Hoje, ao resolver ouvir a transmissão pela rádio nacional a abertura oficial do ano judicial - assim, tipo como quem vai para uma nova época, apresentando o novo treinador, as aquisições mais sonantes, as perspectivas para o novo ano de competições, nacionais e internacionais, etc. - acabei por concluir que discursos não é comigo. Ao quarto vocelência adormeci profundamente e acordava de quando em quando para tentar perceber quem é que estava a falar, o que era um pouco complicado, pois os cinco ou seis discursos (perdi a conta, passado o segundo) diziam todos mais ou menos as mesmas coisas, o que pode até ser encarado com um bom sinal, pois estando todos de acordo e remando para o mesmo lado, é mais provável que o barco siga para bom porto, a não ser que ande tudo a remar para o lado errado e aí estamos sem qualquer razão para optimismos quanto ao nosso futuro próximo, ideia que pessoalmente eu não comungo até porque o meu lado ingênuo e optimista (há que o considere irrealista) acaba sempre por vencer as batalhas individuais que quase diariamente acontecem dentro da minha cabeça.
Aliás, depois da soltura de um famoso advogado da praça e da enorme massagem no ego que este recebeu por direito da parte dos juízes do Supremo - por exemplo, a mim nunca ninguém me chamou publicamente "bom chefe de família" - podemos até ficar um bocadinho na dúvida, embora seja certo que quando lemos no mesmo acórdão que o senhor vive em condições de "grande debilidade financeira" e com uma "saúde precária" não podemos deixar de reconhecer uma certa simpatia por esta decisão, pelo menos assim o pobre e penhorado senhor pode esperar a decisão final no calor e tranquilidade do lar doce lar, juntamente com a sua família, como qualquer cidadão de bem.
Daqui a alguns minutos, iremos saber, assim como se fosse o primeiro jogo de apresentação da equipa aos sócios para a nova temporada que se avizinha, se realmente podemos esperar algo de bom para os próximos meses, pois está a ser lida neste momento, e ao que parece sob fortes medidas de segurança, a sentença de um dos julgamentos mais mediáticos do ano, com o Ministério Público a pedir penas pesadas para os acusados, em torno de 15 a 20 anos, sendo provável que acione ainda a lei de lavagem de capitais, tendo em conta a riqueza acumulada pelos arguidos e que se supõe - segundo o Ministério Público - seja proveniente do narcotráfico e da associação criminosa.
Vai ser uma pré-temporada interessante para avaliar a forma e a capacidade da justiça cabo-verdiana para a nova época que se avizinha.
Imagem: "Ansiedade" de Edward Munch
Adenda: Acaba de ser lida, na ilha do Sal, a sentença do grupo de cinco cabo-verdianos alegadamente envolvidos numa rede de narcotráfico. O tribunal do Sal decide pela reclusão total dos arguidos. As penas variam entre os 12 e 25 anos, com os arguidos Zé Pote, José Jorge e Lígia Furtado
a perderem todos os seus bens a favor do Estado de Cabo Verde. Zé Pote apanha a pena de 25 anos de reclusão: José Jorge, 24 anos: Lígia Furtado, 23: Tigana, 22 e Naiss, 12 anos. Estes cinco indivíduos estavam a ser acusados de crimes de narcotráfico e lavagem de capitais. Não se sabe agora o que poderá acontecer ao bom chefe de família...
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