Dias de Sangue
1. Uma jovem cabo-verdiana, com todo o futuro pela frente, talentosa, amante da poesia, que marcou indelevelmente quem a conheceu pela luz que dela imanava, que recitava poesia em crioulo como poucos, pôs termo à própria vida, no Tarrafal, ilha de Santiago, deixando tudo e todos num estado de consternação generalizado. Conhecia-a apenas de vista, das sessões da Tertúlia Crioula, mas esta foi uma notícia que me deixou, no mínimo, abalado. Alguns dias depois, um casal é encontrado morto dentro da própria casa, no bairro da Bela Vista, no Mindelo, deixando sinais de grande brutalidade, ainda estando por apurar as causas da morte mas, ao que tudo indica, a tragédia aconteceu depois de uma violenta discussão entre os dois. Pelos comentários publicados por quem conhece a situação, terá sido o ciúme a provocar o que viria a culminar nesta terrível fatalidade. Assassinato, seguido de suicídio. E mais dois caixões para encomendar ao sempre lucrativo negócio da morte.
2. Praticamente todos os dias somos confrontados com notícias de violência extrema perpetuada nestas ilhas. Facadas, tiros, garrafadas, pedradas e agressões físicas de todo o género e grau variável de brutalidade. Entre familiares, entre amigos, entre amantes, entre membros de diferentes gangs, entre policias e ladrões, entre adultos e crianças, entre homens e mulheres, entre professores e alunos. De há muito que ultrapassamos essa barreira mítica da morabeza cabo-verdiana e de país dos bons costumes, onde gente de todas as idades se sentava à soleira das suas portas para colocar a conversa em dia. De há muito que ultrapassamos o tempo em que sair de casa não representava um perigo eminente mesmo quando a falta de luz acontecia mais por motivos de penúria nas infra-estruturas do que por incompetência de administradores. De há muito que a realidade real que vivemos todos os dias e com a qual somos confrontados ultrapassou os panoramas cor-de-rosa dos discursos dos nossos responsáveis políticos.
3. A vida tem menos valor no chão das ilhas, essa é que é essa. Já não se morre de fome ou de sede, mas também já não temos quem nos abra a porta de sua casa se estamos a ser perseguidos por algum bandido. Desconfiamos do colega do lado, passamos o tempo todo à espreita por detrás dos nossos ombros, lado esquerdo ou lado direito, pouco importa, com receio da facada que há-de, inevitavelmente ser desferida da esquina menos esperada. A hipocrisia, a maledicência, a falsidade e a cobardia transformaram-se em especialidades da casa. E por isso, já não observamos, apenas vemos; já não escutamos, apenas ouvimos; já não cheiramos, apenas localizamos o odor da carne podre e do mijo que tresanda pelos becos das grandes cidades; já não tocamos e acariciamos o outro, apenas usamos o contacto corpo a corpo como medida de defesa ou de ataque; já não nos damos o prazer de reconhecer e saborear ervas aromáticas de criativos cozinhados, apenas estamos treinados a desfazer na boca comida à velocidade que o stress diário permite. Daí, resta-nos o espelho, o nosso e o olhar que pensamos que os outros devem ter em nós.
4. Talvez por isso nos preocupemos tanto em manter a nossa forma física, com dezenas e dezenas de jovens, adultos e idosos correndo marginal para cima e para baixo, a todas as horas do dia, mesmo as menos prováveis, seja de madrugada, no quente do meio do dia, no final da tarde ou mesmo de noitinha, para ficarmos mais saudáveis, mais belos, mais esculturais, mais atractivos, mais bem connosco próprios e de tanto exercitar o corpo acabamos por nos esquecer de exercitar a mente. Gastássemos nós metade do tempo que cuidamos a correr, caminhar, nadar, fazer flexões, abdominais, desenvolvendo bíceps, triceps, dorsais, adutores, peitorais e todos os outros músculos que cabem no corpo humano, a exercitar a mente, lendo, reflectindo, analisando, criticando ou aprendendo, e quem sabe se nos sobrasse algum tempo para ver, ouvir, tocar, cheirar e saborear o outro, aquele ou aquela que está ali mesmo do nosso lado com um pedido de socorro encravado na garganta.
5. Desculpem-me os mais optimistas, aqueles que sincera e legitimamente acreditam que todo este progresso, com as estradas, as energias renováveis, as comunicações, as praças digitais, as empresas paridas num dia, as casas do cidadão, os novos centros de saúde, as Universidades públicas ou privadas, os índices de desenvolvimento humano das Nações Unidas, Unicef, Organização Mundial do Trabalho, Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e das outras mais variadas organizações mundiais que gostam de transformar os países em rankings dominados pela aritmética, consideram que isso faz de Cabo Verde um país saudável, pronto para todos os tremendos desafios que nos novos tempos não param de surgir, um depois do outro e outro e mais outro. Se somos hoje um país musculado, melhor preparado para os choques externos que possam surgir, tal como o desportista que treina todos os dias na Lajinha ou no ginásio do Djô Borja, somos também um país que não nos prepara para amar, ajudar, acariciar, tocar e muito menos, retribuir, criticar, crescer, reivindicar conscientemente, sem ter que o fazer como apenas mais uma ovelha num rebanho comandado à distância por chefias partidárias.
6. O pior doente é aquele que não sabe reconhecer os seus sintomas. Talvez pior ainda que o hipocondríaco que, por excesso de zelo, se arrisca a sofrer pela cura aquilo que não poderia sofrer por mazelas imaginárias. Não se trata. Disfarça as manchas com produtos de maquilhagem importados numa última viagem de serviço ao estrangeiro. Esconde as feridas. Coloca a cabeça na areia. Desde aqui peço desculpa por esta espécie de desesperança, mas esta triste campanha eleitoral que hoje vivemos é apenas mais um sintoma de como estamos cada vez mais a nos especializar nesse oficio de insultar o próximo, maldizer quem não afina pelo mesmo diapasão, ou pura e simplesmente, passar por cima de quem não pensa como nós, confundindo de forma reiterada e irresponsável adversários com inimigos. Se à riola de tempos não muito distantes éramos capazes de responder com fina ironia, hoje partimos para a violência em defesa da nossa honra supostamente maltratada, curamos as nossas chagas com ódio sem perceber que esse sentimento nunca curará nada, apenas tornará mais funda uma ferida que parece querer chegar aos ossos depois de nos ter perfurado a carne sem que disso déssemos conta.
7. A peça de teatro Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, em cujo processo de montagem me encontro neste preciso momento é uma tragédia. Quando decidi avançar para mais esta aventura questionei-me sobre a pertinência de mostrar em palco uma história em que um casamento se transforma num banho de sangue quase que anunciado, pela disputa de uma noiva indecisa. Há, tal como nas tragédias clássicas gregas, personagens que anunciam a desgraça, que prevêem a fatalidade, que vaticinam o destino cruel de dois homens na flor da idade, feitos para a vida e não preparados para a morte. Mas ninguém os ouve. Era só isso que era preciso. Como na poesia de Nelly, cujo sorriso flutuava no olhar, como a areia com as ondas do mar, com carinho, com cuidado. A serenidade de um amor que ninguém quis saber. Um amor que para muitos envergonha, ridiculariza, diminui, fragiliza. Mas esses que assim pensam, esses que perderam essa capacidade de usar os cinco sentidos em prol do outro, são esses que perdem. Só o amor salva. Só o amor cura. Escutem. Escutem mesmo. E mudem a face triste que invade as ilhas mágicas do Atlântico.
Mindelo, 28 de Julho de 2011