Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
          nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
          são eternos como é a natureza.

          Pablo Neruda


          Pintura: "The Lovers" de Magritte




Via: aqui




1,7 milhões de euros
é quanto Jean-Pierre Bemba tinha depositados num banco em Cabo Verde


Comentário Cafeano: este indivíduo é líder do Movimento para a Libertação do Congo (MLC) e encontra-se detido pelo Tribunal Penal Internacional, acusado de ter cometido crimes contra a humanidade e cinco crimes de guerra. Podia estar aqui e agora a lamentar, de forma sincera e preocupada, o caminho que pode estar a transformar o nosso arquipélago num paraíso fiscal para criminosos e bandidos desta estirpe. No entanto, e neste caso particular, tenho uma opinião porventura diferente da maioria: fico muito satisfeito que se tenha detectado esta pequena fortuna, ou seja, que ao dinheiro depositado em instituições financeiras cabo-verdianas não se lhe perca o rasto. A lei, recentemente aprovada, sobre o branqueamento de capitais irá certamente ajudar a combater este tipo de ilícito.

(Ver notícia aqui)




A ciência política

Um jovem rei exercia o poder com o mais total rigor. Detinha as rédeas da justiça, ordenava as detenções e velava pela execução rápida e impiedosa das sentenças. A situação, porém, não se resolvia. O rei sentia a sua autoridade cada vez mais enfraquecida.

Um dia mandou chamar o seu primeiro ministro e disse-lhe:

- Mandei executar um grande número de pessoas e no entanto ninguém me tema. Como explicas isso?

- É simples - diz o ministro - Tens que aprender o segredo da autoridade. Todos os que mandaste executar eram criminosos, culpados. Portanto, os outros não têm razão alguma para te temerem. Se queres ser realmente temido tens que mandar executar também inocentes.

O rei concordou com um gesto. Tinha compreendido. Dois dias mais tarde mandou executar o primeiro ministro.

Jean-Claude Carrière in "Tertúlia dos Mentirosos"






Ao cliente que assina RB Anónimo por obrigação e ao Manu Moreno, os dois que quase sempre comentam os artigos do Café utilizando poesia - a sua própria ou a dos outros - dedico esta imagem, dizendo ao primeiro que a proibição de comentários anónimos não se aplica a ele (até porque eu sei quem é e é pessoa que prezo) e ao segundo que me fazem falta os seus finasons frequentes. Não virem as costas a este café! Abraço aos dois.




"A capacidade de certos políticos, com ambições próprias e legítimas, de dar tiros no próprio pé, roça o quase heróico."

A propósito disto.




O número 100 de qualquer coisa é quase sempre comemorado. Os 100 dias de uma Governação servem para um balanço inicial da nova legislatura; os centenários de nascimentos de grandes figuras ligadas à História, Arte ou Ciência são mote para conferências e fóruns de reflexão e sentidas viagens ao passado; aos clubes de futebol exige-se que o ano de centenário seja ano de títulos, homenagens e publicações que reflictam todos os brilhantes feitos conseguidos até à data; quando algum cabo-verdiano consegue atingir essa bela meta dos cem anos, logo tem a TCV à perna para a notícia da praxe, no meio de bisnetos, netos e filhos que nunca mais acabam; se os 25 anos são as bodas de prata, os 50 as bodas de ouro e os 75 as bodas de platina, imagine-se um casamento que chegue aos 100 anos!, não há pedra preciosa que o possa classificar; eu mesmo comemorei aqui no Café Margoso a centésima Declaração Cafeana com um texto chato e pretensioso! Enfim, não vou dar 100 exemplos mas é certo que estes são mais do que muitos.

Ora, o semanário A Nação publica hoje o seu centésimo número, o que não deixa de ser notável numa realidade como a cabo-verdiana onde praticamente ninguém lê coisa nenhuma a não ser, em casos de extrema necessidade, a lista telefónica e oxalá. E como está na moda dizer que os jornais são todos uns vendidos aos respectivos interesses partidários, vou defender este jornal que hoje dá, com o devido respeito e lamentando desde já esta metáfora de pouquíssima classe literária, o seu centésimo bufo. Isto no mesmo sentido a que se dá à frase crioula "jal dá un buf ke tita txerê", ou seja, para classificar alguma acção válida, está bem de se ver! Quero dizer que falo pela positiva. Até porque, confesso, e escrevi-o na crónica que hoje sai com o jornal, no início A Nação não me atraia lá grande coisa, achava a publicação uma grande confusão gráfica, temática e jornalística, que não merecia os cem escudos que pediam por ele.

Hoje, e sem querer dar lições de jornalismo a ninguém, porque como simples e ávido consumidor de jornais falo, não me parecem muito justas as criticas severas que por vezes leio em relação ao trabalho deste semanário. Tem melhorado a olhos vistos, principalmente em relação aos primeiros meses de vida e tem hoje quase sempre matérias interessantes e bem trabalhadas, tendo sido o primeiro, e até agora único, a dedicar uma página semanal à blogosfera cabo-verdiana. Além de que se nota um esforço para melhorar o aspecto gráfico, as manchetes e a arrumação dos temas. E – esta a parte que me interessa particularmente – tem melhorado nas páginas que dedica à cultura. Parabéns, pois, ao jornal A Nação. Que continuem a melhorar, é o meu maior desejo para o bem de todos nós.

P.S. Ao ver a primeira página do centésimo número, não deixei de achar uma certa piada à citação de primeira página do Primeiro-Ministro José Maria Neves que diz, vejam na imagem, "A Nação vai bem". Supus logo que se referia ao jornal, que comemora tão importante momento. Mas não. Afinal, a Nação que vai bem é a outra. Pois, pois.






Que legenda para esta imagem?



À melhor legenda ofereço um café





E se, derrepente, não houvesse mais fronteiras?


À melhor resposta, ofereço um café





O que se passou ontem já não deve espantar ninguém no seu perfeito juizo. Agora, o título desta notícia não deixa de ser uma forma original de retratar esta mais do que absoluta normalidade, embora me pergunte o que raio tem a polpa a ver com as calças...





Eis a razão, segundo António Lobo Antunes, porque as mulheres passarão por esta pandemia viral global na maior descontra, ao contrário dos homens (com agá pequeno), esses hipocondríacos mimados!


Sátira aos homens quando estão com gripe

          Pachos na testa, terço na mão,
          Uma botija, chá de limão,

          Zaragatoas, vinho com mel,
          Três aspirinas, creme na pele
          Grito de medo, chamo a mulher.
          Ai Lurdes que vou morrer.

          Mede-me a febre, olha-me a goela,
          Cala os miúdos, fecha a janela,
          Não quero canja, nem a salada,
          Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

          Se tu sonhasses como me sinto,
          Já vejo a morte nunca te minto,
          Já vejo o inferno, chamas, diabos,
          anjos estranhos, cornos e rabos,
          Vejo demónios nas suas danças
          Tigres sem listras, bodes sem tranças
          Choros de coruja, risos de grilo
          Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
          Não é o pingo de uma torneira,
          Põe-me a Santinha à cabeceira,
          Compõe-me a colcha, Fala ao prior,
          Pousa o Jesus no cobertor.

          Chama o Doutor, passa a chamada,
          Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
          Faz-me tisana e pão de ló,
          Não te levantes que fico só,
          Aqui sózinho a apodrecer,
          Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.





"O neurótico constrói um castelo no ar.
O psicótico mora nele.
O psiquiatra cobra o aluguer."

Jerome Lawrence Schwartz - dramaturgo norte-americano

Via: aqui





Está o país pachorrento, meio adormecido, preparando-se para o tédio absoluto do debate do Estado da Nação - um acontecimento que já sabemos como começa, como se desenrolará e como vai terminar -, neste calor pesado que nos faz suspirar por um banho de mar a toda a hora, e eis que somos surpreendidos por duas notícias espectaculares que não só vão abanar toda a estrutura mole do Verão, do horário único, do faz que não faz, do amanhã logo se vê, deste dolce fare niente, como vão despertar o país desta letargia em que parece cair cada vez que chega o Solstício de Verão.

Primeiro, é o partido socialista português a anunciar, sem muito pompa nem circunstância, que uma das suas bandeiras políticas para as eleições legislativas de Outubro é a proposta de criação efectiva do estatuto de cidadão lusófono. Dito por outras palavras, está a ser proposta a livre circulação de cidadãos provenientes dos e entre os países de língua oficial portuguesa (um acordo que já existe, curiosamente, entre Portugal e Brasil). Dizem as más línguas que isto acontece só agora por causa das filas de portugueses à porta da Embaixada de Angola em Lisboa a concorrer por um visto de entrada na nova meca africana, imagem que é preciso a todo custo evitar, afinal a ordem estabelecida não pode ser quebrada assim do pé para a mão.

Certo é que com esta medida, com a qual concordo em absoluto, milhares de cabo-verdianos poderão evitar a chatice, o transtorno e por vezes a humilhação que implica muitas vezes ter que solicitar um visto para entrar em território luso, processo onde a vida de cada qual é esmiuçada ao mais intimo pormenor em troca de uma autorização controlada a cada passo, e mesmo assim, sem se conseguir evitar que nas fronteiras propriamente ditas, e apesar de devidamente documentados, os cidadãos crioulos sejam quase sempre tratados pelos zelosos funcionários do SEF como potenciais emigrantes ilegais, para não dizer bandidos ou mesmo terroristas.

E por falar em terroristas, agora é que eles vão passar a saber da existência deste pequeno país, a poucas léguas da costa ocidental africana e que não só tem um povo bonito que adora festas e música, como tem um território com altas vantagens geoestratégicas, o que pode vir a ser um grave problema para a segurança nacional. É que a anunciada visita de Hilary Clinton a Cabo Verde não poderia acontecer em pior altura, pois vai apontar todas as baterias mediáticas para a nossa forma vagarosa e pacífica de estar - principalmente no Verão - e ainda se lembram de fazer bases aqui (uns e outros), porque a partir desta altura, já deixamos de fazer parte dos locais onde a probabilidade de acontecer um atentado terrorista estaria muito próxima do zero absoluto. Hilary, no ta kurtib, ma fka na kaza, please!

(Era mais fixe se fosse o Obama!)









Merce Cunningham
coreógrafo
(1919 - 2009)






Até hoje, muito gente se pergunta: quem é Bansky? Uns sugerem que é um artista misterioso, outros defendem ser um colectivo que se dedica à street-art. Depois de pesquisas, buscas, estudos e afins ainda não se conseguiu a identidade dele, mas claramente o resultado é mais importante que o artista que o gerou, pois todo este trabalho deu uma das mais surpreendentes e criativas obras da modernidade, uma mistura de mistério, protesto, grafite e manifesto.

Conhecer o trabalho de Banksy é fazer uma viagem de aversão e desafio ao poder e à sociedade, uma viagem apaixonante ao chamado universo de Banksy, que hoje, mais do que identificar um autor, identifica um modo de expressão, onde a poética e a ironia são marca registrada.

O que é certo também é que, hoje, a criatividade e o traço de Bansky são inconfundíveis, assim como os locais improváveis que escolhe e a sua maneira de desafiar tudo e todos. Desta vez algures no Mali, alguém identificou diversos graffitis que parecem corresponder ao estilo a que já nos habituou. Para quem se habituou a conhecer estes trabalhos na cosmopolita Londres, ver esta arte neste cenário é algo de absolutamente mágico.

Fantástico.












Eis uma excelente forma de combater o desemprego! Tornar as tarefas mais pesadas um pouco mais leves, com uma distribuição equitativa dos esforços laborais.






Um homem só, numa sala fechada com paredes metálicas à prova de som. Uma mesa e uma cadeira. O homem está sentado na cadeira. À sua frente, na mesa, uma folha de papel, uma caneta. Silêncio. O som de uma chave. A única porta existente abre-se. Entra um segundo homem.

- Então, já está?
- Já está o quê?
- O texto que tens que escrever, onde está? Essa folha continua em branco.
- Pois...
- Pois, uma porra! Tens que escrever!
- Mas...
- Nem mas nem meio mas. É um processo muito simples. Pegas nessa caneta e nessa folha e escreves.
- Mas escrevo o quê?
- Ainda não entendeste?
- Não.
- Escreves qualquer coisa.
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa.
- Qualquer coisa, como?
- Porra! Qualquer coisa, homem. Um romance, um poema, uma crónica, um blogue, uma crítica, um desaforo, qualquer coisa.
- Mas...
- Olha, estou a perder a paciência. Não tenho mais nada a sugerir-te a não ser isto: - [coloca uma pistola sobre a mesa] - se daqui a 15 minutos continuares sem produzir nada, dá um tiro nos cornos. Vai ser melhor para ti.
- Um tiro...
- Sim, um tiro. Bem no meio da testa. Não te preocupes com a sujeira. Depois limpamos tudo. Já estamos mais do que habituados, limpar a merda que os outros fazem. [Dirigindo-se para a porta]. Então já sabes...
- Estou sem nenhuma ideia. Vazio. Completamente vazio.
- [Por enquanto que sai] Olha, queres uma sugestão? Escreve sobre o estado da Nação. Está por este dias a ser discutido na Assembleia Nacional. Dará, certamente, uma excelente crónica.

O homem sai e fecha a porta. Ouve-se a chave que roda. Silêncio. Naquela sala fechada, de paredes metálicas à prova de som, apenas uma mesa e uma cadeira. Na mesa, um papel, uma caneta e uma pistola carregada.

- Escrever sobre o estado da Nação...

Pega na pistola e dá um tiro bem no meio da testa. Silêncio.




          Às vezes, pequenos grandes terremotos
          ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

          Fora, não se dão conta os desatentos.

          Entre a aorta e a omoplata rolam
          alquebrados sentimentos.

          Entre as vértebras e as costelas
          há vários esmagamentos.

          Os mais íntimos
          já me viram remexendo escombros.
          Em mim há algo imóvel e soterrado
          em permanente assombro.

          Affonso Romano de Sant'Anna in "Lado Esquerdo do Meu Peito"


Imagem: a actriz Darren Keith












Nova secção do Café Margoso, com a publicação semanal, sempre aos Domingos, de um mural relacionado com algum filme, vídeo, livro, poema, fotógrafo ou o que mais for aparecendo e se enquadrar neste formato. Para iniciar, um dos melhores vídeos dos últimos tempos na música de Cabo Verde, com Dodu de Mário Lúcio Sousa. Um vídeo que além de estar muito bem realizado e no espírito da música que ilustra, é original, criativo, bem-humorado e visualmente, uma delicia. Para ver e rever, aqui.




Hoje, Sábado, vou entregar os certificados aos alunos que conseguiram chegar ao final de mais um Curso de Iniciação Teatral. O décimo terceiro curso deste género promovido aqui no Mindelo, sob a tutela do Centro Cultural Português - Instituto Camões.

Não vale a pena estar sempre a bater na mesma tecla e referir, de novo, o quanto estes cursos, aparentemente informais, alteraram a face do teatro que se faz nesta ilha e, porque não dizê-lo, no país. Bem podem aqueles que não conhecem este árduo trabalho por dentro, minimizar ou assobiar para o lado, como se nada estivesse acontecendo; ou bem podem outros, apesar de terem vivenciado esta experiência, assobiar para um outro lado, como se não tivesse sido esta uma aventura teatral nuclear, básica porque foi a que substanciou o parto teatral. É certo, no entanto, que a grande maioria das centenas de pessoas que já passaram por estes cursos (e muitas continuam fazendo e/ou vendo teatro) não escondem o orgulho que foi, que é, participar neste movimento artístico, na consolidação desta escola de artes cénicas do Mindelo.

Todos os anos, por esta altura, me pergunto: o que vou dizer a estas pessoas? Como vai ser o nosso relacionamento no futuro? Ninguém saberá dizer, o futuro a Deus pertence, afirma a sabedoria popular. Costumo falar de improviso nestas ocasiões, mas esta é uma reflexão recorrente. O que dizer quando se vê cortado o cordão umbilical?

Fundamentalmente, vou dar dois conselhos: em primeiro lugar, que não tenham pressa. O teatro é a arte da tranquilidade, do tempo aproveitado e vivido, da valorização do instante. Que não tenham pressa na montagem das suas peças, que as preparem bem. Que trabalhem muito. Que não tenham pressa, porque esta é a maior inimiga do aperfeiçoamento individual e colectivo. Que não tenham pressa em querer ser melhores que os outros, nem pressa em criticar tudo o que não esteja ao seu gosto pessoal. Em segundo lugar, que sejam generosos. Com os outros e consigo mesmos. Não se faz teatro sem partilha, sem colectivo, sem paixão. Que entrem numa sala de ensaio prontos para dar e receber, assim como numa plateia, quando confrontados com o trabalho do outro, quem sabe algum colega de curso, agora numa outra companhia. Que sejam generosos na crítica e no elogio, no silêncio e no aplauso, na verdade e no crescimento. Finalmente, e juntando os dois conselhos, que sejam generosos com o tempo, o seu e o dos outros. Vivendo bem, trabalhando melhor e construindo, com todos, o edifício teatral que acabou de os receber.


Imagem: da companhia Antro Exposto, do meu amigo Ruy Filho, de S. Paulo



Andaram a perseguir-me durante todo o ano.

Um belo conjunto de imagens criadas pelo designer gráfico Derya Öztürk, a partir da figura do coração humano.









Podem ver este e outros trabalhos, na galeria do artista, aqui.







"O adultério é o mercado negro do orgasmo."
Millor Fernandes - Humorista brasileiro






Fotografia do nosso amigo Paolo, de uma das cenas da peça "O Jardim do Dr. Gordner Brickers", apresentada em 9 sessões consecutivas, na cidade do Mindelo, no passado mês de Junho.



Imagem: "time is dead" de MainLi


Este artigo nasce de um comentário desaforado do Paulino Dias a propósito da pontualidade. Como não tenho nada a acrescentar, deixo aqui para a vossa consideração. Proposta para uma Campanha pró-pontualidade?

Tipo: "Eu sou pontual. E tu?"

Sugestões de regras a serem rigosamente seguidas pelos aderentes:

1. Abandonar sempre o local do show cinco minutos depois da hora em que deveria começar e processar os organizadores para recuperar o dinheiro do bilhete (em tempos abandonei ostensivamente o show do Princesito na Assembleia Nacional depois de uma hora de atraso);

2. Cancelar propositadamente aquela reunião em que a pessoa chega 10 minutos atrasados e nem se digna telefonar para avisar e remarcar para dia seguinte às 08h00 em ponto. Se atrasar de novo, remarca outra vez, e assim por diante, até ele perceber;

3. Sair em peso dos actos públicos depois de dez minutos de atraso, dando sempre aquela arrastadinha na cadeira e olhando ostensivamente para o relógio, para todos perceberem que estás abandonando o lugar devido ao atraso;

4. Trancar a porta das salas de aula/seminários/fóruns e quejandos, cinco minutos depois da data indicada para começar, e não abrir nem para Papa quanto mais para o JMN;

5. Desclassificar automaticamente o candidato a emprego que chega atrasado no dia de prova/entrevista e informá-lo porquê;

6. Facturar as empresas de transporte e outras, pelo tempo de atraso (basta calcular o teu salário/rendimento por minuto e multiplicar pelo tempo de atraso) - processar também para cobrar a factura....

Mais sugestões?

"O que nos falta, João, é vergonha na cara, falta de assumpção do tempo como um recurso escasso e... colhões para penalizar os que não são pontuais! O nosso maior desafio como PDM, acredita, é mudarmos a nossa atitude em relação ao tempo..."

Nota: quando leio este e outros comentários do Paulino, só me apetece apelar para que se deixe de tretas e invente um novo blogue rapidamente para nos fazer companhia de forma mais assídua. Faz falta.



Já repararam que isto por aqui anda mais calmo? Pois é, Abraão Vicente não está em Cabo Verde! Para ser mais exacto, está em Lisboa, onde amanhã inaugura a sua exposição intitulada No Limiar, e que tem sido destaque na imprensa da especialidade.

Por exemplo, a agenda Arte Capital, que recomenda três exposições periodicamente, escolheu a mostra de Abraão Vicente como principal destaque no seu último número. Expondo no Espaço Fábulas, situada na Calçada Nova de São Francisco, a exposição faz parte do projecto Tráfico e leva até Portugal uma abordagem sobre questões
que envolvem identidade, fronteiras, viagens e território.
Usando técnica mista, Abraão Vicente faz referência a esses
conceitos lembrando-nos de um momento em que um viajante altera a sua
condição tornando-se um simples número num papel.

A mostra ficará patente até ao final de Agosto. Parabéns, pois.




A ópera Tristão e Isolda, de Wagner, é o maior monumento erótico musical de todos os tempos: no seu famoso dueto de amor, "especialistas" já contaram pelo menos 11 orgasmos.




O meu mundo por um sorriso


1. Há pequenos acontecimentos que ocorrem nas vidas de cada um que, não significando quase nada, podendo mesmo ser considerados factos residuais sem importância no dia-a-dia das pessoas ou sem qualquer influência no futuro a curto e médio prazo, podem ter, no entanto, sentidos que nos façam perceber alguns sinais do que se está a passar à nossa volta.

2. Vou dar um exemplo vivenciado há alguns dias. Estava eu no novo e agradável aeroporto de S. Vicente, pronto para viajar, e desloquei-me ao bar do mesmo, o único por sinal, num raio de vários quilómetros. A jovem que servia estava de costas nos seus múltiplos afazeres. Chamei a atenção que estava ali e queria ser atendido. Nada. Voltei a chamar. Voltou-se ligeiramente, mas não percebi se aquela subtil deslocação corporal seria um sinal de entendimento. Fiz o meu pedido. Um café e uma sandes de queijo, por favor.

3. A mesma jovem repetiu o pedido para uma outra funcionária. Tudo isto sem sequer se dignar a olhar para mim, o suposto cliente. Não me calei. “Olhe lá”, disse, “pelo menos digne-se a olhar para a minha cara, quanto mais não seja para eu entender se ouviu o meu pedido e se este já está encaminhado” (tradução crioulo – português da minha responsabilidade). A jovem grunhiu um qualquer som imperceptível, que suponho tenha sido uma confirmação que sim, que tinha entendido perfeitamente o meu pedido e que escusava de estar ali a pôr-me em bicos de pés, a querer ser mais importante do que realmente era.

4. Fui atendido sem uma palavra, sem um sorriso. Nada. A mesa onde me sentei tinha ainda alguns restos mortais de consumos anteriores, que foram retirados, mas quanto a passar um pano e limpar a mesa, qual quê. Isso já é pedir demais. Por sua vez, a gerente do bar do aeroporto, que é uma simpatia de senhora, e que me conhece desde há muito, essa sim, foi de uma amabilidade natural. Pelo menos na hora de pagar, o ambiente estava menos pesado!

5. A verdade é que em todos os locais naquele aeroporto, desde o chek-in, passando pelos seguranças, apenas a funcionária que estava no guichet dos TACV sorria com quantos dentes tinha na boca e mostrava uma boa disposição, que até pareceu estranha naquela circunstância. “Eles acham que eu sou maluca, por andar sempre assim a rir com toda a gente, mas nem quero saber. Adoro trabalhar aqui e não tenho que escondê-lo”, confessou a alegre funcionária que antes de voltar ao posto tinha estado a divertir os taxistas com as suas histórias e anedotas. De resto, o sisudíssimo ambiente era a regra geral.

6. Isto num aeroporto, onde muito provavelmente mais de metade das pessoas que ali estão, se encontram em estado de pavor quase absoluto, pelo medo generalizado de voar, muito comum no comum dos mortais. Ainda para mais com as recentes e medonhas notícias de quedas de aviões, que originaram tsunamis mediáticos, como o terrível acidente acontecido com o Boeing da Air France em pleno Oceano Atlântico.

7. Este seria, pois, o local ideal para todos os trabalhadores sorrirem, contribuindo para um ambiente mais tranquilo, calmo, sereno. Sem colocar em causa a competência deste ou daquele serviço, seria tão diferente se, por exemplo, chegássemos ao segurança que controla os passaportes e os bilhetes na entrada do chek-in e ouvíssemos um “bom dia, como estão? Posso ver a sua identificação, por favor?”; e este terminasse com um “muito obrigado e tenham uma boa viagem”, tudo acompanhado de um desinteressado sorriso.

8. O que se está a passar em Cabo Verde? Este exemplo é apenas uma pequena amostra. Nos últimos dias andei particularmente atento a este aspecto: em praticamente todos os serviços, no Estado ou em empresas privadas, nas Câmaras Municipais ou nos Hospitais, nos autocarros ou nos táxis, nos cafés ou nos supermercados, ninguém anda a sorrir. Muitos prestam o serviço como se estivessem a fazer um favor e outros nem se dignam a olhar para a cara dos clientes.

9. O primeiro mandamento, aquele mais básico do bê-a-bá do Marketing diz-nos que hoje, cada vez mais, se uma empresa quer singrar no mercado, tem que ter como principal objectivo e foco a satisfação dos clientes. Isto é básico. Clientes satisfeitos não só se mantêm enquanto tal, como trazem por arrasto outros clientes, aumentando a carteira da empresa e os seus mais que prováveis lucros anuais. Um cliente insatisfeito, pelo contrário, provavelmente nunca mais voltará a utilizar os serviços dessa empresa. Pelo menos, é o que está escrito nos manuais.

10. Isto teoricamente, claro. Em Cabo Verde fica difícil, porque quando os TACV nos pregam as partidas habituais, de anular voos ou fazer os clientes “desaparecer do sistema”, apesar de terem comprovativos de que compraram a sua passagem, restam poucas ou nenhumas alternativas. Se alguém está insatisfeita com a Electra, faz o quê? Se sou mal serviço no bar do aeroporto de S. Vicente vou tomar café à aldeia de S. Pedro? Felizmente, a concorrência nalguns serviços tem permitido que alguns destes melhorem, mas estamos longe, muito longe, de ter um ambiente e uma qualidade de atendimento sequer perto do razoável.

11. A crise de sorrisos é, pois, generalizada. Nos restaurantes, para além da demora faraónica e da enorme paciência que implica a espera entre o momento em que nos sentamos, aquele em que somos atendidos e começamos efectivamente a fazer o que nos levou àquele lugar – comer – vai uma distância directamente proporcional aos preços praticados nas ementas. Na generalidade dos hotéis e residenciais os serviços de atendimento são maus. E podemos ir para qualquer actividade económica geradora de rendimento que a realidade é a mesma.

12. É paradoxal, num pais que aposta no turismo como motor de desenvolvimento, que não se façam largas campanhas de bem atender. Façam-se acordos com marcas de pastas dentífricas e consultórios de dentistas e promova-se o sorriso do cabo-verdiano como marca a preservar e promover. Não tenhamos medo de ser simpáticos, mesmo que não gostemos do nosso trabalho. Lembremo-nos de que os clientes não tem culpa que a grande maioria prefira um emprego em que nada faz a um trabalho que dê (algum) trabalho.

13. Há uma crise de sorrisos em Cabo Verde que urge resolver. Não há motivos para sorrir? Não há razão para não haver motivos, isso sim. Porque o não sorrir é apenas e só um dos sintomas mais visíveis do estado lastimável em que se encontra a qualidade da prestação de serviços, sejam eles públicos ou privados. Para os que cá estão e para os que nos visitam, é urgente sorrir mais. Ou como diria o poeta Daniel Filipe, re-inventemos a nossa capacidade de sorrir, com carácter de urgência.

Mindelo, 23 de Julho de 2009






A falta de pontualidade do crioulo tem alguma razão antropológica mais profunda ou é apenas uma questão de (falta) de respeito pelo próximo?


À melhor resposta, ofereço um café





          O rigor do verão quase
          extinguiu os pequenos
          oásis do coração:
          nenhum
          de nós conseguiu dobrar
          o lume, acariciar
          o tigre, desviar a sombra
          dos lábios - arder era afinal a nossa vocação.

          Eugénio de Andrade in "rente ao dizer"






Há dois produtos que são claramente muito mais baratos nesse fantástico país chamado Brasil: a comida e os CD's. E não são apenas mais baratos. São fantásticos. A comida é fenomenal, na qualidade e variedade de sabores e cozinhados; a música popular brasileira, vulgo MPB, é por muitos considerada a melhor música do planeta. Portanto, o mais certo, depois de uma pequena temporada por terras de Vera Cruz, é o regresso ser feito, indubitavelmente, com uns quilos a mais, no corpo e na bagagem. 

Desta vez não foi diferente e dentro deste último lote destaca-se, pelo menos para já, o último trabalho de Marisa Monte "Universo ao meu redor" (2006), com um conjunto de 14 belíssimas canções que nos apaixonam à primeira audição. Todas as faixas são belas mas há composições que se destacam, como "O Bonde do Bom", "Vai Saber?", "A Alma e a Matéria" ou "Satisfeito". 

"Os anjos que me carregam / Os automóveis que me cercam / Os santos que me projetam / Nas asas do bem desse mundo / Carregam um quintal lá no fundo / A água do mar me bebe / A sede de ti prossegue." (O Bonde do Bom) 

Para ouvir, sem parar.






Galeria de imagens do universo fantástico e surrealista da fotografa Christine von Diepenbroek (sugestão do Jumento). Devo confessar que a grande dificuldade esteve mesmo na escolha das imagens para o Café Margoso. Seja como for, podem ver a galeria completa, aqui.

Vale a pena.




















O crítico Fausto Cunha considera-o "um dos poucos escritores universais que possuímos", referindo-se ao brasileiro Millôr Fernandes, cartunista, jornalista, cronista, dramaturgo, roteirista, intelectual, tradutor e poeta brasileiro, enfim, um autêntico homem dos sete instrumentos da intelectualidade brasileira. Faz argumentos para o cinema e programas de televisão, shows e musicais e é um dos mais solicitados tradutores de teatro do país. Irónico, polémico, com os seus textos (aforismos, epigramas, ironia, duplos sentidos e trocadilhos) e os seus desenhos constrói a crónica dos costumes brasileiros dos últimos sessenta anos.

E a que propósito vem tudo isto? Vem a propósito de, graças ao blogueiro Miguel Barbosa, do Ziquira, ter descoberto que este homem, hoje com quase 90 anos, estar a bombar no Twitter com o seu humor inteligente, à medida dos 140 caracteres da praxe.

Aqui ficam algumas das frases "twitadas" nos últimos dias:
  • Todo político sábio fala duas vezes antes de pensar.
  • Quando duas pessoas odeiam a mesma pessoa, têm a impressão de que se estimam.
  • Idiota mesmo é o sujeito que, ouvindo uma história de duplo sentido, não entende nenhum dos dois.
  • Monogamia é a capacidade de ser infiel à mesma pessoa durante a vida inteira.
  • Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade muitas vezes o idiota é oportunidade que os outros aproveitam.
  • O quartzo é um mineral que fica entre o tertzo e o quintzo. (nota: adorei esta!)
  • Comida é bom, bebida é ótimo, música é admirável, literatura é sublime, mas só o sexo provoca erecção.
  • Meu ideal político é um governo que não se meta em minha vida.
  • O maior erro de Noé foi não ter matado as duas baratas que entraram na arca.
  • Grande erro da natureza é a incompetência não doer.
  • Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.
  • Só as mulheres que variam muito de homens podem dizer que os homens são todos iguais.
  • Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome.

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Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda ofereço um café





Há um tipo de arte gráfica em movimento, chamada Typography, que aprecio especialmente.  O conceito é simples: vê-se o que se ouve. Ouvem-se as palavras, vêm-se as palavras aparecendo no ecrã, uma espécie de karaoke artístico. Alguns dos mais populares destes vídeos são feitos utilizando famosos diálogos ou monólogos de conhecidos filmes, como "Clube de Combate", "Pulp Fiction" ou "V de Vendetta".

Os exemplos são muitos, mas o meu preferido - porque será? - é o que retrata um dos mais espantosos monólogos da história do cinema, aquele que Al Pacino desenvolve numa das últimas cenas do filme "Advogado do Diabo", em que ele comprova, com argumentos difíceis de refutar, todo o cinismo do Criador.

Vejam - e ouçam - que vale a pena:


    




Psamético, um dos últimos faraós do Egipto (século VII a. C.) desejoso de saber qual seria a língua original dos homens, mandou que dois gémeos recém-nascidos fossem isolados de qualquer comunicação verbal até à idade de 2 anos, e a dada altura privados de alimentação, para se saber que língua usariam: contam os relatos que as crianças pediram pão em cíntio (uma língua falada na zona do que hoje é a Ucrânia) e o faraó decretou que o cíntio seria então a língua original da humanidade; 19 séculos mais tarde, o rei germânico Frederico II (1194-1250) resolveu repetir a experiência, mas desta vez os gémeos morreram.

A que propósito vem isto? De nada. Mas ao ouvir mais uma discussão oca e sem sentido sobre os crioulos, a valorização da língua portuguesa, a oficialização, o ALUPEC ou de que "um crioulo acabará, inevitavelmente, por prevalecer", lembrei-me desta história. Ainda não percebi porquê, mas pode ser que por aí haja quem saiba. Doutores em linguistica e em psicologia é o que não falta neste país. 

 


Dois dias antes do tempo, eis o Café Margoso em toda a sua pujança. Como adoro as segundas-feiras, nada como o início de uma semana para marcar o regresso ao convívio com a clientela, que espero não tenha sido espantada com este período sabático, que me fez muitíssimo bem, diga-se de passagem. Com uma decoração mais leve e mais cafeana, acredito que a sua apreciação pelos clientes será apenas uma questão de hábito, como muitas outras coisas da vida.

De resto, estes dias serviram para constatar a quantidade incrível de factos e acontecimentos que podem acontecer em menos de um mês. De pequenos episódios locais sem importância a terramotos mediáticos provocados por ocorrências extraordinárias, houve de tudo um pouco, e se é verdade que tudo ficou aparentemente na mesma, fiquei muito mais consciente de que o mundo avança à velocidade da luz e que este universo que me rodeia já não é o mesmo que existia um mês atrás. O hábito de escrever sobre o que nos rodeia, uma vez interrompido, acaba por nos mostrar como tudo é tão intenso e, ao mesmo tempo, efémero e relativo.

Não me posso lembrar de tudo, mas o mundo mudou nestes 25 dias. Michael Jackson morreu de forma inesperada; um terrível acidente aéreo em pleno Atlântico aumentou ainda mais a fobia de parte considerável da população mundial em andar de avião, como se não nos bastasse uma estranha pandemia mundial ligada primeiro aos porcos e depois a um nome parecido com um vírus informático, que veio para ficar e alterar hábitos à escala planetária; a Cidade Velha foi proclamada Património da Humanidade, dando uma retumbante e tardia vitória  à equipa do Ministério da Cultura; a dança mundial fica mais pobre com o desaparecimento físico da maior coreógrafa do século XX, Pina Baush; o Bianda entretém-se a cozinhar-me em lume brando e a peça de teatro No Inferno é apresentada com muitos aplausos, elogios e grande surpresa na cidade do Rio de Janeiro; a Revisão Constitucional parece ter caído em saco roto porque os deputados da Nação não se entendem o que faz da oficialização do crioulo a primeira vítima desta incapacidade irresponsável; anunciam-se mortes de poetas vivos e fundem-se clubes de poetas mortos; a selecção de futebol de Cabo Verde brilha nos jogos da Lusofonia, na mesma altura em que um Ronaldo, o gordo, farta-se de marcar golos no Brasil e um outro Ronaldo, o narcísico, é apresentado perante 80 mil pessoas.

De tudo isto, o mais importante mesmo, do ponto de vista estritamente pessoal, foi ter descoberto a poesia de Manoel de Barros, um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos e me terem oferecido o maravilhoso e inesquecível CD de Marisa Monte que, coincidência!, se intitula "Universo ao meu redor". É bom estar de volta.