No texto da peça Os Saltimbancos, o personagem Jumento diz, logo no início com alguma piada, que quando alguém não sabe o que pode fazer da sua vida, a melhor solução mesmo é virar um artista, já que hoje, diz ele, todo o mundo canta! Claro que todos sabemos que não é bem assim e devemos desconfiar, cada vez mais, de artistas que nasçam de geração espontânea, sem trabalho, sem aprofundamento, sem formação, sem questionamento, sem auto-exigência, sem humildade. Mas não é para falar dessas fraudes que aqui estou. Antes pelo contrário, quero dar um exemplo que me parece emblemático sobre o que representa ser um artista e o grau de entrega e generosidade que tal actividade deve representar para quem escolhe seguir por esta via, mesmo que para o fazer tenha que trabalhar noutras actividades, pois como sabemos, em Cabo Verde, a criação artística não permite na maioria dos casos que se encha uma dispensa ou se pague uma renda de casa.

O artista de quem quero falar é o palhaço Enano. A cidade do Mindelo já o conhece bem, pois pelo quinto ano consecutivo visita a urbe do Porto Grande deixando sempre grande animação em todos os cantos da cidade. Este ano, Enano, tinha três espectáculos marcados no âmbito do festival de teatro Mindelact. Pois bem, em nove dias, fez mais de dez representações. Enano esteve na Rua de Lisboa, invadiu o mercado municipal, atacou o mercado de peixe e mergulhou no mar da praia de catchorr. Fez de vagabundo e de polícia de trânsito. Promoveu uma divertida lição de culinária para as crianças, visitou o centro de nutricionismo do Mindelo e actuou num lar de idosos. Esteve no centro de pediatria do hospital, com o nariz verde característicos da associação dos Médicos do Riso, que por todo o mundo animam pacientes e crianças que, por infortúnios da vida, foram parar num hospital. Animou a entrada do Centro Cultural do Mindelo com um mimo que entregava beijos e corações, e um mestre de cerimónias que convidava os espectadores a passar por um tapete vermelho para, dizia ele de forma divertida, se sentirem importantes pelo menos por alguns segundos nas suas vidas. 

Na cerimónia de encerramento, o palhaço Enano foi homenageado. Mas não foi apenas o festival que se levantava para o aplaudir. Foi toda uma comunidade artística, toda uma cidade, todo um país. O discurso de Enano, que foi noticiado pela televisão de Cabo Verde, foi emocionante e deixou muitos assistentes de lágrimas nos olhos. Enano falou-nos do que é preciso: acima de tudo, não esconder as emoções, não ter vergonha de chorar, de ser ridículo, de arriscar, de se dar, de partillhar. Contou-nos como sofreu nos tempos de criança e na sua juventude, pelo facto de ser um gago crónico que mal conseguia dizer uma frase do princípio ao fim. Foi com a sua arte de palhaço de rua, de artista de rua, que ele se venceu a si próprio, ao mesmo tempo que se dava a todos os outros. 

Por mim, digo-vos sem problemas, por enquanto que ele quiser as portas do mindelact estarão sempre abertas para um artista fantástico e um ser-humano único como ele, porque ele representa, melhor do que qualquer outro que já encontrei ao longo do meu percurso de programador e encenador, o que deve ser o verdadeiro espírito e alma de um homem ou mulher que decide entregar parte substancial da sua vida à arte e à partilha humana. Que saibamos aprender com ele, é o que se pede e exige. Houvesse mais gente assim e o mundo seria, certamente, um lugar muito melhor para se viver.













"Bodas de Sangue", pelo Grupo de Teatro do CCP - IC. Fotografias de João Barbosa





Terminou esta semana mais um festival de teatro Mindelact. Claro que sou suspeito em falar, mas também tenho o direito à palavra. E aproveito este espaço para fazer o meu pequeno balanço pessoal sobre o que de mais importante se passou nestes dias mágicos de Setembro.

Em primeiro lugar, a cidade do Mindelo está de parabéns. Mais uma vez acolheu o festival internacional de teatro do mindelo de braços abertos e há muitos anos que não tinhamos tanta gente a encher todos os espaços da programação que foram colocados à disposição dos amantes das artes cénicas. Salas cheias, alguns deias a rebentar pelas costuras, vieram mais uma vez lembrar do que se poderia fazer havendo uma sala de espectáculos com mais condições e, principalmente, mais lugares disponíveis para um público crescente e apaixonado. Mais um ano em que o festival mindelact se fez obrigando muita gente a ficar de fora das salas de apresentação por falta de espaço com o cadável do cine-teatro Éden Park a assistir, impávido e sereno, do alto da principal praça da cidade, ao acontecimento e ao constrangimento. O certo é que o festival mindelact 2011 foi um grande sucesso de público. No Palco Principal, no festival off onde muitas pessoas não se importavam de esperar por altas horas para assistir a mais uma apresentação, mesmo ocorrendo estas em dias de trabalho. No espaço dedicado às crianças, com o grande sucesso do Ciclo Internacional de Contadores de Histórias que encheu, diria mesmo, abarrotou, o pátio do Centro Cultural do Mindelo, de crianças e pais, para assistir, maravilhados às fantásticas histórias oriundas de lugares tão diversos como a Colômbia, Espanha, Mali, Cabo Verde e Brasil.

Outro aspecto que merece grande destaque foi a diversidade da programação por um lado, e a qualidade da organização por outro. Comecemos pela primeira: durante nove dias passaram pela cidade do Mindelo, imaginem, cerca de 30 espectáculos de teatro, uma média superior a três apresentações por dia. 20 companhias oriundas de 12 países fizeram-se representar no evento. E todas as peças nos ensinaram alguma coisa: o teatro clássico, o teatro de actor, o teatro surrialista, o teatro-vídeo mesclado com dança, o teatro de rua, o teatro com manipulação de objectos, o teatro sem palavras mas com a magia de um grupo espanhol que apenas utilizou papel nos cenários e nos adereços, o teatro mágico, o teatro músical, o teatro pedagógico, o teatro cómico. Tudo isso tivemos nós nestes dias e a festa foi grande. Claro que só foi possível atingir tal nível com uma organização de grande nível, constituída maioritariamente por voluntários amantes e membros de grupos de teatro locais. As oficinas foram um sucesso com elevada procura e uma percentagem superior a noventa por cento de acompanhamento, o que foi um grande feito tendo em conta o que acontecia nos anos anteriores.

A cidade está, pois, de parabéns. Acredito, cada vez mais, e tenho tido várias confirmações e testemunhos de quem conhece a realidade africana, que o festival mindelact é hoje o maior evento das artes cénicas africanas e Cabo Verde pode e deve orgulhar-se do tremendo respeito e admiração que vem granjeando um pouco por todo o lado. Para o ano há mais mindelact, porque este é um festival que Cabo Verde se orgulha de ter e não dispensa de forma nenhuma. Bem haja, Dionisio, o Deus do Teatro!

Na imagem: "Futuro Obscuro", Grupo de Teatro Cem-mente, www.fluxu.cv





Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras


Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada


De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse


Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


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