Café 20 anos

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Entrevista, conduzida pela jornalista Carla Lima para a agência Lusa, a propósito da 20ª edição do Festival Internacional de Teatro do Mindelo - Mindelact, que decorrerá em Setembro de 2014. Boa leitura!

Pergunta: como vê o percurso feito pelo Mindelact ao longo desses anos?

Resposta: vejo este percurso com muito orgulho. Quando começamos estávamos longe de poder imaginar que conseguiríamos manter um festival desta natureza ou que ele viria a crescer, a consolidar-se e a ganhar o prestígio nacional e  internacional que tem hoje. Se bem que a cada edição, nunca pensávamos muito nisso. Íamos trabalhando para que cada edição fosse um pouco melhor que a anterior, sempre procurando trazer alguma inovação. E é com enorme orgulho que verificamos que 20 anos depois temos um evento teatral que é conhecido, admirado e respeitado em praticamente todo o mundo.

P: Qual o caminho percorrido, a diferença entre as primeiras edições e as ultimas?

R: A diferença é abismal. Na primeira edição, o festival durou 3 dias, teve cinco espectáculos, com a participação de 3 grupos teatrais, dois de S. Vicente (Grupo de Teatro do Centro Cultural Português e Grupo Frank Cavaquim, este último já inexistente) e um de Santo Antão (Juventude em Marcha). Em 1996, na segunda edição, e uma vez conseguida a fundação da Associação, o festival teve um crescimento exponencial, foi o mais longo até hoje, com 25 dias de duração e grupos de quase todas as ilhas do arquipélago. Em 1997, o festival internacionalizou-se e nunca mais parámos de crescer. Nas primeiras edições havia apenas os espectáculos de noite, e uma ou outra actividade paralela. Hoje temos, além do Palco Principal, um Festival Off (espaço de experimentação teatral), a Teatrolãndia (programação para crianças), o Teatro Periferia (espectáculos nas diversas periferias da cidade), Teatro Performance (programação de performances em espaços públicos) e uma componente importantíssima de Acções de Formação. São quase 6 festivais num só!

P: Como o Mindelact tem contribuído para o renascimento/desenvolvimento do teatro cabo-verdiano. A formação dos agentes teatrais cabo-verdianos?

R: Tem sido um dos pilares desse crescimento, senão o mais importante, certamente aquele que tem mais visibilidade mediática e projecção internacional. O festival tem permitido não só a formação de agentes nacionais, com as acções de formação, oficinas, workshops, etc, mas ao trazer espectáculos das mais diversas origens, estilos, estéticas e linguagens cénicas, tem permitido e alimentado esse crescimento, porque um artista só pode evoluir se conhecer um pouco o que se faz no mundo na sua área. Além disso, o festival tem contribuído para a formação de um público. Um público generoso, mas exigente. Entusiasta, mas conhecedor. E este público do mindelact tem sido elogiado, muito elogiado, por todos que vem aqui apresentar os seus espectáculos, porque é de facto algo muito especial! 

P: Como o festival  interliga-se aquilo que se faz na África de Língua Portuguesa e na Costa Ocidental Africana?

R: Tentamos sempre que possível trazer espectáculos de África continental e de países irmãos, mormente os de língua portuguesa. Já tivemos aqui grupos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe. Mas também do Senegal, Mali, Marrocos, Guiné-Equatorial ou Costa do Marfim. Gostaríamos de ter tido maior presença africana, mas a circulação da informação nesta área é pouca (quantas companhias de teatro africanas tem sites próprios, por exemplo) e as dificuldades de transporte para fazer chegar cá os grupos é ainda muito grande. Mas sempre fizemos questão de trazer companhias africanas, pois essa é uma componente importante deste festival. Até para dar a essas companhias conhecimento do que se faz em Cabo Verde e do festival. Que é muito conhecido e admirado em vários países da África continental. Mas gostaria ainda de sublinhar que o Festival Mindelact nunca limitou a sua programação por critérios de comunidades linguísticas. Temos acordos com várias cooperações internacionais e a programação é vasta e inclui, obviamente grupos de países lusófonos - pela afinidade histórica, cultural e linguística - mas também grupos francófonos, anglófonos, de língua espanhola, italianos, checos e até chineses. O festival Mindelact é, pois, um evento aberto para o mundo todo e que tem procurado fazer jus da posição geoestratégica de Cabo Verde - numa bissectriz entre 3 continentes, para trazer linguagens teatrais de todos os cantos do mundo!

P: Quais são as novidades desta edição e também perspetivas futuras do festival em si?

R: Para comemorar as 20 edições queremos que a programação tenha um cunho retrospectivo. Assim, já estamos a convidar companhias que marcaram presença nas 19 edições anteriores, a programar espectáculos inesquecíveis que fazem parte da história deste festival, e que muitos anos depois as pessoas ainda falam deles. Há companhias que já se disponibilizaram a remontar essas peças para poderem estar presentes nessa grande comemoração. Em termos concretos, posso dizer que a abertura desta 20ª edição será uma remontagem do 1º espectáculo da 1º edição do Festival Mindelact, a peça "Lágrimas de Lafcádio", encenado pelo italiano Lamberto Carrozzi, com o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português. Do elenco original de 6 actores, 3 farão parte dessa remontagem, com mais barriga, menos cabelo, mas muito mais experiência e uma grande vontade de fazer parte dessa viagem no tempo!




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