Lado do Pai



Finalmente, "Mudar de Vida, José Mário Branco" vai estrear no dia 25 de Abril. O dia da Liberdade. Tudo farei para que possa ser apresentado também em Cabo Verde. A propósito, vejam no momento 25'' um menino atrevido de macacão e camisola amarela... Sou eu, com a saudosa Isabel Alves Costa. É por essas e por outras, pela herança dos meus pais, que serei sempre livre de pensamento, na vida e na arte!






Lado da Mãe



Isabel Alves Costa será homenageada, postumamente, no Dia Mundial do Teatro, na cidade do Porto. Em comunicado enviado pelo Teatro Nacional S. João, Isabel Alves Costa, a antiga responsável pelo Rivoli Teatro Municipal e também fundadora e diretora do Festival Internacional de Marionetas do Porto, é lembrada pelo "inestimável trabalho de uma vida dedicada às causas do teatro e das artes do espetáculo em Portugal, ao longo de mais de 40 anos". Mais uma bela herança que viverá para sempre em mim!





Hoje, dia 25 de março, o Grupo de Teatro Juventude em Marcha, sediado em Porto Novo, na mágica ilha de Santo Antão, comemora o seu 30º aniversário. É um número espantoso de um grupo que marcou, marca e certamente continuará a marcar a história e o percurso vitorioso do teatro cabo-verdiano. Trouxe, entre muitas outras coisas, um estilo próprio de comédia que conquistou milhares de adeptos às salas de teatro, espaços alternativos, polivalentes desportivos, enfim, nas dezenas de locais em que este grupo já se apresentou por todo o país e na Diáspora. 

Tendo por base a cultura e a língua de Santo Antão, com os carismáticos Jorge Martins e César Lélis, meus queridos amigos, como caras mais conhecidas, este colectivo, que a cada apresentação provoca autênticas romarias de buscas desesperadas por bilhetes, tem feito muito pelo teatro, em particular e pelo fomento da nossa cultura, em geral. 

Não foi certamente por acaso, que na primeira edição do Prémio de Mérito Teatral, em 1999, o Grupo de Teatro Juventude em Marcha tenha sido o primeiro homenageado pela Associação Mindelact e que César Lélis, dez anos depois, tenha sido o primeiro actor a receber o mais importante prémio do teatro em Cabo Verde. 

O meu respeito por eles é infinito. São gente boa, lutadora, amante do teatro, que com as suas particularidades conquistam não só público mas muitos outros jovens que se aventuram nas lides teatrais inspirados nos heróis que hoje completam 30 anos de vida. Parabéns, queridos, e que venham mais trinta!





Assim de repente, acabei de verificar que o Café Margoso ultrapassou, a semana passada, o bonito número de 400 mil acessos. Nada mau! 

Obrigado a todos os seguidores e fãs do blogue, a ver se até ao final do ano chegamos ao primeiro milhão!




- Nem só de pão vive o homem, disse Jesus a um mísero homem da rua, ao que este redarguiu:
 - Dizes bem, o homem também carece de ar, de água e, sobretudo, de dinheiro.

Jesus viu que o sujeito, embora fosse um simples vagabundo, não era um dos muitos cegos da Judeia, e foi-se embora sem nada contrapor.

 XEQUE-MATE!

Arménio Vieira, em texto enviado via SMS

(Fotografia de Dariusz Klimczak)













Algumas fotografias de "Quotidiamo, esta não é uma história de amor", da autoria de Hélder Doca. (Com Janaina Alves e Renato Lopes)

E agora? Fica sempre um vazio tão grande...





"Qual a lógica de classificar um edifício, ou parte de uma cidade, como património nacional (precisamente para preservar e não alterar) e depois se permite a construção de um edifício estética e volumetricamente tão agressivo e desenquadrado que não só destrói o equilíbrio da Praça Nova como "esmaga" o edifício que teoricamente se pretende preservar, abafando totalmente a sua presença e sua beleza? 

Querer preservar o centro histórico não é, obviamente ser contra a modernização e crescimento de Mindelo, nem contra a construção em altura. Sou sim contra a destruição do seu centro histórico e espero que cada erro do passado não seja desculpa para a construção de novos erros com mais e mais pisos."

Dra. Ana Cordeiro


"Quando num debate tão importante para o Mindelo em vez de se apresentar argumentos em defesa do projecto EP se começa a insultar aqueles que manifestam reservas - perfeitamente naturais - os seus autores dão um péssimo sinal à cidade que dizem ter vindo defender. Continuem assim, continuem..."

João Branco


Nota final: o debate à volta do projeto que está a ser apresentado para o espaço do Éden Park resvalou, como se podia prever conhecendo o histórico de alguns dos intervenientes, para o insulto pessoal, pelo que me abstenho de voltar a entrar neste tipo de discussão. Para mim, quem diz representar os donos do projecto, perdeu toda a credibilidade e não merece que perca um segundo sequer da minha vida, que já é bastante agitada. Quanto ao que está a ser proposto, caberá agora às autoridades reagir, ao abrigo da lei e do bom senso.

O que vier, que venha e que seja para o bem da cidade do Mindelo. Agora, recuso-me a receber lições de moral ou de patriotismo de quem não percebe e muito menos conhece a nossa história, e de quem esta cidade tem recebido como contribuição apenas insultos e desrespeito. 

Saudações


Na imagem, um programa cultura do Éden Park, de 1943.




Com a Mão na Queixada

1. Um turista australiano - que é mais do que isso, visto ser um jornalista e escritor conhecido lá na terra dele e escrever num jornal importante - passou umas horas em S. Vicente, por intermédio do conhecido turismo de cruzeiro e não gostou do que viu. Vai daí escreve um artigo desaforado, em inglês, que o sempre atento Dai Varela descobriu sabe-se lá como e publicou no seu blogue pessoal.

2. Essa publicação provocou alguns terramotos nas redes sociais, além do aumento exponencial de visitas ao blog em referência. Outra coisa não seria de esperar. Os mindelenses não gostam de ser atacados, mais ainda por gente de fora que vem, passa umas horas, vira umas esquinas, mete a viola no saco e regressa com a mesma rapidez com que chegou. 

3. Aliás, não são apenas os mindelenses. De uma forma geral, reagimos muito mal às críticas que vem de fora, reagimos de forma epidérmica, apaixonada e por vezes até violenta. Lembram-se do caso da cozinheira brasileira? O burbur foi tanto que teve que pedir desculpas públicas via representantes diplomáticos e hoje, não deve querer saber de Cabo Verde nem pintado de ouro.

4. Claro que a forma como se critica algo, por vezes, tira a razão de quem o faz. Mas sempre defendi que devemos ter a inteligência de entender o porquê daquele olhar mesmo que, à primeira vista, ele nos pareça exagerado ou até insultuoso. O problema é que nos deixamos cegar pelo orgulho e em vez de aprender com o olhar do outro continuamos de olho fixo no próprio umbigo. E sem sair do lugar.

5. Eu quero lá saber que o senhor australiano tenha trocado o nome da capital de Cabo Verde ou dito algumas incongruências geográficas ou históricas. Acham mesmo que isso é o mais importante? Esmiuçando o que ali está, a verdade é que quase todos nós - mindelenses ou não - já passamos por experiências semelhantes. E temos que aturar situações inacreditáveis. Imaginem como é para quem vem de fora!

6. Esperar uma hora por uma omelete, ser servido com cara mau como se nos estivessem a fazer um favor e não a prestar um serviço, ir às praias e encontrar um monte de lixo acumulado, ter as estradas esburacadas, ser assaltado pela falta de segurança ou assediado pelos múltiplos pedintes nas ruas de todas as idades nas portas dos supermercados, são acontecimentos tão comuns que se tornaram normais.

7. A verdade é que não me lembro de ver tanto turista nas ruas do Mindelo como nos últimos tempos. Quase todas as semanas temos um navio enorme atracado no Porto Grande do Mindelo. Não caberá agora à ilha, aos operadores, às autoridades, aos empresários, aos artesãos, aos profissionais liberais, aos criativos fazer a sua parte? Onde estão os encontros de trabalho concertados entre autoridades, operados e empresários? Onde está a prestação de serviços com qualidade, que não a encontro?

8. Vamos continuar com a mão na queixada a dizer que Soncent está parado? Tanta coisa por fazer e potenciar! Como se explica que nos infindáveis metros quadrados da nova Lajinha haja apenas duas balizas de futebol e não se tenha ainda colocado os múltiplos equipamentos que fazem duma praia algo mais aprazível e atraente? 

9. Como se explica a anedótica "exposição" (assim mesmo, com muitas aspas) da capitania - réplica da Torre de Belém - que se limita a uns painéis pendurados em algumas salas? Como se explica a falta de materiais de promoção da cidade, da ilha em outras línguas? Como se explica o aparente abandono dos principais pontos de atracção turística? Como se explica que não haja grupos organizados de folclore cabo-verdiano que possam ser contratados e tirar partido desta movimentação?

10. Concordo com a Rosário da Luz que faz a distinção entre "turista" e "viajante". Não interessa aqui se gostamos ou não dessa gente. Interessa a forma como poderemos beneficiar da sua presença em prol do desenvolvimento da nossa cidade. Os serviços tem que melhorar, a produtividade tem que crescer, a criatividade tem que se multiplicar, senão corremos o risco de daqui a alguns anos estar a chorar mais uma morte prematura do magnífico Porto Grande do Mindelo. E com a mão na queixada, claro. 

Mindelo, 18 de Março de 2014 




Estar no mundo do teatro deu-me sempre muito mais alegria do que tristeza. Muito mais boas recordações do que memórias dolorosas. Muito mais realização do que frustração. De quando em quando, em cada projecto, sou confrontado com vivências inesquecíveis.

Vem isto a propósito da estreia, ontem, da série de espectáculos "Cinco Peças para Cinco Sentidos", apresentado pela sempre inovadora Trupe Pará Moss.

Começou esta quinta-feira e foi mágico. No final do primeiro dia das cinco peças para os cinco sentidos - cinco estreias apresentadas em simultâneo e com três apresentações cada - fizemos logo ali uma reunião de balanço do dia. E eu só olhava para aqueles quase trinta jovens amantes do teatro, cansados, corajosos e criativos, e pensava: "tanto talento, tanta dedicação!" O teatro cabo-verdiano agradece. E se não agradece, devia. 

Se estão no Mindelo e não viram, dêem um salto lá no Centro Nacional de Artesanato e Design e vejam com os próprios olhos, toquem com as próprias mãos, cheirem com os próprios narizes, degustem com as próprias bocas e escutem com os próprios ouvidos. Depois não digam que não vos avisei!







Andam a dizer por aí que o filme dos beijos - colocado ontem aqui no Facebook, é uma "farsa comercial". Não sei se é ou se não é. Para mim continua a ser um belo filme. Só para quem gosta de beijos, claro!





Uma realizadora, de seu nome Tatia Pilieva, apareceu com uma proposta interessante e cujo resultado não resisto colocar aqui para partilhar convosco: um filme em que vários casais foram desafiados a dar um primeiro beijo. A especificidade do resultado advém do facto de nenhum dos integrantes dos casais se conhecerem, ou sequer saberem o nome uns dos outros. O resultado, belíssimo, foi este:








O objectivo de uma campanha publicitária é chamar atenção para o produto que se quer vender. No caso de uma campanha com objectivos solidários e/ou sociais, é chamar atenção para uma qualquer problemática social e lançar o debate sobre ela, quebrando tabus, colocando meio mundo a falar sobre o tema. Se essa campanha tiver um bom slogan, daqueles que fica no ouvido, melhor ainda. A frase, começa a ser repetida até à exaustão e, o que é mais fantástico, o efeito multiplicador permite-nos observar a utilização dessa mesma frase em dezenas de contextos diferentes. Ou brincando, ou ironizando, ou criticando. Mas se esse slogan estiver na boca do povo, a campanha já é uma campanha vencedora. 

Vem isto a propósito do burburinho à volta da campanha "Homem que é homem não bate em mulher", à qual tive todo o prazer de me associar, dando a cara, e fazendo do Café Margoso um parceiro. Muitas participações, algumas críticas construtivas, observações pertinentes, debate lançado, a campanha na boca do povo. Por aí, a campanha já vence e os promotores estão de parabéns.

Depois há que se entender em que sociedade vivemos. Basta ir aos jornais online para verificar a podridão que grassa pelas mentes de tanta gente que, sempre sob a capa cobarde do anonimato, insulta, acusa sem fundamento, utilizando na maioria das vezes linguagem rasteira, cuja única sensação que consegue provocar é uma sensação de nojo e vómito. Há muito deixei de ler esses comentários, mas não deixam de ser um retrato social, mesmo que escondido, da lixeira mental que se sente, mas não se quer admitir que exista. 

Como não podia deixar de ser, uma campanha como acabou provocando algumas reacções que, no meu entender, são despropositadas mas absolutamente expectáveis: estar a gerir egos, porque fulano ficou na frente de sicrano; que o partido amarelo está mais representado que o verde (ou vice-versa); que o logo mostra o homem em cima e a mulher em baixo e que portanto contribuí para o acirrar do preconceito; que esse ou aquele não pode estar porque "todo o mundo sabe" que dá pancada nas mulheres (e isto dito sem provas, sem acusação, sem julgamento e muito menos, sem condenação), esse tal diz que não diz que é um dos maiores venenos sociais do nosso meio, tudo isso não podia deixar de acontecer, mais ainda numa campanha em que o assunto é tão sensível numa sociedade tão hipócrita como a nossa. 

Estão os promotores sujeitos a críticas? Com certeza! Coloco a foto que mostra a participação do Tchalé Figueira, que de forma construtiva participa e critica ao mesmo tempo, sugerindo algo mais, dando exemplos de outras frases ou outros slogans. Outros o tem feito, lançando e promovendo um debate necessário e profícuo. Agora, podíamos estar a falar de violência doméstica sem o lançamento desta campanha? 

Podíamos, mas não era a mesma coisa!





Dôs com Celina Pereira


Conversa com Celina Pereira, certamente uma das figuras mais emblemáticas do espectro cultural cabo-verdiano. Com uma longa carreira de décadas, não deixa de ser uma mulher cheia de planos e projectos em curso e não se inibe de dar um recado onde demonstra alguma mágoa por não ser mais considerada na sua terra natal.  E explica porque é que, orgulhosamente, gosta de mostrar o seu lado africano.


Chegada a este momento dentro de uma tão longa carreira, tão cheia de obra, o que te falta fazer. O que é que gostavas de fazer e que ainda não fizeste?

Celina Pereira:  Falta-me fazer tudo Porque acredito que qualquer criador ou artista, se tem consciência do papel que tem, nunca está contente com o que faz. Depois sou uma pessoa extremamente exigente comigo, acho sempre que pode ser mais e melhor. Mas por vezes, dou por mim a fazer-me festinhas porque (em consciência) também já fiz algumas coisas boas durante estes anos...

Como é que gostavas de ser lembrada?

Como uma cabo-verdiana, cidadã do mundo, que quis sempre honrar o nome e a cultura do seu pais e dos seus ancestrais, sobretudo da minha família, de que --- tenho muito orgulho. Do meu pai e da minha mãe que me criaram tão bem e--- me deram esta noção de responsabilidade, de lugares de intervenção onde sempre deveremos estar. 

AS ORGENS

Nasceste em que ilha?

Na Boavista, onde morei até aos seis anos e tal.  Depois mudei-me para S. Vicente com os meus pais. Costumo dizer que sou de duas ilhas, em termos de proveniência: da Boavista, onde nasci, e de S. Vicente, onde vivi parte da minha infância e adolescência, fiz o liceu, tive o primeiro namorado, essas coisas todas. 

Como é que foram os teus primeiros anos aqui em Portugal, numa época muito complicada? 

Sim, não foi fácil. Fui para Viseu, nos anos 60. Um choque térmico, chorava todas as noites. Mas foi muito bom em termos de abrir outros horizontes, conhecer novas gentes, uma culinária diferente  daquela a que estava habituada.. Quando vim para Portugal pela segunda vez em 1970, a minha ambientação foi mais pacifica, pois acabei ficando em casa de familiares.

Gostas que as pessoas te vejam como cantora, como contadora de estórias, como intérprete, como actriz? Com qual destas facetas de intervenção artística te sentes mais identificada? 

Eu acho que qualquer dessas áreas é minha. Sou, acima de tudo, uma comunicadora que utiliza essas diferentes estradas para chegar ao público. Quando estava num balcão da TAP a falar com o público não era muito diferente, era comunicar com as pessoas. Quando estou numa escola a contar uma estória às crianças, estou a comunicar do mesmo modo. Considero-me acima de tudo uma comunicadora, que utiliza a música, a palavra, a poesia, a representação, o que quiseres. A gente tem dons que precisa de explorar e melhorar e eu tenho procurado fazer isso, com formações contínuas, para me aperfeiçoar neste caminho da comunicação. É evidente que de tudo isto, o que eu mais gosto de fazer é de cantar.  

Mas curiosamente, gravas muito pouco...

Sim, porque as coisas são complicadas. Se eu tivesse nascido de uma família rica, quem sabe se poderia ter uma discografia mais vasta. 

FRUSTRAÇÃO POR GRAVAR POUCO

Gostarias de ter tido a oportunidade para gravar mais vezes e com mais frequência?

Sem dúvida. E é curioso que aos discos dos meus áudio-livros, as pessoas não se referem como trabalhos discográficos, que também são. Referem-se ao livro e não pensam no CD. 

Onde tu não dizes apenas, cantas também, dentro do que é habitual na tua forma de contar histórias, já que tu as contas cantando, ou cantas contando estórias, como quiseres...

É isso mesmo. E se os genes têm memoria, são os meus genes africanos que trazem essa característica. África, onde há muitos contadores de estórias que contam cantando e cantam contando. Eu considero que esta minha forma de contar estórias é uma herança que trago de África.

Aproveito esta deixa para lançar uma pequena provocação: há muitos cabo-verdianos, principalmente nas ilhas no Norte, que não têm uma tendência muito vincada, para reivindicar o seu lado africano. Ainda hoje continuamos a discutir este assunto, a polemizar sobre esta questão da maior ou menor africanidade do povo cabo-verdiano. Tu, claramente, sempre fizeste questão de vincar esse teu lado africano. Como é que vês esta polémica?

Considero que é uma discussão completamente estéril. Em termos históricos e sociológicos --- não posso nem devo esquecer-me que os portugueses trouxeram escravos do continente africano e que Santiago foi um enterposto de escravos durante quase cinco séculos.   Venho de uma cultura tão misturada, onde o lado africano foi sempre tão posto para trás, pois no tempo colonial os batuques, o kola san jon, as tabancas, eram proibidas porque eram consideradas expressões menores.  Em consciência, talvez eu esteja, inconscientemente, a provocar os meus patrícios, porque é mais do que óbvio que temos genes dos dois lados e não podemos menosprezar nenhum dos dois. 

Não te parece também que muitos artistas que trabalham fora de Cabo Verde acabam por entender que é vincando o seu lado africano que conseguem se afirmar melhor neste terreno chamado mercado, marcando pela diferença a sua presença nesse mesmo mercado? 

Devo dizer-te que quando cantei pela libertação de Nelson Mandela, no final dos anos oitenta, em Roma , usava roupas africanas. Na capa do meu primeiro EP, a foto também me mostrava com uma indumentária desse tipo. Quando Mandela veio a Portugal depois da sua libertação, --- fui convidada a cantar na Aula Magna e levei um belo fato ocidental. Houve uma amiga --- cantora que me disse isto: olha, adorei a tua actuação, mas faltou-me ver-te  com aquela roupa que costumavas usar.

Que hoje é tua imagem de marca.

Pois é, hoje eu não a dispenso. Faz parte da minha identidade enquanto artista. É o meu selo

Depois de 40 anos fora de Cabo Verde, sentes que o teu trabalho é valorizado no teu pais?

Seria cínica se respondesse que sim. Acho que não tem sido. Vou ser muito directa: ninguém faz obra a pensar em prémios, mas quando comecei com esta “mania” de contar estórias e gravei o meu primeiro trabalho sobre contos tradicionais, logo de seguida recebi um prémio internacional na Itália. E mais se seguiram. A verdade é que teve pouca ou nenhuma repercussão em Cabo Verde. Passaram-se muitos anos sem que o pais desse nenhuma importância ao que eu andava a fazer. E considero que é um trabalho válido e importante: de preservação da memória, um trabalho para a educação, para as referências identitárias. Em 2004, o Presidente Jorge Sampaio deu-me uma medalha de mérito e uma comenda. Cabo Verde fê-lo muito mais tarde. O meu país não me tem dado a atenção que eu gostaria de ter tido. Tive uma bela experiencia em S. Vicente com um périplo pelas escolas convidada pela Isaura Gomes, e sinceramente adorava fazer isso em Santiago, no Maio, na Boavista, no Fogo, por todo o meu Cabo Verde. O país tem tido esta fragilidade: só há bilhetes de avião para alguns artistas. E são pouquinhos. Não me perguntes porquê que eu não tenho resposta para isso. 


Nota: resolvi publicar esta entrevista, realizada por mim há um par de anos, porque a minha grande amiga Celina Pereira foi, no passado fim de semana, distinguida com o Prémio Carreira, pela CVMW. Fiquei muito feliz e considero o prémio de uma justiça absoluta. Abraço crioulo, como ela costuma dizer!


Entrevista publicada no jornal A Nação
Fotografia de Joaquim Saial




Face à Primeira Edição do "Mudjer Forsa di Mundu, Mulher Força do Mundo", realizado no Átrio do Praia Shopping, o ano passado, este ano, a Artemedia Produções e a Associação de Mulheres Empresárias de Santiago resolveram ir mais longe... 

Inspirando-se na campanha levada a cabo pelo Banco Mundial do Brasil, em 2013, ma também tendo em conta a campanha desenvolvida pelo ICIEG e o Laço Branco, em 2009,  este ano para as Comemorações do Mês da Mulher, foi criada a campanha “HOMEM QUE É HOMEM NÃO BATE EM MULHER”, que pretende alertar e chamar atenção para a Violência Baseada no Gênero. 

A violência que atinge milhares de mulheres em todo o mundo, decorrente da desigualdade nas relações de poder entre homens e mulheres, continua a ter uma presença forte nas sociedades muitas vezes silenciosa mas tambem muitos vezes mortifera.E em Cabo Verde esta é uma dura realidade. Por exemplo, segundo os ultimos dados há uma incidência da violência contra mulheres jovens, com idades compreendidas entre 20-39 anos.

E Neste sentido, há que se continuar a agir!

Doze personalidades masculinas, conhecidas do público cabo-verdiano, (Primeiro-Ministro de Cabo Verde, Presidente da Assembleia Nacional, Presidente da Câmara Municipal da Praia, Líder Parlamentar do MPD, o músico Batchart, o apresentador Éder Xavier, o escritor David Hopffer Almada, o encenador João Branco, os atletas Tigana e Bruno Moniz,  o Presidente do Conselho de Administração da RTC e o Presidente do Laço Branco) dão a cara por esta campanha, através da sua participação nos dois spots de TV e Rádio TV (que serão emitidos em duas versões: Português e Crioulo), mas também nos cartazes e outdoor cuja mensagem é só uma “Homem que é Homem Não Bate em Mulher”. 

Esta campanha pretende chegar a todas as ilhas... não só através da televisão, da rádio e da imprensa... mas de uma forma contínua, aproveitando a importância das redes sociais e do poder da Internet. Desta forma criou-se um Blog, em parceria com o Sapo CV, que funcionará durante o ano de 2014. Através deste meio, e em parceria com o ICIEG, irá se colocar fotos de vários homens, das diversas ilhas, com a mensagem que dá mote à campanha. Mas também, durante este ano, o Blog “Homem que é Homem Não Bate em Mulher” irá disponibilizar testemunhos de mulheres que já sofreram de Violência, mas que conseguiram superar, irá se lançar reportagens e videos relacionados com esta temática. O intuito é que este blog funcione não somente durante o Mês de Março, mas que durante 2014 possamos dar a conhecer as actividades, das Instituições ligadas às questões de gênero, informar e alertar para esta grande problemática, que em diversas ilhas ainda é muito silenciosa mas por vezes mortífera. 

É de realçar, que o Primeiro-Ministro, Dr. José Maria Neves, é o padrinho desta campanha e a Sra. Ministra da Saúde, a Sra. Ministra da Juventude, a Sra. Embaixadora dos E.U.A e a Coordenadora das Nações Unidas são as madrinhas. 

A culminar as comemorações do Mês da Mulher, no dia 27 de Março, Dia Nacional da Mulher Cabo-Verdiana, realiza-se o espectáculo “II Edição Mulher Força do Mundo – Mudjer Forsa di Mundu”, no Atrio do Praia Shopping, contando com a actuação de vários artistas e com a nossa diva Lura, que também é um dos rostos desta campanha.

O blogue Café Margoso orgulha-se de se associar a esta campanha.







Orgulho de fazer parte desta campanha.






Confesso, torna-se até um pouco insuportável: a cada produção cénica, a cada nova aventura, não consigo fazer tarefas outras, falar de novos assuntos, meu foco acaba, invariavelmente, nos mil e um pormenores de que nos devemos ocupar quando estamos em processo de criação. Como um pai babado ou mãe galinha, no blogue pessoal, nas redes sociais, só se fala dele (do “filho”), sobre ele, quase que obrigando os amigos a olharem para ele (para o “filho”). Cada peça de teatro nova é, pois, como um filho. E já lá vão cinquenta. 

Quando a temporada acaba, há sempre um pedaço de nós que morre. Fica ali, impregnada nas tábuas. Nos figurinos, nos pedaços de cenografia, nas fotografias que se tiraram, nas notícias de jornal que foram publicadas e, sobretudo, nas nossas memórias. De quem viu. De quem transmitiu. Se vestiu. No caso dos atores, nos corpos. Que estes também tem memória, como se sabe. E fica um vazio, vamos falar do quê agora? Para quem? Com quem?

Até que aparece um novo projeto. E voltamos ao nosso ciclo vicioso de um viciado de teatro, algo que já confessei ser, nestas crónicas mensais. E, portanto, eu vou dizer algo que já disse, provavelmente das 49 vezes em que produções cênicas viram a luz e nasceram na (e para) a cena. Esta sim, é especial. Nunca houve como esta! Acreditem, tanta coisa nova, desafios tremendos, generosidades encontradas, talento múltiplo, energias cruzadas, e desta vez – aqui sim, posso gritar alto e bom som, - inédito! Oito mãos na escrita, na construção de uma dramaturgia (nova?) multicultural e multinacional. 

Falo-vos do espetáculo que iremos estrear aqui na cidade do Mindelo, no próximo dia 20 de Março. Falo-vos de “Quotidiano, esta não é uma história de amor”, um texto escrito a oito mãos (nestes tempos modernos, as mãos são sempre em dobro, já que se digitaliza e não mais se “manuscreve”), em quatro países e três continentes. 

Sinceramente, não sei onde ou quando me nasceu a ideia. Desafiei o escritor Rui Zink, de Portugal, a iniciar o processo. Depois, o dramaturgo José Mena Abrantes, de Angola, a dar seguimento. De Cabo Verde, convidei Abraão Vicente, para avançar com a terceira parte e, finalmente, desafiei o Ivam Cabral, cujo espírito de generosidade falou mais alto do que a falta de tempo provocada pelos bilhões de projetos em que sempre se encontra envolvido. Que privilégio, ter um texto escrito por estas quatro pessoas tão talentosas! E agora, publica-se? Não, não foi esse o combinado. Vamos lá, senhor diretor, meta as suas mãos na massa e avance para a etapa seguinte.

A história nasceu sem nome e foi-se revelando assim, órfã de um batismo. Até que chegamos a uma palavra nova, criada para o efeito. Quotidiamo.  O título do espetáculo, que é um jogo entre as palavras quotidiano e amor, dá um vislumbre do retrato desenhado pelos quatro autores do texto: a relação de um casal que é vítima dos problemas do dia-a-dia, desde a crise financeira à própria rotina de uma vida a dois. Não podia ser mais universal.

Para dar corpo, voz e alma às palavras seria indispensável uma dupla de atores mais do que competente. Duas pessoas que não tivessem medo de arriscar, de se jogar, e com uma capacidade técnica acima da média. Quis o destino que este pequeno elenco também fosse multinacional. Janaina Alves, brasileira, a viver no Mindelo há cerca de três anos e Renato Lopes, um dos atores cabo-verdianos mais talentosos da nova geração, aceitaram o repto e com dedicação, talento e suor, dão o corpo ao manifesto cénico que nos chegou em mãos.

De Portugal, vieram mais duas colaborações artísticas: o músico e compositor Rui Rebelo compôs uma belíssima banda sonora – algo raríssimo em Cabo Verde, apesar de sermos conhecidos como um país musical – e Paulo Cunha, desenha a arquitetura luminosa do espaço e das cenas, sendo ainda responsável pela projeção do vídeo que, em tempo real, está sendo filmado pelas personagens e emitido no fundo, acrescentando ao caráter já de si trimendisional (TD) da arte cénica, uma possibilidade de visão em alta definição (HD), das expressões e do respirar das personagens nalgumas passagens da história. 

Para compor o bolo criativo, estou eu, que neste momento não tenho mais assunto a não ser este. Um encenador / diretor cabo-verdiano, filho de pais portugueses, nascido na França, pai de duas filhas crioulas e casado com uma brasileira do Piauí. É como se esta produção tentasse ser, de alguma forma, uma síntese de mim mesmo enquanto agente teatral, um culminar de um amadurecimento artístico, de influências díspares e cruzamentos de três continentes, com epicentro numa bissetriz chamada cidade do Mindelo. 

Numa altura em que por razões académicas me encontro mergulhado numa profunda reflexão sobre identidade cênica, mormente do teatro que se faz em Cabo Verde, corolário de um percurso de mais de vinte anos de trabalho e meia centena de produções encenadas, Quotidiamo não deixa de ser uma obra paradoxal. Mas continuo convencido de que somos do lugar de onde somos felizes. Que o nosso umbigo, enterrado algures, e o nosso DNA, herança dos nossos antepassados, se manifestam de uma ou outra forma conforme o contexto social, cultural, geográfico, antropológico do lugar onde nos encontramos. O que sempre chamei de “a energia do lugar”, é isso que nos vai moldando.

É por isso que não tenho qualquer dúvida em afirmar que Quotidiamo é uma obra de teatro cabo-verdiano, puro e duro, apesar da diversidade na origem das diversas colaborações artísticas que lhe deram corpo. Porque nasce aqui. Neste chão. Imana com esta poeira oriunda do deserto do Saara. Com a maresia deste mar azul que nos rodeia por todos os lados. Com a musicalidade deste povo que ecoa a cada esquina. Porque a universalidade do tema nos toca também, embora seja quase sempre difícil admiti-lo, assim, fora do recato onde se escondem a sujeira e as frustrações do nosso dia-a-dia. Quotidamo veio do mundo mas nasce em nós.

E para o mundo há-de voltar.  (Quem sabe, um dia destes, em S. Paulo)











Efeito produzido pelo fotógrafo francês Ludovic Florent, que retratou bailarinos dançando, na série Poussière d’étoiles (“Pó de Estrela”), com um detalhe aumentando a carga dramática da coreografia: a areia envolta em corpos.

Belíssimo!




Parem de chamar palhaços aos senhores deputados, uma falta de respeito inaceitável, não se admite uma coisa dessas! Eu, se fosse palhaço, processava-vos a todos.

Na foto, o meu grande e querido amigo palhaço Enano