"Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz; E atrás dessa mulher; Mil homens, sempre tão gentis"

Chico Buarque de Holanda - músico






A cidade do pecado

1. Se há algo que caracteriza a cidade do Mindelo e a diferencia de todos os outros lugares é a sua capacidade de dar massagens no próprio ego. Há quem confunda isso com a natural e intrínseca basofaria do mindelense que, sendo por vezes contraproducente, é na maioria dos casos alavanca para uma elevada auto-estima que contribui para que projectos ousados, gente criativa, soluções inesperadas, apareçam quando menos se espera. Com a mesma velocidade com que se fala da vida do vizinho na rua de Lisboa, se inventa alguma ideia louca na qual só o cidadão do Mindelo acredita como viável. Esta postura, que pode ser criticada por muitos de forma justa, tem trazido, em abono da verdade, mais obra do que ruína.

2. Depois de mais cinco séculos do inicio do seu povoamento, vive-se hoje na ilha do Porto Grande numa espécie de limbo, de confusa temporada de contrastes, onde empreendedorismo se confunde com oportunismo, onde a tão falada crise vive lado a lado com um clima de festa permanente, onde quase nada parece ser o que é. Temos meia dúzia de pólos universitários e a maior taxa de desemprego entre a população jovem. No entanto, não se sente, cheira ou prevê qualquer tipo de contestação social, seja nas ruas, nas fábricas, nas casas comerciais, nos bares, nas conversas, nos textos que se escrevem nos blogues, nas letras das músicas, na arte que se cria ou nos segredos que se contam pela surdina. Instalou-se uma paz que perdeu um pouco do seu encanto, porque não inclui nela uma efectiva vontade reivindicativa que sempre foi apanágio da nossa história.

3. Esta cidade é um mistério e alimenta-o até ao tutano. Olhamos para ela, somos seduzidos por ela, violentados quase diariamente por ela e sorrimos com a sua aparente pacatez. Neste tempo de bruma seca, nunca se sabe o que está ao virar da esquina. Nunca se adivinham os resultados das eleições, sejam elas presidenciais, legislativas ou autárquicas. Recebemos com a mesma tranquilidade um corte de luz e a noticia da morte violenta e inesperada de alguém conhecido. Vamos prestar a última homenagem a Cesária Évora e quem passa sem saber o que está acontecendo, tem dúvidas sobre se choramos ou cantamos, se sofremos ou festejamos, se calamos ou gritamos. Esta é a cidade do pecado que, ao mesmo tempo que interrompe o trânsito para que passe uma procissão de homenagem ao santo padroeiro, se despe de forma descarada de preconceitos, de pudores, mostrando sem vergonha partes de corpos que é suposto deixarmos escondidas, enchendo as casas de diversão nocturna onde se vê e se faz o que nem dentro da nossa própria casa admitimos como aceitável que seja visto ou feito.

4. Mindelo vive numa encruzilhada. É com um optimismo latente e quase irresponsável que respondemos às agruras da vida. A forma como homenageamos os nossos confirma essa tendência para orgulhosamente darmos a atenção devida ao nosso umbigo esquecendo que o todo é muito maior que a soma das partes. A forma atabalhoada como queremos ser grandes e melhores que todos os outros poderia trazer imensas mais valias se tivéssemos um pouco de vergonha na cara e soubéssemos o que significa a exigência e o profissionalismo de querer efectivamente ser em vez de apenas querer parecer que somos o que queremos mostrar. A distância entre o sonho e a realidade, entre o querer e o poder, entre a ideia do que somos e aquilo de que efectivamente somos capazes de fazer e construir é, nuns dias enorme, mas noutros tão pequena que não sabemos distinguir a ilusão da realidade que nos mostra que é preciso lutar e suar para se ultrapassar metas e avançar pelo caminho que se escolheu trilhar.

5. Vivemos numa cidade surreal, que segundo foi anunciado com pompa, circunstância e até uma pontinha de orgulho, tem mais cachorros a circular nas ruas do que pessoas com nome registado nos serviços centrais. É a cidade onde queremos dar resposta a uma demanda de barcos cruzeiros com milhares de turistas mas que, ao mesmo tempo, tem restaurantes que obriga um cliente a esperar mais de uma hora por uma omeleta de queijo. Só aqui recebemos com panaceia e vigorosos aplausos a noticia de que o centro histórico da nossa cidade passa a ser pela letra da lei Património Nacional e continuamos a passear pela Praça Nova olhando de soslaio para o cadáver apodrecido da mais emblemática e histórica sala de espectáculos do país, como se já não fosse nada connosco. Gostamos, pois, de esconder o nosso lixo para debaixo do tapete mas não admitimos que ninguém nos venha chamar atenção para o mau cheiro que emana de certos locais, sejam eles lugares, ruas ou pessoas.

6. É uma cidade orgulhosa, esta, que gosta de reivindicar para si própria muitas luzes que contribuem para o apregoado rumo certo que o todo arquipelágico vai dando nota. E se algo não correr como esperávamos temos duas receitas mesmo ali à mão de semear: atribuir a culpa aos outros, muito ofendidos pelo facto de nos terem apontado os erros ou fazer a festa de uma nova genialidade mesmo que seja por cima dos escombros do que acabou por ruir. Não sabemos o rumo, mas gritamos aos sete ventos que tem tudo para dar certo. Não procuramos a excelência, mas com essa mesma facilidade apontamos o dedo a quem tenta fazer. Há hoje um misto de ousadia e de irresponsabilidade, de coragem e de hipocrisia, de capacidade criadora de algo novo e de uma manifesta vontade de deixar as coisas tal como estão.

7. “Qual é o teu emprego?”, pergunta-se. “O meu emprego é o dinheiro que a minha irmã manda todos os meses de Itália”. E com posturas como esta continuamos sem perceber se o que realmente importa são os meninos da ilha de Madeira a tocar batucada e a anunciar alguns direitos humanos consignados pelas carta magna das Nações Unidas ou se a forma cínica e autista como os interesses da cidade (não) são defendidos por quem foi eleito pelo voto popular para os defender acima dos seus interesses pessoais. Esta é uma cidade que viva acima das suas possibilidades, que gasta mais do que tem mas que, ao mesmo tempo, consegue fazer coisas espantosas com quase nada. Esta é uma cidade que te abraça numa rua e te esbofeteia numa praça, que te ama numa esquina e te trai num beco, que te motiva num centro cultural e te coloca para baixo numa conversa de café. É uma cidade adormecida ou, pelo menos, pouco ciente ainda das suas capacidades, que são imensas. No dia em que gastarmos a mesma energia que utilizamos a gritar aos sete ventos que somos o centro do universo, a tentar ser bons e melhores naquilo que realmente sabemos fazer, aí sim, poderemos ter noção de todo o potencial que esta maravilhosa cidade do pecado tem para honrar os cinco séculos de histórica que já leva nos ombros.

Mindelo, 26 de Janeiro de 2012




Por razões óbvias não entro na histeria colectiva de festejar os 70 anos de um ex-jogador de futebol, por muito importante que ele tenha sido. Mas não deixo de registar as declarações que o designado Pantera Negra fez, contando um episódio que revela, em primeira mão, como no que ao futebol diz respeito, vivemos num mundo podre, hipócrita, onde o que mais se vê é uma descarada tentativa de lavagem cerebral que tenta, a todo o custo, colocar as coisas tal quais elas eram no tempo da ditadura salazarista.

A 5 de janeiro de 1977, Eusébio defrontou o Benfica pela primeira e única vez na carreira, ao serviço do Beira-Mar. O Pantera Negra recorda esse dia em entrevista à RTP, que passa esta quarta-feira, às 21 horas. E confessa que não fez tudo o que estava ao seu alcance. Muito longe disso. "Já tinha avisado o treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à baliza. 15 minutos antes do jogo fui ao balneário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos".

E assim foi. "Não rematei, não marquei faltas nem grandes penalidades... andava lá no campo só a passar a bola aos outros. E nesse ano o Beira-Mar ganhou ao Sporting e o Benfica foi campeão", recorda. Com orgulho, o Pantera Negra revela como era a tal verdade desportiva no tempo em que a sua equipa papava todos os campeonatos em Portugal. Mais grave ainda é um país inteiro se curvar perante esta figura que defende o valor da batota desportiva com a mesma naturalidade com que bebemos uma cerveja no bar da esquina. A imagem, obviamente, é só mais uma provocação.

Como se costuma dizer, pela boca morre o peixe.

Está tudo dito.

(fonte: aqui)





A notícia hoje vinda a público de que, para a organização Repórteres Sem Fronteiras, os primeiros 10 países do mundo em termos da liberdade de imprensa são (por esta nova ordem): Noruega, Finlândia, Estónia, Holanda, Áustria, Islândia, Luxemburgo, Suíça, Cabo Verde e Canadá, é digna de orgulhar o país. Como habitualmente nestas situações, e talvez como espelho dessa mesma liberdade de imprensa, este dado foi recebido com mais entusiasmo por uns e menos por outros.

Jorge Badiú, no seu blogue (que aprecio particularmente) dá-nos o outro lado desta moeda quando escreve que continua "sem perceber os critérios e as motivações dos repórteres sem fronteiras em teimar na classificação rasteira de uma realidade que mal conhecem. Um País que nem faz jornalismo de investigação por medo de represálias; um país dividido, em constante contra-informação onde se manipulam os dados; um país com falta de massa crítica… E mais: com muita sujeira que ninguém quer pôr as mãos."

Ele tem alguma razão no que diz, mas sou daqueles que pensa que melhoramos bastante nos últimos tempos. A pequenez do arquipélago, onde todos se conhecem, relacionam ou são mesmo familiares próximos, transforma a tarefa do jornalismo de investigação bem complicada, porque muito mais exposta. Certas fontes são facilmente identificáveis e poucos sentem confiança de relevar certos podres com medo de represálias (e não falo apenas de represálias políticas, mas daquelas que implicam perigo de vida).

Por outro lado, também podemos pensar que se não houvesse uma liberdade de imprensa efectiva em Cabo Verde, dificilmente os órgãos de comunicação social, principalmente na imprensa escrita e na Internet, publicariam tantos disparates e se dariam no luxo de, impunemente, fazer tantos ataques pessoais às mais altas figuras do Estado, da situação e da oposição, não poucas vezes caluniosas, maldosas e com interesses políticos claros que em nada tem a ver com jornalismo.


Espectáculo único, do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC, na sua 45ª Produção Teatral. Vamos ao teatro? A peça vale a pena, garanto, pela parte que nos toca. Como não há teatro sem público, contamos com a vossa presença!






"Se a sua vida está mais difícil, parabéns. Você mudou de fase!"

Antónia Alves - camareira de teatro

Fotografia de Leszek Brujnowski




30 anos sem Elis Regina. Nunca mais ouve outra que cantasse como ela.


[Elis Regina canta "Fascinação"]






"Acabei de chegar do ensaio no TUCA, estreiaremos amanhã. Um dos teatros mais lindos que já conheci. 700 lugares esperando alguém(s) que queira trocar o que temos para oferecer. Agradeço todos os dias por ter escolhido essa profissão especial! Que honra poder subir no palco e provocar o público com as inquietações dessa minha alma que a cada escolha multiplica qualquer possível definição a meu respeito. Desço do palco e me pergunto, quem realmente sou senão aquilo que interpreto do mundo? E como está aquém, o que concluo do que sou capaz como ator de traduzir. Mas tudo bem, tenho ainda cem anos pela frente. Apenas o hoje me interessa e é assim que vou estreiar amanhã. Jogando ao mundo tudo que tenho. Quase tudo."

Fábio Assunção, na sua página do Facebook, na véspera da estreia de mais uma peça de teatro





A Overdose

"O estudante de medicina Kleibs César de Olveira deu entrada no Hospital Santa Lucinda aturdido e desorientado pela onipresença de Michel Teló nos meios de comunicação. Com os olhos perdidos no horizonte, Kleibs precisou ser carregado por amigos pois não conseguia interromper a coreografia de “Ai, se eu te pego”. “Ele está dançando e cantando esse troço desde 2011. Não para nem para comer e dormir. O pior é que é contagioso”, declarou Hamilton Pedreira, amigo da vítima, contendo a perna esquerda que teimava em querer iniciar a dança.

Kleibs foi tratado e passa bem. Diante do estado do amigo, Pedreira deu um depoimento emocionado. “Não é fácil para nossa geração resistir à febre Teló. Ontem mesmo liguei a TV e lá estava o apresentador do Globo Esporte dançando e cantando ‘Ai se eu te pego’. Corri para a internet e topei com um vídeo em que chihuahuas belgas latiam no ritmo do refrão. Saí de casa e topei com o cantor estampado na capa de uma revista semanal. A música martelou minha cabeça. Respirei fundo e, com um esforço hercúleo, evitei cantá-la. Não foi fácil”, disse, esbofeteando o braço direito que já se lançava na coreografia."

(Fonte: aqui)


Adenda Cafeana: e o editor desta "notícia" nem sabia que já havia uma versão em crioulo de Soncent a circular nas redes sociais (ai s'un pegob, ai ai s'un pegob!)




17 de Janeiro de 1462 - 17 de Janeiro de 2012

550 anos da descoberta de um dos lugares mais belos do planeta, a ilha de Santo Antão





Uma reclusa condenada por pertencer a uma rede de tráfico de droga, consegue montar um esquema em que sai da cadeia a seu belo prazer, faz compras nas botiques mais chiques da cidade e ainda tem tempo para ir à Universidade prestar provas numa licenciatura, mostrando o quando a moda e a educação nunca deixaram de ser preocupações primeiras, apesar das agruras da vida...

Um político que era candidato à Presidência da Câmara, tendo sido eleito vereador, que renunciou para poder ser candidato à Presidência da República, que renunciou para poder ser candidato à Assembleia Nacional, que renunciou para poder ser candidato à Presidência da Câmara, tendo sido eleito vereador pela segunda vez, que renunciou para ser candidato a deputado, anunciou que será candidato à Presidência da Câmara, sendo provável que seja eleito vereador e que renuncie para se candidatar a novo mandato de deputado na Assembleia Nacional e mantenha o ciclo até que a morte nos separe...

O aeroporto da capital do país é, sem aviso de recepção, re-baptizado, com o nome de um importante estadista sul-africano, sem que este tenha alguma vez pisado o território nacional ou tido alguma ligação directa ou indirecta com o arquipélago, fora ter-se dado o caso de este ter sido dos poucos países que autorizou a utilização do seu espaço aéreo por parte de aviões desse país, numa altura em que o agora homenageado se encontrava preso devido ao repugnante sistema de apartheid então vigente...

Ficamos a saber também que, afinal, somos um país umbilicalmente ligado ao movimento maçónico, não fosse assim seria difícil explicar que os mais famosos símbolos maçons - o triângulo, prumo, esquadro e compasso - estivessem presentes nas armas da república aprovadas no início da década de noventa, cujo autor, pelo que consta, se terá inspirado nas armas dos Estados Unidos da América. Esta não é a única ligação ao país mais poderoso do mundo, não fosse dar-se o caso de a ilha da Boavista festejar o seu dia em pleno 4 de Julho e o seu habitante gostar de dizer: nôs e americano é ke ta mandá...

Definitivamente, Kusturica, haveria de adorar conhecer e filmar em Cabo Verde...





Se eu colocar um avental todo giro com motivos geométricos, fizer algumas rezas em latim, por enquanto que na cozinha preparo, secretamente, um jantar dakel bom, posso vir a ser considerado um maçon? 

À melhor promessa, ofereço um café






O Bill Gaitas

1. Há um texto muito conhecido nas redes sociais que descreve alguns “conselhos” que Bill Gattes terá dado, em forma de palestra, numa escola secundária, tendo centrado a sua intervenção no facto da politica educacional de “vida fácil para as crianças”, ter criado uma geração “sem conceito da realidade” e de como esta politica para a educação tem levado as pessoas a falharem nas suas vidas, após a entrada – ou tentativa de entrada – no mercado de trabalho, no que na boca do povo conhecemos pela “universidade da vida”.

2. A essa propósito, ainda há bem pouco tempo, conversava com uma pessoa amiga sobre como o nosso sistema educacional está, cada vez mais, a deformar em vez de formar os jovens, em vários aspectos, sendo que o domínio da língua portuguesa, escrita ou falada, é o mais aberrante exemplo, dado que é raro encontrarmos estudantes, incluindo os que militam nas universidades, que saibam desenvolver um raciocínio lógico, defender um ponto de vista pessoal, fazer uma análise critica, ou escrever uma frase completa em português que não tenha dois, três ou mais erros ortográficos e gramaticais.

3. Fazendo um pouco de humor com coisas sérias, diria que os conselhos do magnata dos computadores podem até servir para os estudantes que compuseram a sua plateia, mas duvido que tenham alguma serventia por estes lados. Senão vejamos: na primeira “regra” anuncia que “a vida não é fácil, acostume-se com isso”. Ora, cá está algo complicado de se fazer e há quem grite “sabe pa cagá” por causa disso mesmo. Trabalha-se pouco? Nada que uma tolerância de ponto ou um período único durante três meses não resolva, só para descontrair. Acabou o final do ano, onde apesar da crise, houve sempre forma de se desenrascar um vestido garrido, um sapato novo, pagar a festa de cinco contos por casal e ainda sobrar algum para estourar no período de ressaca, e já estamos a pensar no carnaval, nas festas, nas paródias, em quanto vamos gastar na nossa próxima fantasia ou, pensando mais curto, no nosso próximo fim-de-semana. Quem apanha as canas desta prolongada farra colectiva? Isso ainda ninguém foi capaz de responder.

4. Na segunda regra, avisa, sério e compenetrado: “o mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que faça alguma coisa útil por ele antes de sentir-se bem consigo mesmo”. Sorry, Bill, mas por aqui isso não resulta. A basofaria é património nacional e não é um qualquer multimilionário que nos vem tentar convencer do contrário. O mundo pode não estar preocupado, mas nós, oh como estamos! Aquele penteado última moda, aquela roupa fashion para dar um show na Praça Nova, aquele perfume de sete contos o frasco, aquele telemóvel de última geração com tecnologia 3, 4 e 5 G! Não há nada que nos pare, somos nós, a nossa imagem, a nossa sombra, os nossos projectos, o nosso ego, o nosso poder, o nosso umbigo e depois, quem sabe, se ainda houver algum tempo e paciência, a gente dedique alguma da nossa preciosa energia a pensar no que o mundo espera que façamos de útil por ele!

5. Regra terceira, segundo Gaites: “Você não ganhará mil contos por mês assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição, antes de conseguir comprar o seu próprio carro e telefone”. Cuidado, Bill! Basta olhar para muitos jovens de ascensão meteórica que por aqui pululam para verificar a tremenda inexactidão de certos postulados. É que há caminhos que facilmente são encurtados, com um apoio aqui, uma lambidela de bota acolá, um cartão da cor certa no momento exacto e pimba!, lá estão eles sentados nalgum cadeirão de um Conselho de Administração. Com carro, motorista, telefone, gastos para comunicações, cartão de crédito sem limite, viagens e ajudas de custo e por aí fora, que é preciso aproveitar enquanto a maré está boa. Se, por milagre, alguém de bom senso tiver a coragem de identificar a exemplar incompetência técnica para tal cargo, não há nada que uma transferência para um outro serviço público não resolva! Em último caso, uma candidatura a algum município ali mesmo à mão de semear e não se fala mais no assunto.

6. “Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Os seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade.” Olha este agora a querer vir aqui dar lições de moral! Nós não somos feitos e moldados para andar a vendar jornais na rua de Lisboa ou a lavar carros ao lado do Palácio do Povo, era só o que faltava! As férias são isso mesmo, férias! Para curtir, dançar, beber até não poder mais. Não é por acaso que um recente estudo revelava que mais de 50% dos estudantes de um dos Liceus do Mindelo, admitia consumir, regularmente, bebidas alcoólicas. A gente prepara bem a nossa juventude para aquilo que eles mais gostam de fazer, isso parece ser uma verdade à La Palisse!

7. A última regra é uma das mais criativas: “seja simpático com aqueles colegas de escola que vocês tomam por parvos ou retardados. Existe uma grande probabilidade de um dia estarmos a trabalhar para um deles.” Ora cá está um conselho que devia ser levado muito a sério. Afinal de contas, um carreira não se projecta nem se conquista, protege-se!

Mindelo, 12 de Janeiro de 2012



Apenas para que conste, não sou nem nunca serei membro efectivo ou suplente, de nenhuma "maioria sociológica" imposta por qualquer dirigente partidário, cantor de zouk love ou adepto de clube de futebol. O meu voto, que é meu e de mais ninguém, não está nas mãos de um supra-sumo guru da estatística social e política que o define à partida e desconfio sempre de quem canta de galo antes do alvorecer, ou dito de uma outra forma, proclama vitória antes do jogo começar. Fosse assim, teríamos que dizer que a "maioria sociológica dos eleitores cabo-verdianos" se está nas tintas para as eleições e para quem os representa, já que caminhamos a passos largos para uma abstenção próxima dos 50%.

Tenham juízo.




O Amor é...

O amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prémio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a ciência da vida.

O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.

O amor é uma inquietação, uma esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.

O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.

Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.

O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso. Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela. Um dia azul. Um dia de paz.

O amor é um pobre. Um pedinte. O amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome. É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. É a pele de um sorriso.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'





Para o mundo manter o seu equilíbrio global é indispensável que a Lady Gaga se vista no Carnaval como as pessoas normais?

À melhor promessa, ofereço um café






Já fizemos várias referências a este assunto aqui no Café Margoso. Outras vozes tem se feito ouvir a reclamar ou reivindicar maior atenção a uma empreitada como esta. Depois, com o choque provocado pela morte física de Cesária Évora, nada é mais natural que o tema volte à baila: é preciso que se faça um esforço sério, concertado e cientificamente competente para que seja apresentada uma candidatura da morna, nossa canção nacional, a Património da Humanidade.

O último e sentido apelo foi feito pela querida amiga Celina Pereira que, conforme o noticiado aqui, redigiu e enviou um documento às mais altas instâncias de Cabo Verde, para que se “potencialize um dossier político, cultural e cientifico conducente a elevar a Morna a um patamar mais universal que beneficie o mundo nesta busca de paz”. Defende que, numa primeira fase, a morna seja elevada a “património nacional” para que depois possa concorrer a “património imaterial da humanidade”, como uma “valiosa contribuição dada à espiritualidade e à cultura universal da humanidade”.

Umas das componentes mais interessantes do documento preparado por Celina Pereira são as citações de alguns dos mais ilustres representantes da cultura cabo-verdiana, referente à importância da morna para a formação da matriz cultural, social e histórica da nação cabo-verdiana. Assim, cita Eugénio Tavares: “Morna intérprete maravilhosa de alma desse povo ilhéu e sonhador”; Pedro Cardoso: “Ritmo que polariza a alma cabo-verdiana”; José Lopes: “a dor da nossa raça”; Jaime Figueiredo: “Expoente único da nossa sensibilidade”; Jorge Barbosa: “Eco que evoca coisas distantes ou tragédia da nossa raça”; Gabiel Mariano: “Expressão da alma de um povo; e Manuel Ferreira: “É Incontestável que a morna, por vezes, atinge beleza notável. Pela sua delicadeza, pela inesgotável variedade de seus motivos, ela tem probabilidades de poder ser considerada a parte mais rica do nosso folclore”.

Sendo este um país musical, é inquestionável que praticamente todos os seus mais ilustres compositores e intérpretes passaram por este género musical, compondo ou cantando, desde Cesária Évora a Ildo Lobo, Orlando Pantera a B'Leza, Manuel d'Novas a Ano Nobo, Mayra Andrade a Tito Paris, Vasco Martins a Bana, Teté Alhinho a Mário Lúcio Sousa, entre tantos e tantos outros. Este desafio, agora lançado mais uma vez, devia fazer parte de um grande desígnio nacional, para que a morna possa ter o estatuto que merece.



Excelente exposição de fotografia, a não perder!





Recebi este texto por mail em duas versões: uma referente a Portugal, de um amigo de Lisboa, e outra para Cabo Verde, devidamente adaptado. Podemos não concordar com todos os pontos, mas na sua maioria, fazem todo o sentido.


Acorda Cabo Verde

Em três dias, a maioria das pessoas neste país lerá esta mensagem. Esta é uma ideia que realmente deve ser considerada e reflectida por todos os cidadãos.

Alteração da Constituição de Cabo Verde para 2012 para poder atender o seguinte, que é da mais elementar justiça:

1. O Deputado será pago apenas durante o seu mandato e não terá reforma proveniente exclusivamente do seu mandato.

2. O Deputado vai contribuir para a Previdência Social de maneira igual aos restantes cidadãos. Todos os deputados (Passado, Presente e Futuro) passarão para o actual sistema de Previdência Social imediatamente. O Deputado irá participar nos benefícios do regime da Previdência Social exactamente como todos os outros cidadãos. Não haverá privilégios exclusivos.

3. O Deputado deve descontar para a sua reforma, como todos os cabo-verdianos e da mesma maneira.

4. O Deputado deixará de votar o seu próprio aumento salarial.

5. O Deputado vai participar no mesmo sistema de assistência na saúde, no país, como todos os outros cidadãos cabo-verdianos.

6. O Deputado também deve estar sujeito às mesmas leis que o resto dos cabo-verdianos.

7. Servir no Parlamento cabo-verdiano é uma honra e não uma carreira. Os Deputados devem cumprir os seus mandatos (não mais de 2 mandatos), e então irem para casa e procurar outro emprego.

8. O Deputado não deve ser eleito apenas para usufruir mordomias enquanto tal.

9. Os mandatos são para representar e defender os interesses dos eleitores e não apenas, para garantir um tacho e uma boa reforma.

O tempo para esta alteração à Constituição é AGORA. Forcemos os nossos políticos a fazerem uma revisão constitucional. Assim é como se pode CORRIGIR ESTE ABUSO INSUPORTÁVEL DA ASSEMBLEIA NACIONAL. Se concorda com o exposto, ENTÃO VÁ PARA A FRENTE. Se não, PODE DESCARTÁ-LO.


Montagem fotográfica de Dariusz Klimczak




Como Bill Gates se inspira... (hehehe)



Descobri hoje que o Café Margoso deixou de ser "uma referência" na blogosfera crioula. Foda-se, que peso me tiraram agora das costas!





Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia de Leszek Bujnowski










Fantásticas criações do artista belga Ben Heine, da série "Pencil Vs Camera" onde mistura desenho e fotografia, imaginação e realidade. Vejam e apreciem a série completa, aqui







"Quem manda, afinal, são sempre outros. Esses outros assinam com o nome genérico de «o mercado». Nunca as televisões deram tanto espaço ao que dizem os donos dos bancos. A fronteira entre o caráter nacional ou internacional destas instituições bancárias esbateu-se mais do que as categorias de «esquerda» e «direita». E vamos percebendo que algo de divindade devem ter esses grandes banqueiros porque estão acima das crises e porque debatem algo que se afastou do domínio dos comuns mortais: o futuro. Já que mandam mais do que os governos, devia haver eleições para os donos dos bancos. Haja democracia!"

Mia Couto - escritor moçambicano




Perdas Sucessivas

Perdeu a hora e, por consequência, o ónibus.

Pelo atraso, que azar!, perdeu o emprego. Desempregado, quase perdeu a cabeça; quisera se matar, mas, felizmente, perdeu a coragem.

Iniciativa perdida, foi logo encher a cara.

No boteco, reencontrou um amigo com quem há muito perdera o contacto.

O sujeito estava perdido no mundo do crime. Envolvido com uma quadrilha de assaltantes. De maneira que o convidou para o próximo assalto.

O que tinha ele a perder? "Perdido, perdido e meio", pensou.

No banco, houve troca de tiros. Balas perdidas.

Uma dela o encontrou.
Perdeu sangue. Tanto que acabou perdendo os sentidos. Quando o socorro chegou, não perderam tempo com ele. Já havia perdido a vida.


Wilson Gorj (fonte: aqui)



Plataforma Leiv Eiriksson
(a mesma que esteve no Mindelo e foi confundida com uma plataforma extraterrestre)





Confesso que nos últimos dias andava um pouco receoso. Passava pela Laginha pela tardinha, na data X, e via um pequeno barco, lá no fundo, provavelmente um barco de pescadores. Durante a noite, nesse mesmo dia X, o barco parecia um pouco maior, mas possivelmente aquilo deveria ser o efeito das luzes. Confusão minha, certamente.

Pior foi quando no dia X+1, passando por esse mesmo local de noite, esse suposto barco tinha aumentado exponencialmente de tamanho: agora estava ali uma super-mega plataforma daquelas que a gente vê nos filmes de ficção científica. "Oh Diabo!". Eu e a Jana olhamos um para o outro e concluímos que aquela visão, só podia ser o resultado de duas coisas: ou descobriram petróleo em Cabo Verde, ali mesmo a alguns metros da Laginha, ou Soncent estava a ser invadido por extraterrestres. Seguindo a lei das probabilidades, optamos pela segunda hipóteses e rumamos a casa, temendo pelo futuro (nunca se sabe se os seres dos outros planetas que nos vem visitar são pacíficos ou violentos, já que no cinema é ela por ela...).

Toda a nossa imaginação veio por água abaixo, depois de ler o sempre atento Notícias do Norte: afinal, a plataforma extraterrestre, trata-se da plataforma petrolífera “Leiv Eiriksson”, que veio em "visita de cortesia" até São Vicente. Foi a primeira vez que uma estrutura utilizada na perfuração e extracção de petróleo aportou em Cabo Verde. Segundo a mesma notícia, a presença desta plataforma em Mindelo deixou dividendos na economia de vários sectores. Por outro lado a previsão de uma nova viagem a ilha de São Vicente em Agosto deixou expectativas no seio dos sãovicentinos.

Se a plataforma voltar só para fazer turismo ou mostrar a sua grandiosidade, propomos desde já que se organize uma grande paródia ali mesmo no meio do mar. Afinal de contas, podemos ser virgens em termos de petróleo ou extraterrestres, mas no que diz respeito a paródia, somos experts mundiais!


"Ouvi, entendi e respondi favoravelmente a muitas solicitações que recebi para me candidatar à presidência do Senegal. Sou candidato", afirmou Ndour, adiantando que a sua candidatura "é um dever patriótico".

Gostei!




 ouvindo Seven Seconds Away







Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 





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