Hoje o ar está mais limpo, vê-se tudo com mais clareza. Gosto disso. 

Obrigado, poeta.






O ar de frete e de profundo aborrecimento com que somos atendidos pela grande maioria dos empregados do comércio, serviços e outros, faz parte de alguma estratégia de marketing ultra-moderna cuja existência ainda não foi assumida pelos grandes teóricos da área?

À melhor resposta, ofereço um café






«O Teatro, subtilmente, permeia a alma do Homem dominado pelo medo e desconfiança, alterando a imagem que têm de si mesmos e abrindo um mundo de alternativas para o indivíduo e, por consequência, para a comunidade. Ele pode dar um sentido à realidade de hoje, evitando um futuro incerto.»

Jessica Atwooki Kaahwa - Mensagem do Dia Mundial do Teatro



Elizabeth Taylor
(1932 — 2011)


Duas notas de rodapé: o mundo ficou mais feio e os homens preferem as morenas. De preferência que sejam gatas em telhados de zinco quente.




Ao assinar um novo contrato de telefone, foi confrontado com uma novidade inusitada: ao solicitar que o meu nome não constasse na lista telefónica, fui informado que teria de pagar uma taxa de duzentos escudos mensais (sim, mensais!), para ter direito à minha própria confidencialidade. Achei uma evolução espantosa, a sério! É que geralmente, na maioria dos países, que eu saiba, paga-se para estar na lista telefónica. Aqui paga-se para não estar. E os meus direitos cívicos, onde é que ficam?


(Antimanifesto para um tempo sem poesia)

Oram e laboram nas catacumbas
do mistério, os poetas do meu país.
Têm pactos com a metafísica.
São fiéis assalariados da tristeza.
Carpem a desfortuna da história,
o glorioso incêndio de roma,
e até mesmo o primeiro uivo divino.
Cobrem-se de tantas imaginárias
dores, como se lhes não bastasse
as veras que lhes dá o mundo.

Ó altos atletas da mágoa,
de lacrimais talentos possuidores,
o paraíso ou o inferno não são mesteres
de um só dia. Canção de embalo
ou acorde perfeito não erguem cidades.
À bulha com as pedras, até que derribada
a última quimera, sufocada a harmonia,
não sobre alento para canto ou choro.

E no entanto o mundo se revida?
Pobres versos não movem guerras;
sorriem antes ou desembestam caretas,
porquanto nem piedade ou cólera
defendem da humilhação e o progresso
lá vai fazendo as suas vítimas.

Ó crentes nas ideias que não defenderam
atenas do soçobro, a posteridade vale
bem menos que a gratidão do sol
esparramada por sobre esses fêveros
pardos campos. Soltar gases, armar
escarcéu, é bem mais poético e mais
humano, que o silêncio foi sempre
uma forma de morte distraída.

Ó tribunícios companheiros no altar
do verbo, se o tempo é chaga e o dom
impuro, fazei antes estalar o chicote,
ou desatai aos pinotes num desmedido
arroubo de danados.

José Luiz Tavares


[Enviado pelo próprio autor, em prol do Dia Mundial da Poesia]






O anúncio do novo Governo de Cabo Verde trouxe, independentemente dos nomes escolhidos, uma boa notícia: o Ministério da Cultura volta a ser autónomo e a ocupar o lugar que merece na orgânica do elenco governamental. A junção da pasta do Ensino Superior com a da Cultura foi um lapso que, felizmente, não perdurou durante muito tempo. 

Resta-me agora dizer algo sobre a escolha do novo ministro, Mário Lúcio Sousa, de quem sou amigo e admirador, e portanto, suspeito para emitir qualquer opinião que possa ser considerada imparcial. Mas tudo bem. O que me apetece dizer é que prefiro um artista experiente na pasta do que um tecnocrata que não conhece o meio, nem os agentes culturais, nem as suas preocupações, muito menos as difíceis condições em que os artistas desenvolvem os seus percursos criativos em Cabo Verde.

Ora, Mário Lúcio, com o currículo que tem como músico, compositor, dramaturgo, escritor e artista plástico (área que explorou pouco e abandonou cedo) pode ser um triunfo poderoso. Além do mais é jurista, mesmo que não exerça e portanto domina os meandros de um dos sectores que mais falhas apresenta em toda a estrutura das políticas culturais no país: a legislação. 

É um homem que tem material produzido de reflexão na área e cabe-lhe agora criar as condições para que o que tem defendido possa ser aplicado na prática. Não sendo gestor - não se pode ter tudo - é também alguém com capacidade de ouvir os outros, assimilar, julgar e agir segundo aquilo que julga ser o melhor para a área. 

Já lhe chamam a versão Gilberto Gil cabo-verdiana. Se o percurso e o trabalho desenvolvido vier a confirmar esta doce ironia, só lhe fica bem, até porque estamos a falar de um ministro, também ele artista e músico, que revolucionou todo o panorama da aplicação de políticas públicas nesse imenso país que é o Brasil. 

Tudo o que aqui vai escrito não é o garante que venha a ser um bom Ministro da Cultura. Eu acredito que possa vir a ser. Agora é dar tempo ao tempo e esperar que aconteça o que certamente todos desejamos: que as políticas públicas na área da Cultura durante a próxima legislatura representem uma profunda viragem naquilo que foi a inércia, a incapacidade e a falta de criatividade que a caracterizou durante os últimos anos. 



E pronto, se o próximo programa de austeridade devido à crise económica global implicar algo semelhante a isto, talvez nem seja mau de todo. Portanto, todos à Lajinha ou outras praias, aos ginásios, aos calçadões, às dietas, porque quando não dá mais para apertar o cinto, o mais provável é mesmo nos arrancarem as calças...




«E se no princípio era o verbo, ter olhos para contemplar e meditar foi a criação da poesia…»

Tchalê Figueira - artista plástico (aqui)

Pintura: Birgit Huttemann-Holz



Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 






O programador António Pinto Ribeiro deu uma conferência no Mindelo, onde falou de um exemplo de aplicação de políticas públicas para a cultura que talvez poucos conheçam: a antiga presidente do Chile, Michelle Bachelet, que liderou o país entre 2006 e 2010, durante o seu mandato fazia-se acompanhar em todas as suas viagens, por um grupo de teatro. A apresentação pública desse grupo no país visitado era quase sempre um dos pontos altos da agenda da visita e foi esta a forma que ela encontrou para promover o seu país e contribuir para o desenvolvimento teatral do Chile que também por causa desta medida conheceu nos últimos anos avanços extraordinários.

Ora cá está algo que nunca entendi porque não é aplicado a Cabo Verde: a diplomacia cultural. Não se entende porque é que não existem Adidos Culturais nas Embaixadas de Cabo Verde, responsáveis por uma programação dedicada à promoção da cultura do país, convidando artistas residentes no arquipélago ou no país da própria embaixada e promover um programa vasto de promoção cultural. Não se entende porque é que os artistas, músicos, bailarinos, actores, artistas plásticos, poetas, são tão poucas vezes convidados a fazer parte das comitivas, sejam elas Presidenciais ou o Chefe do Governo. 

Intitulamos Cesária Évora de "nossa embaixadora" mas nem paramos para pensar no que isso realmente significa. Cabo Verde deve ser dos países do mundo que mais teria a ganhar com a implementação séria, sustentada, programada, de uma vasta diplomacia cultural. Com ganhos, inclusive, de teor económico, até porque dar o país a conhecer ao mundo tendo a cultura como principal motor de promoção, é a melhor forma de contribuir para o seu pleno desenvolvimento. O que se tem visto nesta área? Muito pouco. Quase nada. Achar-se que a distribuição de alguns passaportes diplomáticos a artistas resolve esta lacuna é demasiada ingenuidade, para não lhe chamar outra coisa. 

Imagem. «petalaflor desta varanda», de Manuel Figueira





A ideia é boa e não custa nada, melhor custa só 80$00:

«Para quem está em Cabo Verde: é mesmo rápido - peguem no telemóvel e enviem uma mensagem para 4020 - com este simples gesto estarão a doar 80$00 para o Fundo Esperança e a ajudarem as vítimas de Violência Baseada no Género (VBG) a reorganizar as suas vidas! Até 27 de Março.»




Já começou...






A partir de um e-mail:

Por incrível que possa parecer, uma verdadeira revolução democrática e anticapitalista ocorre na Islândia neste preciso momento e ninguém fala dela, nenhum meio de comunicação dá a informação, quase não se vislumbrará um vestígio no Google: numa palavra, completo escamoteamento. Contudo, a natureza dos acontecimentos em curso na Islândia é espantosa: um povo que corre com a direita do poder sitiando pacificamente o palácio presidencial, uma "esquerda" liberal de substituição igualmente dispensada de "responsabilidades" porque se propunha pôr em prática a mesma política que a direita, um referendo imposto pelo Povo para determinar se se devia reembolsar ou não os bancos capitalistas que, pela sua irresponsabilidade, mergulharam o país na crise, uma vitória de 93% que impôs o não reembolso dos bancos, uma nacionalização dos bancos e, cereja em cima do bolo deste processo a vários títulos "revolucionário": a eleição de uma assembleia constituinte a 27 de Novembro de 2010, incumbida de redigir as novas leis fundamentais que traduzirão doravante a cólera popular contra o capitalismo e as aspirações do povo por outra sociedade. 

Quando retumba na Europa inteira a cólera dos povos sufocados pelo garrote capitalista, a actualidade desvenda-nos outro possível, uma história em andamento susceptível de quebrar muitas certezas e sobretudo de dar às lutas que inflamam a Europa uma perspectiva: a reconquista democrática e popular do poder, ao serviço da população.  (ver aqui)

Desde Sábado, 27 de Novembro, a Islândia dispõe de uma Assembleia constituinte composta por 25 simples cidadãos eleitos pelos seus pares. É seu objectivo reescrever inteiramente a constituição de 1944, tirando nomeadamente as lições da crise financeira que, em 2008, atingiu em cheio o país. Desde esta crise, de que está longe de se recompor, a Islândia conheceu um certo número de mudanças espectaculares, a começar pela nacionalização dos três principais bancos, seguida pela demissão do governo de direita sob a pressão popular. As eleições legislativas de 2009 levaram ao poder uma coligação de esquerda formada pela Aliança (agrupamento de partidos constituído por social-democratas, feministas e ex-comunistas) e pelo Movimento dos Verdes de esquerda. Foi uma estreia para a Islândia, bem como a nomeação de uma mulher, Johanna Sigurdardottir, para o lugar de Primeiro-Ministro. (ver aqui)

Comentário Margoso: com os processos revolucionários em curso em alguns países, outros anunciam, a medo, profundas mudanças regimentais com receio do efeito dominó. É o caso de Marrocos e Arábia Saudita. Na Europa, as manifestações sucedem-se. O exemplo português é muito interessante, com 300 mil cidadãos na rua, sem ligações a qualquer partido político, de várias gerações, numa iniciativa que começou com um apelo numa rede social. Para onde caminha o mundo hoje? 

É a pergunta que fica. 



De regresso. Tem tudo para ser bom.







Digam lá a sério: o que seria de nós sem elas?

À melhor resposta, ofereço um café






A propósito do Dia Internacional da Mulher, cá vai:

«Se não fosse as mulheres, o homem ainda estaria agachado em uma caverna comendo carne crua. Nós só construímos a civilização com fim de impressionar nossas namoradas.»

Orson Wells

«As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de reflectirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.»

Virginia Woolf





Sempre gostei de estar perante objectos artísticos inovadores, quer como espectador quer num outro papel mais interventor. É o caso da obra poética de Filinto Elísio, particularmente o livro que vai lançar no próximo mês, que inova e surpreende, a começar pelo título, “Me_xendo no baú. Vasculhando o Ú”. Tive o privilégio de participar na gravação do CD que acompanhará o livro, juntamente com Nancy Vieira. 

Cada poema representou para mim um tremendo desafio, quer pela complexidade com que estão elaborados como pelo facto de ter a plena consciência de estar a dar voz a um objecto poético inaudito e novo dentro do panorama da poesia em língua portuguesa. Um orgulho.

No próximo mês de Abril acredito que muitos outros poderão se deliciar com os resultados de uma obra poética, cuja edição vai deixar marcas indeléveis. 






A cada dia que passa o Facebook vale mais 255 milhões de euros (fonte: aqui)


E pensar que eu, que a cada clique que dou naquela coisa contribuo para isso, não ganho um tostão. Pode?





As fotografias a preto e branco 
captam melhor a alma das coisas?

À melhor resposta, ofereço um café






Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 






«O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país, é o barômetro que marca sua grandeza ou edificação. Um teatro sensível e bem orientado em todas as suas ramificações, da tragédia ao vaudeville, pode mudar em poucos anos a sensibilidade de um povo; e um teatro destroçado, em que os cascos substituem as asas, pode vulgarizar e adormecer uma nação inteira.»

Frederico Garcia Lorca - poeta e dramaturgo

Na imagem: "A Casa de nha Bernarda" (2009)



Jane Russell
(1921 - 2011)

Uma das morenas mais bombásticas da história do cinema, morreu. Um estrela apagou-se. Os homens preferem as loiras? Quem disse?





Ao que parece, as Nações Unidas perderam a paciência e expulsaram a Líbia do Conselho para os Direitos Humanos. Acho bem. Felizmente, que todos os outros membros que estão nesta lista, são um exemplo de Democracia e respeito pelos Direitos Humanos, e certamente se envergonhariam por estarem sentados lado a lado com o Coronel. Ou estarei a ver mal?






«É preciso observar, viver e guardar na alma.»
Orlando Pantera


Nunca mais me esqueço, faz hoje 10 anos. Estava eu no aeroporto de S. Pedro, na ilha de S. Vicente, me preparando para viajar para a cidade da Praia, onde o grupo de teatro do Centro Cultural Português iria apresentar, no dia seguinte, a peça "O Conde de Abranhos", no auditório da Assembleia Nacional. O telefone tocou e do outro lado da linha estava o actor e meu grande amigo Fonseca Soares: «João, prepara-te que a notícia não é boa: morreu Orlando Pantera.»

Fiquei triste e desolado. Era amigo dele desde os tempos de "Uma História da Dúvida". Pantera compôs, numa tarde de gravações na Rádio Nacional de Cabo Verde, a banda sonora integral da nossa adaptação de "Os Dois Irmãos", de Germano Almeida, numa sessão inesquecível que incluiu a gravação de dois temas originais. Um génio à solta que estava pronto para conquistar o mundo inteiro. Morreu na véspera da sua viagem a Lisboa, onde gravaria o seu primeiro disco. Imperdoável.

Orlando Pantera faz muita falta e não apenas pelo seu incalculável talento. Faz falta pela sua generosidade, pela forma como se dava à arte e à música, pelo significado que dava, no dia-a-dia, à palavra solidariedade e alegria de viver. Era um ser humano único, com um coração do tamanho do universo inteiro. Cabo Verde deve-lhe muito. A nova geração de músicos deve-lhe mais ainda. Sinto tanta falta daquele sorriso sincero e luminoso! A luz do arquipélago nunca mais foi a mesma, desde o dia em que a morte o levou de forma tão prematura no dia 01 de Março de 2001.

Aqui, o tributo de Mito, 10 anos depois.
Aqui, uma sentida biografia, coordenada por Djinho Barbosa