Ser ou não ser Mandinga

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O debate foi lançado no Facebook pelo César Schofield Cardoso, o actor Flávio Hamilton deu o seu ponto de vista, e nalguns comentários públicos ou privados que fui recebendo, alguns se sentiram ofendidos pelo primeiro, outros defenderam ser importante o lançamento de um debate sobre o tema e a mim parece-me que o importante mesmo é conversar e conhecer. Até porque como todos estamos cansados de saber, falar sem conhecer do que se fala, é meio caminho andado para se fazer papel de idiota.

Facto: os Mandingas, goste-se ou não do estilo, aprecie-se ou não a designação, são hoje um fenómeno popular, com raízes profundas e que não surgiu nos últimos anos com fôlego redobrado, vindo do nada. Há testemunhos, que publicamos aqui, de vivências com Mandingas ocorridos há mais de cinquenta anos. A mim, parece-me, já se justificaria um estudo mais aprofundado. Com tantos mestres e doutores em Ciências Sociais que por aí há, espanta-me que ainda nenhum deles se tenha predisposto a sujar-se de óleo e tentar entender - e depois partilhar - o que há de tão especial neste fenómeno de massa, com contornos verdadeiramente populares. 

Aqui ficam as diferentes opiniões, ilustradas pelas extraordinárias fotografias de Tchitche

O que escreveu César Schofield Cardoso

" Esses "Mandingas do Mindelo", recordo-me bem desde criança, sempre simbolizaram a sociedade maldita, a que vem lá das "fraldas", sujos, perigosos e feios. Eram assim vistos, nas nossas cabecinhas. Ressurgiriam agora, num misto de moda e reclamação do direito à tradição, com um certo apoio, não sei se alargado ou não, da sociedade que os acolhe. Claramente continuam a representar um certo protesto, como atesta as palavras de um deles, em entrevista, dizendo: "vocês já tiveram a vossa diversão, agora queremos ter a nossa". Esse "nós e vocês" não deixa de ser sintomático dentro de uma mesma sociedade. Mas esse "nós e eles" também é bastante sintomático na forma como se representam. Pintam-se de negro e qual é o significado de um africano se pintar de negro? Ou serão não-africanos a representarem africanos? Enfeitam-se de vestes, acessórios e objetos, da mesma forma que um cinema e um teatro antigamente ridicularizavam os negros e os povos "primitivos". Têm uma dança própria, carburada de álcool, sexo-exibicionista e poses guerreiras. Qual o significado disto tudo?

Para além de todas as considerações, em relação aos produtos altamente tóxicos com que se revestem, do alcoolismo e do excesso de linguagem, uma consideração mais básica não devia ser feita em relação ao próprio nome que carregam? Já perguntaram aos guineenses, senegaleses e malianos, que porventura sejam Mandingas, o que pensam desse carnaval? Ah bom, mas é a tradição. Pois, tradição também é mutilar o sexo de jovens moças."




O que escreveu Flávio Hamilton:

"Gostava sobretudo de saber como começou a tradição e quais os fundamentos que estiveram na sua génese. Mas a verdade é que ela sempre existiu; não sei se degenerou em fenómeno de moda pura e simplesmente, mas o facto é que me recordo bem desde os meus tempos de criança dos Mandingas invadindo a cidade e inclusivamente as casas das pessoas por esta altura do ano. 

O Carnaval é a festa da caricatura por excelência; talvez os verdadeiros Mandingas não se revêem nessa caricatura, mas o propósito é mesmo esse: brincar com coisas sérias, tendo como fim último a catarse. É costume aceite por todos em muitos países, por altura do Carnaval, sobretudo em pequenas aldeias, expôr em praça pública os podres dos seus habitantes ao longo do ano, precisamente para que dessa forma haja uma espécie de purificação de emoções e sentimentos recalcados. Tradicionalmente, o Carnaval é folia, é libertação pelo excesso. Outra coisa é o crime em nome da tradição. Por isso mesmo nem toda a tradição pode ser aceitável."

O que escreveu João Paulo Brito, actual Director Nacional das Artes:

Sem entrar noutro tipo de considerações, gostaria de acrescentar alguns pontos ao vosso debate.

1. Sobre o assunto, surgimento o nome, proponho a leitura de "O Carnaval do Mindelo” de Moacyr Rodrigues. Do meu escasso conhecimento, a única obra/ estudo sobre a matéria – porque creio que há aqui, alguns equívocos de interpretação;
2. A relação com a etnia Mandiga, neste contexto, não é tão importante. Há na história inúmeros casos em que manifestações diametralmente opostas têm o mesmo nome ou com uma origem etimológica semelhante, porque, se calhar, o que inspirou a designação está lá. Nós é que, com a distância do tempo, não conseguimos ver a relação;
3.  Se era uma manifestação feia e suja, que agora virou moda, ainda bem. Também temos imensos casos em que manifestações que mereceram o desprezo são agora enaltecidos – a Tabanka, por ex;
4. Toda a tradição começou um dia! Se repararmos os grandes movimentos artísticos (alguns com obras agora consideradas clássicas) surgiram sempre em reacção a um “Status” anterior e não raras vezes foram considerados “atentado à “boa arte”;
5. O excesso sempre foi a principal característica do Carnaval. Está na sua génese e é, por natureza e definição, um momento de catarse;
6. A grande diferença, César, em relação a mutilação genital feminina é que neste caso falamos (como dizias no outro dia) de violação de Direitos Humanos, uma conquista da Humanidade. E os mandingas, para além de se gostar ou não, não fazem mal a ninguém, além deles próprios com os produtos tóxicos – e neste ponto, estamos de acordo. 




Alguns testemunhos publicados no Blogue Praia de Bote:

Adriano Lima:

"A primeira vez que vi actuar os mandingas tinha eu 5 aninhos, e foi mesmo na minha rua, frente à porta da casa. Fiquei intrigado e algo intimidado porque a cena não se enquadrava naquilo a que até à data me habituara ver. Tanto mais que o mandinga, que dançava e saracoteava ao som da música de um cavaquinho, de vez em quando soltava um grito feroz (arrreaaaa!), munido de um varapau. Mas a minha mãezinha explicou-me que era brincadeira de Carnaval e a partir dali fiquei um admirador dos mandingas carnavalescos.

Depois dos 7 anos fui morar em Fonte Cónego, e lembro-me que o artista principal dessa representação era um homem que tinha a profissão de ferreiro ou de funileiro, salvo erro, que morava pelos lados da Ribeira Bote, aparecendo sempre a bater a zona onde eu morava. Era um festival de espontaneidade e animação concentradas numa única pessoa, que sozinha fazia festa que me chegava para todo o Carnaval. Pelo menos no que se circunscrevia à zona onde eu morava. Mais tarde, a partir dos 15 anos, passei a rondar outros carnavais, principalmente os bailes populares no Eden Park. Bons tempos."

NIta Ferreira:

"Lembro-me bem dos mandingas nos carnavais da minha infância. Eu tinha um medo deles que nem fazem ideia. O tal homem todo tisnado, com chifres na cabeça e o varapau de que o Adriano se lembra; o grito medonho ficou gravado na minha memória como um ardaaaaa, ardaaaaa, Tudo isso faz parte do viver mindelense dos meus tempos de criança, de diaza na munde. Passei o Carnaval de 2013 em Cabo Verde, achei lindérrimo e os mandingas lá estavam, dando sua pitada de sal na festa que mais entusiasma o povo mindelense e não só."

Valdemar Pereira:

"Ai os Mandingas!!! Os primeiros eram os de Dmingue Sapater e eram conhecidos pelos "Djangolê," palavra que sempre empregavam para correr com os meninos que se aproximavam ou para brincar com uma pessoa mais séria que os apreciava mas que não se atrevia a entrar e a quem enviam um convite com o "arredààà... arredààà"

Os mais conhecidos no grupo eram, além de Nhô Dmingue, um seu colaborador aleijado e um catraeiro com um varapau que fazia o caminho. O Mestre começava e acabava o desfile fazendo uma graaande gemada... num penico. Bons tempos, esses de Quarenta!"


O testemunho de Tchitche, que é também o autor das fotografias:

“Lembro-me do Djunga, quando era criança. Era um homem que tinha o espírito mandinga no sangue, impunha medo e respeito, principalmente às crianças. O filho seguiu essa tradição e criou um grupo fantástico que tinha danças e movimentos lindos, fascinantes. É preciso algum cuidado para distinguir o que é originário da moda ou da tradição porque hoje até os meninos de jardim querem sair como Mandingas!” 


E tu, o que pensas ou que recordações tens dos Mandingas do Mindelo? Ariá!




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4 comentários:

Gilson Morales disse...

São vicente, sempre foi dado a ter pessoas que creem ser de elite e mais que os demais, portanto aptas a julgar a cultura o raciocionio ou o livre arbitrio dos da "fralda". Esse pseudo elitismo de morada reflete-se principalmente nas manifestações culturais como esta "mandinga" por representar a fralda a africa no imaginar das gentes humildes do mindelo incomoda esses moralistas pseudo elitistas de morada esses que tendo nascido e crescido na morada e por haver passado por alguma universidade europeia regados de canabis e outras drogas se sentem europeus incomodados pela exuberancia e pela folia dos MANDINGAS. Arria Cesar dja bu é branco dja.

JB disse...

Não entendi a última parte do comentário, por ignorância minha. Podes me explicar, Gilson? Obrigado pela participação e pela visita! Saudações

decadadenoventa disse...

Eu vi a reportagem na TCV, quando o jovem que estava no desfile disse a reporter que agora era a vez deles, de festejarem (ou seja, de a nova geracao festejar) ele se referia, mais especificamente, ao "direito" de usar o alcool! O Cesar nao fez uma leitura correta.Esse Mindelo de morada e das fraldas esta em vias de extincao! Agora existe outro Mindelo mais inclusiva, de longe mais do que no tempo do Cesar! Quanto aos mandignas sempre os vi em menor numero, claro esta, na minha infancia em S.Vicente.Nos ultimos anos ganhou a dimensao de massa por uma razao muito simples: evoluiram! Alem da danca, acrescentaram musica de sopro e batucada, ou seja, organizaram-se em grupo e o fizeram com tanta qualidade que atrairam o publico em vez de provocarem o medo :"as criancinhas" agora, se o formato atual tem nuances menos positivas e que chocam com a lei (?) cabe as autoridades atuarem em conformidade, nao para reprimir, mas sim para ajudar a melhor organizarem, porque sao sem duvido um cartaz turistico e uma forma de o povo se divertir.

Hilda Teófilo disse...

É engraçado ver contestada a dita “moda mandiga”. Talvez com menos idade, logo menos conhecimento que alguns dos testemunhos deixados, recordo-me desses indivíduos que saiam para o carnaval muitos com banhos de lama e outras cores que a minha tenra idade não me permitiu discernir. Recordo-me também que na altura parecia-me que o intuito era de sujar as pessoas que estavam a ver o carnaval e, principalmente, assustar. Tal era o fascínio quanto o medo que sentia, recordo-me. Normalmente, fugia dos mandingas.

Volvidos alguns anos os mandingas socializaram. Brincam mais do que assustam. Têm um estaleiro, uma cultura e, segundo ouvi, até uma responsabilidade social nos bairros. Falo não apenas como uma observadora da morada mas como quem se deu ao trabalho que peregrinar nas ruas da “fralda” (nunca gostei deste termo mas enfim) Ribeira Bote, descobrir o estaleiro dos mandingas dessa zona e perceber, ou pelo menos tentar, a motivação da manifestação mandinga.
Numa rua onde, possivelmente, poderia ser assaltada ou ameaçada fui acolhida com alegria no Estaleiro dos Mandigas (pois também são organizados nesse aspecto) e só houve lugar a festa, a festa dos mandigas. Música, cor, toxinas, gritos, exultação e muita alegria.
É impossível não se contagiar por esta alegria, aparentemente desorganizada, mas apenas aparente. Foi com alegria que descobri mandigas de “morada” misturados com os de “fralda”. Confesso que voltou o fascínio e fiquei enamorada dos mandigas, ao ponto de, secretamente, sonhar em ser mandinga.

Escrevo este testemunho apenas para convidar as nossos "observadores sociais" a serem Mandinga por um dia e poderem, com autoridade e conhecimento, analisarem o fenómeno.

Mandigenhas :)