agora, venham daí esses debates!




Em jeito de balanço, José e Pilar


1. Acabei de assistir ao filme documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, que mostra o dia-a-dia do casal José Saramago e Pilar del Rio, sua mulher, num retrato surpreendente de um escritor durante o seu processo de criação. Mostra-nos um Saramago nunca antes visto e, como se lê no texto de promoção do filme, prova que génio e simplicidade são compatíveis. Nestes tempos conturbados, estes 125 minutos de visionamento desta obra-prima foram a melhor forma de terminar o presente ano.

2. Se chegaram até este ponto e sobreviveram a um primeiro parágrafo que vos poderia induzir ser este um texto mais ou menos intelectual sobre uma obra cinematográfica, ficam desde já a saber que, como quase acontece com o que se escreve e com o que nos acontece na vida, o filme é apenas um pretexto para escrever sobre coisas outras, talvez aquelas que realmente interessam na vida, sobre as quais poucas vezes paramos para avaliar, pese embora a importância que têm nas nossas existências, como sejam o amor, o tempo, o espaço, o conhecimento, a evolução, a liberdade.

3. A jornalista Ana Margarida de Carvalho escreveu sobre este filme na revista Visão que o filme é um documentário, mas é também muito mais do que isso: “tem tantas histórias, tanto mundo. Tanta música, alguns inéditos. Tantos bons diálogos como nos bons guiões. Tanta vida e um bocado de doença e morte, também. Tanto riso, tanta ironia, tanto escárnio e veneno. Tanta mágoa, tanta amargura, tanto amor.” Sobretudo, este último, tanto amor, uma palavra gasta, que aparece anunciada com cada vez menos convicção, verdade, emoção. E ao contrario do que está citado, não concordo que o filme contenha amargura: ao contrário, é um filme cheio de luz. Pilar, essa força da natureza, diz mesmo qualquer coisa como isto: para quê ficar triste, deprimido? Não há tempo para isso. É seguir em frente e continuar a lutar, a batalhar, sem nunca esquecer que estamos no pequeno grupo dos privilegiados.

4. Comecemos pelo amor: quando encenei a peça “Máscaras”, e quis fazer do espectáculo, pelo menos do ponto de vista do encenador, um “hino ao amor”, chamei a atenção precisamente para essa forma plastificada de festejar o evento amoroso, o amor que vem em embalagens pré-formatas, o amor dos peluches e corações nas montras das botiques na semana do S. Valentim, o amor das novelas brasileiras ou das letras de zouke love. Ora, este é um filme iluminado porque mostra que o amor não tem fronteiras, nem culturais, nem geracionais e que está sempre pronto para nos bater à porta quando menos se espera. José Saramago revelou numa conferência em S. Paulo isso mesmo: que se tivesse morrido aos sessenta anos, um pouco antes de ter conhecido Pilar, teria morrido muito mais velho do que morrerá com mais de oitenta. O amor faz isso às pessoas: dá vida. É o verdadeiro e único elixir da juventude, a pedra filosofal que transforma em ouro tudo em que toca.

5. Há ideias, imagens, pensamentos ao longo de todo o filme que nos tocam profundamente. O homem público que se dá, de tal forma que acaba gravemente doente muito provavelmente por excesso de trabalho. Semanas antes desse grave problema de saúde Saramago era capaz de estar horas a assinar livros. No encontro na Sociedade Brasileira de Letras assinou mais de 450 livros. Narcisismo? Não, generosidade, apenas. De tanto viajar acaba confessando que numa próxima oportunidade, quer ser árvore, para poder ter raízes e nunca sair do mesmo lugar. “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo dia”, disse. Mas não se esquece de agradecer a Pilar, “por não me ter deixado morrer.” O amor vencendo a morte? Com certeza.

6. Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo, disse um dia o até agora único prémio Nobel da literatura de língua portuguesa. E talvez seja essa a razão de ser desta crónica, nesta altura do campeonato. E que altura é essa? O final do ano, tradicionalmente para os balanços do ano. Ou ainda mais premente, a campanha eleitoral oficial que se aproxima a passos largos, mas que já está presente nas estradas nos cutelos, nos bares, nos passeios, nos cafés, nos discursos, nas preocupações, nas apostas, nos projectos de vida, nas tipografias, nas carreiras, nos outdours, nos jornais, na Internet, nas conferências de imprensa, as televisões, nas casas das pessoas, nas discussões, nas portas das casas, nas inaugurações e na má-língua. Façam as vossas lutas politicas, lutem pelas vossas convicções, mas não percam o norte para o que realmente importa levar desta vida.

7. Quando se perguntou a Saramago do que ele mais sentia falta, agora que pelos vistos já tinha tudo, ele deu a resposta que se esperava de um homem que sobretudo adora a viver: tempo e vida. Gostava de ter mais tempo para continuar o trabalho que tanto gosta de fazer e de ter mais vida, agora que no final de cada dia se tem a percepção tremenda de uma perda irreparável. “Deve ser isso a velhice”, afirmou. Mas abençoado quem, como ele, que descobriu o ofício de escritor já muito depois do meio século de idade, morre a fazer o que mais ama e também o que as pessoas mais amam que ele faça. Isso também demonstra que nunca é tarde. Nunca. Para descobrir uma vocação. Um caminho. Uma montanha. Uma canção. Um grande amor.

8. Continuamos especialistas em chorar os mortos que ignoramos em vida. Agora que a morte de Norberto Tavares está tão presente talvez poucos se lembrem do tempo não muito remoto em que este se encontrava gravemente doente, tendo sido o próprio irmão a oferecer um dos seus rins para que o músico conseguisse sobreviver. Deram o nome dele a um Centro Cultural em Santa Catarina, menos mal. E nem foi preciso esperar ele morrer para que tal homenagem acontecesse, ao contrário do que se fez com Ildo Lobo e o Palácio da Cultura que, a título póstumo, lhe foi confiado. Nunca é demais dizê-lo, que nos lembremos dos vivos, daqueles que tanto deram ao pais e que, por alguma razão, hoje passam por dificuldades. Na área da cultura os exemplos são mais do que muitos, num ano em que as perdas foram irreparáveis.

9. É esse, pois o meu apelo, neste final de 2010. Amem mais. Vivam mais. Sejam mais generosos e mais humildes. Isto pode vos parecer conversa de padre de freguesia, mas num ano em que tive a fantástica oportunidade de me cruzar com grandes mestres do saber na minha área de eleição, concluo que só tenho dois caminhos possíveis, no que à minha suposta e badalada vocação diz respeito: ou tenho consciência da minha infinita pequenez, do quanto tenho e preciso ainda de aprender ou acabarei a definhar no usufruto de uma suposta carreira de sucesso que não significará nada se não conseguir alcançar aquilo que Saramago mostra ser possível de forma tão espantosamente frágil e honesta neste filme assombroso: trabalhar sempre e amar melhor, a cada dia que passa. Subir a montanha e sorrir para os outros e para o mundo.





Viagens interiores

1. O mundo ficou mais pequeno mas nem por isso mais fascinante. Continua a ser impressionante que haja habitantes da cidade do Mindelo, por exemplo, que em décadas nunca tenham, sequer, atravessado o mar de canal para uma curta visita à ilha vizinha de Santo Antão, até porque quando se passa das paisagens castanhas, secas e lunares de S. Vicente para o mundo verdejante e arrebatador das montanhas de S. Antão, é como se tivéssemos passado de um pais para o outro, de um mundo para o outro. E a história repete-se sempre se a comparação for feita entre outras ilhas vizinhas. Cabo Verde tem a enorme vantagem competitiva de ser um pais com, pelo menos, nove países dentro dele.

2. Tudo isto para vos falar o quanto penso ser importante nos darmos essa possibilidade de viajar, sair das nossas quatro paredes habituais, das rotinas diárias que nos consomem e adormecem, nas mais variadas formas. Podemos viajar para fora, claro, mas com a crise há sempre muito boa gente que só de colocar essa hipótese fica com a conta bancária a tremer. Mas há o tão célebre viajar para fora cá dentro, não só entre as diversas ilhas do arquipélago cabo-verdiano, mas também dentro da própria ilha, cada uma delas sempre com lugares fantásticos por descobrir. Há mundos incríveis aí mesmo à mão de semear, sabiam? Ambientes fantásticos e poderosos à distância de uma passeata de trinta minutos ou mais. Há sim, acreditem, universos novos por descobrir mesmo aqui ao lado.

3. Sempre tive este gosto pela aventura, e não havendo hipóteses de viajar, a gente inventava. Assim fui e conheci, várias vezes, ainda criança, diversos planetas, em naves espaciais instaladas debaixo da cama. A minha mãe sempre entendeu isso e me deixava voar, uma das muitas razões porque sempre a considerarei um exemplo de educadora, com um apurado sentido pedagógico, muito à frente do seu tempo. Por vezes, com estranhas consequências. Por exemplo, em plena cidade do Porto, invadia, com um grupo restrito, quem sabe se inspirado pelas aventuras dos cinco de Enid Blyton – que naquela época se devorava como primeiras leituras – casas e jardins abandonados, explorando tudo o que para nós era digno explorar.

4. Nas casas mais antigas, invadíamos caves e subsolos à procura de tesouros improváveis, sótãos poeirentos em busca de algum objecto mágico, quintais mal amanhados que se transformavam automaticamente em densas florestas com as mais temíveis criaturas, buracos e fendas que eram transfiguradas em grutas com esqueletos de gatos, galinheiros fedorentos adoptados em centrais secretas de comunicação, árvores e ramos usados como locais privilegiados de observação de movimentações inimigas e, claro, os telhados das casas contíguas, que eram as nossas estradas predilectas, porque plenas de perigos, bandidos, assaltos, estranhas actividades, umas reais, outras saídas das nossas cabeças plenas de fantasia (a maioria, claro).

5. Um episódio ficou célebre na família, quando algum vizinho mais ou menos afastado, entretido num prédio longínquo com uns binóculos de grande precisão, se apercebeu de uma estranha circulação nos telhados, cinco indivíduos, não se poderia dizer se de alta ou baixa estatura, se machos se fêmeas, se muito ou pouco armados, se haveria ou não alguns outros em zonas fora da visibilidade daquele cicerone improvável, mas somados os prós e os contras, os possíveis e os inverosímeis, seguindo o ditado popular que nos faz ser como S. Tomé e crer naquilo que a nossa vista pensa estar a observar em determinado momento, a conclusão só podia ser uma: estava a decorrer, naquele pacato bairro, naquele preciso instante, um assalto às residências daquele quarteirão.

6. Só assim se explicaria que, estando nós, cinco ou seis crianças ainda em plena puberdade, entretidos com as nossas mais que inocentes brincadeiras, entre quintais nossos e telhados vizinhos, tivesse aparecido, num repente e tal qual filme de acção tipo Rambo, um número indeterminado de policias de intervenção armados até aos dentes, surgidos por artes de mágica dos quatro cantos norte sul este oeste, aparecimento esse acompanhado de um sonoro e implacável “mãos ao ar!”. Sorte nossa que a madrinha estava por ali a tratar das galinhas e jurou de pés juntos ao comandante da operação que aqueles meninos eram todos de boas famílias e em troca de uma promessa de entrega de relatório o mais completo possível aos respectivos encarregados de educação a partir do qual surgiriam as inevitáveis e merecidas punições, lá se deu o episódio por encerrado, o que não impediu que este acontecido passasse a fazer parte da galeria dos acontecimentos mais inusitados da família.

7. Viajar, pois. Imaginem o que crianças com a imaginação no auge da sua potencialidade não poderia fazer com os cantos e recantos das nossas ilhas, com as montanhas, os vulcões, os areais, as dunas, os pequenos oásis, os caminhos de cabra, os faróis abandonados, as carcaças de navios à beira-mar, os cutelos, as cascatas, as grutas, as estradas secundárias, terciárias ou esquecidas, as praias desertas, as plantações de bananas, os resort’s ainda em construção, as ruínas de edifícios podres, com ou sem importância patrimonial, as casas de tambor, as avenidas alcatroadas sem uso, os armazéns abandonados, os quintais discretos, os terraços das cidades, os tanques de água secos, os cantos e recantos das ilhas maravilhosas. O que não faltam são alternativas para dar asas e sair por aí sem norte.

8. Portanto, por muito que a vida esteja difícil para todos, há sempre formas de viajar e dessa forma dar uma sapatada num quotidiano adormecido pela repetição de gestos, horários e compromissos de trabalho ou familiares. Infelizmente, neste momento sem cinema, foi retirado aos cabo-verdianos essa possibilidade de viajar através das aventuras das maiores estrelas de cinema e nunca é demais lembrar como o funcionamento do cine-teatro Éden Park, como tem sido escrito e referenciado até à exaustão, promoveu não só a formação pessoal e social de várias gerações, como foi válvula de escape e motor de um veículo imparável que nos permitia viajar, voar, explorar novos mundos dantes nunca vistos por qualquer alma viva ou morta.

9. Também por isso nunca me esqueço das primeiras semanas que passei no Mindelo, onde tive um dos maiores apaixonados pelos cantos e recantos da ilha de S. Vicente, o músico Vasco Martins. Com ele, ou por causa dele, era praticamente arrastado para grandes passeios por entre montanhas e caminhos quase secretos, descobri lugares onde se vê a ilha de ponta a ponta, praias secretas de difícil acesso, num encontro inesquecível com a alma da ilha, com a alma que também me fugia sabe-se lá para onde. Deixar de ter essa capacidade para viajar, dentro do nosso país, da nossa ilha ou dentro de nós mesmos é também uma forma de matar por dentro aquilo que faz do ser humano um milagre da natureza. Hoje, mais do que nunca, é fundamental olhar em volta, voar e relembrar da nossa pequenez.


Crónica publicada no jornal A Nação, de 21/11/2010




Cordá Monte Cara

1. Que andam a brincar com S. Vicente não é de hoje. Os deputados eleitos por este círculo eleitoral, de um e do outro lado, nunca se vêem, não se lhes conhece uma única iniciativa que tenha tido um pingo de repercussão na melhoria das condições de vida desta população. O famoso partido charneira aproveita-se desta ilha ser a única com capacidade de atenuar a doença crónica do bipartidarimo que este país sofre, para convencer os mais coitados de que eles, sim, são os verdadeiros defensores dos interesses de S. Vicente, quando até agora o que se viu foi um mal amanhado conjunto de lugares comuns atirados para a comunicação social, que não são carne nem são peixe, não tomam partido, não dão o murro na mesa que se impõe.

2. Concorre-se, muitas vezes com a mesma cara, à Assembleia Nacional, ao Governo, à Câmara Municipal, à Presidência da República, consegue-se um tacho aqui e outro ali, mas ainda ninguém nos conseguiu mostrar como é possível estar-se em dois lugares ao mesmo tempo, como se podem defender os interesses desta ilha e deste povo quando a sensação que nos dá é que cada um está mas é a tratar da sua vidinha, que isto não está fácil para ninguém, há que aproveitar enquanto se consegue enganar os filhos de cada um e os netos de cada qual.

3. Na Câmara Municipal, a situação não é melhor. A vergonhosa trapalhada da venda de terrenos, o aproveitamento político que esta situação tem originado, o vazio de poder, a bandalheira que grassa por aquelas bandas, só nos permite temer o pior. O Governo, por outro lado, também não entendeu ainda do que S. Vicente precisa e reclama. Só para dar um exemplo que me toca particularmente, considero que anunciar um Palácio da Cultura novo com o cine-teatro Éden Park, o maior símbolo patrimonial da história desta ilha, a apodrecer aos olhos de todos na principal praça da cidade, só pode ser uma piada de mau gosto.

4. Ou seja, como diria o povo, estamos entregues à bicharada. Ou para ser ainda mais directo, estamos fodidos e mal pagos.  Portanto, quando vejo um movimento cívico a surgir para dar um grito contra este estado lastimável de coisas só podia me manifestar a favor. Porque nesta história ninguém é inocente, ninguém. Nem os ministros amarelos, nem os vereadores verdes, nem os ditos defensores dos pobres que nunca defendem coisa nenhuma a não ser os seus próprios interesses pessoais, muito menos a própria população que parece querer acordar só quando há festa da boa. Acorda Monte Cara sim. Já é tempo de darmos o nosso grito e não é de hoje.

5, A primeira ideia é organizar «uma manifestação para acordar São Vicente contra o abandono do Governo e traição por parte da Câmara Municipal de São Vicente». Mas uma manifestação que fique na história desta ilha. Uma coisa em grande. Porque é triste se pensarmos que a maior manifestação a que tivemos oportunidade de assistir durante os últimos 15 anos foi aquela motivada pela proibição da emissão da televisão do Pulu, porque por causa dessa proibição esse mesmo povo deixou de poder ver novelas, filmes e futebol. E de vez em quando uma reportagem sobre baleias a morrer na praia da Lajinha. Portanto, urge, e já de faz tarde, uma profunda mudança de mentalidades.  Porque estamos a ser comidos à grande e à francesa e ainda fazemos a festa com isso. Não pode ser.

6. Nascido na rede social Facebook, o movimento cívico Cordá Monte Cara anuncia: “decidiu-se que vamos à luta com força e contamos com o apoio positivo de todos os que amam São Vicente, vamos à luta em forma de protesto sim, mas sobretudo vamos à luta em forma de contribuição positiva, apresentar soluções, fazer valer a nossa presença como povo desta ilha!” A opção por uma manifestação de rua é explicada da seguinte forma: “decidimos que iremos começar a nossa caminhada convocando uma manifestação de rua, uma manifestação essa que contamos com o apoio de todos, vamos ter de sair do espaço cibernético e materializar o nosso protesto, e ir levando as nossas preocupações a todos quantos nos puderem ouvir.”

7.Apoio incondicionalmente este movimento e as pessoas que o promovem. É uma vergonha o que se passa na nossa ilha, na nossa cidade. Não podemos pensar que somos um povo que apenas sabe festejar. Não podemos pensar que só conseguimos sair à rua no Carnaval ou na passagem do ano aos gritos que somos uma ilha sabe pa cagá. É preciso mais, muito mais. E eu iria mais longe: que este movimento seja transformado num partido e concorra às próximas eleições, que consiga colocar pelo menos um deputado na Assembleia Nacional que faça ouvir a sua voz e que seja uma pedrada no charco neste imenso lodo em que se transformou a política na ilha do Porto Grande. 

8. A próxima reunião é já amanhã, no dia 03 de Novembro, na sede da ADECO. Acordem! Participem, não se deixem ficar. Mostrem que ainda podemos ter alguma palavra a dizer. Para aderir ao movimento via Facebook, é só vir aqui. Acabar com a inércia, apresentar soluções. Está bom de comer e calar. Eu já aderi, e vocês?