
Não poucas vezes me coloquei a estabelecer paralelos entre José Maria Neves e José Sócrates, num ano em que ambos foram várias vezes anfitriões um do outro, cá como lá. Para além de terem ambos o mesmo nome, são mais ou menos da mesma geração, são ambos solteiros (o português é divorciado) e utilizando uma terminologia bem conhecida aqui no arquipélago, ambos são os moranguinhos mais conhecidos e apetecidos dos seus respectivos países, sendo que Sócrates é muitas vezes referenciado nas listas dos líderes mundiais mais elegantes, sendo que José Maria não lhe ficará atrás, sendo apontado como um dos políticos mais fashion do continente africano.
No estilo também não são muito diferentes, para o bem e para o mal. Na capacidade de argumentação, na forma como passam as suas mensagens, para uns arrogante para outros determinada, no entusiasmo pelas novas tecnologias, Magalhães lá, Mundo Novo cá, na paixão pelas energias renováveis, na teimosia com que mantêm certos membros do Governo mesmo sabendo que são um desastre para a sua própria imagem (educação lá, cultura cá, por exemplo), e por aí fora.
Pois bem, isto para dizer que segui com muito interesse os resultados das eleições portuguesas que tiveram o condão de, mantendo Sócrates no poder, tirar a maioria absoluta ao partido que o sustenta, sendo que o dado mais relevante foram as subidas estrondosas dos dois antes pequenos partidos mais à direita e esquerda do espectro partidário luso, o Partido Popular e o Bloco de Esquerda. Sócrates vai continuar a ser Primeiro-Ministro de Portugal nos próximos anos, mas vai ser obrigado a negociar, acordar, dialogar, a ouvir opiniões diferentes e a absorver algumas medidas que possam não ir de encontro ao que ele defenda em todas as situações. Ou seja, vai ter que colocar a arrogância totalitária inevitável numa maioria absoluta dentro da sua gaveta.
Continuando a fazer o paralelo, está mais do que provada a falta que faz a Cabo Verde a existência de uma terceira via política e partidária que se possa afirmar e quebrar esta inevitabilidade crioula de ter governos com maiorias absolutas. Não uma terceira via apenas motivada por necessidades de vendetas pessoais resultantes de cisões de partidos maiores, como foram os casos dos defuntos PRD e PCD, ou de índole regional, como é o caso da UCID ou do partido de Onésimo Silveira, mas algo que nasça das novas gerações, de muita gente boa que há por aí e que não só não se reconhece em nenhum dos dois maiores partidos, como tem qualidade, talento e ambição para poder ser um pouco mais do que apenas mais um excelente quadro técnico de alguma empresa pública ou privada. Uma terceira via que arrisque, ouse e traga um novo discurso político para Cabo Verde e não se limite a escrever crónicas nos jornais ou a manter um blogue.
Parece-me que a mensagem aqui é simples, e esta declaração não é dirigida a ninguém em particular: chegou o momento de passar das palavras aos actos. E para que isso possa acontecer falta o mais importante: um líder, homem ou mulher, com coragem, determinação e carisma suficiente para dar a cara por um projecto que tem tanto de necessário como de (aparentemente) talhado ao fracasso. No entanto, cabe-nos perguntar: porque não?