«A multiplicação de identidades é infinita: para além das identidades sexuais, étnicas, históricas, religiosas, etc., podem-se imaginar as comunidades que multiplicam as marcas de pertencimento e, portanto, de exclusão. "O isolamento identitário, traz à luz a recusa do outro". Porém, o que será pior: o isolamento identitário comunitarista ou a multiplicação ao infinito e à absurdidade das identidades que decompõem o ser humano? Não é, no fundo, a mesma coisa?»

Patrice Pavis in "O teatro no cruzamento de culturas"





Que o fogo resolva

1. Um excelente trabalho do Notícias do Norte (de onde tirei a fotografia que ilustra a presente crónica) veio nos lembrar, mais uma vez, como está a situação do Éden Park. Mais uma vez. Mas para fortalecer o impacto, publicou imagens, em vídeo e fotografias. Que não surpreendem mas continuam a chocar. Porque não é novidade. Há anos que andamos a falar disto e nem era preciso. 

2. O Éden Park está na principal praça da cidade do Mindelo, porra! Está ali, à vista de todos. Eu, que uma vez chamei ao Éden Park de Cinema Paraíso, já invejo a sorte deste último, onde pelo menos houve a coragem de aprovar uma demolição e deitar aquilo tudo abaixo.

3. Agora, parece que corre riscos de pegar fogo. Um incêndio, mesmo ali no coração do Mindelo talvez funcionasse para acordar a cidade adormecida. No mínimo, correríamos todos para lá, saltando a fogueira a gritar, Soncent é sabe, é sabe pa cagá, op! E no final, entre cinzas e destroços, íamos para casa certos de que no dia seguinte não estaríamos sujeitos a presenciar o hediondo espetáculo que todos os dias somos obrigados a engolir. 

4. Lembro-me, numa das muitas FIC's do Mindelo, (cuja utilidade questiono, aliás), o Primeiro Ministro ter anunciado, alto e bom som que a cidade iria ter um novo, moderno, amplo e equipado auditório. Apesar de ser na anterior legislatura, lembro-me porque estava lá e o jornalista José Leite veio logo atrás de mim a perguntar "alguma reação?". Lembro-me de ter sorrido para ele e ter dito, "prefiro não comentar. " Foi na há alguns anos e o Éden Park já estava na triste situação em que hoje se encontra. Talvez com mais algumas telhas do que as que tem hoje. 

5. Também ainda não ouvi uma palavra dos responsáveis camarários sobre esta situação. Como se não tivessem nada a ver com a história da cidade que juraram servir quando foram eleitos. Como se o Éden Park não fosse um monumento da urbe que gosta tanto de gritar aos sete ventos que é a Capital Cultural de Cabo Verde. Ainda não ouvi nem vi na comunicação social nem lamentos, nem pressões, muito menos propostas ou soluções. Apenas um silêncio, tão absurdo quanto cúmplice. Mas devo ser eu que ando distraído, só pode!

6. O argumento, quando este assunto vem à baila de tal forma que não se pode evitar um comentário de algum responsável político, seja da administração municipal ou governamental, é que o edifício é privado. Não podem fazer nada. Mas e o interesse público, não conta? O facto de o edifício ter importância histórica e estar ali a apodrecer, não interessa? Não acredito que não possa haver uma solução legal para a aquisição daquele imóvel. Simplesmente, não acredito.

7. O teatro e o cinema continuam a ser artes que provocam grandes paixões numa cidade que curiosamente ou não, não tem nenhuma sala de cinema e apenas um auditório razoável para teatro, muito embora equipado apenas com material de som. Os grupos de teatro da cidade são obrigados a pagar pequenas fortunas para utilizar aquele espaço público. Ao cinema, ainda vá que não vá, a sala é cedida gratuitamente ao cine-clube do Mindelo todas as quintas-feiras. 

8. Mas a arte cénica, por incrível que pareça, continua a ser menosprezada e os grupos hoje procuram desesperadamente vender os seus bilhetes dos seus espetáculos não tanto porque tem muita vontade de ter público - o que seria o natural - mas porque tem que juntar o dinheiro suficiente para pagar pela utilização do auditório, mais os técnicos, mais os custos de montagem, mais isto e mais aquilo.

9. O teatro, que tem sido, é preciso dizê-lo, um importante embaixador da cidade e do país, merecia um pouco mais de consideração e respeito. Mas não. Continuamos sem espaços para apresentar espetáculos, sem salas para ensaiar, sem saber muito bem como concretizar as produções, dependentes de um "dá fala" que resulta melhor ou pior conforme a maior ou menor capacidade de convencer quem decide.

10. O Éden Park corre o risco de arder? Que arda! Duma vez por todas. Quem sabe assim o nosso Primeiro Ministro possa finalmente cumprir a promessa que fez nessa distante FIC e aproveitar o choque nacional, a tragédia patrimonial de um desastre tão tremendo quanto previsível, para em vez de mais uma barragem, um campo de futebol relvado ou uma estrada alcatroada, avançar para a construção de uma infra-estrutura cultural para a cidade que sirva realmente quem precisa e que honre a memória do edifício que de forma tão irresponsável todos deixamos ruir.

Mindelo, 26 de Novembro de 2013






Por achar que é de interesse geral, aqui fica a mensagem enviada por Vasco Martins, a qual subscrevo na íntegra e por isso publico aqui no Café Margoso. Na imagem, coloco dois dos maiores embaixadores da Morna, que admiro muito, Celina Pereira e Bana.

O Dia Nacional da Morna: 3 de Dezembro

Vasco Martins, compositor, músico e musicólogo, propõe que seja instaurado o Dia Nacional da Morna, que seria no dia 3 de Dezembro, dia que o genial compositor de mornas B.Léza nasceu no Mindelo em 1905.

B.Léza compôs das mornas mais originais de Cabo-Verde. Cada uma das suas pelo menos cinquenta Mornas, é um diamante lapidado, uma obra – prima de beleza melódica. Foi o primeiro compositor a sistematizar os famosos ‘meio-tons’ (acordes de passagem), como também os acordes modulativos, e os seus textos ‘mornisticos’ são uma inspirada referência poética.

As mornas ‘Talvez’, Eclipse’, ‘Resposta de segredo cu mar’, ‘Isolada’, ‘Miss Perfumado, ‘ Mar azul’, ‘Noite di Mindelo’, ‘Terra Longe’, ‘Lua nha testemunha’, para citar algumas, constituem um tesouro eterno não só nacional mas também internacional, como já foi evidenciado em muitas partes do mundo.

As suas mornas foram cantadas pelos grandes intérpretes vocais e instrumentais. Podemos citar Bana, Cesária Évora, Titina, Marino Silva, Ildo Lobo, Humbertona, Bau e tantos outros.

Na verdade as mornas de B.Léza , sobretudo as citadas atrás, constituem para qualquer intérprete vocal a sua ascendência à mestria, à perfeição do ‘cantar a Morna’.

B.Léza  inspirou gerações de compositores e intérpretes da Morna e continua a inspirar.

A Morna, no seu sistema de forma musical que requer um criador, um compositor, parte primeiro do princípio da criação, para depois se expandir pelos outros sectores importantes: os intérpretes, o público, os produtores, os investigadores, como não podia deixar de ser em todas as situações interdependentes.

É interessante apontar que existe atualmente o Dia Nacional do Choro no Brasil (ou popularmente chamado ‘Chorinho’), mas que estranhamente foi instaurado primeiramente um Dia do Choro em França e no Japão por melómanos do Choro desses países.

Vasco Martins sugere que talvez não devêssemos cometer o equívoco do Brasil. Que sejamos nós, cabo-verdianos, a instaurar o Dia Nacional da Morna e termos a honra de ‘convidar’ o luminoso compositor B.Léza para ser o símbolo do Dia Nacional da Morna, tendo como data o seu aparecimento neste universo, numa das ilhas deste Arquipélago magicamente ‘mornista’.


Agradecemos o vosso interesse.
Os nossos cumprimentos.

‘Alauda razae divulgação’
(‘Alauda razae divulgação’ dedica-se à divulgação e promoção da obra de Vasco Martins em todos os domínios que a sua obra abrange)




A todos os níveis, em todas as diferentes realidades sociais, políticas e económicas, central ou municipal, a diferença entre o discurso e a realidade, entre a teoria e a prática, entre o expectável e o alcançável é tão grande, que mais uma vez se comprova que em Cabo Verde aquilo a que tão facilmente se chama de "sociedade civil" é tão real como o petróleo anunciado de tempos em tempos como uma possibilidade séria para o súbito enriquecimento do arquipélago. A lógica é uma e só uma: fala pela minha cartilha e terás uma recompensa diretamente proporcional ao teu entusiasmo e capacidade de defender a causa. Seja ela qual for, sê convincente e o que é teu, está guardado. E assim continuamos, neste sono profundo, de quando em quando perturbado por anúncios de execuções sumárias em plena via pública, na verdade, coisa pouca se comparada com o oásis que todos os dias nos procuram impingir.






"Passamos de analfabetos funcionais a intelectuais funcionais, contudo, a nível socioeconómico, desenvolvemos muito, uns mais de que outros, tanto mediante os parâmetros do BM e FMI, como de acordo com os parâmetros dos que estão no poleiro. A boa governação, a tal ferramenta da continuidade colonial, usando o termo de Varela, nos diz que somos os maiores em África e arredores, fortalecendo a teoria salazarista de pretos especiais… e o cabo-verdiano continua com a tal vaidade de julgar que sabe muito e que é o maior, tal e qual Cabral deu conta… e na ausência do suicídio de classe apontada acima, uma espécie de homicídio de classe aparece como uma opção bastante viável. Mas pronto, realismos à parte, o que fica é que derrotamos o colonialismo, tornamo-nos independentes e viva nós!"

Redy Wilson Lima - ler o artigo completo, aqui




O Tocador de Boxer's


SP - Opções para esta história: depois da febre dos intelectuais, dos opinion lideres, dos experts, dos artistas, dos investigadores, vem aí o dos activistas e dos cabralistas. nada como a auto-promoção/proclamação, já dizia o leite matinal "se eu não gostar de mim... quem gostará?"

JH - Eu cá estou esperando pacientemente a minha vez... quando é que a febre dos tocadores solitários de cavaquinho vai chegar? Bom, de qualquer forma, quando chegar, que esteja acompanhada de uma cavala frita com malagueta...

SP - Auto proclama-te Jeff Hessney. Começa pelo Facebook: coloca no campo ABOUT "tocador solitário de cavaquinho", depois escreve um artigo sobre a tua história enquanto tocador solitário de cavaquinho. Como foste o primeiro, como és o maior, como poderás ensinar o povo das ilhas a ser 1. tocador 2. solitário 3.de cavaquinho e, mais difícil, os 3 ao mesmo tempo. E se alguém ousar contribuir para a tua prática como se já o fizesse há muito tempo ou simplesmente queira trocar experiências, incorpora uma postura autista e simplesmente ignora o interlocutor atrevido. Afinal, só tu sabes o que é ser tocador solitário de cavaquinho e todos os outros devem-no a ti! Aproveita e dita um feriado, mês, ano, semana alusiva à coisa.... os media irão adorar. Simples Jeff, lamento informar-te que não estás só: mas acredita.

JH - Posso fazer tudo isso de boxer?

SP - Se quiseres... mas há muitos reis a andarem nus por aí, achas que boxer fará a diferença?

JH - O meu boxer, sim!

SP - By the way, vem ao barlavento, dado que queres cavala frita, e aproveita o festival kavala fresk.

JH - Período de defesa já kabá?


Texto inicial e conversa de Samira Pereira com Jeff Hessney, no Facebook




“A Tempestade”, escrita pelo grande dramaturgo William Shakespeare foi provavelmente a sua última obra teatral e a mais singular, na opinião de alguns críticos. Essa extraordinária narração é, ao mesmo tempo, uma história de vingança e de perdão, de dor e de reconciliação, de traição e de lealdade, de amor e de ódio, em suma uma história de contrastes, concebida algures numa pequena ilha provavelmente perto da Itália, no início da segunda década do século dezassete. 

 Transportada no tempo e no espaço físico, e com cenário fincado nas ilhas Cabo-verdianas de Santiago e Santo Antão, o grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo e o grupo de teatro Craq’Otchad, recriaram e montaram “Tempêstad”, para gáudio de uma plateia rendida à magia de uma representação surpreendente e de qualidade monumental, onde não faltaram elementos visuais e sonoros, desde a sobriedade do cenário, o primor nos figurinos, a luminotecnia com efeitos muito bem rebuscados, uma sonoplastia inventiva com música ao vivo (coros, percussão, violoncelo, flauta e saxofone), e sobretudo uma representação e interpretação exímia dos actores, de todos sem excepção. 

Gostaria, contudo, de ressaltar três interpretações que em minha opinião marcaram de forma destacada a peça “Tempêstad”. 

Emanuel Ribeiro (que regressa ao teatro, quase duas décadas depois), com uma pujança de fazer inveja, e empresta ao seu personagem Próspero, rico proprietário da ilha de Santiago e exilado na ilha das montanhas, uma verve admiravelmente poética de versos do texto original de Shakespeare, que nos chegam à catadupa, adaptados com requinte, à nossa língua materna. 

João Branco mais uma vez nos relembra a sua polivalência e competência nas diversas áreas do teatro, pois além de responder pela encenação e direcção artística, composição e direcção musical, e figurinos da peça, interpreta Caliban, ser disforme e bestial, pelo que forçosamente teve de recorrer a uma caracterização bem aprimorada com resultados visual e estético bem condizente com a figura. Não passa despercebido a ninguém, a forma como o João Branco se entrega por inteiro e parodia com gozo o seu personagem, numa capacidade de doação completa. 

Christian Lima interpreta Ariel, o espírito multifacetado do ar, da água e do fogo. Uma soberba actuação que marca não só pela excelente caracterização, mas também e mais uma vez, pelo preciosismo de uma deliciosa linguagem prenhe de poesia que chega como sussurros, vindos do etéreo, e preenchem os espaços e penetram os corpos dos espectadores. 

Depois de Romeu e Julieta, e Rei Lear, “Tempêstad”, é o terceiro parto bem sucedido, dessa tríade Shakespeariana, magistralmente encenada em crioulo Cabo-verdiano, por João Branco, uma obra prima que é mais um contributo para o crescimento e afirmação do teatro que se faz em Cabo Verde, com o selo da crioulização dos grandes clássicos do teatro Mundial.


 Texto sobre a peça "Tempêstad", de João  Faria; fotografia de Diogo Bento






Excelente! Adoro este pessoal da AOJE. Grande abraço para o Diogo e Doca. Fantásticos companheiros e grandes apaixonados pela arte da fotografia. Durante um mês, na cidade do Mindelo vão-se ouvir muitos clic's, clic's. clic's!




Esta tarde, no Jornal das 5 da Rádio Morabeza, a deputada nacional do PAICV, Filomena Martins, proferiu declaração em que justifica a alta taxa de desemprego em São Vicente com o aumento da natalidade, explicando que "o número de nascimentos é superior à capacidade da economia gerar empregos."

Sinceramente, esta é a primeira vez que vejo um facto ligado ao outro assim de uma forma tão umbilical (o termo aqui encaixa como uma luva, diga-se de passagem), e muito embora demografia e economia até sejam ciências se não irmãs, pelo menos primas, não deixei de ficar espantado com tão original teoria.

Duas coisas podiam acontecer desde já: em primeiro lugar, ocupar o imenso espaço vazio e desaproveitado do tão prometido e falado parque industrial de S. Vicente e colocar no muito curto prazo lá a funcionar várias unidades fabris para o fabrico de preservativos - camizinhas, em linga di terra - em que metade da produção fosse para exportação e a outra metade para distribuição gratuita pela população. Matavam-se dois coelhos numa cajadada só, por um lado fomentando o emprego com os milhares de postos de trabalho criados com a indústria de camisinhas, projetando a marca Mad in Cabo Verde, quiçá de Soncent, por todo o mundo (imaginam um eslovaco ou um canadense, cada um dos respectivos países, a meter a mão no bolso para a urgente camisinha e verificarem que aquilo foi fabricado em Cabo Verde? Nem Cesária conseguiu ir tão longe como embaixadora do país!). Por outro lado, como é lógica imediata, a utilização massiva de camisinhas por parte da população, principalmente a mais jovem, permitiria uma diminuição abrupta da natalidade. Uma medida, duas consequências imediatas: mais emprego, menos natalidade. Genial, não?

O segundo acontecimento é ainda mais óbvio: a deputada deve ser tida em conta, pelo menos ao nível das nomeações, para o próximo Prémio Nobel da Economia. É o mínimo! 



Faleceu hoje uma das mais extraordinárias pessoas que conheci.
Sérgio Grilo, até sempre!

(foto Jorge Martins)




Resistir é vencer, era este o lema dos guerrilheiros timorenses que durante décadas lutaram com armas desproporcionais contra o invasor indonésio. Acreditaram sempre e hoje, com todas as suas fragilidades, são uma nação livre e independente. 

 E é este mesmo o meu lema desde sempre. Resistir. Há vinte anos que resisto e que com inúmeros outros companheiros – que vão e vem – construo este caminho que muitos reconhecem relevante para o desenho do histórico teatral cabo-verdiano.

Contra compadrios, perseguições veladas, tratamentos desiguais, invejas e frustrações pessoais, dificuldades estruturantes, falta de incentivos e de respeito, condições de trabalho de extrema dificuldade, orçamentos mínimos, obstáculos vários, maus entendidos, julgamentos precipitados, silêncios e não respostas, falta de compromisso, seriedade e por vezes de caráter de uns quantos que se vão cruzando no meu caminho, o meu dia a dia, tem sido um não parar de produzir, de fazer o que mais gosto com paixão e entrega, de tentar – umas vezes melhor, outras pior – crescer enquanto artista, contribuindo para que a arte cénica crioula seja também ela maior, atrevida, criativa, ousada, competente e destemida. 

Como já disse tantas vezes, é lá que vou morrer. Fazendo. Em acção e movimento permanente. Não tenho vocação para poste, muito menos de eletricidade que, pelos vistos, falha em alturas bastante convenientes. Para mim, obstáculo é incentivo. Cada contratempo é transformado em energia que se renova a cada fôlego. E quanto este me faltar, é lá, nas tábuas do teatro, que vou estar até ao fim. 

O resto é digestão.


Fotografia de Diogo Bento






Segundo Jornal A Semana "O Tribunal do Tarrafal de Santiago condenou Ismael dos Anjos Correia a três anos de prisão efectiva por abuso sexual de uma criança de cinco anos. O homem ainda deve pagar 250 contos de indemnização aos pais da menor." 

 Se o Código Penal crioulo aplica estas penas ridículas para crime tão hediondo, não é com campanhas de sensibilização que combatemos este flagelo nacional. Como dizemos em "Teorema do Silêncio", há que quebrar o silêncio e penalizar, de forma séria e responsável quem abusa sexualmente das nossas crianças. Como está, é uma vergonha!





Caliban, ban, ban! Esta personagem acaba comigo. Chego em casa todas as noites, cheio de dores, quebrado, cansado, esgotado, mas sempre com a sensação do dever cumprido. O meu único desejo é que todos os que possam, gente de teatro e gente que não seja de teatro mas que aprecie um trabalho de qualidade, possa estar nestes três dias para ver esta equipa incrível e generosa em cima do palco. Vinte e duas pessoas no palco, outras tantas que deram o seu contributo "deste outro lado", todos eles merecem, certamente, uma visita. E aí, vamos ao teatro este fim de semana?




Estamos todos enganados

1. Há dias, conversando com um amigo, chegamos à conclusão que o maior problema de Cabo Verde não é a pobreza de espírito, o descaramento, a falta de zelo, o compadrio, a lei do menor esforço, a falta de criatividade, a violência urbana, a incompetência, mas algo que reúne tudo isso numa coisa só. O nosso maior problema é mesmo um problema de mentalidade. E grave.

2. Voltamos ao mesmo. À mesma luta de sempre. Ao mesmo tema, porque não consigo ficar calado. A mais recente declaração aqui no Café Margoso, sobre a forma como está sendo implementada a disciplina de Expressão Dramática nos Liceus, teve até honras de primeira página num semanário da praça. A defesa da representante do Ministério de Educação foi inócua, vazia e encara o problema como quase sempre fazemos por cá: enfia a cabeça na areia, empurra com a barriga e siga o baile porque tudo está bem quando acaba bem. Problemas? Não! Há bagagem! Nós é que estamos todos enganados!

3. Mas a verdade é que não está bem. Não, não há bagagem, nem materiais pedagógicos de apoio, muito menos preparação metodológica para dar esta disciplina dentro das salas de aula. O último sinal foi-mo dado ontem. Como saberão, estamos em vias de apresentar no próximo fim de semana uma curta temporada de "Tempêstad", adaptação crioula da obra maior do génio da dramaturgia universal, William Shakespeare. Que melhor oportunidade do que esta, no Mindelo, para enriquecer uma disciplina que devia falar de teatro?

4. Fiz questão de entrar em contacto com os professores de Expressão Dramática aqui do Mindelo, enfatizando o fato de que a melhor forma de se falar e transmitir conhecimentos sobre esta arte, é vendo, é sentindo, é fazendo parte, é estando ali, na plateia. No teatro, tem que se ver para crer. Para se entender. Mesmo que seja para se concluir que aquilo não nos interessa para nada. Ver teatro para falar sobre teatro, essa sim é uma bagagem fundamental.

5. A resposta foi a esperada, mas mesmo assim, desanimadora. A única professora que se deu ao trabalho de falar com os seus alunos pediu que estes solicitassem autorização dos pais e encarregados de educação. A esmagadora maioria não obteve autorização dos pais para ir ao teatro! Isto é mesmo verdade? É uma comédia ou uma tragédia?

6. Não me espanta nada se alguém me disser que muitos destes jovens, agora não autorizados a usufruir de um bem cultural que pode vir a ser também uma importante ferramenta pedagógica numa disciplina curricular, fossem os mesmo que pululavam nas ruas do Mindelo, bebendo e fumando, na grande paródia do Halloween que as casas nocturnas ofereceram no passado fim de semana, a troco da módica quantia de mil e quinhentos escudos.

7. Depois, queixem-se! O mal começa em casa, nas famílias e continua na escola, até porque houve professores que nem se dignaram em responder à mensagem em que se fazia o convite aos seus alunos, procurando criar condições (leia-se, preços muito mais baratos), para irem ao teatro, ver uma obra de grande qualidade cénica, plástica, artística e toda ela, nossa, crioula, cabo-verdiana. Levar os alunos ao teatro? Eh, caramba, isso dá muito trabalho!

8. Mostrei-me disponível, mais uma vez, para ir às salas de aula, e depois do visionamento da peça, falar da mesma, das nossas opções dramatúrgicas, artísticas e estéticas. Ouvir as questões dos alunos - se as houvesse - e esclarecer todas as dúvidas e curiosidades. Mas assim, perante este silêncio, como fazer? Como avançar? Como crescer?

9. A minha parte está a ser cumprida. Coloco, com o meu trabalho e de uma enorme equipa de gente dedicada e competente, um produto artístico de altíssima qualidade (perdoem-me a imodéstia) ao serviço da comunidade. Incluindo a comunidade estudantil. Se isto não interessa, então mais uma vez estamos a ir pelo caminho errado e promover a disciplina de Expressão Dramática nas escolas é só mais um bluf, que apenas servirá os relatórios que, como tantas vezes acontece, são feitos para nos convencer que a realidade é muito melhor do que aquela que vemos todos os dias.

Mas nós, claro, é que estamos todos enganados!







Segundo a representante do Ministério da Educação, e em resposta ao meu artigo no Café Margoso, "Os professores estão devidamente capacitados" e que o MED "garante aos docentes essa bagagem" (para lecionar Expressão Dramática nas escolas e liceus de Cabo Verde). Fiquei muito mais descansado.


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