Madrid, 2011




Sobre tudo isso falarei mais tarde. Ou não. Sobre os candidatos a candidatos à Presidência da República de Cabo Verde - que ainda não o são oficialmente - e sobre essa estranha questão de ser ou não ser "um candidato da cidadania", quando isso dá jeito pelas circunstâncias ditadas pelos aparelhos partidários. Ou sobre a eterna questão da falta de água e luz que segundo os responsáveis da Electra é um problema que já têm data marcada: "Pode ser daqui a algumas horas, ou então amanhã ou depois", colocando em causa toda essa universal questão do tempo que é e do tempo que passa. Ficamos agora a saber que ter data marcada é assim, como quem não quer a coisa, algo de etéreo e indefinido. Nunca mais ouviremos noivos falar que "estão de casamento marcado" porque isso, a acreditar no novo Teorema Temporal da Electra, quererá dizer, seja no fundo da questão ou vista a coisa superficialmente, que pode ser daqui a algumas horas, ou então amanhã ou depois.

Sobre isso falarei mais tarde. Ou não. Sobre como a imoral taxa de desemprego espanhola tem sido o motor que fez funcionar uma mistura de desespero, com esperança e vontade de não calar, provocando um imenso acampamento na principal praça da cidade de Madrid, um acampamento sem data marcada, nem para entrar nem para sair, porque foi o sistema montado que se encarregou de colocar milhares e milhares de pessoas, jovens e menos jovens, fora de si mesmas, sem mais o que fazer a não ser aguardar por algum sinal de esperança. Por isso também algumas fotos que coloquei aqui no Café Margoso, que como as boas imagens, valem por muitas palavras.

Mas mesmo naqueles que não acreditam nos candidatos presidenciais que se perfilam, nem entendem como algo pode ter data marcada sem o ter, nem aceitam o facto da crise económica generalizada, provocada por gente endinheirada sem qualquer tipo de escrúpulos, possa provocar uma paralisia e uma inércia que nos transforme de homens e mulheres em avestruzes, para esses, dizia, há sempre a esperança que do nosso lado esteja alguém que amamos disponível para receber um beijo apaixonado. Mesmo que seja de cabeça para baixo, o que até condiz melhor com o estado do mundo actual.





O Encontro

A vida em sociedade sempre lhe fora hostil, razão pela qual buscava a solidão. Encontrara, portanto, o lugar ideal: um casarão mal-assombrado, cujo aluguel cabia folgado em sua aposentadoria. Pudera. Ninguém conseguia morar no local por muito tempo: barulhos de corrente, louças voadoras, vultos furtivos – tudo isso desvalorizara drasticamente o imóvel.

Ele, no entanto, não dava a mínima. Convivia tranquilamente com os fantasmas da casa – outrora cenário de um incêndio que vitimou toda uma família, a mesma a quem atribuíam aqueles distúrbios sobrenaturais.

Um dia, ruídos no quarto despertaram o novo inquilino. Ele abriu os olhos e, na semi-escuridão, vislumbrou ao seu redor um grupo formado de dois adultos, um adolescente e uma criança. Todos lhe sorriam.

Deles não sentiu medo, pois já sabia quem eram.

O chefe da família adiantou-se e estendeu-lhe a mão: “Seja bem-vindo”.

O inquilino estranhou. Afinal, convivia com eles há meses. Por que então só agora apareciam para lhe dar as boas vindas?

A estranheza desfez-se quando se voltou para cama de onde se levantara. O que viu não o assustou; pelo contrário, trouxe-lhe até alegria. Já não teria mais necessidade daquele corpo solitário. Agora seria diferente. Havia encontrado uma família.

Gorj (fonte; aqui)



A não perder, acho...






Rios e Solano

1.
 – Onde estamos?
- Num teatro.
- Tens a certeza?
- Ou alguma coisa parecida.
- Isto é o palco?
- É.
- Aquilo é o público?
- É.
- Aquilo?
- Achas estranho?
- Diferente.
- Diferente?
- Outra vez.

2. Estas são as primeiras falas de uma peça emblemática do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra. Intitulada “Ñaque, sobre piolhos e actores” estamos perante aquele que é, muito provavelmente, um dos textos dramáticos dos últimos cem anos que melhor consegue captar a essência e a verdadeira natureza da arte cénica. Com muito humor, a peça fala do papel do actor na sociedade através dos tempos e do sentido de fazer-se teatro nos dias de hoje. Encenada um pouco por todo o mundo, compreende-se bem porque é que este é um texto que atrai tanto os amantes do teatro. Sendo o teatro a arte onde o confronto entre o objecto artístico e o público só faz sentido ao vivo, é difícil explicar a importância que esta peça tem e a forma como marca quem participa, numa crónica de jornal. A boa nova é que agora chegou a vez de Cabo Verde.

3. A primeira vez que vi a peça foi em S. Paulo, no final dos anos noventa. Encenada e interpretada por Miguel Seabra, juntamente com o espantoso actor Álvaro Lavin, para o Teatro Meridional, companhia que já foi homenageada no festival Mindelact, esta versão marcou-me para toda a vida e durante os cinco dias consecutivos de apresentação no maior centro cultural da metrópole brasileira, que vi sofregamente como quem aprecia um manjar dos deuses, jurei a mim próprio que um dia haveria de pegar neste texto e montá-lo para o teatro das ilhas. A grande dificuldade, para não dizer mesmo o grande atrevimento, era saber o que fazer depois de assistir a tão magna lição de bem fazer teatro, sem correr o risco de cair num precipício, porque aquele foi um daqueles espectáculos que me fez questionar o que raio andava eu a fazer no mundo do teatro, havendo por ai quem o fizesse tão bem. Como bem disse Miguel Seabra numa entrevista, esta montagem representa, antes de tudo, o triunfo da simplicidade cénica, a mais difícil meta de se alcançar no teatro.

4. Hoje, passados quinze anos sobre esse primeiro choque, resolvi arriscar. Sinto que o percurso e a experiência que tenho, se bem que não chegue para atingir a perfeição cénica de que fui testemunha, me dá margem de manobra para um eventual perdão, dos meus colegas e do público, se acontecer o caso provável da minha habilidade como encenador não conseguir dar a resposta adequada que o texto original demanda. Uma segunda razão que me incentivou para esta aventura tem a ver com uma homenagem que senti dever prestar a um actor cabo-verdiano, uma homenagem pessoal e intransmissível, que não só é dos actores mais experientes da sua geração, como também foi dos poucos que continuou a fazer teatro depois do novo ciclo que se iniciou com o projecto teatral do Centro Cultural Português, na cidade do Mindelo. Falo, evidentemente, de Manuel Estêvão, a quem dedico, de corpo e alma a montagem desta peça, e a quem fiz questão de acompanhar em palco, para mal dos meus e dos vossos pecados. Se pensarmos na interpretação que Manuel Estêvão soube dar ao protagonista da adaptação teatral que fizemos do romance “No Inferno”, de Arménio Vieira, e que deixou muita gente espantada, teremos uma noção mais certeira da responsabilidade que cai sobre os meus ombros com a actual empreitada.

5. Num dos livros fundamentais da história do teatro, O Espaço Vazio, de Peter Brook, o encenador inglês defende que o teatro faz-se e constrói-se todos os dias a partir de uma relação tripartida. A do actor com o texto, a do personagem com o público e a do actor com aquele com quem contracena em palco. Daí que esta peça seja ideal para um tributo desta natureza. Porque é uma montagem focada na relação dos actores com o público. E centrada na relação dum actor com o outro em cena. Solano e Rios são os dois personagens de Ñaque e portanto, ao vestir esta pele, somos, ao mesmo tempo, actores e personagens. Somos actores e amigos. Companheiros de uma vida toda, cheia de peripécias. Eles próprios, carismáticos e felizes, trabalhadores e talentosos, românticos e pobres, são actores que representam e mostram em palco o processo de mudança de pele que constitui o dia-a-dia de um actor, e só eles sabem o quanto isso dói e custa. Experimentem pegar na vossa pele, arrancá-la, colar outra no seu lugar. Imaginem a dor. Entendam agora quão nobre pode ser a arte de representar.

6. Não me considero um actor de teatro. Sou um encenador que, de quando em vez, gosta de estar em palco, pelo desafio que representam a interpretação de determinados textos e a pesquisa que alguns personagens exigem de nós. Mas sendo esta uma homenagem a um actor, não poderia deixar de estar ao lado dele, num palco, onde mais? Ainda por cima, com um texto desta natureza que exige da encenação uma relação aberta, que pede um teatro que se faz diante dos olhos de todos, revelando os seus truques e segredos. Tendo um palco vazio como ponto de partida, palco esse que voltará a ficar vazio no final de todas as contas. Neste vazio, tão difícil de ser preenchido com vida, os dois actores focam-se na relação com o público. Um público que está sempre lá. Se não estiver, não há teatro. Sempre igual? Mais ou menos. Cansativo? Sim, por vezes. Mas Agostino Solano, faranduleiro de notável engenho, e Nicolau dos Rios, famoso representador, andam nestas andanças há mais de quatrocentos anos e sabendo isso, não há como não continuar, com força redobrada, a cada morte anunciada pelo final de cada apresentação. As palmas finais, sinceras ou não, são uma espécie de marcha fúnebre que oficializa o enterro da obra de arte. Ter consciência disso e seguir em frente é o mesmo que render o tributo a essa figura suprema, que neste caso será Dionísio, o deus do teatro, da vegetação e do vinho. Do teatro, porque foi a partir dos rituais em sua homenagem que o teatro ganhou estatuto próprio, da vegetação porque tal como a arte cénica se renova a cada estação, e do vinho, pois a sua degustação nos permite ser outro(s), que na verdade, faz(em) parte do que temos de mais sincero e profundo.

7. Solano e Rios são, pois, dois actores medievais paupérrimos e de nomes pomposos, que caminham, perdidos no tempo, há quatrocentos anos e acabam por aportar em Cabo Verde. Andaram em S. Nicolau, Cidade Velha, Ribeira da Barca, vila Leopoldina, hoje cidade do Mindelo. E ao falarem das suas questões e dos problemas concretos da sua arte tentam, quem sabe se de forma vã, por a nu as questões e as lutas do artistas e do público, de quem faz e de quem vê. São uma metáfora do teatro e da vida e refazem o sentido de continuar a construir esse edifício cada vez mais rico chamado teatro cabo-verdiano. Será estranho? Diferente. Outra vez? Outra vez. Venham vê-los, porque só assim a sua (nossa) arte fará sentido.

Mindelo, 25 de Maio de 2011





Brincadeiras do blogger. Primeiro, tentava sair, e não conseguia. Depois, tentei entrar, e não me deixaram. E por isso, durante quase uma semana, o Café Margoso esteve encerrado não para obras, mas por conta do seu senhorio. Houve mesmo quem me aconselhasse, com certa graça, "Oh João, b'tal açucar!". Avisaram-me que acontecem destas coisas, mas por aqui foi a primeira vez.

Seja como for, como podem perceber, estava numa semana decisiva na montagem de uma nova peça de teatro, e esta paragem até foi conveniente. Mas não posso deixar de pedir desculpas a todos quantos aqui vem desde há muito, e aos novos clientes também, naturalmente, por esta súbita e estranha paragem.

Espero retomar o ritmo habitual, com bons cafés.

Abraço





Gatos ou Cães?

À melhor resposta, ofereço um café






Já dei comigo a pensar que algumas das situações corriqueiras que acontecem na cidade do Mindelo deveriam certamente deliciar um cineasta como Kusturica, desde as festas no interior ou no terraço de casas particulares, as discotecas improvisadas em contentores, passando por alguns grupos espontâneos do Carnaval mindelense ou o comportamento das nossas cabras que, no meio de um contentor de lixo cheio de "iguarias", não hesitam em escolher um jornal velho para seu principal manjar. 

Mas ontem, o cineasta aludido foi outro. Estava eu de noite a dar leite e um resto de peixe assado a uns gatos esqueléticos que durante dias a fio andaram a miar à volta do meu prédio, em Chá de Monte Sossego, quando vi dois vultos estranhos, com espadas de Samurai nas costas, capuz na cabeça, todos vestidos de negro, coletes à prova de bala, armados até aos dentes, em passo rápido, com lanternas e ar ameaçador. Confesso que, entre a surpresa e a incredulidade, senti algum medo daquela súbita aparição. Lembrei-me então das notícias que davam conta de uma unidade especial da Polícia Nacional, os Ninjas, que teriam sido treinadas e preparadas para por cobro aos inúmeros assaltos e guerras entre os gangs que tem agitado algumas das zonas mais problemáticas da cidade.

Não pude deixar de me imaginar dentro de um filme de Tarantino, o cineasta americano que junta num mesmo filme o estilo Western com aquele característico dos filmes de série B de artes marciais, produzidos algures num pais asiático de média dimensão. Pelo que se pode ler aqui, os resultados desta acção inusitada tem sido positivos e do agrado da população. Eu, confesso, não ganhei para o susto!




E por falar em Cabo Verde, foi tão bonito ver, nos festejos da vitória do FC Porto na Liga Europa, o jogador Rolando, titularíssimo da selecção de Portugal, com a bandeira de Cabo Verde nas costas, enchendo de orgulho tantos e tantos cabo-verdianos. O palermóide do Michell Platini chegou mesmo a perguntar ao jogador: que bandeira é esta? Pois é, agora já sabe!




A lâmpada

Para trocar uma lâmpada, quantas pessoas são necessárias?
Depende do tipo de pessoa:

Gays
Seis (6): um para trocar e cinco para ficar gritando: Linda! Poderosa! Maravilhosa! Divina! Tuuudo!

Peruas
Duas (2): uma chama o eletricista e a outra prepara os drinques.

Psicólogos
Apenas um (1), mas a lâmpada PRECISA QUERER ser trocada.

Loiras
Cinco (5): uma para segurar a lâmpada e outras quatro para girarem a cadeira.

Consultores
Dois (2):. Um sempre abandona o trabalho no meio do projeto.

Bêbados
Um (1) só pra segurar a lâmpada, enquanto o teto vai rodando.

Ativistas Gays
Nenhum (0). A lâmpada não precisa mudar, para ser aceita pela sociedade.

Machões
Nenhum (0): macho não tem medo de escuro.

Filhinhas do papai
Duas (2): uma pra segurar a Coca light e outra pra chamar o papai.

Benfiquistas
Um só (1): ele segura a lâmpada e o mundo gira ao seu redor.

Mulher com TPM (essa é a melhor de todas):

Só ela! SOZINHA!! Porque NINGUÉM, dentro desta casa sabe como trocar uma lâmpada! É um bando de IMPRESTÁVEIS!!! Eles nem percebem que a lâmpada queimou! OS INÚTEIS podem ficar em casa no escuro por três dias antes de notar que a bosta da lâmpada queimou! E quando eles notarem, vão passar mais cinco dias esperando que EU troque a lâmpada, porque eles acham que EU sou a ESCRAVA deles!!! E quando eles se derem conta de que EU não vou trocar a lâmpada, OS INCOMPETENTES ainda vão ficar mais dois dias no escuro porque não sabem que as lâmpadas novas ficam dentro da merda da despensa! E se, por algum milagre, OS INFELIZES encontrarem as lâmpadas novas, vão arrastar a poltrona da sala até o lugar onde está a lâmpada queimada e vão arranhar o piso todo, porque são INCAPAZES de saber onde a escada fica guardada! É inútil esperar que eles troquem a lâmpada, então sou EU mesma quem vai trocá-la! E como EU sou uma mulher INDEPENDENTE, vou lá e troco! E SOME DA MINHA FRENTE!!! 

Autor desconhecido



Está acontecendo. Só o cartaz abre o apetite de um evento único como este...





é sublime
alegria refletida
em momentos de amor

é mistério
o destino repentino
de se dar e sentir dor

é criança
borboleta de um planeta
tão distante, sem calor

é poesia
palavras que se abraçam
alegria, destino, borboleta
e o sabor"

Ivan Petrovitch




Música John Surman - Edges Of Illusion

[Imagem de coreografia de Pina Bausch]


Nota: se puderem, ouçam até ao fim. Lendo o poema e olhando para a imagem, fica ainda melhor. Não há nada mais sublime que a mistura de música, poesia e movimento. Um post todo ele dedicado ao bailarino e coreógrafo Tó Tavares, uma das almas mais generosas que já conheci na vida.




E pronto, as eleições presidenciais foram marcadas para o dia 07 de Agosto, que por acaso, só por acaso, vai cair mesmo em cima do terceiro dia do Festival de Música da Baía das Gatas, o maior do país. Deve ser para incentivar ainda mais a participação popular nos actos políticos importantes do arquipélago. Só pode. Tendo em conta a quantidade de mindelenses que hoje vivem na Praia por casa do trabalho e que nessa época viajam em massa para S. Vicente, esta data tem uma lógica inatacável. Ou então é apenas uma forma de fazer ligar política e cultura, sem constrangimentos. Será que vão preparar mesas de voto junto daquelas barraquinhas de comes e bebes que sempre animam o fim de semana? Ou andamos a brincar com coisas sérias?

Adenda: entretanto, segundo já foi anunciado, a Câmara Municipal de S. Vicente decidiu adiar o Festival de Música da Baía das Gatas por uma semana, "para que as eleições presidenciais possam decorrer na normalidade e não sejam perturbadas com a realização do festival da Baía na mesma data".  Lá se foi a argumentação aqui aplicada assim como a Lua Cheia, presença tradicional da grande festa da música. (notícia aqui)





Uma fotografia premiada, tirada em Cabo Verde! Fantástica imagem...


O fotógrafo Lukas Hueller sagrou-se o vencedor do Photo Annual Awards, na primeira edição da maior competição fotográfica da Europa Central com "A brincar", um projecto realizado em Cabo Verde.

O projecto de longo prazo teve o seu início numa pequena praça, da Vila do Tarrafal, na ilha de Santiago. Para o lançamento deste projecto, o fotógrafo contou com a parceria da Delta Cultura Cabo Verde, a associação que gere a escola de futebol, bem como diversos projectos educativos e de cariz sócio-cultural, para as crianças e jovens do Tarrafal.

"A brincar" foi inspirada pela obra de Pieter Bruegels “Crianças a brincar” e pelo artigo 31º da Convenção dos Direitos da Criança.





«Uma das mais belas histórias ditas «de loucos» é também uma das mais antigas. A sua origem exacta é desconhecida. Contam-na na Índia e na Pérsia. Hoje, longos caminhos percorridos, tornou-se, no Ocidente, um número de palhaços.

Passa-se de noite, numa rua, perto de um candeeiro de iluminação pública (no circo, o candeeiro é substituído por um círculo de luz no solo). Está um homem baixado, o nariz perto do chão, e parece procurar qualquer coisa.

Passa outro homem que lhe pergunta:

- Que procuras?
- Procuro a minha chave.
- Perdeste a tua chave?
- Perdi.
- E perdeste-a aqui?
- Não.
- Então, se a perdeste noutro sítio, porque a procuras aqui?
- Porque aqui há luz.»

Jean-Claude Carrière, «Tertúlia de Mentirosos, Contos Filosóficos do Mundo Inteiro»















Belas imagens do filme "Ulime", de Tambla Almeida





Muita coisa tem acontecido nestes últimos tempos, dentro e fora de portas. A aprovação do novo programa do Governo, a morte de Bin Landen, os pré-candidatos (publicamente assumidos) às eleições presidenciais que se posicionam em cerimónias públicas procurando dar-se a conhecer melhor ao eleitorado, os casos do futebol com as vitórias de uns e as derrotas de outros, a subida do custo de vida, água, electricidade, pão, as visitas dos deputados aos seus círculos eleitorais para "sentir o pulso", mais congressos e encontros e mesas redondas e diagnósticos e workshops e ateliers de capacitação, violência que mata mais de uma dezena de crianças no Rio de Janeiro, terramotos e desastres nucleares, crise, crise, crise, crise, o mundo em movimento.

Já o disse e reafirmo: este é um espaço pessoal tornado público. Não são coisas incompatíveis. Partilho poesia, actividades culturais, muito mais meus amores que dos meus ódios. Ódios que, felizmente e por natureza própria, os tenho poucos e quanto os tenho, duram quase nada. Se gosto de um filme, como por exemplo, o inatacável Fala com Ela, de Pedro Almodovar (na imagem), é muito provável que escreva sobre isso. Sem querer dizer com isso que não haja quem deteste o mesmo filme. Normal. Ou sobre os artistas de Cabo Verde, que merecem o maior respeito e admiração, tendo em conta que a criação artística é, ainda hoje, uma espécie de desporto radical que muito raramente trás riqueza material ou sossego espiritual. 

Como encenador e homem do teatro reafirmo que é, sobretudo, através da minha arte, a arte cénica, que dou conta do que me inquieta e é através do teatro que procuro o meu lugar na sociedade. Não tenho, nem quero ter vocação para ser um "fazedor de opinião", muito menos um intelectual, sem desprimor para quem o seja ou tenha ambição de o ser. Por outro lado, nem penso que a minha opinião valha seja o que for, porque é apenas isso, uma opinião. Que neste âmbito da blogosfera, das crónicas no jornal ou na rádio valem o que valem e eu penso, sinceramente, que valem pouco. Nem todos podem ter a pretensão de se acharem dignos de serem ouvidos "pela sociedade". Ou que esta esteja, suspensa, esperando que  se abra a boca ou liberte a pena para dizer ou escrever a sua sentença sobre os assuntos correntes relatados no último telejornal. Já dei para esse peditório. 

Dizem que a audiência trás responsabilidade, mas desde há muito deixei de me preocupar com isso. Que as pessoas esperem de mim um bom trabalho na próxima peça ou que me exijam uma programação de qualidade no próximo festival mindelact, é perfeitamente legítimo. Essa sim, é a minha função, enquanto artista, encenador ou produtor da área do teatro. De resto, tento olhar com o máximo de atenção o que se passa à minha volta, aprender com os outros, procurar sinais, cada vez mais raros, que nos dêem alguma esperança no futuro próximo, e seguir em frente. Sendo o teatro uma arte do colectivo por excelência, e não tendo eu tendência para fazer monólogos encenados por mim próprio, sou "obrigado" a aprender o oficio da partilha e do trabalho com os outros, seja com o actor que está a contracenar do meu lado, o elenco que dirijo, o cenógrafo que faz o cenário, o iluminador que ajuda a dar vida à cena, a figurinista que veste os personagens, o designer responsável pela imagem do nosso trabalho colectivo no exterior. E todas estas pessoas, trabalham para tantos outros. Aqueles que nos vêem. O público. Os públicos. 

E é quanto baste. 





O que é que o tempo faz à dor: apaga ou apenas adormece?

À melhor resposta, ofereço um café






«O que se está a passar em qualquer destes países, em especial no Afeganistão, não tem nada a ver com o Bin Laden ou com a Al-Qaeda. Trata-se de um levantamento popular contra as tropas ocidentais no território, resultado directo do fracasso da estratégia para todo o Médio Oriente. O acordar do Médio Oriente para a democracia secular derrota simultaneamente o projecto do Ocidente e dos defensores dos califados islâmicos. Foi isso que matou o Bin Laden, a Al-Qaeda, mas também a política do Bush e do Obama para o Afeganistão. A guerra que os EUA e os seus aliados enfrentam é insurreccional e nada tem a ver com a auto-proclamada guerra contra o terrorismo.»

Robert Fisk - correspondente do jornal "The Independent" (fonte: aqui)





«Na minha rua, na rua de ninguém, de «não lugar», lugar de trânsito, de evasão e de roubo. Cheira a torresmo e a imundice. A droga e o álcool reinam, num coquetel, de palavreados intimidatórios, de lutas e vinganças, onde entram a política, a polícia e os gangues rivais. O quadro sociopolítico reinante fere a autoridade, a harmonização social. Os jovens estão de costas voltadas das autoridades oficiais e familiar. Os grupos de amigos constituem palcos para novos recrutamentos para a «bandidagem». Não querem saber, querem fazer. Alguém vai ter que pagar. O corpo é que paga mesmo que a cabeça tenha ou não juízo.»


A visitar. A ler. A reflectir. Novo blogue cabo-verdiano, Diário de um Thug. Aqui.





Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 







É simples, enquanto amar e for amado, e tiver aqueles que mais amo por perto, assim serei feliz. Posso me zangar, enervar, ficar mais ou menos triste por alguma reacção inesperada de algum amigo, posso me precipitar, errar, tremer, arriscar. Posso não querer dizer nada ou falar mais do que a conta. Posso ser atacado, por conhecidos ou desconhecidos. Tenho a possibilidade de desenvolver a minha arte onde, mal ou bem, tento produzir e crescer. Mas tudo isso é tão pequeno, juro-vos! Tudo isso é tão pequeno perto do significado portentoso de se estar vivo, de nos sentirmos vivos e principalmente, de sabermos que não perdemos a nossa capacidade de amar e de bem receber o amor de quem nos ama.

O resto é digestão.

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