Então cá vai:
«Confesso que
vivo indignado e é esse sentimento que mantêm o pouco de dignidade e de cidadania que me resta. Os políticos fazem o seu jogo, elaboram seus (dis)cursos, seus trocadilhos e cumprem a sua função perante
uma nação passiva, diria até anémica, que tudo aceita e se conforma e usa como espaço de manifestação os “botecos” entre uma cerveja e outra e depois votam acreditando que estão “cumprindo um dever cívico”, mal sabendo que esse gesto muitas vezes é vazio e não difere do que eu faço diariamente no baldinho de pedal cor de rosa ao lado do meu vazo sanitário.»
«O certo é que o faz de conta e a indiferença de uns e outros não previne nem resolve os problemas e nem os discursos consoladores, com laivos de hipocrisia, irão debelar os males que vamos edificando com o tempo ou estancar o sangue e as lágrimas que inevitavelmente serão derramados.»
(...)
«Naturalmente que há cabo-verdianos educados, simpáticos e amigos. Também há gente boa em todos os cantos do mundo. Há nações mais afáveis e outras mais “carancudas”. Há sociedades mais evoluídas, mais “civilizadas” do que outras. Entendo que tal como os brasileiros quiseram num determinado momento usar o rabo das suas mulheres para atrair os turistas, nós também queiramos vender a nossa “morabeza”.»
(...)
«Com essa verborreia toda quero dizer simplesmente que penso que em Cabo Verde temos um elevado índice de violência, principalmente da violência mascarada, e que nos escudamos atrás de subterfúgios e mitos como a “morabeza”, o “país mais pacifico, mais evoluído, mais democrático, mais desenvolvido, mais europeu, mais tesudo” da África, enquanto vamos criando problemas sociais graves, consolidando padrões de comportamento violentos e nos adaptando a um conjunto de modos de ser e de estar intoleráveis para seres civilizados.
A cidade da Praia particularmente é um barril de pólvora. Podem por paninhos quentes que factos são factos. Podem se escudar atrás do suposto bairrismo que não resolve. Eu não gosto de pessoas mal-educadas, estúpidas, violentas sejam elas suecas ou fulas. Me sinto violentado diariamente na minha condição de pessoa, de suposto cidadão, de utilizador da via pública, dos serviços públicos, das praias de mar, enfim, de quase tudo.
Os padrões e modelos que oferecemos as nossas crianças e aos nossos jovens não servem, são putrefactos, não formam ninguém. As ideias de felicidade que transmitimos, baseadas no materialismo, são falaciosas.
Sartre dizia na sua última entrevista antes da morte que a matéria-prima exclusiva da qual a pessoa se constrói como homem é a ética. Nascemos pessoas mas não nascemos Homens nem Mulheres. Nos fazemos Homens ou Mulheres a partir da ética. Aqui o que nos falta é isso: Homens e Mulheres que uma vez assim constituídos e a partir das suas actividades (Artistas, Desportistas, Escritores, Intelectuais, Pescadores, Poetas, Pedreiro, Políticos, Médicos, Economistas, Professores, etc.) sirvam de modelos de identificação para auxiliar a consolidação da personalidade dos nossos jovens. O “Homem-Público” forjado na batota do favoritismo, da trapaça, desfilando seus elefantes brancos não serve como modelo.
(...)
Porém, o filhodaputismo diário, inclusive praticado por pessoas que pela sua formação, status social, cargos se nutre expectativas mais optimistas me indigna profundamente e no dia que ficar indiferente estarei próximo da vegetação e será então hora de mudanças (de rua, de cidade, de país, de nacionalidade…)»
É caso para se dizer, porra!