Crónica Desaforada

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Com a Mão na Queixada

1. Um turista australiano - que é mais do que isso, visto ser um jornalista e escritor conhecido lá na terra dele e escrever num jornal importante - passou umas horas em S. Vicente, por intermédio do conhecido turismo de cruzeiro e não gostou do que viu. Vai daí escreve um artigo desaforado, em inglês, que o sempre atento Dai Varela descobriu sabe-se lá como e publicou no seu blogue pessoal.

2. Essa publicação provocou alguns terramotos nas redes sociais, além do aumento exponencial de visitas ao blog em referência. Outra coisa não seria de esperar. Os mindelenses não gostam de ser atacados, mais ainda por gente de fora que vem, passa umas horas, vira umas esquinas, mete a viola no saco e regressa com a mesma rapidez com que chegou. 

3. Aliás, não são apenas os mindelenses. De uma forma geral, reagimos muito mal às críticas que vem de fora, reagimos de forma epidérmica, apaixonada e por vezes até violenta. Lembram-se do caso da cozinheira brasileira? O burbur foi tanto que teve que pedir desculpas públicas via representantes diplomáticos e hoje, não deve querer saber de Cabo Verde nem pintado de ouro.

4. Claro que a forma como se critica algo, por vezes, tira a razão de quem o faz. Mas sempre defendi que devemos ter a inteligência de entender o porquê daquele olhar mesmo que, à primeira vista, ele nos pareça exagerado ou até insultuoso. O problema é que nos deixamos cegar pelo orgulho e em vez de aprender com o olhar do outro continuamos de olho fixo no próprio umbigo. E sem sair do lugar.

5. Eu quero lá saber que o senhor australiano tenha trocado o nome da capital de Cabo Verde ou dito algumas incongruências geográficas ou históricas. Acham mesmo que isso é o mais importante? Esmiuçando o que ali está, a verdade é que quase todos nós - mindelenses ou não - já passamos por experiências semelhantes. E temos que aturar situações inacreditáveis. Imaginem como é para quem vem de fora!

6. Esperar uma hora por uma omelete, ser servido com cara mau como se nos estivessem a fazer um favor e não a prestar um serviço, ir às praias e encontrar um monte de lixo acumulado, ter as estradas esburacadas, ser assaltado pela falta de segurança ou assediado pelos múltiplos pedintes nas ruas de todas as idades nas portas dos supermercados, são acontecimentos tão comuns que se tornaram normais.

7. A verdade é que não me lembro de ver tanto turista nas ruas do Mindelo como nos últimos tempos. Quase todas as semanas temos um navio enorme atracado no Porto Grande do Mindelo. Não caberá agora à ilha, aos operadores, às autoridades, aos empresários, aos artesãos, aos profissionais liberais, aos criativos fazer a sua parte? Onde estão os encontros de trabalho concertados entre autoridades, operados e empresários? Onde está a prestação de serviços com qualidade, que não a encontro?

8. Vamos continuar com a mão na queixada a dizer que Soncent está parado? Tanta coisa por fazer e potenciar! Como se explica que nos infindáveis metros quadrados da nova Lajinha haja apenas duas balizas de futebol e não se tenha ainda colocado os múltiplos equipamentos que fazem duma praia algo mais aprazível e atraente? 

9. Como se explica a anedótica "exposição" (assim mesmo, com muitas aspas) da capitania - réplica da Torre de Belém - que se limita a uns painéis pendurados em algumas salas? Como se explica a falta de materiais de promoção da cidade, da ilha em outras línguas? Como se explica o aparente abandono dos principais pontos de atracção turística? Como se explica que não haja grupos organizados de folclore cabo-verdiano que possam ser contratados e tirar partido desta movimentação?

10. Concordo com a Rosário da Luz que faz a distinção entre "turista" e "viajante". Não interessa aqui se gostamos ou não dessa gente. Interessa a forma como poderemos beneficiar da sua presença em prol do desenvolvimento da nossa cidade. Os serviços tem que melhorar, a produtividade tem que crescer, a criatividade tem que se multiplicar, senão corremos o risco de daqui a alguns anos estar a chorar mais uma morte prematura do magnífico Porto Grande do Mindelo. E com a mão na queixada, claro. 

Mindelo, 18 de Março de 2014 



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3 comentários:

Anónimo disse...

Concordo com tudo o que escreveu. É interessante observar as repercussões que teve esta notícia.
O asemanaonline deve ter batido o recorde de comentários com o Sr. Tony Park. Mas como sempre o mesmo também não falha em desiludir. Hoje publica um comentário anónimo publicado num blog obscuro e cunha-lhe de "imprensa internacional".
Acho o Sr.JB que focou pontos mais importantes e que poderia ser o inicio de um debate sobre o que fazer para melhorar o turismo e qualidade do serviço que se presta em Cabo verde. Na minha opinião a Morabeza morreu...o que apelidam muita vez "no stress" é uma falta de profissionalismo travestida. Vivemos em Cabo Verde acomodados, letárgicos...passamos de PMA mas só no papel, falta muito para evoluir nas pessoas principalmente a sua relação com o trabalho. Fala-se muito do tecido empresarial e do empreendedorismo contudo em 2013 passaram milhares de turistas e navios de cruzeiros em S.Vicente, quantas empresas aproveitaram esta oportunidade de negócio? Quanto tento personificar Cabo Verde imagino uma homem de sorriso largo, de terno e gravata a tentar esconder as unhas sujas e sapatos rotos... e lá está, se me permite, com a mão na queixada.

Anónimo disse...

Eu acho que temos que passar a ser menos convencidos e mais motivados. É preciso "acordar deste coma" e olhar para fora. Estamos tão habituados à falta de profissionalismo e de organização e moleza, que em CV carinhosamente apelidamos de "descontra" que nem nos damos conta disso. Mesmo os que vão para fora por algum tempo e regressam notam que algo não vai bem. Solução há. Em vez de sentirmos as críticas do Tony Park como uma agressão devíamos olhar para ela como um abanão para nos tirar desse sono letárgico.

Matrixx

MARCOS SOARES disse...

Por tudo aquilo que já se disse sobre a opinião de um tal Tony Park em relação a São Vicente, e publicado num Jornal, apesar de tudo ao que parece prestou um bom serviço a Ilha, quanto mais não seja pôs muita gente meditar sobre a nossa realidade que muitas vezes preferimos ignorar, em vez de encarar de frente esses problemas. Nada mau aparecer de vez em quanto esses "Linguarudos" que também tem um outro da moeda