Declaração Cafeana

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(Desta vez em forma de carta, enviada hoje mesmo, para um estabelecimento de ensino do Mindelo):

Hoje, depois do período normal das aulas, a minha filha Inês Gonçalves Branco, aluna do 3º ano do período matinal, chega em casa relatando ter apanhado do professor com a tristemente tradicional “palmatória”. Aliás, esta não é a primeira vez que chegam a minha casa relatos deste “método” educacional bárbaro, talvez entendível à luz do início do século passado, mas absolutamente intolerável, em pleno século XXI.

 Será que sou só eu que acha que ter palmatória nas escolas primárias do nosso País é uma coisa bárbara e desnecessária? Até quando vamos admitir esse tipo de crueldade, pois nada, nada mesmo justifica a violência! Que tipo de lição que as crianças vão apreender com esse comportamento?

Como pai e educador, venho por este meio apresentar formalmente o meu veemente protesto por esta situação, e exijo que a direcção desta escola tome providências para que tais actos de violência não voltem a acontecer, seja com que criança for. 

Se a minha filha cometeu algum acto menos próprio ou condenável, a obrigação do professor, em primeira instância, é chamar atenção da criança, como educador que é. Em segunda instância, apelar à direcção da escola, no caso de o episódio apresentar alguma gravidade. E nesse caso, chamar o encarregado de educação que, no seio familiar, tomará as devidas providências.

Espero que esta chamada de atenção tenha algum efeito prático, pois se tais actos de violência continuarem a ser cometidos, não hesitarei em levar o caso às instâncias superiores. Não descansarei por um instante enquanto souber que as nossas crianças são alvo, em nome de um processo educativo caduco e inaceitável, de violência física que a tal palmatória implica, sob o jugo de uma autodenominada “tradição cultural”.

Sem mais, aceite os meus respeitosos cumprimentos, solicitando desde já uma resposta por escrito a esta minha missiva, que poderá ser entregue através da minha filha. 


Mindelo, 17 de Fevereiro de 2014


João Guedes Branco
Cidadão nacional portador do BI nº191725, do arquivo de identificação de S. Vicente


Legenda da imagem: O quadro "Palmatória", de Debret, retrata escravos em um ambiente interno de trabalho, sendo que um deles é disciplinado com o instrumento punitivo palmatória, usado até o início do século XX nas escolas.



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1 comentário:

zito azevedo disse...

Meu amigo, em 1943 eu cheguei a apanhar palmatoadas...Andava na
3ª classe da Escola Camões...Era doloroso, bárbaro e...legal!
Um bejinho afectuoo para a sua menina!
Braça
Zito Azevedo